Publicações arquivadas sob Psicanálise
Considerações em torno de A “BATEDORA” DE LACAN - Lembranças de uma estenotipista irritada, reflexões de uma psicanalista aflita - de Maria Pierrakos, Editora Perspectiva, 2005, tradução de Eva e Fábio Landa, 69 p.
Maria Pierrakos foi durante doze anos estenotipista oficial dos seminários de Lacan. Ocupava, pois, um lugar privilegiado como observadora da grande cena que então se dava. A presença do mestre, seus discípulos, a platéia. Posteriormente Maria Pierrakos fez sua formação psicanalítica e fundou, com outros analistas, o Collège International de Psychanalyse et Anthropologie.
Seu pequeno livro é um libelo contra o fanatismo religioso que se desenvolveu em torno da pessoa de Lacan, com efeitos extremamente prejudiciais na formação analítica, na clinica, na política institucional e suas lutas pelo poder. Anos depois de sua morte, essa situação persiste na posição militante agressiva da Escola da Causa Freudiana, liderada pelo genro de Lacan, Jacques Allan Miller.
Embora centrando suas baterias no fundamentalismo lacaniano, Pierrakos nos lembra como a prática analítica exige um comprometimento ético rigoroso, única coisa capaz de contrabalançar os perigos e facilitações inerentes à posição do psicanalista. É sempre necessário lembrar o poder que o analista tem advindo da transferência dos analisandos, que na situação analítica revivem o desamparo com suas angústias primárias, seus anseios de proteção, seu amor idealizado. O narcisismo e a pulsão de dominação, a megalomania e o sadismo, a onipotência do analista estão todos permanentemente mobilizados pela situação transferencial, e ele não pode se entregar ao gozo que lhe é aí oferecido. Eticamente deve lembrar do sofrimento que ali trouxe o analisando e mobilizar sua capacidade reparadora para ajudá-lo a libertar-se da anacrônica fantasmagoria infantil da qual é prisioneiro.
Ao falar do fanatismo religioso despertado por Lacan e mantido até hoje por seus discípulos, Pierrakos nos faz lembrar da maneira como Freud interpretou o sentimento religioso e sua extraordinária força na humanidade.
O anseio pelo infinito, o desejo de Deus é entendido por Freud como decorrente da vivência de desamparo experimentado pela criança ao ter que romper sua relação fusional com a toda-poderosa mãe. Seu desvalimento, sua fragilidade frente às intempéries do mundo fazem-na desejar restabelecer a fusão com um ser maior, que a abrigue e a proteja, que a garanta contra os perigos que tem de arrostar. Num desdobramento, a criança vai almejar a proteção de um pai forte, a quem prestará obediência e respeito.
Essa estrutura psíquica faz com que qualquer atividade grupal humana possa adquirir uma conotação religiosa. A necessidade infantil de proteção e garantia contra os perigos inevitáveis da vida fazem com que se escolham textos que passam a ser vistos como “sagrados”, elegem-se pessoas que são idealizadas (”santos” e “deuses”) e às quais se prestam homenagens e obrigações, recebendo-se em troca proteção e a garantia de fazer parte de um todo maior e mais forte, que afaste a solidão e o isolamento.
Por alimentar um desejo tão arcaico infantil, a religião pode ter efeitos extremamente perniciosos, impossibilitando os seres humanos de usarem seus recursos intelectuais criativos e inventivos na produção de uma vida autônoma e responsável.
Muitos consideram a religião como uma das grandes aquisições da humanidade e acham impensável qualquer proposta de superá-la ou torná-la desnecessária. Acreditam que ela é um dos fundamentos do laço social e que sua abolição implicaria no estabelecimento da barbárie, da selvageria mais desenfreada.
Penso que tal opinião advém de uma confusão entre religião e ética, confusão compreensível pois, milenarmente, a religião tem sido a depositária dos valores éticos e morais. A própria origem da ética tem sido atribuída às divindades, que teriam estabelecido inquestionáveis definições do certo e do errado, do bem e do mal. Assim atestam as antigas imagens que mostram Hamurabi recebendo da mão de Deus o código que veio a receber seu nome, um dos mais antigos da humanidade. Da mesma forma, temos notícia de que Moisés recebeu de Deus as tábuas com os dez mandamentos.
Essa confusão entre religião e ética faz com que a grande sabedoria coletada nos livros sagrados de todas as religiões não seja reconhecida como um acervo humano, o testemunho da aventura do homem no tempo e o registro das formas como resolveu seus conflitos internos e com o outro.
Com a progressiva laicização da cultura, tem sido possível discriminar melhor esses dois campos, a religião e a ética, desfazendo uma visão totalizadora desta última. Filósofos, como Nietzche, têm desenvolvido o tema. Estudos transculturais mostram a extrema variedade do que é considerado certo e errado em culturas diferentes. Estudos com grupos de primatas evidenciam esboços do que, posteriormente, chamaríamos de ética e moral - os comportamentos baseados na reciprocidade e no parentesco. “Você tira meu piolho, que eu tiro o seu” - diria um primata para um outro. Se o que foi cuidado não age de forma recíproca, fica discriminado pelo grupo como um aproveitador. Ele não agiu “certo”, agiu “errado”.
Quem sabe, no futuro, estando a humanidade menos infantil e dependente, vamos reconhecer que devemos fazer o bem e evitar o mal não porque “papai do céu” vai nos castigar com o inferno se assim não o fizermos, e sim porque devemos respeitar nosso semelhante, o outro, e, reciprocamente, ser por ele respeitado.
Psicanaliticamente podemos dizer que os valores éticos se baseiam no abandono do narcisismo e na aceitação da radical alteridade do outro, no reconhecimento e acolhimento do diferente.
O contraste entre ética e religião, ou seja, a visão laica do homem oposta a uma visão religiosa, fica especialmente transparente em problemas como controle de natalidade, aborto e eutanásia. Abstraindo uma infinidade de problemas de ordem prática referentes à efetiva aplicação desses conceitos na realidade, é importante sublinhar a diferença conceitual das duas posições. A postulação laica diz que é um direito o homem poder escolher dar continuidade ou não à vida em determinadas situações desesperadoras, bem como planejar sua prole, através do controle da natalidade ou de um eventual aborto. A visão religiosa, por considerar a “santidade” da vida decorrente da existência de uma alma, considera que cabe exclusivamente a Deus dar e tirar a vida.
Frente a posição religiosa que defende a “santidade” da vida, uma visão mais laica propõe o que recebeu o nome de “bioética”, exatamente o estudo das implicações éticas das decisões que envolvem o aparecimento e o final da vida, englobando todo o leque de novas situações criadas pela tecnociência atual - inseminação artificial, “barriga de aluguel”, congelamento de esperma e óvulos, paternidade e maternidade de parceiros homossexuais, etc.
A bioética permite transformar em questões humanitárias o que antes era tido como questões religiosas, algo da ordem do sagrado.
As conseqüências disso são enormes, como todos sabem. Nos países do terceiro mundo, o planejamento familiar traria enormes benefícios econômicos e sociais. Em todo o mundo, a eutanásia aliviaria o sofrimento inútil de muitos pacientes e seus familiares.
Quanto ao aborto, a mesma coisa. Aliás, há um dado muito curioso, estabelecido por Steven Levitt, o jovem e original economista norte-americano ganhador de merecidos prêmios. Em 1999, ao perceber que nos Estados Unidos as taxas de criminalidade tinham caído radicalmente na década anterior, procurou entender seus motivos. Ficou surpreso ao notar que a criminalidade começara a cair em todos os estados dezoito anos depois de ter sido efetivada pela Suprema Corte a legalização do aborto. Ficou ainda mais surpreso pelo fato de que em cinco estados a criminalidade começara a cair três anos mais cedo do que nos demais. Eram exatamente aqueles que haviam legalizado o aborto três anos antes da federalização da decisão. Sua hipótese - o aborto evitou o nascimento de filhos não desejados pelos pais, que se tivessem vivido teriam sofrido abandono e traumas que os levariam à criminalidade. Embora não seja possível afirmar conclusivamente sua correção, não podemos negar que essa hipótese faz muito sentido.
Publicado originalmente em Psychiatry on line – Brazil, Abril de 2005 - Vol.10 - Nº 4, Psicanálise em debate [link]
26 de Abril de 2005 às 18:13
Sérgio Telles
Resenha do livro FREUD E A CULTURA de Betty B. Fuks - Jorge Zahar Editor - Rio de Janeiro - 2003 - 74 p.
O livro de Betty Fuks lembra o conhecido adágio de que nos pequenos frascos estão grandes perfumes: numa coleção dirigida ao grande público, como é o caso da “Passo a Passo” da Zahar, e em apenas enxutas 74 páginas a autora consegue a proeza de expor de forma clara e acessível as reflexões psicanalíticas de Freud em torno da política e dos fenômenos culturais.
Essa faceta da produção freudiana era vista, há não muito tempo, com reservas tanto por uma esquerda que se guiava exclusivamente pela dimensão econômica na análise do social, como pela direita, representada por alas do proprio movimento psicanalítico que advogavam (ou ainda advogam) que as descobertas de Freud sobre o inconsciente só podem ser aferidas no espaço privado da clínica e centrada na transferência desenvolvida naquelas circunstâncias. Para estes, o que não se enquadra nesse modelo é pejorativamente chamado de `análise aplicada’ - algo que se olha de nariz torcido e com ar de desaprovação.
Como mostra Betty Fuks, nada mais distante do pensamento do próprio Freud, que rompe com a clássica distinção entre psicologias individual e coletiva por entender que o inconsciente, enquanto dimensão do psiquismo, necessariamente se evidencia em todas as organizações e fenômenos sociais humanos. Isto faz com que, no exercício de sua função, o analista possa e deva ocupar também o lugar de crítico da cultura.
Betty Fuks mostra como, para Freud, a cultura humana nasce do encontro entre “a interioridade de uma situação individual - manifesta nos impulsos que vêm desde dentro do sujeito - e a exterioridade de um código universal, subjascente aos processos de subjetivação e aos regulamentos das ações do sujeito com o outro” (p.10).
A importância do social, do outro, na constituição do sujeito aparece muito cedo em Freud. Já no “Projeto” (1895), postula o “complexo do próximo” como o responsável pela emergência da condição humana, que se instala ao estabelecer o recém-nascido seu primeiro vínculo social com o ser humano próximo (Nebenmensch), aquele outro que acolhe seu grito de desamparo (Hilflosichkeit), respondendo-o com a satisfação de suas necessidades mas também introduzindo-o no universo simbólico da linguagem.
É significativo que Freud chame essa ajuda inicial que possibilita a vida do recém-nascido e lhe dá ingresso ao mundo dos homens como “ajuda estrangeira”.
