Masturbação

MASTURBAÇÃO

Este artigo foi publicado em SexoS – A Trama da Vida – Volume 4 – As Fronteiras da Transgressão – série especial da revista Mente&Cérebro, Editora Duetto, dezembro 2008

Sérgio Telles

Qualquer abordagem sobre a masturbação, ou sobre a sexualidade em geral, encontra um inarredável divisor de águas - a teoria freudiana. Há um antes de Freud e um depois de Freud.
Neste artigo, o antes de Freud consiste em um percurso histórico baseado no rico livro de Thomas Lacqueur, Solitary Sex: A Cultural History of Masturbation . Apoiado em extensa pesquisa, o livro de Lacqueur traz novas informações e estabelece interessantes hipóteses sobre aquilo que Foucault chamou de “a guerra contra o onanismo, que durou quase dois séculos no Ocidente” . Tal guerra é um bom exemplo da loucura humana travestida de conhecimento científico, no caso, o saber médico.
Em seguida veremos como Freud transforma o que até então era visto como uma terrível aberração geradora da corrupção dos corpos e da sociedade, como uma manifestação inevitável da sexualidade infantil, derivando toda sua importância do contexto incestuoso edipiano na qual se inscreve.
No depois de Freud comentaremos algumas situações mais recentes.
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Diz Laqueur que na Grécia Antiga e em Roma, a masturbação podia ser objeto de ridicularias e brincadeiras, como se vê em Aristófanes, mas nunca lhe foi dada qualquer significação especial.
No judaísmo mais antigo, não há menção a ela, a não ser indiretamente nos comentários à história de Onan. Por desperdiçar sua semente, Onan despertou o ódio do Criador, que o fulminou com um raio. Embora “onanismo” tenha se transformado em sinônimo de masturbação, estudiosos do Talmud acreditam que o pecado de Onan não foi a masturbação e sim o coitus interruptus, a recusa em procriar.
Ao contrário dos rabinos, os teólogos medievais do cristianismo, viam a masturbação como um pecado em si, embora não lhes concedessem grande importância. Dentro da vida confinada nos mosteiros, a preocupação maior era a sodomia e não a masturbação. Na vida fora dos claustros, a atenção dos padres se voltava para o incesto, a bestialidade, a fornicação e o adultério.
Como se poderia esperar do cristianismo, que não priorizava o principio rabínico de procriar e, pelo contrário, celebrava a vida celibatária e a castidade monástica, a argumentação de Santo Agostinho sobre Onan se desloca da obrigação de gerar filhos para um tema mais vasto, o dos deveres morais de ajudar os necessitados. Não é que os teólogos cristãos permitissem a masturbação, apenas não a censuravam com grande severidade, pois era a própria sexualidade que devia ser combatida e não a sexualidade não reprodutiva.
Em nada se altera a concepção da masturbação com o advento da Reforma. A idéia que dela os protestantes tinham os aproximava mais dos rabinos que dos padres católicos. Seu caráter pecaminoso residia na recusa à procriação, no desperdício do sêmen. Os protestantes censuravam os católicos por darem primazia ao celibato e à abstinência sexual, desvalorizando o casamento. A seu ver, ao criarem mosteiros e conventos, os católicos terminavam por incentivar a masturbação.
Na Renascença, abandona-se a preocupação com a procriação, defendida por rabinos e protestantes, e retoma-se sua ligação com a concupiscência, tal como viam os padres católicos.
Sem que a masturbação tivesse adquirido o estatuto de um pecado maior ou o crime de desperdício de sêmen recebido renovado agravamento, uma mudança radical aconteceu meio século depois. A medicina se apropriou da masturbação e dela fez uma doença gravíssima, capaz de colocar em risco não só o individuo, mas toda a sociedade.
Diz Lacqueur: “A masturbação moderna pode ser datada com uma precisão rara na historia da cultura. Deve ter sido por volta de 1712, com a publicação de um pequeno livro que tinha um longo titulo – Onania ou O Terrível Pecado da Auto-Polução, e todas suas Assustadoras Conseqüências, consideradas em ambos os SEXOS, com Aconselhamento Espiritual e Físico para aqueles que já incidiram nessa prática abominável, e oportuno Conselho para a Juventude da nação de ambos os SEXOS”.
Laqueur identifica o autor deste livreto anônimo como John Marten, um charlatão que publicara anteriormente outros trabalhos nos quais a pornografia mal se escondia atrás de assuntos supostamente médicos. Em Onania, após as descrições das doenças terríveis decorrentes da masturbação, Marten anunciava sua cura – os remédios que vendia junto com o livreto.
O livro teve um estrondoso sucesso de vendas na Inglaterra e logo foi publicado em outras capitais européias. Uma edição americana apareceu em 1724 e em 1752 já estava na 17ª edição, algo espantoso para a época.
Em 1760, Samuel Auguste David Tissot, um dos médicos mais prestigiados da França, depois de desqualificar o livro de Marten, apropria-se de seu título e de sua idéia central, dá-lhe uma nova versão ao revesti-la com a linguagem médica protocolar e a publica como L´Onanisme ou Dissertation physique sur les maladies produit par la masturbation. Seu livro provoca enorme repercussão por toda a Europa e não demorou muito para que médicos de toda parte passassem a atribuir uma lista inesgotável de doenças ao sexo solitário.
Mas como explicar que uma contrafação tão grosseira tenha conseguido tamanho acolhimento? Em parte, diz Laqueur, a resposta se deve a um esperto truque de vendas criado por Marten: esgotada a primeira edição, as seguintes – e houve muitas – traziam cartas picantes de leitores que confessavam seus hábitos masturbatórios e testemunhavam a cura com os remédios tomados. Desta forma, os leitores compravam um material pornográfico escondido sob o sisudo manto da medicina.
Mas esta explicação é insuficiente para justificar como o “onanismo” passou a interessar aos enciclopedistas e a um médico como Tissot, tornando-se um tema incontornável na cultura.
Lacqueur pensa ter sido, paradoxalmente, o Iluminismo - com sua luta contra a superstição, seu culto à Razão, sua tolerante aceitação da sexualidade humana - o responsável pela extraordinária mudança na concepção da masturbação, transformando-a de uma prática comum e anódina, num monstro temido, a terrível fonte de muitas doenças físicas e corrupção moral.
O Iluminismo provocou um declínio da autoridade eclesiástica e promoveu a ascensão secular da autoridade médica. Com isso retirou a masturbação do âmbito do moralismo religioso e a fez ingressar no campo da medicina. Certamente se pensava – equivocadamente - que dessa forma “científica” ela estaria a salvo dos desvios próprios da ignorância e do dogmatismo.
Laqueur aponta três aspectos da masturbação que levantavam suspeitas e oposição por parte dos valores defendidos pelo Iluminismo. Em primeiro lugar, era uma prática solitária, enquanto todas as outras formas de sexualidade são tranquilizadoramente sociais. Em segundo, o encontro sexual masturbatório não se dava com uma pessoa de carne e osso, decorria de uma fantasia, o que, diziam os médicos, provocava um “falso prazer”. E, em terceiro lugar, o que era mais grave - ao contrário de outros apetites, o desejo masturbatório nunca se saciava plenamente, o que poderia levar a excessos intoleráveis.
As conquistas do Iluminismo trouxeram um aumento dramático da autonomia do sujeito, liberando-o de antigas peias políticas e religiosas. A nova ordem política e social então possibilitada desencadeou grandes ansiedades, que foram projetadas na masturbação, fazendo com que ela passasse a ser condenada com máximo rigor, diz Laqueur. Vista como indutora de um prazer não socializado, não produtivo (reprodutivo), alimentado pelos incontroláveis vagares de uma mente dispersiva, a masturbação se transformou numa ameaça ao próprio sujeito e à sociedade, na medida em que poderia perverter todas as novas conquistas tão duramente conseguidas pelo Iluminismo, referentes à independência social, psicológica e moral.