É estruturalmente conflitiva a relação entre o sujeito e a cultura, pois esta se impõe dentro de um paradoxo - ao mesmo tempo que acolhe o desejo do sujeito, estabelece limites e impedimentos, impõe a Lei, organiza a repressão em nome de uma vida em sociedade. Exige a sublimação das pulsões, que possibilita sua transformação em bens socialmente valorizados, como a arte e ciência.
Betty Fuks sublinha como as elaborações freudianas sobre a realidade social decorrem de suas descobertas na clínica. Não se trata de uma simples transposição desses conceitos de um campo para o outro e sim o reconhecimento de uma realidade psíquica que se evidencia igualmente em ambos os lugares.
São as mesmas descobertas clínicas fundamentais - desde o desamparo (Hilfosichkeit) original, que engendra inicialmente as fantasias narcisicas de fusão com a mãe e, posteriormente, o desejo de proteção do pai poderoso, até o mito de Édipo, que dá origem aos complexos de Édipo e de castração, estruturas pelas quais circulam as pulsões eróticas e tanáticas - as que vamos reencontrar na atenta leitura que Freud faz do social.
O desamparo (Hilflosichkeit) e o complexo de Édipo estão na base de todas organizações sociais humanas. Vamos revê-las, por exemplo, no mito da horda primitiva. O assassinato do pai e a culpa daí decorrente é o que permite a identificação com sua figura e a internalização da sua Lei, possibilitadora da proscrição do absolutismo no poder e dos assassinatos.
Essa mesma estrutura é revista na gênese de uma força social cujo importância em nossa história não pode ser diminuída - a religião. Freud, como iluminista que lutava contra o obscurantismo e a ignorância, inicialmente a combateu como a “neurose obsessiva da humanidade”, como um “delírio socialmente compartilhado”, expondo seus aspectos infantilizantes e alienadores assentados na exploração dos mais arcaicos desejos de proteção e amor paterno.
Como explica Betty Fuks, Freud altera um pouco esta postura no final de sua vida. Em “Moisés e o monoteísmo”, ele aponta um lado positivo da religião, reconhecendo-lhe um papel de laço social e entendendo “Deus” como um significante que veicula valores éticos de respeito e amor ao próximo.
As questões ligadas a identificação, ao superego, ao ideal de ego alicerçam a visão freudiana a respeito da psicologia das massas e do papel do líder político.
Narcisismo e pulsão de morte, por sua vez, constituem a base das especulações freudianas sobre a guerra e a violência.
A ferida narcísica decorrente do rompimento da idealizada fusão com a mãe, momento primeiro onde se estabelece a divisão entre o eu e o outro, é atualizada com a constatação das diferenças anatômicas entre os sexos. Configura-se então o sexo feminino como um representante do estranho, do outro, do diferente. Por aí se entende a misoginia, o machismo, os preconceitos contra a mulher e o judeu.
No interessante capítulo “Viena e suas figuras de alteridade”, Betty Fuks vincula essas descobertas freudianas a fatos ocorridos naquela cidade no final do século XIX, quando a mulher era demonizada e o judeu desprezado por serem, no imaginário coletivo, figuras representantes da castração.
Na análise do anti-semitismo, Betty Fuks descreve um outro poderoso motivo que explica como o judeu foi colocado como a quintessência do outro a ser eliminado em sua estranheza inquietante. Refere-se a forma como a religião judaica propõe a idéia de um Deus completamente desmaterializado, inacessível e incompreensível. Dele não se pode construir imagens, sequer pronunciar o nome. É um Deus distante de qualquer familiaridade humana. É o Outro por excelência.
Diz ela: “Freud considerou que essa concepção de um Deus cuja presença se define pela ausência é uma ética de superação das idolatrias. Evidentemente, nada poderia haver de mais insuportável para a economia psíquica da multidão estruturada em torno de um líder carismático, do sentido da imagem e da presença figurada, do que a idéia de uma alteridade sem conteúdo, sem nome, sem essência, transparente como o ar do deserto. Presença do irrepresentável. Uma reflexão imediata nos faz concordar com as idéias do teórico da cultura George Sterner, em suas notas para redefinição de cultura, de que o estranho e compulsivo caráter da massa acabou por alimentar ódios profundos contra aqueles que introduziram o escândalo da alteridade radical, de uma ausência sem limite de tempo, de ontem, de hoje, de sempre”.
A intolerância ao outro, enquanto radical alteridade, leva ao desejo de exterminá-lo, pois sua simples existência questiona o narcisismo que, em seu totalitarismo, não admite diferenças. Esse tipo de atitude leva a situações extremas como o Holocausto, mas está na origem das guerras, das grandes destruições em massa, dos fundamentalismos.
No momento em que vivemos, nada mais apropriado do que o estudo e a reflexão dessas fecundas idéias freudianas. Elas recolocam a psicanálise na polis, participando do incessante debate público que ali se desenrola e fornecendo a ele seus esclarecedores aportes.
Betty Fuks termina seu livro falando da paz, da responsabilidade e da ética, metas ideais só exeqüíveis a partir da compreensão dos mecanismos psíquicos infantis e inconscientes, lá onde mora a loucura dos homens.
Publicado originalmente em Psychiatry on line – Brazil, Janeiro de 2005 - Vol.10 - Nº 1, Psicanálise em debate [link]. Publicada também na revista PERCURSO - Nº 33 - ano XVII - 2º. Semestre de 2004
26 de Janeiro de 2005 às 13:55
Sérgio Telles
Resenha de A CAUSA DOS ADOLESCENTES de Françoise Dolto - Idéias e Letras - Editora Santuário - Aparecida do Norte - 2004
Na França, Françoise Dolto - falecida aos 80 há 16 anos - transformou-se paulatinamente numa legenda nacional.
Nome de rua numa cidade da Bretanha, teve cinqüenta escolas maternais batizadas em sua homenagem e regidas por seus princípios - as “maisons vertes”. Uma medalha com sua efígie foi cunhada pela Casa da Moeda francesa em 1990. Fenômeno editorial, seus dois livros póstumos foram grandes best-sellers: “Auto-portrait d´une Psychanalyste” vendeu 80 mil exemplares em dois meses, “Paroles pour l´Adolescent” vendeu 130 mil. Alguns de seus livros anteriores, como “La Cause des Enfants” vendeu também 130 mil exemplares e “Lorsque l´Enfant paraît”, 300 mil. Influenciou diretamente as reformulações em andamento das leis francesas referentes aos direitos das crianças e adolescentes, bem como na revisão do Estatuto da Criança da UNESCO.
Uma longa matéria de capa, que trazia também uma entrevista sua até então inédita, foi publicada na prestigiosa revista semanal francesa L`Express em janeiro de 1990.
De fato, esta analista muito fez pela aplicação da psicanálise na criação e educação das crianças, enfatizando a responsabilidade e os deveres dos pais, ao invés de reforçar sua autoridade tida como inquestionável.
Dolto, personalidade polêmica, defendia algumas idéias controvertidas, como a suposta capacidade de entendimento de bebês recém-nascidos, com quem costumava falar. Levava, assim, às últimas conseqüências o fato de sermos seres culturais, seres da linguagem. Como diz L´Express, tais idéias geraram certo afastamento inicial e crítica dos colegas, atitude essa posteriormente superada. Ao lado de seu nunca negado gênio clínico, Dolto é reconhecida, junto com Lacan, ocupando um lugar excepcional na psicanálise francesa..
Este seu livro agora relançado aqui - A CAUSA DOS ADOLESCENTES - Editora Santuário - , cujo manuscrito Dolto corrigiu poucos dias antes de morrer, foi produzido na esteira do grande impacto pedagógico e educativo causado pela “Cause des Enfants”.
Com sua sensibilidade habitual, sua capacidade de compreensão, Dolto enfoca temas importantes deste período tumultuado que é o da adolescência, vista aqui como uma passagem, uma morte para a infância e um renascimento na vida adulta.
A partir de mitos, dos arquétipos da juventude; da presença dos jovens nas artes, na literatura; dos estudos dos heróis e modelos dos jovens; dos sonhos de eterna juventude da humanidade, Dolto chega aos mais pungentes problemas que atingem esta faixa etária: suicídios, fugas, condutas delinqüenciais, uso de drogas, fracasso escolar, o efeito de lares desfeitos, os comportamentos amorosos.
Dolto discorre sobre as dificuldades do adolescente em falar de sua própria confusão, dividido entre os desejos de crescer e de permanecer criança, vivenciando esta transição como uma morte, já que - de certa forma - tem que morrer como criança , tem de abrir mão das prerrogativas e vantagens desta condição, num momento em que a vida adulta é vista, muitas vezes, como um desafio acima de suas próprias forças, quando não são visíveis ainda as benesses e aquisições deste novo estado. Nesse conflito, Dolto situa a importância das idéias suicidas, tão freqüentes nesta época.
Tal confusão é compartilhada pelos pais, atrapalhados pela revivescência de suas próprias adolescências, entrando em inveja e competição com os filhos, transformando-se também em adolescentes, abandonando o lugar que deveriam ocupar, tão necessário nesta ocasião, de modelos e representantes da Lei. Os pais agem com excessiva indulgência ou exagerado autoritarismo repressor.
Em ambos os casos, está em jogo o fazer o luto pelo filho pequeno que cresce, que não é mais “seu”, que não é mais dos pais, que têm de perdê-lo para o mundo, têm que deixa-lo soltar as amarras e navegar em sua própria rota. Os pais se defrontam com a sucessão das gerações, têm que aceitar o prenúncio do próprio envelhecimento, do tempo que passa, da morte.
Neste livro, Dolto usa com parcimônia seus exemplos clínicos, abundantes em outros livros e tão elucidativos e esclarecedores para os pais - que são o maior alvo deste livro -, assim como para os profissionais da área. Isso não diminui a utilidade do livro, que fornece uma grande massa de informações em seu texto e nos sete anexos com abundante bibliografia sobre os assuntos abordados.
Uma observação inevitável: no correr do livro, vamos vendo, mais uma vez, a distância enorme entre os recursos públicos (escola, saúde, assistência social, etc.) da França no trato da criança e do adolescente, quando comparada com nosso país, com nossa infância abandonada, nossos trombadinhas, nossos Pixotes no irreversível caminho da delinqüência, da perversão, da loucura, toda uma geração de futuros adultos mentalmente incapacitados para o amor, para o trabalho, para a vida.
Publicado originalmente em Psychiatry on line – Brazil, Setembro de 2004 - Vol.9 - Nº 9, Psicanálise em debate [link].
27 de Setembro de 2004 às 22:51
Sérgio Telles
Resenha de “De Que amanhã…” Diálogos de Jacques Derrida e Elizabeth Roudinesco - Jorrge Zahar Editor - Rio de Janeiro - 2004 - 240p.
Amigos de longa data, a psicanalista Elizabeth Roudinesco e o filósofo Jacques Derrida dialogam neste livro sobre a modernidade e refletem sobre o futuro, tendo como mote um verso de Victor Hugo: “De que amanhã se trata?”.
Pelo visto, um amanhã que já se desenha agora, no desdobramento das questões que Derrida e Roudinesco esmiúçam com grande acuidade, num esforço iluminista de afastar o obscurantismo e propagar conhecimento.
Um dos pontos de maior comunhão entre os dois autores é o apaixonado amor pela psicanálise, que os leva a preconizar a necessidade inadiável de que o saber psicanalítico, “sem álibi teológico ou metafísico”, seja absorvido pelos discursos ético, jurídico e político. Ambos se preocupam com a natureza das instituições psicanalíticas, fato que os levou a criarem, com René Major, o movimentos dos Estados Gerais da Psicanálise (www.estadosgerais.org).
Como é sabido, o próprio procedimento de “desconstrução”, pelo qual Derrida ficou famoso, apóia-se fortemente nas descobertas freudianas. As desconstruções realizadas nesse diálogo remetem, de certa forma, ao clássico freudiano “O Mal-estar na Cultura”.
A história da humanidade é uma tumultuada alternância entre civilização e barbárie, na qual tem sido necessário uma permanente vigilância para que a primeira não seja destruída pela segunda.
Essa visão corrente necessita correções, como mostrou Freud. A maior delas é o reconhecer que a oposição civilização-barbárie não marca campos completamente heterogêneos, pois a barbárie esta inserida no próprio cerne da civilização; estruturas simbólicas consideradas baluartes da civilização estão assentadas na mais pura barbárie. O conflito entre pulsão e repressão é constitutivo da civilização e a força da pulsão de morte não deve ser jamais ignorada.
Isso fica claro na desconstrução que Derrida faz da pena de morte. Descobrimos com ele que a organização do estado e o sistema jurídico - evidentes expressões de civilização - têm como pedra angular a pena de morte e que ela, por sua vez, se apóia em arcaicos e bárbaras idéias de sacrifício sangrento humano. O conceito de pena de morte está ligado à questão do poder de Estado, de sua soberania (o direito à exceção, direito de exercer a crueldade) e suas relações com a religião.
Ampliando a desconstrução, Derrida analisa a íntima relação existente entre a pena de morte e a Igreja Católica, que nunca se manifestou contra tal procedimento, fato curioso dado sua pregação centrada no perdão, no `amai o próximo como a ti mesmo’. Algo semelhante ocorre com a posição da filosofia, que - com raras exceções - silencia a respeito da pena capital. Aos muitos problemas filosóficos aí envolvidos (pena interna ou externa; auto-punição e hetero-punição; a interpretação kantiana da lei de talião; as questões da paz, da guerra e do perdão) Derrida acrescenta a descoberta psicanalítica de que o sentimento inconsciente de culpa precede o crime, o que coloca tudo isso sob nova perspectiva, possibilitando a idéia de que - no futuro - o mal seja considerado uma doença, como foi expresso por Reik e endossado pelo próprio Freud.
Citei com algum detalhe as considerações de Derrida e Roudinesco sobre a pena de morte, mas a mesma complexidade e beleza expositiva é encontrada nos demais temas abordados - a liberdade e a fundamental importância do encontro com o outro, as políticas das minorias, a violência contra os animais, o retorno do anti-semitismo e as mudanças na constituição da família possibilitadas pela técno-ciência.
Por fim, Derrida propõe a necessidade de elaborar o luto pela Revolução tal como a entendíamos, para que possamos resgatar seu Espírito na construção de uma nova Internacional, na qual as noções de “programa” e “política”, devidamente desconstruídas, possibilitariam a criação de direitos humanos além da “cidadania”, por colocarem em jogo uma extraterritorialidade e um abandono do estado como referência.
Aí então seria possível um novo “amanhã”.
Publicado originalmente em Psychiatry on line – Brazil, Março de 2004 - Vol.9 - Nº 3, Psicanálise em debate [link]. Publicada também no suplemento MAIS! do jornal “Folha de São Paulo” em 07/03/04.
27 de Março de 2004 às 16:51
Sérgio Telles
Resenha do livro FAMILIA Y PSICOANÁLISIS EN LA ARGENTINA - Apuntes para una historia conceptual - Juan Carlos Nocetti - Editorial Biblos - Buenos Aires - 2002 - 1ª edicción
Muitos, entre os quais me incluo, pensam que a família precisa ser incluída no campo da psicanálise. Essa afirmação pode parecer redundante para alguns. Afinal, na medida em que o complexo de Édipo é o objeto de central interesse para os analistas, não está nele implicada automaticamente a família? O complexo de Édipo não coloca em jogo as relações do analisando com seu pai e sua mãe, dando a essas relações um peso especial, ao atribuir-lhe uma função instituinte e estruturante do próprio psiquismo?
É verdade o acima postulado. Entretanto, a família entrevista pelo complexo de édipo é aquela internalizada pelo analisando, vista sob o prisma de seu desejo condicionado pelas pressões de suas pulsões.
Isso significa que a família entrevista pelo analista no encontro analítico é uma família fantasmática: representada, simbolizada, denegrida, idealizada, distorcida ao sabor dos afetos de seu analisando.
A importância da família, de certa forma, é uma velha questão para a psicanálise. Como sabemos, as primeiras pacientes histéricas de Freud acusavam seus pais, ou parentes próximos, de abuso sexual. Freud pensou que essa experiência constituía o `trauma’ gerador de seus conflitos e sintomas. Depois de um certo tempo, ele constatou que essas queixas não correspondiam necessariamente a fatos ocorridos na realidade. Eles eram produto da fantasia, do desejo inconsciente daquelas pessoas. Eles se constituiam numa `realidade psíquica’ a ser diferenciada de uma `realidade factual’.
Ao fazer essa distinção, Freud deu origem ao campo da psicanálise. Descobria o inconsciente e todas suas surpreendentes características, assim como sua íntima vinculação com a sexualidade.
Muitos de seus modernos detratores o acusam de ter - neste exato momento constitutivo e inaugural da psicanálise - negado a realidade explosiva do abuso sexual infantil pelos pais, criando uma teoria na qual essa realidade era transformada numa mera fantasia. Ainda para aqueles detratores, dessa maneira Freud teria barganhado oportunisticamente com o `establishment’ mantendo hipocritamente um véu sobre uma realidade que não poderia ser desvendada1.
Que esses detratores estavam equivocados foi demonstrado por fatos recentes. Nos anos 80 e início dos anos 90 os Estados Unidos foram varridos por uma onda de `recuperação de memórias reprimidas’, quando milhares de pacientes passaram a acusar seus pais de abuso sexual. Os desavisados terapeutas endossaram as acusações fantasiosas de seus pacientes e, levando ainda mais longe seus equívocos, denunciaram tais supostos abusos às autoridades legais, criando situações gravíssimas.
Mas é preciso dizer que essa distinção entre `realidade psíquica’ e `realidade fatual’ é um problema delicado e permaneceu sempre como uma questão presente e complexa para Freud e para a psicanálise.
Hoje o analista sabe que se posiciona no meio de um espectro de possibilidades onde, numa ponta, pode estar um paciente que se nega a ver a loucura de sua própria família, mantendo rigidamente uma idealização da mesma; na outra está o paciente que agride e denigre uma família que o analista percebe não ser tão má quanto o paciente a vê.
Muitas vezes o analista não pode deixar de reconhecer, através do que ouve, o quão doentio e sofredor é o meio de onde seu paciente provém.
Isso nos faz pensar sobre a pertinência e a necessidade de ampliar o campo terapeutico da psicanálise para incluir o grupo familiar.
Essa abertura do campo implica em sérias alterações na teoria e na técnica psicanalíticas. Por esse motivo, poucos se atrevem a propô-la e a se desencubir das tarefas pesadas que tal empreendimento implica.
Felizmente a resistência maior frente a essa ampliação parece ceder e vários trabalhos tem aparecido nas últimas duas décadas.
Um deles é esse interessante livro de Juan Carlos Nocetti, o “Familia y Psicanalisis en la Argentina - Apuntes para una história conceptual”, recentemente publicado.
Como o título já o indica, trata-se do registro histórico do percurso traçado pela idéia de uma psicanálise de família dentro das instituições psicanalíticas argentinas. Esse enfoque poderia parecer estreito demais, diminuindo o interêsse dos leitores distantes da realidade daquele país vizinho. Mas tal perigo é afastado na medida em que o autor se propõe a fazer uma história “conceitual”, mostrando a evoluções das idéias derivados da psicanálise e de ciências afins (antropologia, sociologia, cibernética, etc) que possibilitam e armam um arcabouço teórico capaz de sustentar a postulação de uma psicanálise de família.
Nocetti considera que a questão da terapia de família teve dois momentos decisivos na Argentina. O primeiro aconteceu em 1970, quando se deu o Primeiro Congresso de Patologia e Terapeutica do Grupo Familiar, e o segundo, em 1987, quando se realizou o Primeiro Congresso de Psicanálise de Família e de Casal. A nomenclatura assumida nos dois eventos dá conta da mudança de idéias ocorrida entre eles dois.
Traçando um panorama mais amplo, Nocetti retrocede até Pinel, que ao quebrar os grilhões que prendiam os loucos e ao se propor escutar e entender o discurso por eles produzido, iniciou uma nova forma de abordar essa dimensão do sofrimento humano. A loucura passa a ser tratada inicialmente de forma individual. Aos poucos se instalou uma mudança nessa perspectiva - abandonou-se o indivíduo como unidade diagnóstica e terapêutica e viu-se a possibilidade de centrar a atenção no casal e, posteriormente, na família.
Nocetti julga que essa mudança deve-se a três importantes causas - a experiência acumulada durante a Primeira Guerra Mundial (quando ficou clara a importância decisiva dos fatores sociais na produção dos transtornos mentais); os desenvolvimentos das novas ciências durante a segunda metade do Século XIX (a criação dos conceitos de “campo”, “Gestalt”, o questionamento da neutralidade do observador, etc) e a crise da psiquiatria do final do Século XIX (a disputa entre `organicistas’ e `psicologistas’ cede com a preponderância dos primeiros, cujos excessos levam à formação, em 1930, da Liga Internacional de Higiene Mental, visando a recuperação e a reintegração dos doentes mentais à sociedade, e fica possível o retorno dos `psicologistas’, Freud entre eles).