Por este motivo, como Laqueur mostra com grande detalhe e numa argumentação que o aproxima de Foucault, o projeto liberador do Iluminismo contraditoriamente se transforma num programa de vigilância e tentativa de controle daquilo que até então tinha sido o mais secreto, privado e aparentemente inofensivo dos atos sexuais – a masturbação. Para tanto, passou a policiar a imaginação, o desejo e as expressões da individualidade que ele mesmo acabava de promover.
Laqueur mostra como os riscos do sexo solitário se misturam com duas das mais importantes inovações da modernidade: a implantação dos mercados financeiro e editorial. Onania foi publicado no momento da primeira crise financeira no mercado de ações e da fundação do Banco da Inglaterra. “A masturbação passa a ser vista como o vício de uma sociedade civil não religiosa, na qual a cultura de mercado faz com que as tradicionais barreiras contra a luxúria cedam espaço para justificativas filosóficas que defendem o excesso. Filósofos e economistas como Adam Smith, David Hume e Bernard Mandeville apontavam para as maravilhosas condições auto-reguladoras do mercado, no qual atos individuais de auto-indulgência e ambição se transformavam em bens comuns. A masturbação poderia parecer uma representação lógica do mercado: afinal, o impulso potencialmente ilimitado para gratificar o desejo é o motor que alimenta todo o imenso empreendimento econômico” – diz Greenblat . Mas, ao contrário do mercado e suas forças auto-reguladoras, nada poderia regular a masturbação e seu prazer insaciável. Daí o medo que ela inspirava e as rigorosas medidas implantadas para controlá-la.
Se a primeira inovação moderna contemporânea ao terror à masturbação foi a implantação do mercado financeiro, a segunda foi a leitura solitária. Na ocasião, o hábito da leitura se expandia em função da enxurrada de livros produzidos pelo incipiente mercado editorial e pela criação de novos espaços domésticos nos quais as pessoas podiam gozar de alguma privacidade e ficarem sozinhas. Desta forma, a masturbação ficou associada à leitura privada e solitária e esta passou a ser vista como a indutora da primeira. A grande forma literária inventada para se adequar a estes espaços que possibilitavam a prática da leitura solitária foi o romance. Como Rousseau ironicamente disse, certos romances eram escritos especificamente para ser lidos com uma única mão… Mas não era só a pornografia o que aproximava a masturbação do romance. Temia-se qualquer leitura num ambiente reservado e silencioso, pois ela poderia despertar a imaginação e esta rapidamente levaria aos descontroles do vício solitário.
E este era um vício democrático. Seu poder destrutivo estava ao alcance de servos e senhores, e o que era pior, estava disponível também às mulheres. Elas, com sua emotividade à flor da pele, sua rica imaginação, sua irracionalidade, estavam – é claro – muito mais expostas aos perigos das excitações sexuais provocadas pelos romances.
No começo do Século XX, começam a se dissipar os terríveis nevoeiros que ligavam a masturbação à morte e à loucura e que tinham gerado uma cultura de vigilância e controle. A descoberta da real etiologia de uma série de doenças atribuídas à masturbação - como as doenças venéreas, a epilepsia, a tuberculose - foram decisivas para tanto. Apesar de ainda serem perceptíveis nos dias de hoje elementos daquela antiga forma de ver a masturbação, acabou o terror imposto a todos e por tantos anos pela medicina. Laqueur atribui essa mudança em grande parte ao trabalho de Freud e de uma subseqüente sexologia liberal.

Freud aborda a questão da masturbação em vários textos. Logo abandona a visão convencional de sua época e insere a masturbação dentro de sua revolucionária construção teórica, na qual a sexualidade tem papel central.
No caso do “Homem dos Ratos” (1909), em longo comentário, Freud estabelece o que me parece ser o essencial de sua visão sobre a masturbação. Ali ele parte de uma observação clínica: os pacientes habitualmente atribuem à masturbação ocorrida na adolescência a causa de seus padecimentos, coisa que os médicos, em geral, rejeitam, por saberem que todos – normais e neuróticos – passam por uma fase de masturbação neste período. Freud considera que os pacientes estão parcialmente corretos e necessitam ser interpretados, pois a masturbação da adolescência é apenas a revivescência da masturbação infantil. Diz ele:
A masturbação infantil atinge uma espécie de clímax, via de regra, entre as idades de três a quatro ou cinco anos; e constitui a mais evidente expressão da constituição sexual de uma criança, na qual se deve buscar a etiologia das neuroses subseqüentes. Logo, sob esse disfarce, os pacientes ficam atribuindo a culpa por suas doenças à sua sexualidade infantil, e têm toda razão de fazê-lo. Por outro lado, o problema da masturbação torna-se insolúvel se tentarmos tratá-lo como uma unidade clinica e esquecermos que pode representar a descarga de toda variedade de componente sexual e de toda espécie de fantasia às quais tais componentes possam dar origem. Os efeitos prejudiciais da masturbação são autônomos – ou seja, determinados por sua própria natureza – apenas em um bem pequeno grau. São, em sua essência, meramente parte e parcela da significação patogênica da vida sexual, como um todo, do indivíduo. O fato de muitas pessoas poderem tolerar a masturbação – ou seja, determinada porção deste ato – sem prejuízo, mostra apenas que a sua constituição sexual e o curso da evolução de sua vida sexual foram de tal forma a permitir-lhes exercer a função sexual dentro dos limites daquilo que é culturalmente permissível; ao passo que outras pessoas, de vez que sua constituição sexual foi menos favorável, ou perturbado o seu desenvolvimento, caem doentes em conseqüência de sua sexualidade – isto é elas não conseguem alcançar a necessária supressão ou sublimação de seus componentes sexuais sem recorrerem a inibições ou substituições .
Resumindo - Freud diz que a masturbação é uma das manifestações universais da sexualidade infantil e que seus eventuais aspectos prejudiciais não decorrem dela em si e sim do contexto mais amplo da vida sexual. Refere-se ele aos turbilhões inevitáveis da castração e do complexo de Édipo, que dão conformidade à nossa própria constituição como sujeitos e – consequentemente - à nossa identidade sexual. São estes conflitos inconscientes que produzem as fantasias que alimentam não só a masturbação, mas a vida psíquica em geral. Assim, a questão não é – como durante os últimos dois séculos se dizia – combater a masturbação e as fantasias que a geravam, e sim analisar os conflitos geradores de fantasias, inibições e sintomas.
Freud pensava que a masturbação deveria ser abandonada na vida adulta, na medida em que o sujeito transitasse plenamente do auto-erotismo e do narcisismo para as relações objetais amorosas. Via a masturbação como uma persistência do erotismo infantil ligado ao complexo de Édipo, o que a deixava irremediavelmente tingida pela culpa.
Na ocasião de um debate especifico sobre o assunto, Freud se aproximou da posição de Stekel, que defendia a masturbação como um recurso legitimo, não necessariamente regressivo. Afirmou que a masturbação possibilita “desenvolvimentos e sublimações sexuais na fantasia” que apesar de serem “conciliações prejudiciais”, “tornam inofensivas graves inclinações perversas e previne as piores conseqüências da abstinência” .

No depois de Freud, constata-se que apesar do indiscutível impacto social trazido pela psicanálise, das informações objetivas sobre a anatomia e a fisiologia dos processos sexuais pedagogicamente oferecidas às novas gerações, parece não ser possível ver a sexualidade de forma objetiva. Por sua ligação intrínseca com os processos psíquicos inconscientes, ela estará sempre envolta por um manto de fantasias, nas quais o erotismo se confunde com culpas, medos, angústias.
No que diz respeito à masturbação, ela está longe de ser uma prática assumida abertamente e continua sendo algo profundamente privado e objeto de vergonha para adolescentes e adultos.
Por outro lado, lembra Lacqueur, as feministas, rebelando-se contra as opiniões de Freud sobre a sexualidade feminina, têm feito da masturbação clitoridiana uma bandeira de seu movimento . Artistas de vanguarda do Primeiro Mundo, como Lynda Benglis, Annie Sprinkle e Vito Acconci, aproveitam-se do aspecto transgressivo que a masturbação ainda hoje tem como importante elemento em suas obras.
Mais recentemente, a questão da masturbação mostra um renovado interesse, em função da internet.
A internet tornou obsoletas todas as medidas legais com as quais os estados tentavam controlar a produção, divulgação e comercialização da pornografia. Com isso, ela tem quebrado idéias preconcebidas que atribuíam à pornografia conseqüências assustadoras, como a incitação ao crime e à violência sexual. Será que os mesmos fantasmas que faziam com que, antes, a masturbação fosse vista como uma perigosa ameaça individual e social, ressurgem no que diz respeito à pornografia? O fato é que se digitarmos pornography num buscador como o Google, encontramos 28.000.000 (vinte e oito milhões) de indicações de sites e para porn, 234.000.000 (duzentos e trinta e quatro milhões). Números semelhantes se encontram ao digitar-se masturbation – 45.800.000 (quarenta e cinco milhões e oitocentos mil) .
Nos sites ligados à masturbação, tem de tudo, desde sua mais aberta defesa, com explícitos manuais de instrução, até os que pregam a castidade e apresentam, como antes, a masturbação como um perigoso vício.
Um acontecimento público mostra como a masturbação continua sendo objeto de grande repressão e hipocrisia social. Em 1994, Jocelyn Elder, que ocupava o posto de Surgeon General (algo como o Ministro da Saúde no Brasil) na gestão Clinton, foi destituída de seu cargo no dia seguinte a uma entrevista na televisão, onde dissera que a masturbação “é algo que faz parte da sexualidade humana e é parte de algo que talvez pudesse ser ensinada” . Numa coletiva à imprensa em Miami, Clinton disse que as opiniões de Jocelyn Elder sobre o assunto revelavam “diferenças com a política administrativa e minhas próprias convicções”. Algumas dessas suas “convicções” seguramente ficaram expostas no episódio Mônica Lewinsky…

Adicionar comentário 19 de Dezembro de 2008 às 14:22 Sérgio Telles

O CONFORMISTA, de Bernardo Bertolucci (1970)

O CONFORMISTA, de Bernardo Bertolucci (1970)

Sérgio Telles

Tido como uma das obras-primas de Bernardo Bertolucci, O CONFORMISTA, baseado no romance homônimo do Alberto Moravia, está disponível em DVD, após ter sido relançada uma nova cópia nos cinemas europeus em meados deste ano. Além do requintado visual do filme, que recria cuidadosamente a década de 30 e a ascensão do fascismo em Roma, o filme é um interessante estudo sobre o papel da ideologia como suporte identificatório para uma estrutura de ego desorganizada e frágil.