Ainda como antecedentes dos atuais estudos psicanalíticos da família, Nocetti lembra que, a partir dos ano 40, foram produzidos vários trabalhos que mostravam a relação da familia com a esquizofrenia e a psicose infantil, como os de Frieda Fromm-Reichmann (que criou o conceito de `mãe esquizofrenogênica’), John Rosen (conceito de `mãe perversa’), Leo Kanner e Margareth Maller (conceito de `relação simbiótica’ entre mãe e filho). Esses primeiros trabalhos paradoxalmente voltavam a enfocar a patologia de forma individual, só que, agora, centrada na mãe. Os estudos atuais mostram como a patologia envolve toda a família e não só a mãe e um dos filhos. Quanto à abordagem psicanalítica dos grupos, é necessário lembrar que, a partir de 1932 a Tavistock Clinic passa a estudá-los com finalidades terapêuticas. A terapia de grupo teve um grande desenvolvimento na Argentina a partir dos anos 50, devido ao trabalho pioneiro de Pichon Rivière e dos analistas que estudaram na Tavistock Clinic, como Emilio Rodrigué. Uma outra referência teórica importante citada por Nocetti é o estruturalismo francês, especialmente a obra de Claude Levi-Strauss, com seus estudos antropológicos sobre as estruturas elementares de parentesco.
São essas as matrizes que possibilitaram, na Argentina, o aprofundamento dos estudos referentes ao `grupo familiar’ e posteriormente, a postulação de uma psicanálise de família. Formam o pano de fundo dos dois momentos especiais referidos por Nocetti.
Em sua opinião, no congresso de 1970, três trabalhos sintetizam as principais propostas ali desenvolvidas. O primeiro, “Família y estructura familiar” de Isidoro Berenstein rompe com o modelo “tradicional” proposto por Pichon Rivière e se apóia fortemente em Levi-Strauss, criando um modelo “psicanalítico-estrutural”, no qual joga papel importante a relação avuncular. O segundo, “Terapia Familiar, un cambio radical”, de Jay Haley, abandona totalmente as referências psicanalíticas e usa os aportes fornecidos pelas teorias dos sistemas, dos jogos, dos tipos lógicos e críticas ao condutivismo social de Watson. Um conceito operacional chave desse enfoque é o “duplo vínculo”, produzido nos anos 60 pela Escola de Palo Alto. Para esse enfoque não interessa o passado e a história da família e sim a forma como ela interage no momento. É , pois, uma abordagem “sistêmica” e “interacional”. O terceiro, “Una teoria del abordaje de la prevención en el grupo familiar” de Pichón Rivière é o mais “tradicional” dentro da perspectiva argentina, na medida em que expressa o pensamento de Pichon Rivière, um veterano praticante das terapias de grupo, que propõe um modelo de abordagem da familia decorrente de uma síntese pessoal de contribuições vindas de diversas áreas científicas com a teoria psicanalítica clássica e as novidades kleinianas de então.
Desse momento inaugural em 1970, desabrochou o evento de 1987, onde a abordagem psicanalítica da família é assumida de forma mais clara, tendo sido o evento patrocinado pelas diversas associações psicanalíticas da Argentina.
Neste encontro, configuram-se os três modelos básicos já esboçados no congresso anterior. São eles o sistêmico, o analítico e o estrutural. Evidencia-se ainda tentativas de articulações entre estes três modelos de modo que Nocetti termina por agrupar os trabalhos desse congresso em cinco modelos ou posturas.
São:
- o modelo sistêmico-interacional, que ignora qualquer aspecto histórico, centrando-se na interação atual da família nuclear; ali procura discriminar suas funções (matrimonial, filial e fraterna), considerando que, sob o influxo de fatores histórico-sociais, tais funções se organizam em sistemas e sub-sistemas que interagem entre si;
- o modelo sistêmico-relacional, acrescenta ao modelo anterior a dimensão histórica; desta forma, articula os aspectos sistêmicos com as premissas básicas de cunho dinâmico e relacionais próprias da psicanálise, tal como descritas no complexo de édipo;
- o modelo vincular, é o modelo mais exclusivamente psicanalítico; parte ele também da família nuclear, que se inicia com a escolha de objeto decorrente dos desdobramentos identificatórios e estruturantes do complexo de édipo e entende as relações familiares como uma trama complexa inconsciente. O complexo de édipo aparece não só como constituinte do aparelho psíquico como também constituinte do casal. Há uma modificação no modelo clássico do complexo de édipo, na medida em que se propõe uma reciprocidade e interação nas relações triangulares. Não só se leva em conta a ambivalência do filho em relação aos pais como também a ambivalência deles entre si e o efeito disso sobre o filho, ou ainda a ambivalência de uma dupla sobre um terceiro excluído, que pode ser ou não o filho.
- o modelo estrutural-vincular - articula o complexo de édipo com a estrutura elementar de parentesco, conceito de Levi-Strauss. Para tanto, faz duas alterações nas teorias originais, a psicanalítica e a estrutural - na primeira, incluindo o vínculo com a família materna (tio avuncular), criando assim um quarto termo e configurando um complexo de édipo ampliado; na segunda, ao estender a estrutura elementar de parentesco para abarcar o vínculo com o representante da família paterna, cunhando o termo `pai maternalizado’.
- o modelo estrutural - visto a partir da estrutura elementar de parentesco - considerada como a formalização da proibição do incesto - o complexo de édipo passa a ser um efeito dessa proibição sobre o modo de constituição de um sujeito; a estrutura elementar das relações familiares - que faz da família nuclear um modelo imaginário - dispõe os elementos que conduzirão o sujeito de seu lugar na natureza à ordem da cultura.
Como Nocetti - psicanalista autor de vários trabalhos sobre o tema e personagem importante na história que relata - deixa claro desde o início, esse é o histórico percorrido na Argentina pelo conceito de psicanálise de família.
Outros trajetos podem ser traçados. Por exemplo, Ferenczi insistiu em privilegiar o trauma como decorrente de uma realidade factual, a contrapelo da corrente maior do pensamento psicanalítico. Essa postura permite observar a família não apenas como receptores projetivos da fantasia do paciente mas como um grupo com dificuldades variadas em interação e com algo potencial patógeno para todos os seus membros. Essa linha de pensamento se desdobra em Balint na Inglaterra, em Abraham e Torok na França e é retomada por Kaës2, em seus trabalhos sobre o transgeracional.
Podemos observar como o traço que une esses enfoques familiares é a ampliação do complexo de édipo. Tal abertura questiona a possibilidade de conceber a família apenas em sua modalidade nuclear, que é considerada pelo modelo estrutural - como acabamos de ver - como uma formação meramente imaginária.
Penso que a ampliação do complexo de édipo e a reciprocidade - idéias defendidas pelo modelo vincular e que são alterações teórico-técnicas necessárias para o exercício da psicanálise de família - podem ter decisivo uso nas psicanálises individuais. Penso ainda que as contribuições de Lacan, ao mostrarem a constituição do sujeito como uma alienação no desejo do Outro, permitiram focalizar melhor a importância do inconsciente paterno-materno na constituição do aparelho psíquico da criança abrindo espaço para a compreensão analítica da família, muito embora ele mesmo não avance até esse ponto. Da mesma forma, os trabalhos de Laplanche, com os conceitos de metábole, significantes enigmáticos caminham nesta direção e também não avançam para uma clara defesa da psicanálise de família3.
A psicanálise de família se impõe como uma necessidade premente. Se ainda fôsse preciso convencer alguém de que o mundo interno dos pais tem decisiva influência na constituição do psiquismo de seus filhos, que a saúde mental ou a loucura das quais podem ser portadores tem decisiva consequência na vida de seus filhos, a notícia publicada no jornal Folha de São Paulo, no dia 10 de janeiro de 2004 viria bem a calhar : “Estudo da USP aponta crescimento de registro de casos de violência doméstica; São Paulo lidera ranking de notificações. Desde 2000, pais já mataram 456 filhos”. Estão ali registrados, desde 1996, as seguintes ocorrências: notificações de casos de negligência: 37.091; casos de violência física: 30.412; violência psicológica: 14.074; violência sexual: 8.665; violência fatal: 456.
Os dados foram recolhidos pelo Laboratório de Estudos da Criança e do Adolescente (Lacri) da USP e referem-se a apenas 124 municípios e, como seria de esperar, são considerados pela técnica que deu as informações como sendo apenas “a ponta do iceberg”, levando-se em conta como essa pesquisa abrange uma mostra recente e restrita a um universo pequeno. Mesmo nesse universo, é possível que muitos casos não sejam notificados.
Publicado originalmente em Psychiatry on line – Brazil, Janeiro de 2004 - Vol.9 - Nº 1, Psicanálise em debate [link].
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1 Masson, Jeffrey M. - Atentado à Verdade - Livraria José Olympio Editora - Rio - 1984
2 Ferreira, Fernanda P. e Pons, Suzana - Transferência como experiência do vivido e transmissão psíquica: a herança de Sandor Ferenczi - Pulsional revista de psicanálise - n, 164/165 - setembro de 2002 - São Paulo - p.17-26
3 Telles, Sérgio - Laio, Édipo e Antígona - uma trágica família: aspectos “copernicanos” da teoria freudiana no estudo de grupos - Percurso - n. 27 - 2º semestre de 2001 - São Paulo - p.101-112 (disponível nos arquivos da Psychiatry on line - Brazil)
27 de Janeiro de 2004 às 16:13
Sérgio Telles
Resenha do livro “A Família em desordem” de Elizabeth Roudinesco Jorge Zahar Editor - Rio de Janeiro - 2003.
A cada livro que publica, Elizabeth Roudinesco se firma como uma atenta observadora da cena psicanalítica. Conjuga bem seus recursos de historiadora com o saber inaugurado por Freud, produzindo obras de grande interesse, que sua habilidade literária coloca ao alcance de um público mais vasto.
Esse seu “A família em desordem”, lançado ano passado na França e agora aqui traduzido, é uma boa mostra disso.
Os avanços da tecno-ciência e dos costumses tornaram possíveis mudanças antes impensáveis no processo da reprodução humana. Lembremos os métodos anticoncepcionais - desde os seculares contraceptivos e o coitus interruptus, a prática do aborto, o controle de natalidade pela tabela Ogino-Knaus, as pílulas anticoncepcionais, o DIU, a inseminação artificial, a inseminação ín vitro com subsequente implantação intra-uterina, a doação de esperma ou de óvulos, as barrigas de aluguel até, finalmente, a clonagem.
Essas técnicas provocaram uma revolução no próprio conceito de família, se pensarmos que por esse nome designamos a união, reconhecida e apoiada pela sociedade, entre um homem e uma mulher com fins de criar e manter os filhos.
Além dessas inovações tecno-científicas, os próprios costumes também mudaram quanto a família. Pouco resta da antiga família patriarcal, imutável, regida por um pai autoritário, quanto olhamos para as famílias de hoje - rompidas e recompostas muitas vezes. Mais ainda, cortando todos os laços com os costumes anteriores, pares homossexuais passaram a pleitear a adoção ou mesmo a paternidade ou maternidade, usando os novos recursos que prescindem da prática natural do coito entre homem e mulher.
Como ficam, dentro dessa nova realidade os papeis tradicionais de pai e mãe, de homem e mulher, a necessária gestão da autoridade na educação das novas gerações?
São essas importantes e instigantes questões que Roudinesco tenta responder em seu livro. O disparador de suas reflexões é a questão colocada pelo “desejo de família” expresso pelos homossexuais, coisa que considera surpreendente, quando lembra que até bem recentemente - pelo menos na França - a postura dos homossexuais era a de pleitear um “direito à diferença”, quando contestavam e rejeitavam a família, considerada como o funesto lugar da opressão patriarcal, impedidora da liberdade sexual. A nova moral por eles apresentada é a da busca da normatização, uma forte vontade de integração, abandonada que fica a antiga postura que proclamava uma ruptura com a ordem vigente.
Para responder a essas questões, Roudinesco vai mesclar uma grande massa de informações derivadas da história, da antropologia e da psicanálise, de onde pinçarei alguns pontos referenciais.
Diz que Levy-Strauss estabeleceu que a família é encontrada em todas as sociedades humanas, organizando-se dentro das duas grandes ordens do biológico (diferença sexual) e do simbólico (proibição do incesto e outros interditos). Se até o finado da Idade Média ela era entendida em seu sentido mais extensivo, a família nuclear, tal como hoje a concebemos (pai, mãe, filhos) se impõe entre os Séculos XVI e XVIII. A família passou por três fases evolutivas: a primeira, dita “tradicional”, assegurava a transmissão do patrimonio e era regida pelo poder do pai, transposição direta, para o seio do privado, do direito divino dos reis reconhecido publicamente no regime da monarquia, estabelecida num mundo imutável; a segunda, fase “moderna” , é regida por uma lógica afetiva, romântica, onde o casal se escolhe sem a interferência dos pais, procurando uma satisfação amorosa e sentimental, sendo que o poder e o direito sobre os filhos é dividido entre os pais e o Estado e/ ou entre pais e mães. Finalmente, a terceira, dita “contemporânea ou pós-moderna”, onde a transmissão da autoridade vai ficando cada vez mais complexa em função das rupturas e reacomposições que a família vai sofrendo.
No mundo ocidental, a família “tradicional”, submetida ao poder paterno, manteve-se por séculos (lembre-se as leis romanas sobre o pátrio poder, por exemplo), até o grande abalo da Revolução Francesa, que, ao propor um mundo laico, atinge a até então inatacável figura de Deus Pai e seus sucedâneos no poder estatal, os reis, que são dessacralizados e mesmo destituídos, enfraquecendo consequentemente seu equivalente no seio dos lares, os pais. Esse modelo familiar desmorona definitivamente no final do Século XIX.
A decadência do patriarcado causou na Europa um grande temor do feminino, antevia-se uma emasculação e uma feminização da sociedade. Produziu-se uma ideologia que satanizava a mulher, vista como fonte do caos e da destruição social, como a obra de Johann Jakob Bachofen bem ilustra.
É nesse clima que Freud pode produzir a psicanálise. Se na sociedade em geral, vivia-se a falência do poder paterno, Freud vem propor uma teoria do psiquismo humano na qual o assassinato do pai - realizado ou fantasiado, desejado - terá decisiva importância.
Em “Totem e Tabu” o assassinato do pai é um ato necessário, fundador da civilização, ato que instaura a lei que nos separa do mundo da natureza e nos introduz na cultura, o que possibilita a internalização dos interditos paternos. Vê-se como é complexa a proposta de Freud, pois ao mesmo tempo que diz ser necessário o assassinato do pai, afirma que também é necessária sua permanência, embora que noutra condição - como a lei internalizada pelos filhos.
Como diz Roudinesco, Freud vai “inventar a família edipiana”. De que forma? Vai ilustrar a complexa relação entre filho e pai com a figura trágica de Édipo.
Sabemos que as três tragédias de Sófocles em torno de Édipo - “Édipo Rei”, “Édipo em Colona” e “Antígona” - são os momentos finais de uma historia mítica maior, a da tragíca e amaldiçoada família dos Labdácidas.
Esta família foi fundada por Cadmo, que gerou Polidoro e este a Labdaco (o “manco”), que morreu quando Laio, seu filho, tinha um ano. Criado pelo Rei Pélops, Laio se comporta de forma indigna, ingrata, `claudicante’ , com seu hospedeiro, ao violar homossexualmente Crisipo, seu filho, o que o leva ao suicídio. Como vingança, Pélops amaldiçoa a raça dos Labdácidas, condenando-a à extinção. Laio foge e casa com Jocasta, também de sua própria família. Deles nasce Édipo, cuja história todos conhecemos, e que gerará Etéocles, Polinice, Antígona e Ismene.
Conhecendo a linhagem familiar, vemos que Édipo nasce amaldiçoado, no seio de uma família condenada à destruição. Para Sófocles, Édipo de nada é culpado, é a vítima do destino.
Freud vai ignorar toda a história pregressa da família de Édipo e centrar-se no assassinato do pai e no incesto com a mãe - representantes dos desejos fundantes e reprimidos do inconsciente. “Pouco importa a mensagem de Sófocles: o que conta agora para Freud é a a história do filho culpado de desejar sua mãe e de querer assassinar seu pai…Édipo será portanto culpado não de ter cometido um assassinato, mas de ser um sujeito culpado de desejar sua mãe” - diz Roudinesco.
Esse recorte permite a Freud a criação de sua teorização do inconsciente, centrado no desejo incestuoso do filho frente a mãe. Assim, institui a abordagem clássica da terapia psicanalítica, que é a individual. Não se detém suficientemente, em minha opinião, sobre a realidade do inconsciente dos pais e, de maneira mais larga, de toda a família, como definitivos na constituição do sujeito.
Ou seja, Freud não elaborou um dispositivo terapeutico e teórico que incluissem toda a família como objeto de observação psicanalítica. É diferente recortar o desejo de Édipo, vê-lo como o produto autônomo de um indivíduo - e aí o postulado da “pulsão” abre caminho para tanto - de entendê-lo dentro de um continuum familiar amaldiçoado, destinado à destruição.
Uma coisa é ver Ëdipo sozinho, outra é vê-lo como um membro dos Labdácidas. Se o víssemos desse segundo ponto de vista, entenderíamos todo o peso simbólico de seus antepassados e a forma como influenciaram decisivamente em sua vida. Afinal, Édipo, que significa “o de pés inchados” é um dos Labdácidas, a família dos “mancos”. Nesse sentido, discordo quando Roudinesco diz que Freud “inventa” uma “família edipiana”, pois o que está em jogo não é propriamente o dinamismo inconsciente de uma família e sim de um indivíduo, um único membro da família.
Esse deficit teórico freudiano é suplementado por desenvolvimentos atuais que se preocupam com os desejos inconscientes da mãe e do pai frente ao filho, tentam entender o lugar que o filho vem ocupar em seus mundos internos e a forma como tais desejos vão ser assimilados e internalizados pelos filhos, como sugere Laplanche com seu conceito de “metábole”. Além do mais, saindo do enquadre terápico individual, abrem-se novas possibilidades de pensar analíticamente a família, com seus segredos, seus não-ditos, suas vergonhas, suas feridas narcísicas e suas maldições (Kaës).
A derrocada da figura do pai e o temor do feminino decorrente da crescente presença da mulher no espaço público tem um subproduto no corpo teórico da psicanálise: a teorização kleiniana, que, distanciando-se de maneira radical de Freud, centra-se inteiramente na figura materna, objeto único da pulsão e da fantasia do bebê, que a infla de tal forma que a faz perder toda realidade concreta. “Foi preciso esperar as contribuições de Donald Woods Winnicott sobre a `mãe suficientemente boa (good-enough mother) e `extremosa comum’ (ordinary devoted mother) para corrigir os excessos dessas clivagens maniqueístas que resultavam numa visão perversa ou psicótica das relações de parentesco”- diz Roudinesco.
Efetivamente, com as novos direitos decorrentes da luta feminista, as mulheres passaram a exercer um poder e uma presença muito mais forte na sociedade e na família, havendo mesmo nesta uma maternalização significativa.
Nesse contexto, estudos tornaram possível separar o “feminino” do “materno”; foi possível discriminar “sexo” (biológico) e “gênero” (costumes sociais). E se evidenciou algo antes totalmente reprimido, que era a questão da sexualidade feminina. Frente a essa questão, Freud tem sido sempre mal compreendido, pois ao postular o conceito de “complexo de castração” aponta para a incompletude de ambos os sexos e a fantasia narcísica de uma totalidade impossível.
Coincide com a diluição da figura paterna e fortalecimento da presença do feminino e do materno o aparecimento das novas conquistas da tecno-ciência médica. Elas tornaram possível o abandono da ordem procriadora, antiga base da família, fazendo surgir novas formas de parentalidade (o próprio termo já é uma novidade) antes impensáveis.
A total desconstrução do conceito de família decorrente da tecno-ciência levanta inúmeros problemas éticos, políticos, jurídicos, além daqueles da ordem da subjetividade.
Teria havido uma desumanização de processos tão fundamentais para a humanidade quanto a geração e criação de novos seres humanos? Teria o “zeitgeist’” deixado o avatar edipiano para assumir a feição narcísica? Como serão as famílias do futuro?
As possibilidades abertas pela tecno-ciência no que diz respeito à concepção de novas vidas são inusitadas e ainda é cedo para avaliarmos seus resultados. Mas devemos refletir sobre a necessidade de parâmetros éticos para a ciência. Ela não deveria ser deixada a seu próprio desenvolvimento interno, na medida em que ela pode criar situações intrínsecamente más e perversas, como a execução em massa de seres humanos seguindo modelos da linha de produção industrial, como nos campos de exterminio nazistas.
Retomando aquilo que foi o disparador para esse livro, a questão da paternidade de casais homossexuais, Roudinesco toma uma posição cuidadosa. Não endossa a maciça reprovação expressa por vários importantes psicanalistas franceses mas também não nega a difícil situação desses casais homossexuais e de seus filhos. Ao citar os impressionantes relatos feitos por Leonard Shengold de abusos praticados em seus filhos por pais e mães de famílias “normais’”, ela lembra uma obviedade que às vezes precisa ser repetida: ter pais heterossexuais não é garantia de ausência de sofrimento e traumas. Afinal de contas, até o presente, toda a a louca humanidade assim foi procriada…
Roudinesco encerra com um certo otimismo, ao afirmar que que a família humana se reiventa permanentemente, mantendo-se desde os inícios dos tempos, como uma instituição insubstituível para nossa própria constutuição de sujeitos humanos.
Publicado originalmente em Psychiatry on line – Brazil, Setembro de 2003 - Vol. 8 - Nº 9, Psicanálise em debate [link].