Bertolucci não segue a estrutura linear do romance de Moravia, preferindo montar um quebra-cabeça estruturado em flashbacks.

O filme inicia com Marcello Clerici recebendo um telefonema que o coloca em perseguição de um inimigo do regime fascista a quem deve assassinar. Enquanto seu comparsa Manganiello dirige o carro, Clerici rememora em flashbacks sua trajetória até aquele momento. .

Vê-mo-lo em longas conversas com seu amigo cego que é ideólogo do partido fascista. A cegueira do ideólogo expressa a clara critica de Bertolucci às idéias por ele (ideólogo) defendidas. Numa expressão de identidade confusa e frágil, Clerici pergunta ao amigo o que é ser “um homem normal”. Este lhe diz que “um homem normal” é aquele que volta a cabeça para olhar o traseiro de uma mulher que passa, é aquele que gosta de estar entre iguais, é aquele que se perde na multidão, que não tolera o diferente. Clerici diz querer ser “normal”, para isso quer se casar. Através do amigo, ingressa no partido e se dispõe a prestar-lhe qualquer serviço.

O coronel que recebe Clerici no partido diz ser seu currículo excelente e que todos estavam bem impressionados, pois ele se apresentava voluntariamente para servir ao partido, o que era raro, pois na maioria das vezes as pessoas obedeciam às ordens do partido por medo ou por dinheiro. Após um período de observação, o partido lhe dá uma tarefa importante – assassinar o prof. Quadri, um importante intelectual inimigo do regime, que fora professor de filosofia de Clerici e que se exilara em Paris. Clerici não dá uma resposta imediata ao convite.

Um policial, Manganiello, é designado para acompanhá-lo na missão. Com ele, Clerici vai até a casa de sua mãe, uma mansão abandonada e decadente. Ali a encontra dormindo ao meio dia, dividindo a cama com vários filhotes de cão, uma sugestiva imagem de promiscuidade e indiscriminação, que logo se confirma com a conversa que se estabelece entre mãe e filho, em tons eróticos incestuosos. Ele pede que ela se cubra, pois está seminua, e ela, após beijá-lo na boca, lamenta ter um filho “moralista”. O filho está ali para levá-la a uma visita ao pai, internado num hospício.

Enquanto espera a mãe no jardim da mansão, Clerici conversa com Manganielo. Pergunta-lhe se acha possível alguém ter uma infância normal naquela casa, tendo uma mãe viciada em morfina e explorada por seu motorista, misto de amante e fornecedor de droga. Pede então que o policial dê fim ao amante da mãe, o que Managaniello imediatamente realiza. Isso parece fazer com que Clerici se decida a realizar a missão para a qual fora designado.

No hospício, Clerici encontra o pai louco, repetindo mecanicamente as palavras “violência e melancolia”, escrevendo algo sobre as relações entre o individuo e o estado, que deveriam ser harmônicas, indutoras de identificações recíprocas. Clerici avisa ao pai que vai casar-se, o que o pai mal registra. A seu pedido, a mãe se afasta para que ele possa ter uma conversa particular com o pai. Clerici então o confronta, indagando se ele fora um torturador e assassino, o que o pai admite, para logo dele se afastar, chamando o enfermeiro, a quem solicita que lhe coloque a camisa de força.

Incumbido de matar seu antigo professor, Clerici dirige-se a Paris. Sua viagem para aquela cidade conjuga o objetivo de realizar sua missão política com a lua-de-mel, importantes passos para executar seu projeto de ser “normal”, como antes afirmava para o amigo ideólogo cego.

Casara-se sem entusiasmo com Giulia, que considera uma burguesa medíocre e mesquinha. Frente a sua relutância em cumprir com os rituais religiosos do casamento, deixa-se convencer ao ouvir dela que não deve levá-los muito a sério, pois “ninguém acredita mesmo neles”.

Ao se confessar, Clerici tem atitude insolente e desrespeitosa com o padre, a quem confidencia ter sofrido uma aproximação homossexual aos 13 anos, por parte de um homem mais velho, a quem teria então assassinado. Recrimina o padre, que parece estar mais interessado na sodomia e considerá-la um pecado mais grave do que o próprio assassinato que estava confessando naquele momento. Provoca o padre ao ridicularizá-lo, ao casamento, à igreja, a Cristo, mostrando um desespero existencial avassalador. O padre, que até então o censurava, para a perplexidade de Clerici, absolve-o imediatamente ao ouvi-lo dizer que é um fascista e que agora luta contra os subversivos. Uma clara mostra da cumplicidade da igreja com o partido, dos usos que a ideologia política faz da religião.

Na viagem de lua-de-mel, no trem, sua noiva Giulia diz não mais ser virgem, pois há 6 anos era amante de um amigo do pai, que freqüentava sua casa desde sua infância. Fora ele quem mandara a carta anônima querendo indispor Clerici com a sogra, levantando suspeitas sobre sua saúde, ao afirmar que seu pai enlouquecera por ser sifilítico. Com isso, o autor desmascara os valores “familiares” tão exaltados pelo fascismo.

Em Paris, Clerici tenta se aproximar do Professor Quadri e reconhece em sua mulher Anna uma prostituta de alto escalão, que vira na companhia de altas autoridades fascistas, em suas peregrinações para entrar no partido. Anna lhe diz que todos suspeitam ser ele um espião e se oferece sexualmente a ele, pedindo sua clemência.

Anna dá um tom permanentemente bissexual ao contexto, pois ao mesmo tempo em que se envolve com Clerici, se interessa por Giulia, como se vê na belíssima cena do baile e no quarto de hotel. No baile, Clerici já sabendo que suspeitam dele, tenta abandonar a missão, mas Manganiello o contem, dizendo ser demasiado tarde para tanto. O professor Quadri o submete a testes, nos quais aparentemente se convence de sua neutralidade política, mas, na verdade, ele e Anna fogem, colocando Clerici e Manganiello em sua perseguição.

Na estrada, o carro do Prof. Quadri é interceptado por um outro cujo motorista aparentemente está ferido. Ele desce para investigar o que acontece. Anna sabe que está sendo seguida por Clerici, cujo carro bloqueia a fuga por trás. Vários homens aparecem da floresta e apunhalam seguidamente o professor. Anna corre até o carro onde estão Clerici e Manganiello, e pede auxilio a Clerici, que nada faz, assistindo impassível seu assassinato. Manganiello sai do carro e expressa seu desprezo por Clerici, a quem equipara a outros “covardes”, como os judeus e homossexuais, etc.

A ação corta para quatro anos depois, quando vemos Clerici com sua filhinha, a quem ensina a rezar a Ave Maria, enquanto ouve no rádio as noticias sobre a queda de Mussolini. Giulia diz que o amigo ideólogo havia ligado e pedido para encontrá-lo no lugar de sempre. Giulia pede para Clerici não sair e pela primeira vez menciona saber de sua participação no assassinato de Quadri e sua mulher. Ao ser interrogada por Clerici, Giulia diz que Anna, talvez com o objetivo de separá-los, dissera que ele era do serviço secreto e estava tentando eliminá-los. Mais uma vez Clerici pergunta a Giulia o que ela pensava disto e ela responde que entendia ser o trabalho dele e que o assassinato do casal o teria feito progredir profissionalmente. Giulia insiste ser perigoso que ele saia às ruas naquele momento, pois poderia ser identificado como um homem do regime.

Mesmo assim Clerici sai. O tumulto político é simbolizado por apagões de luz, multidões nas ruas. Clerici encontra o antigo amigo ideólogo cego numa ponte e saem andando. Ao passarem por um beco, inadvertidamente Clerici ouve uma cena de sedução homossexual, na qual reconhece a fala e o texto da antiga sedução que sofrera na infância.

Chocado, Clerici para, reconhece o antigo sedutor que até então pensava ter assassinado e que simplesmente recebera um tiro de raspão.

Neste momento, tal como o sistema político que caíra, Clerici também desmorona. Totalmente descontrolado, grita contra o sedutor atribuindo-lhe seus próprios crimes – o assassinado de Quadri e sua mulher Anna. O sedutor foge, debaixo de acusações de pederasta e fascista. Em seguida, Clerici passa a denunciar o amigo cego como fascista, que é levado de roldão pela multidão.