29 de Setembro de 2003 às 19:20
Sérgio Telles
Resenha de Lacan com Derrida, de René Major - Civilização Brasileira - Rio de Janeiro - 2002 - 256 pp.
Jacques Derrida, tido por muitos como o maior filósofo vivo, tem a psicanálise como articulador central em sua obra. Afirma que a descoberta freudiana do inconsciente revolucionou de tal forma os temas filosóficos tradicionais que, num determinado momento, pensou-se que a filosofia estava acabada, morta. Lamenta a atual “restauração” do pensamento filosófico, que recalca essas inquietantes questões.
Como um exemplo disso, cita o conceito freudiano de “posteridade” (“Nachträglichkeit” ou “aprés-coup”). Entende que ele propõe um problema filosófico de magnitude nunca dantes vista, ao negar qualquer idéia metafísica de presença e tempo: “Que o presente em geral não seja originário, mas reconstituído, que ele não seja a forma absoluta, plenamente viva e constitutiva da experiência, que não haja pureza do presente vivo, este é o tema, formidável para a história da metafísica, sobre o qual Freud convida a refletir por meio do conceitualismo desigual em relação à coisa em si. Este pensamento é sem dúvida o único, na metafísica ou na ciência, que nunca se esgota”.
Derrida reconhece - como não poderia deixar de ser - a extraordinária importância de Lacan no panorama psicanalítico. Diz ele: “Quer se trate de filosofia, de psicanálise ou de teoria em geral, o que a banal restauração em curso tenta esconder é que nada pôde transformar o espaço de pensamento ao longo das últimas décadas teria sido possível sem algum ajuste de contas com Lacan, sem a provocação lacaniana, seja qual for o modo como a recebemos ou como a discutimos”.
Esse reconhecimento não o impediu se manter afastado do grande fascínio que emanava de Lacan e de discordar de importantes pontos de sua teoria.
A crítica de Derrida é muito especial, pois, com precisão, aponta dificuldades na lógica interna do pensamento lacaniano.
A primeira delas, de 1965, aparece em “Sobre a Gramatologia”, quando Derrida insiste na importância da dimensão escrita da linguagem, denunciando o que chama `rabaixamento da escrita’ presente em todo o pensamento filosófico, que exalta desmesuradamente a dimensão falada da linguagem, a palavra “plena” ou a escrita fonética. Essa critica atinge diretamente a forma como o estruturalismo lidava com a linguística, contestação que inclui Lacan, na medida em que este centra sua contribuição à psicanálise numa leitura “estrutural” de Saussure, que também privilegia a linguagem falada, o “fonocentrismo”. Como se não bastasse, Derrida critica o primado do significante, dizendo “seria uma posição insustentável e absurda, a se formular ilogicamente na própria lógica que ela pretende destruir, sem dúvida legitimamente. O significante jamais precederá de direito o significado, sem o qual já não seria significante, e o `significante’ significante não mais teria nenhum significado possível. O pensamento que se anuncia nessa fórmula impossível, sem lograr instalar-se nela, deve, portanto, ser enunciado de outra maneira: sem dúvida só poderá fazê-lo suspeitando da própria idéia de signo, de `signo de’, que permanecerá sempre ligada justamente àquilo que se acha em questão” .
Abandonando o referencial do significante para a compreensão do inconsciente, Derrida retoma a noção freudiana de facilitação (“Bahnung”), que dá origem a seu conceito de “diferança” (différance). Apoiando-se nos escritos freudianos do “Projeto” e em “O Bloco Mágico”, Derrida propõe um aparelho psíquico estruturado como uma máquina de escritura, produzindo sem parar uma escrita hieroglífica não verbal e não linguística, como o pictograma e o rébus, como se vê na escrita pictórica do sonho.
Se a crítica anterior não era dirigida diretamente a Lacan, em 1971 Derrida muda de tática. Numa conferência feita nos EUA (publicada em 1975 na França, com o título “Le facteur de la verité”), explicitamente se opõe ao Seminário da Carta Roubada, importante texto de Lacan, que ali usa um conto de Poe (“A Carta Roubada”) para expor conceitos centrais de sua teoria, como a primazia do significante, a importância do falo e do traço unário.
Derrida meticulosamente desconstrói o texto lacaniano, mostrando inicialmente que Lacan serve-se da literatura para expor sua teoria, ou seja, impõe um elemento exterior ao texto literário. Com isso, pratica a famigerada “análise aplicada”, ao mesmo tempo que a critica. Derrida mostra ainda como o texto é um veículo de Lacan em sua luta política contra Marie Bonaparte, que ocupava importante lugar na instituição francesa e escrevera também um texto sobre Poe. Afirma que Lacan tenta desacreditá-la e desmoralizá-la, mas, na verdade, lera o trabalho dela e ali recolheu a idéia da carta como símbolo do falo materno. Mostra que Lacan se coloca no papel de Dupin, o arguto detetive que desvenda o mistério, e coloca Marie Bonaparte como o comissário, aquele que se apossa indevidamente da carta real, sendo esta o representante do legado freudiano na França, o poder nas instituições psicanalíticas. Mais ainda, Derrida mostra como Lacan faz um lapso ao citar errado a frase “um destino/desígnio tão funesto, se não é digno de Atreu, e digno de Tiestes””
René Major em seu livro “Lacan com Derrida” retoma, amplia, comenta, glosa todos esses temas, apontando para as divergências e convergências do pensamento desses dois grandes mestres. Se em outros momentos a relação entre os dois era de oposição, Major procura salientar a mútua influência que entre eles se instala, pois as reflexões psicanalíticas de Derrida se apoiam decididamente no aporte lacaniano, e Lacan incorpora em sua teoria as críticas de Derrida, o que o faz mudar silenciosamente de rota. Apesar disso, cada um mantem suas especificidades, o que permite Major falar numa análise “desistencial”, “derridaina”. Diz ele: “ A psicanálise - sua teoria, sua prática, sua instituição- é completamente uma ciência do arquivo e do nome próprio, de uma lógica da hipomnésia que explica as lacunas da memória, daquilo que arquiva a lembrança, transformando-a, ou, ao contrário, que a desarquiva, apaga, destrói; uma ciência também de sua própria história, da de seu fundador, da relação de documentos particulares (ou secretos) com a elaboração de sua teoria e com tudo aquilo que, de maneira subterrânea, pode explicar sua manifestação no mundo”.
No que diz respeito ao conhecido procedimento da “desconstrução” criado por Derrida, diz René Major que, longe de recalcar a herança freudiana, “a prolonga em uma necessidade hiper-analítica, colocando em jogo o desejo ou a fantasia de reunir-se ao originário, ao irredutível, ao indivisível”.
René Major se notabilizou pela fundação do espaço “Confrontation”, que por 10 anos (1973-1983) exerceu importante papel no ambiente “psi” francês, por permitir a convivência dos quatro grupos psicanalíticos que - em função de divergências teóricas e institucionais - ignoravam-se ou hostilizavam-se mutuamente.
Retomando a idéias de “Confrontation” e contando com o apoio de Elizabeth Roudinesco e de Jacques Derrida, Major convocou, sob o nome “Estados Gerais da Psicanálise”, uma grande assembléia em Paris, 2000, com o intuito de fazer uma avaliação do momento psicanalítico, das questões teórico-clínicas e instituicionais, além de uma reflexão sobre o papel da psicanálise na sociedade. Esse encontro reuniu cerca de 1300 psicanalistas provenientes de vários países, dispostos a falarem “em seus próprios nomes”, independentes de suas instituições de origem. Naquela ocasião, Jacques Derrida fez importante pronunciamento (“Estados d’Alma da Psicanálise” - Ed. Escuta).
Organizado como uma rede e beneficiando-se dos recursos da internet, por onde circulam informações e se organizaram “sites” (www.etatsgeneraux-psychanalyse.net e www.estadosgerais.org) , o movimento “Estados Gerais” realizou em 1999, em São Paulo, uma evento preparatório para o encontro de Paris, assim como aconteceu um outro, em novembro de 2002, em Buenos Aires, tendo em vista o segundo encontro mundial, que se dará no Rio de Janeiro, em novembro do corrente ano.
Assim, não poderia ser mais oportuna o lançamento deste instigante “Lacan com Derrida”, desde que o movimento dos “Estados Gerais” está visceralmente ligado ao trabalho conjunto de Major e Derrida.
Publicado originalmente em Psychiatry on line – Brazil, Março de 2003 - Vol. 8 - Nº 3, Psicanálise em debate [link].
28 de Março de 2003 às 20:54
Sérgio Telles
Resenha de “Le Roman Familial de Freud” – Gabrielle Rubin – Payot – Paris – 2002 – 198 pp
A vida de Freud é uma das mais vasculhadas e pesquisadas da história da humanidade. A começar com as informações dadas por ele mesmo nas interpretações de seus sonhos, biografias as mais variadas, desde as ditas “hagiográficas” e “autorizadas”, como a extensa obra de Jones, ou as “revisionistas”, denegridoras, produzidas pelo anti-freudismo norte-americano, dissecam o pai da psicanálise com toda a minúcia possível.
Assim, o livro de Garielle Rubin, analista da Societé Psychanalytique de Paris, se inscreve numa longa série e poderia fazer crer que pouco traria de novidade.
Não é o caso. Vasculhando a biografia de Freud escrita por Jones, descobre um detalhe que passara desapercebido aos demais biógrafos.
Jones conta que em 1925, na ocasião da re-impressão do trabalho “Lembranças Encobridoras”, originalmente publicado em 1899, Freud teve uma reação muito curiosa. Em pânico, não queria que o mesmo fosse re-impresso, pois temia ser reconhecido debaixo do disfarce do “universitário de 38 anos” que fala das lembranças que serão ali interpretadas. Surpreendido, Jones argumenta com Freud que tal decisão, ao invés de protegê-lo, acirraria a curiosidade e a suspeita de que estaria escondendo um “mistério” de sua vida. Isso o fez mudar de idéia e permitir a re-impressão do artigo.
Gabrille Rubin vai reler com especial cuidado “Lembranças Encobridoras”, com o objetivo de entender a reação de Freud, estabelecendo uma série de hipóteses muito bem concatenadas e plausíveis, chegando a surpreendentes conclusões.
O eixo que baliza suas hipóteses é o conceito de “romance familiar”. Não é aleatória sua escolha. Reconhecendo indiretamente a importância desse conceito, disse Jones (citado por Rubin) “isso nos permite, creio, supor que o incessante estudo dos seres humanos e de suas reações pode ser atribuído, em primeiro lugar, ao problema embaraçoso que a vida familiar constituía para Freud em sua infância”.
Não só na infância, diz Rubin. Para ela, Freud padeceu a vida inteira com seu “romance familiar”e este conflito teria tido graves conseqüências em vários campos de sua existência.