Quando esta se afasta, Clerici se encontra sozinho com o homossexual que estava conversando com o antigo sedutor e aparentemente a ele se entrega sexualmente.

Em função da loucura familiar, da experiência traumática da sedução homossexual e da fantasia de ter assassinado o sedutor, Clerici se sente diferente, constata sua não “normalidade”, sua identidade pouco definida e confusa sexualmente. Busca desesperadamente ser igual a todos, ser “normal”.

Procurara se “conformar”, entrar na forma, ou seja, ter uma identidade estável e definida, para tanto se apoiando numa ideologia forte e violenta, que estabelece claros parâmetros e fortes repressões.

O filme mostra como uma ideologia política pode ser usada como apoio identitário por personalidades frágeis mal constituidas. Na hora em que o regime e a ideologia que o amparava se esfacelam, Clerici também se desorganiza psiquicamente, despersonaliza-se, desidentifica-se, confunde-se com o homossexual pederasta em quem simultaneamente projeta toda sua conflitiva psíquica e com o qual se identifica.

O final do filme é uma bom exemplo da cena traumática externa e atual que reatualiza catastroficamente a cena traumática infantil reprimida, provocando uma completa desestruturação psíquica pelo fracasso das defesas mantidas até então.

Como o filme foi relançado na Europa este ano, isso deu vez a muitas entrevistas com Bertolucci, quando foram levantadas interessantes questões, às quais não foram por ele dadas respostas diretas: quereria ele dizer que o fascismo e a ideologia direitista seriam uma defesa contra o homossexualismo? A desesperada luta de Clerici para ser “normal” era uma luta contra a homossexualidade? Ser “normal” é ser heterossexual? Seria esta uma tese homofóbica?

1 comentário 9 de Novembro de 2008 às 09:23 Sérgio Telles

Entrevista de Sérgio Telles à Revista Psique Ciência & Via, ano III, no. 32, 2008

Entrevista de Sergio Telles à Revista Psique Ciência & Vida, ano III, no. 32, 2008

Rose Campos

O melhor de dois mundos

Quando se decidiu pela Psicanálise, este médico cearense se deparou com um início de processo de ruptura: era a formação psicanalítica que se ressentia das amarras de sua institucionalização, necessária, mas também cerceadora do crescimento. Em paralelo, ele também fazia sua escolha pessoal. Entre a Psicanálise e a Literatura, optou acertadamente pelas duas

O psicanalista e escritor Sergio Telles fez sua formação inicial em Medicina, mas desde então se interessou pela clínica psicanalítica e, em busca dessa capacitação, mudou-se de cidade e de estado, deixando sua natal Fortaleza para vir morar em São Paulo, um dos poucos centros brasileiros onde se concentrava a formação psicanalítica na época. Isso aconteceu no ano de 1970 e, desde então, durante essas quase quatro décadas, Sergio tem sido testemunha das grandes transformações sociais e culturais que têm reflexo direto no âmbito da Psicanálise. Com o olhar aguçado que também perscruta o mundo como autor literário, o psicanalista concedeu um precioso tempo de sua atarefada rotina para responder a esta entrevista de Psique Ciência & Vida, que você lê a seguir.

Psique – O senhor foi da primeira turma de formação do curso criado por Roberto Azevedo e Regina Chnaiderman, no Sedes Sapientiae. Qual foi o ambiente que encontrou lá na época e o que o atraiu para fazer o curso?

Sergio Telles – Conheci Roberto Azevedo logo depois que ele chegou de Londres, onde tinha sido analisado por Herbert Rosenfelt, e passei a fazer parte de seus grupos de estudo e supervisão. Desta forma, segui, desde os primórdios, seu projeto de montar um curso de Psicanálise, juntamente com Regina Chnaiderman e outros analistas da Sociedade de Psicanálise de São Paulo (filiada à International Psychoanalitical Association - IPA). Entretanto, como é sabido, quando o curso começou, a Sociedade exigiu que seus membros que dele participavam o abandonassem, sob pena de sofrerem severas punições, eventualmente até mesmo a expulsão da Sociedade. Apenas Roberto Azevedo e Fábio Hermann enfrentaram de peito aberto a ameaça e permaneceram em seus postos. Mas, com a debandada dos analistas da Sociedade, a viabilidade do curso estava em jogo. No momento da crise, Roberto Azevedo convidou alguns alunos, considerados por ele mais habilitados, para ocuparem os lugares vacantes. Entre eles, estávamos Marilza Tafarel, Marilene Carone e eu. O convite foi aceito pelas duas colegas, mas não por mim. Não me senti à vontade para trocar a posição de estudante para a de professor. Naquele momento, e providencialmente para nós, chegaram os analistas argentinos que fugiam da ditadura em seu país. Eles foram convidados por Roberto Azevedo e Regina Chnaiderman, com o aval da Madre Cristina (que dirigia o Sedes), para ingressarem no curso. Isso estabilizou o corpo docente, dando condições para que o curso progredisse, assim funcionando durante uns três anos. Houve então uma fratura que o dividiu entre o que chamávamos de “o curso da Regina” e “o curso do Roberto”. Na ocasião eu já terminara o quarto ano do curso e fui convidado para ser professor e supervisor do “curso do Roberto”, funções que ocupei por mais de 10 anos. O antigo “curso da Regina” é o atual Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e o “curso do Roberto” é a Formação em Psicanálise daquela mesma instituição. O que me atraiu para fazer o curso foi concordar com as críticas à instituição psicanalítica que, na época, começavam a circular em São Paulo, derivadas da ruptura de Lacan com a IPA. Tais criticas incidiam especialmente sobre a chamada “análise didática” e o desmesurado poder exercido pelo analista didata na formação dos candidatos.

Psique – Conflitos como o que originaram a ruptura no curso do Sedes se sucederam depois, tanto dentro da Psicanálise como em suas relações com outros saberes. O que destacaria como principais mudanças da Psicanálise praticada hoje?

Sergio – Penso que o curso criado por Roberto Azevedo e Regina Chnaiderman fez história na medida em que rompeu com o monopólio da IPA, até então única referência do que se chamava Psicanálise em São Paulo e no Brasil. O curso mostrou que era possível formar analistas fora da Sociedade. Pouco tempo depois, as escolas lacanianas se instalaram no país, sepultando de vez o monopólio da IPA. A meu ver, as decorrências disso são as principais mudanças na psicanálise praticada hoje no país. Naquela ocasião, “Psicanálise” era sinônimo de kleinismo. O estudo de Freud era desprezado e a escola inglesa se impunha como a única “verdadeira” Psicanálise. Então, a grande mudança que vejo é a introdução do lacanismo e, como uma decorrência, a divulgação de uma abordagem “francesa” de Freud, representada por Piera Aulagnier, Pontalis, Laplanche, linha teórica com a qual sinto grande afinidade. Hoje em dia, Melanie Klein está em desgraça. Poucos confessam seguir seus ensinamentos. Não é meu caso. Não desprezo os muitos anos de supervisão kleiniana que fiz com Roberto Azevedo, que muito me ajudam ainda na clinica. Mas, aí teríamos de falar de um assunto que nos afastaria do tema, as “modas” teóricas em Psicanálise.

Psique – Como disse, o senhor acabou se tornando professor e supervisor deste mesmo curso realizado no Sedes. Qual é o perfil dos alunos que o senhor tem hoje e no que eles diferem de sua própria turma de formação?

Sergio – Vim de Fortaleza em 1970 para São Paulo, com o intuito explícito de fazer minha formação psicanalítica. Naquela ocasião, isso só era possível em Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo e, nestas cidades, a única oferta era a das Sociedades oficiais. Ser psicanalista era algo extraordinariamente difícil. Conheci muitos colegas que faziam anos de análise didática, mas não ousavam dizer que eram “psicanalistas” e sim “psicoterapeutas analíticos”. Hoje em dia, todos se dizem “psicanalistas” e a oferta de cursos de formação é abundante. A mudança nestes 38 anos é, portanto, imensa. Penso que passamos de um extremo a outro. Se antes havia uma situação excessivamente rígida e protocolar, no momento vivemos certo laisser faire, tão pernicioso quanto seu oposto anterior. Essa discussão levaria a uma questão muito séria e importante, ligada à formação do analista e aos mecanismos de regulação de sua prática, desde os internos, até os ligados ao Estado, referentes à regulamentação da profissão, tema em debate atualmente nos grandes centros onde a Psicanálise é praticada.

Psique – Olhando para o panorama que descreve, é possível lembrar que há alguns anos foi notória a oposição entre psicanalistas de orientações diferentes, sendo que a maioria deles sequer se comunicava entre si. No entanto, nos últimos anos, surgiram alguns congressos e movimentos com a clara intenção de aproximação e diálogo. Como o senhor avalia o cenário psicanalítico hoje em suas diferentes correntes teóricas?

Sergio – Penso ser extremamente positiva e saudável a convivência entre as várias tendências teóricas, apesar desta não ser tão pacífica quanto gostaríamos que fosse e que sua pergunta faz supor. Tal aproximação se faz necessária tanto internamente, no mundo da Psicanálise, como no extra-muros, em suas intersecções com outros campos de saber. Mesmo sem ceder ao terrorismo neo-positivista, que tende a exigir da Psicanálise critérios de cientificidade semelhantes aos das hard sciences, devemos ter uma preocupação epistemológica, cotejar nossas práticas clinicas decorrentes de diferentes linhas teóricas, examinar onde e porque coincidem ou se afastam, para assim poder aprimorá-las.

Psique – Pensando nisso, quais foram os teóricos e os profissionais contemporâneos que mais influenciaram e influenciam seu trabalho?

Sergio – Como disse antes, durante muitos anos fui um kleiniano, fiz uma análise kleiniana e tinha a supervisão de Roberto Azevedo, que é “neto” de Melanie Klein, desde que fora analisado por Rosenfelt, que, por sua vez, fora analisado pela própria Melanie Klein. Posteriormente fiz uma segunda análise, com Lea Bigliani, que, apesar de usar muito o kleinismo, tinha forte embasamento freudiano, como todos os analistas argentinos que conheci. Passei a fazer supervisão com Guillermo Bigliani, outro analista argentino, que me apresentou a escola francesa e os autores argentinos. E como já me referi, me identifico bastante com as idéias propostas por Laplanche, Pontalis, Piera Aulagnier, analistas que freqüentaram Lacan, mas que dele depois se afastaram. Atualmente tenho me interessado sobremaneira pelo trabalho de Derrida, a quem devemos – entre outras coisas – o movimento dos Estados Gerais da Psicanálise.

Psique – É possível notar em seus livros uma inequívoca admiração pela cultura e pela arte. Como você considera que a Psicanálise se conjuga com esses temas?

Sergio – A Psicanálise e a Literatura são irmãs gêmeas. Para ambas, a linguagem é fundamental, ambas exploram as profundezas da vida psíquica, ambas tentam dar forma ao inarticulado. E nessas duas vertentes a criatividade está implícita. O escritor cria uma obra de arte, o psicanalista tenta desvendar as formações do inconsciente, quer seja no sujeito que o procura em seu consultório, quer seja nos fatos da cultura e da arte.

Psique – O seu trabalho de ficção o senhor considera um caminho paralelo ou também este afazer está de alguma forma ligado à sua formação psicanalítica?

Sergio – É difícil para mim dissociar as duas coisas. Procuro não ser muito psicanalista ao escrever ficção, e não fazer ficção ao interpretar. Mas veja que, mesmo ai, é complicado estabelecer um limite, pois o analista necessita usar sua imaginação e fantasiar junto com o paciente. Somente assim poderá interpretá-lo. Talvez esteja aí a diferença. Enquanto analista, para compreender o paciente, deixo que minha imaginação e criatividade sigam pelas trilhas por ele propostas. Ao escrever, sigo minhas próprias trilhas. O fato é que tenho muito prazer em realizar estas duas atividades.

Psique – A mulher histérica já esteve no centro dos questionamentos do próprio Freud. Quais são as questões mais palpitantes levantadas pela psicanálise atual, em sua opinião?

Sergio – Penso que são as questões ligadas ao narcisismo e à identidade. As mudanças sociais se refletem num certo enfraquecimento da figura paterna, fazendo com que a ruptura da relação narcísica com a mãe não ocorra adequadamente. Isso permite a permanência de ligações fusionais, que se refletem em atitudes ligadas à adição, à dependência indiscriminada, à onipotência, à negação dos limites. O narcisismo encontra um aliado muito forte no apelo ao consumo, veiculado pela publicidade comercial exposta na mídia eletrônica, que tem um extraordinário poder de ditar modelos de comportamento e sexualidade. Ilusoriamente, a publicidade alimenta o narcisismo do sujeito, prometendo-lhe suprir-lhe todas as falhas, realizar todos os seus desejos. Vemos, então, pessoas que compram os objetos de consumo convictas de que, com isso, vão remediar todas as suas feridas narcísicas. O que termina – é claro – por não acontecer, gerando grandes frustrações, alimentando as “depressões” tão disseminadas atualmente. Quanto à identidade, temos as grandes mudanças ligadas às questões de gênero. A revolução feminista, que liberou a mulher, e o movimento político dos homossexuais, juntamente com os avanços da tecnociência médica, possibilitaram uma até então impensável abertura para novas manifestações da identidade de gênero, como os transexuais, por exemplo. Outra forma de dizer tudo isso seria lembrar que nos tempos de Freud o imperativo super-egóico era “não goze”, cujo corolário era a grande repressão da sexualidade. Hoje, o imperativo categórico do super-ego é o oposto, é o “goze”. Se nos tempos de Freud uma moça era discriminada por ter perdido a virgindade, hoje essa mesma moça é discriminada por ser virgem.

Psique – O senhor já contribuiu para alguns dos principais jornais do país, como Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, e mais recentemente iniciou uma participação num programa de rádio, na Eldorado AM. Foi sempre um trabalho de divulgação da Psicanálise? Como o senhor avalia essas suas contribuições para a grande imprensa?

Sergio – Tenho procurado, sempre que possível, dar meu testemunho frente ao mundo em que vivo, escrevendo sobre o que me toca, tentando compreender o que a realidade e as produções culturais se me apresentam. Por estar totalmente impregnado do pensamento psicanalítico, isso se reflete na forma como apreendo esses fenômenos. Considero fundamental a difusão da Psicanálise e muito do que escrevo se inscreve nessa rubrica.

Psique – Como começou a se interessar pelo trabalho de escritor e, especificamente, de contista?

Sergio – Desde criança sou um leitor curioso e apaixonado, devorando tudo o que me chega às mãos, especialmente a Literatura. Esta, além do grande prazer que sempre me proporcionou, me fez admirar a aguda percepção dos escritores para a realidade psíquica de seus personagens, seus conflitos e angústias. Logo me vi querendo, eu mesmo, escrever. Para mim parecia ser uma decorrência natural de meu amor pela Literatura. Comecei a escrever na adolescência e tive meu primeiro artigo publicado aos 18 anos, num jornal de Fortaleza. O conto me encanta por sua concisão, pela economia forçada, pela contenção. Estes aspectos o aproximam da poesia.

Psique – O talento demonstrado na dedicação a esta atividade já o fez ganhar alguns prêmios e importante reconhecimento como escritor de ficção, o que demonstra sua erudição. Muitos psicanalistas, no entanto, apesar da grande bagagem cultural, são acusados de produzir textos herméticos ao grande público. Como vê este problema da comunicação – ou da ineficácia dela – às vezes comum no meio psicanalítico?

Sergio – De fato, as habilidades clínicas de um analista sem sempre coincidem com sua habilidade para escrever. Disto resulta a produção de textos herméticos ou repletos do jargão técnico, que afastam o leitor leigo. Mas penso que todos nós, dentro das possibilidades de cada um, nos emprenhamos no esforço de divulgar o pensamento psicanalítico para um maior número de pessoas.

Psique – Falando em divulgação de conhecimentos nessa área, o senhor também contribui para a revista eletrônica Psychiatry on Line – Brazil (www.polbr.med.br). Pode nos detalhar um pouco o projeto e sua participação dentro dele?

Sergio – O psiquiatra Giovanni Torello conhecera num congresso internacional um colega inglês que estava criando a Psychiatry on Line, uma revista de psiquiatria publicada na então incipiente internet. Obteve dele a autorização para lançar uma versão brasileira e assim, em julho de 1996, publicava a Psychiatry on Line – Brazil, primeira revista eletrônica brasileira de psiquiatria. A idéia da revista era usar esta nova mídia para divulgar conhecimentos psiquiátricos. Dois anos depois, Giovanni Torello convidou-me para escrever uma coluna de Psicanálise, coisa que tenho feito desde então. Assim, desde agosto de 1998, ali publico mensalmente. Desde 2005 mantenho um site na internet, onde estão concentrados meus artigos ou parte deles, além de informações sobre meus livros. O endereço da página é www.sergiotelles.com.br.

Psique – Como surgiu sua aproximação com o cinema e qual a importância que o senhor vê neste tipo de criação para o olhar da Psicanálise?

Sergio – O amor pelo cinema me veio como uma ampliação do amor pela Literatura. Entretanto, é importante reconhecer a especificidade da linguagem cinematográfica, essencialmente visual, o que a aproxima da linguagem dos sonhos. E, como sabemos, Freud descobriu que os sonhos são a via de acesso preferencial ao inconsciente. Talvez venha daí a intimidade entre a Psicanálise e o cinema.

Psique – Todo filme tem um contexto que pode ser analisado sob o ponto de vista da Psicanálise? Por quê?