O “romance familiar” de Freud, como ele mesmo disse, se estabelece a partir do momento em que, na infância, acreditava ser filho não de Jacob e sim do meio-irmão Phillip, que tinha a idade de sua mãe.
Como diz o “Vocabulário de Psicanálise”, “romance familiar” é “expressão criada por Freud para designar fantasmas pelos quais o indivíduo modifica imaginariamente os seus laços com os pais (imaginando, por exemplo, que é uma criança abandonada). Esses fantasmas têm o seu fundamento no complexo de Édipo”.
De fato, nessa fantasia, a criança se imagina não filha de seus pais verdadeiros e sim de outros, de alta linhagem, para os quais, um dia, voltará. Numa outra versão, imagina que é filha de sua mãe, mas não de seu pai, atribuindo à mãe aventuras e traições das quais é o fruto.
Se esta fantasia habitualmente cai sobre repressão, isso pode não ocorrer quando a situação real da estrutura familiar favorece sua permanência
Era o caso da família de Freud. Havia, como mostra Rubin, uma grande disparidade sócio-econômico-cultural entre Jacob e Amalia, os pais de Freud. Jacob era já duplamente viúvo, muito pobre e tinha 20 anos a mais que Amalia. Sob nenhum aspecto era esse um casamento vantajoso ou desejável para ela.
Marthe Robert, Mariane Krülle e Renée Gicklhorn se interrogaram do porquê de tal casamento, rompendo, desta forma, uma postura machista que o consideraria “normal” . A hipótese levantada por Rubin é que, estando Amália grávida de um homem indesejado pela família ou com quem não poderia casar por outros motivos, foi casada às pressas com Jacob.
Recusando a visão estabelecida de que Freud amava ternamente seus pais (como ele mesmo diz muitas vezes em suas análise de sonhos), Rubin nos apresenta um Freud preso às angústias da dúvida quanto a sua filiação, duvidando da paternidade de Jacob.
Uma das evidências da persistência disto seria a marcante diferença na forma como tratava os pais. Parece ter sempre gostado mais do pai, tendo uma sintomática atitude protetora para com ele, como para poupá-lo de suas próprias dúvidas, atitude que a autora diz reconhecer em outras crianças frente a pais com muitas deficiências. As atitudes bondosas e caridosas, nunca queixosas ou acusatórias em relação ao pai, a quem atribuía todas suas boas qualidades, diferem totalmente da frieza e distância com a qual tratava a mãe. Nem de longe correspondia à adoração que esta lhe devotava. Numa atitude chamativa, Freud não foi sequer ao enterro da mãe, como antes não fora às festividades do seu 80o. aniversário.
É, pois, a partir do “romance familiar” que Rubin vai procurar entender o enigma centrado na re-impressão do “Lembranças Encobridoras”.
Ali, o “universitário de 38 anos” – ou seja, Freud - diz que as lembranças que vai relatar lhe tinham ocorrido ao voltar de uma pequena viagem a sua cidade natal, “aos 17 anos”. Rubin lembra que em 1872, aos 17 anos, Freud efetivamente fez uma viagem a Freiberg, sua cidade natal. Isso faz com que centralize seu foco de observação neste ano, que chama de “fatídico”, dado as grandes e definitivas mudanças que ocorreram em Freud nessa ocasião.
A primeira delas diz respeito à mudança no caráter e projetos de vida do jovem Freud. Até a viagem, ele se via como um futuro general, um guerreiro, um líder político. Sem que se entenda porque, naquele ano desiste desses projetos e escolhe o caminho da ciência, querendo desvendar os segredos da “mãe natureza”.
A segunda diz respeito a seu suposto enamoramento com Gisela Fluss. A partir da descoberta das cartas trocadas, na ocasião, por Freud com seu amigo Edouard Silberstein, novos dados vieram à tona. Nessa correspondência juvenil, escrita em espanhol e onde Freud se fazia chamar de “Cipião” e o amigo atendia ao codinome de “Berganza”, Freud revela os acontecimentos vividos em Freiberg, quando se constata que a verdadeira paixão que nele se acendeu não se devia a Gisela, como se pensava até então, e sim a Eleanora Fluss, mãe de Gisella. Isso dá o devido tom incestuoso e edipiano a essa paixão.
A terceira, refere-se ao estranho desaparecimento do dígrafo is do nome Sigismund, que passa a ser Sigmund um pouco antes de sua viagem a Freiberg, como está registrada na sua correspondência com Silberstein. Aliás, Rubin sustenta que Freud teria desenvolvido uma verdadeira fobia com essas letras. Por este motivo teria cismado de grafar a palavra narcisismo como narcísmo, uma forma peculiar, usada exclusivamente por ele, bem como isso teria pesado na abolição da expressão “zona histerógena”, substituindo-a por “zona erógena”.
O desaparecimento do dígrafo is de seu nome já fora analisado por outros autores. Rosolato atribui essa perda à negação do pai e do judaísmo, fazendo desaparecer as duas primeiras letras de nome Israel, segundo nome de Jacob, nome tão rico de significações. Anzieu julga ver nessa supressão ecos da obra wagneriana, influência dos personagens Siegfried, e seus pais Sieglinde e Siegmund, o casal de gêmeos incestuosos. Rubin discorda, do primeiro por achar que Freud nunca rejeitou o judaísmo e do segundo por achar improvável, pois, sendo uma referência a um super-incesto, embora estivesse longe de suas descobertas psicanalíticas, a formação de Freud certamente não aprovaria tal identificação. Acha, sim, que a perda do dígrafo está ligado a Jacob, mas não pela via do judaísmo e sim novamente como expressão da dúvida quanto a sua filiação, como explicita em seu trabalho “O Romance Familiar do Neurótico” (”Romances Familiares”, na tradução brasileira da Imago)
Finalmente, o quarto argumento é justamente o artigo sobre as “memórias encobridoras”, cuja re-publicação gerou tanto angústia em Freud. Rubin segue de perto a argumentação entre Freud-paciente e o Freud-analista desvendando a fantasia ali exposta. Levando em conta o tanto que Freud já tinha se exposto anteriormente, especialmente com seus sonhos analisados em “A Interpretação dos Sonhos”, nada que ali está justificaria o pavor de Freud. Como se sabe, é uma fantasia onde o “universitário de 38 anos” recorda que aos 5 teve uma cena de brincadeiras com uma amiguinha da mesma idade, juntamente com um outro menino. A interpretação dada por Freud e seu primo atacam sexualmente a prima. Há um componente hetero e homosexual.
É interessante salientar que Freud explica que as “lembranças encobridoras” geralmente são anódinas, sem importância, apenas situações paralelas a um grande acontecimento aludido por elas mas por elas ocultado. Assim, segundo Rubin, toda a interpretação da própria lembrança em pauta, revela-se sintomática, pois Freud deveria perguntar ao “universitário de 38 anos”, quais as circunstâncias em que tais lembranças ocorreram, quando ficaria claro a importância das vivências em Freiberg, em 1872, tendo o “universitário” 17 anos, anos depois do tempo referido nas “lembranças encobridoras”, quando tinha ele apenas 5 anos. Ou seja, Freud teve tal “lembrança encobridora” em Freiberg, aos 17 anos, quando reencontrou Gisela e se apaixonou por sua mãe Eleanora, como registra inadvertidamente em sua correspondência com “Berganza”.
Rubin acredita que nesta viagem a Freiberg, Freud teria procurado comprovar suas fantasias derivadas do “romance familiar”, pesquisando histórias sobre seus pais e sua família e a legitimidade de sua filiação. Neste clima, a forte vivência edipiana acontecida com Eleanora teria revivido a paixão pela mãe, vista então como a mãe-prostituta, analisada posteriormente em seus “Contribuições à Psicologia do Amor”, especialmente os dois primeiros ensaios, o “Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens” e o “Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor”. Um outro elo seria a ligação da “lembrança encobridora”, onde Freud e um amiguinho atacam a menina, com o sonho “mamãe querida com homens de bico de pássaro”, quando fantasiaria a mãe sendo atacada por dois homens, o que leva novamente ao tema da dupla paternidade.
O que teria ocorrido em Freiberg? No relato das “lembranças encobridoras” há uma menção a duas criadas conversando. Teriam as “comadres” de Freiberg falado algo sobre seu nascimento? Algo antigo teria votado à tona? Sabe-se que em 1931, ao ser homenageado pela cidade, a placa que fazia referência ao nascimento de Freud, baseada em papéis locais, dava a data como sendo 6 de março. Embora o que o atormentava não fosse a data de seu nascimento e sim a paternidade, tal fato talvez indicasse problemas relacionados com seu nascimento.
É contra todo esse material que se “lembrança encobridora” se impõe. E, na opinião de Rubin, era isso que Freud temia ser descoberto com a re-mpressão de seu trabalho. E é o que terminou por acontecer, pois, como diz ela, ninguém, a não ser o próprio Freud, levantou suspeitas quanto a sua filiação, duvidou da paternidade de Jacob. Foi seu susto, seu temor em que algo pudesse ser descoberto que a fez enfocar a questão e dar-lhe a merecida visibilidade.
O “romance familiar”, a fantasia de ter dois pais teria sido tão forte em Freud a ponto de determinar seu intenso interesse pelos heróis ou personagens mitológicos que tiveram dois pais. É o que ocorre com o Édipo, Shakespeare e Cristo. O exemplo mais cabal é o de Moisés. Rubin analisa “Moisés e o monoteísmo” detalhadamente, mostrando as grandes incongruências da argumentação de Freud. Freud faz questão de alterar a biografia de Moisés para coincidir com seu próprio romance familiar. Ao insistir que Moisés é um egípcio, faz com que tenha dois pais. Mais um de filiação duvidosa.
O livro de Gabrielle Rubin não é apenas um ensaio de construção histórica da vida de Freud. Ao centrar suas hipóteses dentro do referencial do “romance familiar”, aponta para uma importante questão da clínica psicanalítica. Seguindo as idéias de Abraham e Torok, procura marcar a diferença entre “romance familiar” e “segredo familiar”.
O “romance familiar” é uma fantasia inconsciente, faz parte do mundo interno da criança (”fantasme”, segundo Abraham). O “segredo familiar” não é uma fantasia e sim uma realidade objetiva, é um acontecimento histórico da família mantida em segredo e, por isso, provocando efeitos no psiquismo daqueles que o desconhecem (”fantôme”, ainda segundo Abraham) . Os dois estão interligados, pois na medida em que existe um “segredo familiar”, um não-dito na história da família, isso favorece a criação de um “romance familiar”, a criança cria um fantasia para prencher aquele vazio. Mas o enfoque analítico é muito diferente em cada caso, pois o “fantasme” foi reprimido, o “fantôme” não.
Para deslindá-los é fundamental que o analista tenha conhecimento da realidade histórica da família do paciente.