Sergio – Sim, porque todo gesto humano pode ser analisado psicanaliticamente. Se a ficção – seja literária ou cinematográfica – recria tais gestos e conflitos através de seus personagens e enredos, neles está implícita a ação do inconsciente e, conseqüentemente, a possibilidade de interpretá-lo.

Psique – Assistir a uma sessão de cinema pode ser um exercício terapêutico? De que modo as pessoas podem explorar melhor esta possibilidade?

Sergio – Penso que toda grande arte – por representar e simbolizar inalienáveis verdades humanas – possibilita uma maior compreensão de si e dos outros. Se a Psicanálise visa proporcionar uma maior compreensão interna, interpretando o inconsciente, então o cinema, como qualquer outra arte, pode ser “terapêutico”.

Psique – Nos últimos anos e décadas se vem fazendo uma divulgação muito intensa, para o grande público, de alguns dos conceitos centrais da Psicanálise – às vezes até de forma simplista ou equivocada. Como avalia este tipo de divulgação. Isso é benéfico e importante para as pessoas? Em que medida pode ser também ruim ou inócuo?

Sergio – De fato, alguns temem uma banalização da Psicanálise através desta intensa divulgação para o grande público. Não penso assim. Mesmo que possa haver desgastes e equívocos, é melhor que haja uma divulgação do que a repressão, a negação ou o desconhecimento. Além do mais, não é verdade que a Psicanálise seja tão conhecida assim. Num país como o Brasil, e talvez em todos os países, até muito recentemente apenas a classe média abastada tinha alguma informação sobre a psicanálise. E, como lembram Derrida e Roudinesco, a geopolítica da Psicanálise mostra como ela é um fenômeno basicamente europeu e americano, mantendo-se a inexistente ou desconhecida, ainda hoje, em outros continentes e culturas, como todo o Islã, a Ásia, a África.

Psique – Como afirmou, muitas pessoas ainda desconhecem e, ao mesmo tempo, temem a Psicanálise, julgando ser um recurso que não lhes diz respeito. O que o senhor diria para essas pessoas? A Psicanálise é de fato um recurso que pode ser benéfico para um número maior de pessoas do que acontece hoje?

Sergio – Além do desconhecimento que ainda persiste largamente sobre a Psicanálise, penso que hoje em dia as pessoas se afastam dela por quererem uma resposta imediata para a resolução de seus conflitos, o que lhes é prometido através da medicação ou de outros tipos de terapia. Longe de querer se apresentar como a panacéia universal, a Psicanálise é uma experiência única, a possibilidade de desvendar o inconsciente, encontrar o próprio desejo e desentranhá-lo da submissão ao Outro. É abrir mão da onipotência infantil e assumir a potência possível. É um trabalho longo, às vezes difícil, mas cujos resultados, em termos de liberdade e auto-conhecimento, não têm preço.

Psique – Alguns tipos de sintomas e de transtornos parecem estar em grande evidência na sociedade atual, como o pânico e a depressão. A sociedade está de fato se tornando mais frágil e psicologicamente mais enferma? O que tem levado a isso e qual seria o ponto de retorno desta situação?

Sergio – É difícil afirmar que a sociedade está mais enferma. O que podemos dizer é que, em função das mudanças sociais, os conflitos se organizam de forma diferente, conseqüentemente produzindo novos sintomas. Por exemplo, acima falamos do enfraquecimento da figura paterna e das conseqüências deste fato. Este é um dos sinais que refletem o modo como estamos vivendo essas questões internas.

Adicionar comentário 3 de Outubro de 2008 às 12:18 Sérgio Telles

Apresentação do livro MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR - AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS, de Glauco Mattoso - Coleção “Além da Letra”, Allbooks, São Paulo, 2006

Apresentação do livro MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR - AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS, de Glauco Mattoso - Coleção “Além da Letra”, Allbooks, São Paulo, 2006

Sérgio Telles

Esta é a nova edição revista e atualizada do Manual do Podólatra Amador – Aventuras & leituras de um tarado por pés, de Glauco Mattoso.

Ao ser lançado em 1986, o livro recebeu resenhas importantes, como as de Néstor Perlongher, Leo Gilson Ribeiro e David William Foster, e seu conteúdo transgressivo provocou um certo escândalo na mídia.

Em Manual do Podólatra Amador, Glauco Mattoso traça o percurso de sua forma peculiar de atingir o gozo, da qual se apercebeu desde a infância - a fixação em pés masculinos e, mais especificamente, em seu odor fétido advindo do suor, da sujeira, das frieiras e micoses. É essa a mola mestra que aciona sua libido, mais forte do que o desejo propriamente homossexual. Paralelamente, como pano de fundo, descreve a evolução de um mal que o atingiu também desde os primórdios - o glaucoma congênito que terminou por deixá-lo cego na maturidade. Essa enfermidade de tal forma o marca, que o faz adotar o nome literário de Glauco Mattoso, um epigrama que o identifica imediatamente como um glaucomatoso, um portador daquela doença.

Se o glaucoma tem efeitos devastadores, como não é difícil de imaginar, por outro lado, acrescenta novos ingredientes ao gozo do narrador-personagem-autor, pois a cegueira lhe alimenta o masoquismo, possibilitando-lhe novas configurações fantasmáticas.

Diante de tantas dificuldades sofridas pelo autor, poder-se-ia esperar um texto de lamentações. Mas Glauco Matoso não é um choramingas. Pelo contrário, o tom geral do livro é de uma ironia crua, uma comicidade que muitas vezes atinge o escracho debochado e escatológico, aproximando-se do vigor de Henry Miller.

Indiretamente, Mattoso defende o direito ao exercício de uma libido cuja conformação não foi por ele escolhida e que só lhe cabe vivê-la. A singularidade de seu fetiche – o amor pela disodia, nome castiço que esconde a vulgaridade desagradável do “chulé” – talvez o faça sentir com mais intensidade o peso da solidão e da segregação.

Apartado do comum dos homens em função de um desejo que o arrebata para os confins da experiência sexual, de lá, de suas bordas, de seus limites, destes territórios mais distantes e desconhecidos, Mattoso encontra seu caminho de volta através da escrita, enviando – qual diligente expedicionário – percucientes relatórios deste mundo remoto ignorado pela maioria.

Mattoso lembra Robert Stoller, psicanalista norte-americano morto precocemente num acidente automobilístico, ao acompanhar de perto os freqüentadores de clubes sado-masoquistas e os atores e técnicos das equipes produtoras de filmes pornográficos, resgatando naqueles sujeitos a humanidade e a dignidade, muitas vezes negadas pelos preconceitos e hipocrisias.

Como bem aponta David William Foster, o desejo que acomete Mattoso não é um mero desejo homossexual, o que – se fosse o caso – o deixaria ao abrigo das comunidades gays. Seu gozo é mais transgressivo, mais indomado, mais selvagem. Distancia-se por completo do empenho de normatização apresentado ultimamente por muitos homossexuais, que lutam, por exemplo, pela legalização de suas ligações amorosas e pelo direito de ocuparem as funções materna e paterna, com a adoção de filhos. Tais questões não poderiam estar mais distantes do universo de Mattoso, cujas características o aproximam das sexualidades queer, foco de grande interesse da comunidade acadêmica norte-americana que tem como objeto de estudo as questões ligadas ao gênero sexual e na qual Judith Butler ocupa posição de destaque.

Manual do Podólatra Amador nos faz lembrar que a sexualidade humana, regida que é pelo mundo simbólico, afasta-se totalmente do mundo natural. Neste, a sexualidade visa unir os genitais dos diferentes sexos com fins reprodutivos, regidos pelos períodos de cio. No homem, a sexualidade pode ser mobilizada por fatores muito distantes e surpreendentes, como o faz a disodia no caso de Mattoso.

Manual do Podólatra Amador é um livro que pode ser lido sob vários enfoques. Sua linguagem, trabalhada com evidente esmero, afasta-o da mera pornografia, garantindo-lhe um lugar no campo da literatura. Sua conotação política se estabelece ao defender os direitos de um desejo que não se conforma aos padrões da maioria. Finalmente, ao relatar suas vivências com franqueza e lisura, Mattoso produz um valioso depoimento para estudiosos das questões de gênero.

Adicionar comentário 14 de Setembro de 2008 às 16:38 Sérgio Telles

Ideologia do Consumo e Psicanálise

Ideologia do Consumo e Psicanálise

Sérgio Telles

O que é uma ideologia? É um sistema de crenças no qual estão abordadas e resolvidas todas as grandes questões que angustiam uma determinada parcela da humanidade num certo período do tempo. Ela fornece explicações sobre o passado, organiza o presente e estabelece rotas para o futuro. Com facilidade, a ideologia pode transformar-se num programa político, traçando objetivos e prioridades a serem alcançados através de uma ação organizada. A ideologia permite que o poder seja exercido de forma discreta, acobertado por crenças que simultaneamente o disfarçam e legitimam. O exemplo padrão da ideologia é a religião, qualquer religião. Outros exemplos são os partidos políticos.

No século passado, tivemos duas expressões máximas de organização estatal ideológica, o nazismo e o stalinismo, que deram origem a várias cópias mais circunscritas e regionais.

Assim como não se pode conceber estes totalitarismos sem a propaganda política que divulgava sua ideologia monolítica, não se pode abordar a atual produção de bens do capitalismo sem a publicidade maciça que nos induz ao consumo.

A publicidade comercial é a herdeira direta da propaganda político-ideológica. Por isso mesmo, a publicidade veicula uma ideologia própria das democracias ocidentais regidas pelo capitalismo globalizado e pela ditadura dos mercados, que transcendem e subjugam as antigas soberanias nacionais – a ideologia do consumo.

Esta atual ideologia promete a felicidade através da aquisição de uma mercadoria. Diz ela: “Compre tal carro e você será feliz, demonstrando seu sucesso. Compre determinada marca de roupa e você será sexy e bem sucedido. Fume tal cigarro ou beba tal bebida e será um vencedor”.

A propaganda cria um mundo completamente distante da realidade. Nele não existe dor e sofrimento, não existe a morte. Existe apenas a possibilidade imediata de alcançar a felicidade, entendida como a posse de um determinado bem de consumo.

Além disso, a propaganda vende a idéia de um “direito” à felicidade. É uma sutil perversão de uma grande conquista política conseguida pela democracia. Como reza a Constituição Norte-Americana, todos temos o direito de procurar a felicidade, o que não é o mesmo que o direito à felicidade. A diferença é fundamental. A procura da felicidade implica a idéia de liberdade política, a possibilidade de o cidadão fazer – dentro da lei - escolhas que lhe sejam convenientes de acordo com o seu desejo. Mas não se pode falar em direito à felicidade, pois isto implicaria no salto de uma categoria político-social para uma outra, situada em um outro campo, aquele do existencial, do desejo e da fantasia. Quem pode garantir um “direito” à felicidade, se esta é algo evanescente, impossível de generalizar por se configurar de forma singular e especifica para cada um? Por acaso, pode-se falar num “direito” de ser mais feliz, se a felicidade for entendida como ter uma outra dotação de inteligência, ter uma outra aparência, possuir uma outra cor de pele ou outra altura - para se dar alguns exemplos corriqueiros?

A resposta é negativa, pois a distribuição de dotes realizada pela natureza é totalmente aleatória, ao azar, não se submete a nenhuma norma do “direito”.

Entretanto, os avanços da tecnociência médica permitem realizar intervenções antes impensáveis no manejo do corpo humano, possibilitando mudanças no aspecto formal (cirurgias estéticas) e até mesmo no gênero sexual (cirurgias transexuais). É o que faz com que a ideologia do consumo se aproprie destes procedimentos médicos e os ofereça como uma novo bem a ser consumido.

Essa confusão entre direito a buscar a felicidade e direito a ser feliz tem duas conseqüências imediatas.

Uma delas é do âmbito do psicológico. Ela propicia a negação dos limites inevitáveis e irremediáveis que a realidade impõe a nossos desejos. Afinal, dentro do exemplo acima, haverá sempre pessoas mais inteligentes, mais bonitas, mais altas, do que outras. Ter de reconhecer, admitir e aceitar as diferenças entre o eu e o outro, um outro que poderá ser ou ter tudo aquilo que o eu deseja e não pode ter ou ser é o resultado de um longo e indispensável percurso a ser trilhado pelo ser humano na conquista do crescimento psíquico e emocional.

A outra conseqüência do embuste promovido pela publicidade é que ao prometer “direitos” impossíveis, ela propositadamente confunde a noção de direitos do cidadão com os direitos do consumidor.

A ideologia do consumo veiculada pela publicidade alimenta o narcisismo infantil existente em todos nós. Ela promete a felicidade e a realização de todas as nossas fantasias onipotentes de beleza, força, encanto, poder, charme sexual. Para tanto, basta comprar tal ou qual mercadoria.

Todos nós, ao vermos um anúncio de qualquer bem de consumo, com todas as promessas de beleza, felicidade, sucesso sexual, afetivo e profissional ao que teríamos acesso com sua aquisição, sabemos que aquilo é um logro, um engano, uma mentira. Mas, lá no fundo, uma parte de nós tende a acreditar, quer acreditar. É justamente aquela parte que se rebela contra os impedimentos e as limitações que a realidade nos impõe e quer restaurar o narcisismo onipotente perdido em nosso desenvolvimento. Ao nos constituirmos como sujeitos, tivemos de abdicar da fantasia de fazermos uma totalidade com a mãe, tivemos de aceitar nossa incompletude e construir, a partir dela, nossa existência.

É por isso que a publicidade comercial funciona. Ela, com grande habilidade, manipula nossos mais regressivos desejos inconscientes.

Sob este aspecto, a psicanálise e a publicidade estão em campos rigorosamente opostos. A psicanálise nos confronta com a falta, a incompletude, a castração, por saber que é somente a partir da abdicação do narcisismo e da onipotência que podemos crescer e viver plenamente. A publicidade faz o inverso. Alimenta a fantasia onipotente e narcisista de completude através da aquisição de bens de consumo.

Mas o que acontece quando as pessoas compram o objeto de seu desejo? Elas ficam mais felizes, como promete a publicidade?

Claro que não. Em primeiro lugar porque o desejo humano estará sempre insatisfeito, pois ele se baseia na restauração de uma impossível completude com o corpo da mãe, imagem de paraíso para sempre perdido. Por causa disso, quando se obtém aquilo que se deseja, o obtido imediatamente tende a se desvalorizar e a procura recomeça. De certa forma, a produção capitalista intui isso. Ao planejar a obsolescência de seus produtos, visa, por um lado, o lucro desmesurado; por outro, ao criar sucessivas versões de um mesmo objeto, atende não a critérios objetivos e racionais que deveriam reger a aquisição de bens necessários, mas à economia do desejo, da fantasia, da busca por um objeto, por definição, inalcançável.

De qualquer forma, seja pela própria estrutura do desejo que faz impossível sua satisfação, seja pelas promessas ilusórias da propaganda, o que ocorre após a compra é que, passada a euforia da aquisição, o consumidor se depara com uma grande decepção. Ele constata então que o objeto fetiche que adquirira não o deixa imune ao sofrimento, à dor e á angústia, elementos afetivos inalienáveis da condição humana.

Tal frustração pode descambar numa “depressão”. As aspas vão por conta do excessivo uso deste diagnóstico por parte de leigos e profissionais da saúde, a ponto de torná-lo o atual mal du siècle. Essa “depressão” difere da efetiva depressão decorrente de perdas e dificuldades de elaborar o luto. Esta “depressão”, tão difundida hoje em dia, decorre do penoso reencontro do consumidor com a realidade (interna e externa), que se mantém inalterada, ao contrário do afirmavam as vãs promessas da publicidade.

(Este artigo foi publicado na revista “E” do Sesc-SP, agosto de 2008, no. 135)

2 comentários 14 de Agosto de 2008 às 16:36 Sérgio Telles

A Questão Humana (La Question Humaine) de Nicolas Klotz (2007)

A Questão Humana (La Question Humaine) de Nicolas Klotz

Sérgio Telles *

O grande trunfo do muito premiado filme “A Condição Humana”, de Nicolas Klotz, é o inteligente e polêmico roteiro baseado no livro de François Emmanuel.

Nele vemos Simon, um psicólogo indústrial, ser convocado para uma delicada tarefa - avaliar secretamente a saúde mental do presidente da empresa onde trabalha, uma sucursal francesa de um conglomerado alemão. Logo o psicólogo se dá conta dos jogos de poder entre os diretores da empresa e de que pode estar havendo uma conspiração para eliminar o presidente. Suas investigações avançam e o levam à descoberta do passado nazista de seus superiores. Ao mesmo tempo, Simon começa a questionar seu próprio trabalho, especialmente os procedimentos realizados por ele mesmo no downsizing da empresa, quando, sem questionar os motivos, obedeceu às ordens superiores de eliminar a metade dos funcionários, descartando-se impiedosamente de todos aqueles tidos como “doentes” e “problemáticos”. Percebe que sua forma de agir não é muito diferente daquela dos nazistas frente às “depurações raciais”, da mesma maneira que as desculpas que encontrava para si mesmo não eram muito diferentes das que os nazistas davam ao serem questionados sobre seus atos - a alegação de que estavam apenas “cumprindo ordens”.

E aí está a idéia central e provocadora do filme – Teria sido eliminada a ideologia nazista no final da 2a. Grande Guerra ou ela persistiria entranhada no funcionamento das grandes corporações, evidenciando-se na maneira como estas tratam seus funcionários? A desumana e delirante ideologia nazista, que pregava a supremacia racial e a eliminação dos mais fracos seria muito diferente da igualmente desumana e delirante ideologia do lucro-a-qualquer-preço, que elimina todos aqueles considerados supérfluos a este objetivo? Se no nazismo a linguagem foi completamente subvertida, neutralizada para, de forma asséptica, tratar de assuntos inomináveis, o mesmo não ocorreria agora, quando, através de eufemismos e metáforas, ficam escamoteadas realidades como a miséria, o desemprego, o preconceito contra os imigrantes por parte das superpotências européias, a perseguição que lhes oferecem?

A superposição da ideologia nazista com a ideologia do lucro-a-qualquer-preço é mostrada por Klotz ao reproduzir nos subúrbios pobres da Paris de hoje - onde moram os imigrantes orientais, africanos, árabes, portugueses e espanhóis – as clássicas imagens de documentários sobre campos de extermínio e movimentações em massa de judeus forçadas pelos nazistas.

Simon teme estar perdendo sua sanidade mental ao ver tais cenas, pensa estar alucinando as situações do passado nazista. Mas, o que está ocorrendo é o oposto. Trata-se de sua percepção de uma realidade que até então lhe era inadvertida. Elas evidenciam sua conscientização da efetiva semelhança entre a ideologia à qual presta seus serviços e a dos nazistas.

Neste sentido, o filme faz uma grave critica ao chamado psicólogo industrial, que usaria de seus conhecimentos para manipular e condicionar os empregados aos objetivos da empresa. Seria o contrário dos objetivos da psicanálise, que visam ampliar o auto-conhecimento do sujeito pela integração dos aspectos até então inconscientes e reprimidos, o que lhe daria maior autonomia e melhores condições para enfrentar as tentativas exteriores de manipulação e controle.

1 comentário 14 de Julho de 2008 às 16:33 Sérgio Telles

JOGO SUBTERRÂNEO, de Roberto Gervitz (2005)

JOGO SUBTERRÂNEO, de Roberto Gervitz (2005)

Sérgio Telles

“Jogo Subterrâneo”, o belo filme de Roberto Gervitz, recebeu indicação para o prêmio de Melhor Filme nos Festivais de Cartagena e de Mannheim-Heildelberg e no Festival de Havana venceu nas categorias de Melhor Edição e Trilha Sonora.
Baseado no conto “Manuscrito encontrado em um bolso”, de Julio Cortazar, conta a história de Martin, um homem que procura a mulher de sua vida através de um complicado ritual por ele inventado. Graças a esta artimanha, Martin se envolve com algumas mulheres. Uma delas é Tânia, uma tatuadora mãe de uma filha autista. Outra é Laura, uma cega a quem relata os progressos de sua busca, embora tratando-a como parte das aventuras de um personagem sobre o qual estaria escrevendo. É quando aparece Ana, que o faz romper completamente com os rituais de seu jogo.
A conduta de Martin ilustra com propriedade vários aspectos do comportamento obsessivo. O obsessivo, fixado ou regredido à fase anal do desenvolvimento da libido, não elabora de forma adequada seu complexo de Édipo. Está mergulhado na relação com a mãe, a quem ama e odeia intensamente. Se durante a própria fase oral já intuira que ela não fazia com ele uma unidade indivisível, pois muitas vezes ela estava longe e não lhe proporcionava imediatas gratificações em termos de alimentação (não lhe dava o desejado seio) ou cuidados gerais (não trocava suas fraldas, deixando-a com fezes e urina irritantes para sua pele), esta intuição adquire uma nova intensidade, provocando-lhe um abalo definitivo, ao perceber que ela tem desejos opostos ao dele, impondo-lhe o controle dos esfíncteres, afrontando diretamente sua onipotência e ferindo-lhe o narcisismo.

O texto completo deste artigo está no livro “O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008.

1 comentário 2 de Junho de 2008 às 09:48 Sérgio Telles

Sobre A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS, de Isabel Coixet (2005)

Sobre A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS (La Vida Secreta de las Palabras), de Isabel Coixet (2005)

Sérgio Telles

O filme “A vida secreta das palavras” de Isabel Coixet apresenta uma densa trama emocional. Começa lentamente, seguindo a rotina insípida de Hanna, uma soturna operária de fábrica que usa aparelho para corrigir a surdez e que incomoda os colegas com seu isolamento. Um dia, Hanna é chamada pelo chefe e é por ele instada a tirar férias, o que ela não fazia há quatro anos. Ele lhe sugere uma praia tropical, com palmeiras. Hanna pergunta se seria obrigada a usar a piscina do hotel (depois entenderemos o irônico porquê de sua indagação) e escolhe uma praia chuvosa e fria para descansar, o contrário do sugerido pelo chefe. Ali, por acaso, toma conhecimento de que procuram uma enfermeira para cuidar de um homem que sofrera graves queimaduras num incêndio ocorrido numa plataforma de petróleo, situada em alto mar. Hanna se oferece para o cargo e é aceita. É a primeira de uma série de revelações sobre a vida de Hanna, até então restrita à sua pobre rotina na fábrica, cumprida com um comportamento quase autístico.
Hanna descobre que desde o acidente que provocara as queimaduras em Josef e a morte de um outro homem, a plataforma está desativada, ali restando apenas sete funcionários que aguardam a transferência para outros postos.

O texto completo deste artigo está no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Editora Casa do Psícólogo, São Paulo, 2008.

Adicionar comentário 2 de Maio de 2008 às 09:45 Sérgio Telles

Uma leitura analítica do filme “Lúcia e o Sexo” de Julio Medem (2001)

Uma leitura analítica do filme “Lúcia e o sexo”, de Julio Medem
Sérgio Telles

O filme “Lúcia e o sexo”, de Julio Medem (2001) tem uma estrutura narrativa não linear, na qual passado e presente se misturam, bem como a realidade e sua ficcionalização, pois o personagem principal é um escritor.
O expectador deve ficar atento para desembaraçar tal emaranhado, para encontrar a seqüência temporal dos acontecimentos e assim poder avaliar os atos e suas conseqüências, bem como discriminar o que é a realidade diegética e o que é fantasia e a criação literária.
Feito este trabalho, chegaria a algo próximo ao que passo a relatar.
Seis anos antes, numa bela noite de luar em uma ilha paradisíaca, o escritor Lorenzo, no dia de seu aniversário, faz sexo casual com uma desconhecida. A única informação que ela tem sobre ele é justamente que aquele é o dia de seu aniversario. Lourenço tampouco procura saber quem ela é, que engravida desta relação e passa a procurar o pai de sua filha.
Sem saber da existência desta filha, Lourenço leva sua vida de escritor. Produzira um livro de sucesso e seu agente o pressiona pelo novo livro, que ele sente dificuldades em terminar.
Estando num bar, é abordado por uma moça, Lúcia, garçonete de um restaurante, que se declara apaixonada por ele desde que lera seu livro, quando passara a segui-lo, o que fez com que conhecesse detalhes de sua vida. Impactado, Lourenço se deixa seduzir e inicia uma relação com Lúcia, vivendo um tórrido caso amoroso.
Lúcia diz que perdera os pais e o irmão num acidente automobilístico e fora criada por uma avó amorosa que cozinhava só para ela. Lourenço diz que muito pequeno fora abandonado pela mãe e que ele mesmo cozinhava para o pai, mas este fora assassinado com uma navalhada.

O texto completo deste artigo está no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008.

1 comentário 29 de Abril de 2008 às 16:56 Sérgio Telles

“Santiago” - de João Moreira Salles - uma meditação sobre a memória

“Santiago” de João Moreira Salles - uma meditação sobre a memória

Sérgio Telles

Recentemente, o filme “Santiago”, de João Moreira Salles foi adquirido pelo MOMA de Nova York, honra concedida a poucos, e ganhou mais um prêmio em Londres.

Aparentemente, “Santiago” é um documentário sobre o ex-mordomo dos Moreira Salles, um capricho de menino rico filmando um velho empregado.

Na verdade, “Santiago” é uma refinada meditação sobre o passado, e seu correlato, a memória, expressa quer seja nas lembranças afetivas pessoais, quer seja no registro formal dos documentos.

Em “Santiago”, o passado nos é apresentado em várias camadas superpostas – o passado de João Moreira Salles, tentando recordar a infância através do mordomo e suas lembranças; o passado pessoal do próprio Santiago, suas recordações sobre os parentes italianos e a imigração para a Argentina; o passado sedimentado na história de antigas dinastias e impérios que Santiago copia obsessivamente, tentando captar-lhes o sentido e o perdido esplendor. E há o passado recente do diretor, o intervalo de 11 anos entre as filmagens e a efetiva realização do filme, tempo que lhe possibilita uma reflexão sobre os objetivos que tinha na ocasião em que filmava e como os vê ao retomar os registros para finalizar a obra.

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O texto completo deste artigo está no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008.

3 comentários às 16:42 Sérgio Telles

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