No caso de Freud, não sabemos se o que estava em jogo era um “romance familiar” ou um “segredo familiar”. Talvez os papéis que o Arquivo Freud mantém na Biblioteca do Congresso Americano, e que só serão abertos ao público em 2100, contenham a resposta. Quem estiver vivo então (faltam apenas 93 anos!), saberá.
De qualquer forma, isso abre questões teóricas e técnicas da prática analítica, mostrando como a ênfase exclusiva no mundo interno do paciente, pode levar a grandes distorções e equívocos. Mostra ainda que a psicanálise da família é um campo que se impõe.
Publicado originalmente em Psychiatry on line – Brazil, Fevereiro de 2003 - Vol. 8 - Nº 2, Psicanálise em debate [link].
28 de Fevereiro de 2003 às 17:07
Sérgio Telles
Resenha de “Torres de Babel” –Jacques Derrida – Editora da Universidade Federal de Minas Gerais – Belo Horizonte – 2002 – 76p.
O pequeno ensaio “Torres de Babel” de Derrida faz parte de seu livro “Psyché”, de 1987.
O tema central é a tradução.
Ao invés de se contentar com o convencional “Traduttore, traditore”, ditado que classicamente condensa as dificuldades e impasse inerentes à tradução, Derrida aborda o tema bem a seu estilo. Mais uma vez, seguimos os tortuosos caminhos de seu pensamento, que, a cada volta surpreende e encanta o leitor com sua sutileza e finura, mas só se ele (o leitor) estiver atento. Caso contrário, logo ficará perdido no labirinto de suas complexas frases, cheias de parágrafos digressivos, parênteses pretensamente esclarecedores, comentários, adiantamentos, flash-backs e ilustrações.
Na verdade, “Torres de Babel” está centrado em um comentário de Derrida sobre o famoso ensaio de Benjamin sobre a tradução, o “A Tarefa do Tradutor” (”Die Aufgabe des Übersetzers”), texto que, por sua vez, ele o lê já numa tradução, realizada por seu mestre Maurice de Gandillac. É interessante lembrar que o próprio texto de Benjamin é, por sua vez, o prefácio de uma tradução por ele feita de “Tableaux Parisiens” de Beaudelaire. Está montado então um jogo de espelhos lingüísticos, a refletirem infinitamente o enigma das línguas.
O livro abre com o texto bíblico sobre a Torre de Babel. Ali está escrito que, naquela ocasião, os homens orgulhosamente planejavam a construção de uma torre com a qual chegariam aos céus, marcando uma cidade que os uniria e protegeria para sempre, evitando sua dispersão pela face da terra. Ao mesmo tempo, com isso, se fariam um nome. Esse projeto ousado e audacioso não agradou a Deus, que o interpretou como fruto da arrogância e soberba dos homens, desafiando-o em sua posição de criador supremo. Deus então raivosamente “clama seu nome: Babel, Confusão”, o que estabelece a confusão de línguas, impede a consecução do projeto, provoca a dispersão dos homens e a incompreensão entre eles.
Segundo Derrida, Deus destrói o nome que os homens queriam se dar, construindo sua própria língua e sua identidade humanas. Deus reafirma seu próprio nome, que se confunde, nesse momento, com o de Babel e de Confusão. Está imposta a confusão de línguas, assim como a necessidade da tarefa impossível do tradutor, que deve trabalhar com a língua de Deus, que é Babel e confusão. Desta forma, fica estabelecida uma ligação entre a linguagem e Deus, a língua falada é a sua, e está imposto o nome-do-pai. Pergunta-se Derrida qual língua era falada durante a construção da torre, antes de ter sido proclamada “Babel”. Pode-se traduzir um nome próprio (Deus, Babel)? Pode-se confundi-lo com um nome comum (confusão)?
Ao projeto humano, que visava a racionalidade de uma comunicação clara e direta entre os homens, Deus impõe a sua própria língua, que – fragmentada numa miríade de línguas humanas - será para sempre estranha e estrangeira para os homens, que estarão irremediavelmente condenados à falibidade e incompletude, além de necessitarem de uma sempre falha tradução.
Antes de abordar o texto de Benjamim, Derrida lembra os três tipos de tradução segundo Jakobson: a intralingual (que se dá dentro da própria língua), a interlingual ou tradução propriamente dita, (feita entre diferentes línguas) e a tradução intersemiótica (interpretação de signos lingüísticos através de signos não lingüísticos).
Do texto de Benjamim, Derrida sublinha o título, “A Tarefa do Tradutor”, insistindo no aspecto de missão, compromisso, obrigação, dívida, responsabilidade, restituição, todos eles elementos implícitos no ato de traduzir.
Dos trechos pinçados por Derrida do ensaio de Benjamin, o mais importante é onde se estabelece o vínculo entre a linguagem dita “pura” e a “verdade” a partir de um texto de Mallarmé que Benjamin, significativamente, cita em francês, sem traduzi-lo para o alemão, língua em que escreve.
Eis a tradução em português desse trecho: “Às línguas imperfeitas porque várias, falta a suprema: pensar sendo escrever sem acessórios, sem cochicho mas tácita ainda a imortal palavra, a diversidade, sobre a terra, dos idiomas, impede pessoas de proferir as palavras que, de outro modo, se encontrariam, por um golpe único, ela mesma materialmente a verdade”.
Para Benjamin, a tarefa do tradutor não é a recepção, a comunicação ou representação do original. Ele deve centrar seu interessa basicamente sobre a forma, como evidencia qualquer tentativa de traduzir textos sagrados ou poéticos. Fica aí caracterizado como o conteúdo não deve ser o interesse maior do tradutor. Dizendo de outra forma, a tarefa do tradutor é “fazer amadurecer a semente de uma linguagem pura”.
Essa “linguagem pura” parece remeter à mítica linguagem primeira, originária, da qual todas derivaram e que garante o parentesco essencial entre todas elas, sendo ela a portadora da mais depurada verdade. É a língua de Deus, que ao se impor em Babel, o fez para “deixar entender que é difícil traduzi-lo e assim entendê-lo”.
Toda grande obra literária, todo original importante impõe-se como algo a ser traduzido (ele “suporta” e “exige” uma tradução) por ser portador de um fragmento dessa “linguagem pura”. Cabe ao tradutor captar esse fragmento, essa “semente de linguagem pura” e produzi-la em sua própria língua. É aquela “verdade” anunciada por Mallarmé.
Reside nisso também o que Benjamin chama de “sobrevida” de uma obra: o fato de ela ter uma vida própria, distinta da do autor, cuja existência natural se extingue, enquanto ela – por estar inscrita num universo simbólico – persiste e cresce toda vez que é traduzida.
A importância da tradução se dá pela promessa que estabelece de que é possível um acordo entre as línguas, a transmissão de algo, a base de todo entendimento.
A relação entre as línguas e a “linguagem pura” portadora da “verdade” fica bem sintetizado na bela “metáfora da ânfora” criada por Benjamin: “Pois, da mesma forma que os restos de uma ânfora, para que se possa reconstituir o todo, devem ser contíguos nos menores detalhes, mas não idênticos uns aos outros, assim, no lugar de tornar-se semelhante ao sentido do original, a tradução deve de preferência, em um movimento de amor e quase no detalhe, fazer passar na sua própria língua o modo de intenção do original: assim, da mesma forma que os restos tornam-se reconhecíveis como fragmentos de uma mesma ânfora, original e traduções tornam-se reconhecíveis como fragmentos de uma linguagem maior”.
Se as línguas se aproximam e tendem para uma linguagem maior, também é verdade que elas se afastam e que há algo intocável e intransferível na passagem de uma para outra, visível na absoluta singularidade com que cada língua expressa cada conteúdo. É isso que marca a diferença entre o original e a tradução, expressa por Benjamin na metáfora do caroço, do fruto e do invólucro, do caroço e da casca.
No original,iz ele, está o caroço, o núcleo duro que permite a tradução, a reprodução. Ali, teor e linguagem formam uma unidade determinada como a do fruto e do invólucro. Já a tradução, “envelopa seu teor como um manto real de largas dobras”. Enquanto no original há uma natural harmonia e integração entre teor e língua, na tradução há uma solene e severa sobreposição de um “manto real” sobre o teor, que representa a autoridade do simbólico.
Chegamos finalmente à questão já mencionada da verdade. Diz agora Derrida: “A verdade seria de preferência a linguagem pura na qual o sentido e a letra não se dissociam mais. Se um tal lugar, o ter-lugar de tal acontecimento, permanecesse não encontrável, não se poderia mais, fosse esse de direito, distinguir entre um original e uma tradução”.
A relação entre original e tradução tem, evidentemente, conseqüências jurídicas sobre direitos autorais que estabelecem a legitimidade das traduções, reconhecendo-lhe inclusive uma parcela de originalidade e trabalho autoral.
Embora o texto faça muitas referências ao sagrado e a palavra de Deus como aquela primeira, instauradora da estranheza e da impossibilidade de entendimento direto, impondo-se a tradução, mas também evocando uma inefável e fugidia verdade, penso que isso não deve ser confundido com qualquer posição religiosa ou mística. O nome de Deus aqui parece evocar a nostalgia frente ao próprio mistério indecifrável da existência das línguas. Afinal, o que querem elas dizer? O único que podemos constatar é que elas querem dizer. Elas – todas - querem simbolizar, representar. Elas falam.
Mais ainda, o nome de Deus é uma metáfora na própria língua para simbolizar o enigma da origem de tudo - nosso anseio de paternidade, nós, pobres homens órfãos, condenados à vida sem sabermos o porquê.
A meu ver, as grandes obras são portadoras dessa “linguagem pura” e da “verdade” não tanto por expressarem revelações sagradas ou divinas, mas por apontarem profundas verdades humanas produzidas e buriladas pelos autores e prontamente reconhecidas pelos leitores.
O problema da tradução, abordado aqui em profundidade, necessariamente interessa a todos nós analistas. Ao interpretar e construir, estamos sempre fazendo traduções do inconsciente para o consciente, tarefa ainda mais complicada e comprometida do que a do tradutor, tal como vista por Benjamin e comentado por Derrida.
Penso que essa afinidade de teores se concretiza no artigo “A Casca e o Núcleo” (1), de Abraham, que, como se vê, não acidentalmente aproveita no título a metáfora de Benjamim sobre o caroço, o fruto e o invólucro, sublinhada em “Torres de Babel” por Derrida. É também significativo que Derrida tenha feito um pequeno artigo para apresentar este texto de Abraham nos Estados Unidos, o “EU, a Psicanálise” (2).
O artigo de Abraham tendo como ponto de partida o aparecimento do “Vocabulário de Psicanálise” de Laplanche e Pontalis, faz uma interessante análise sobre o complexo trabalho de tradução entre a língua da psicanálise e a língua na qual se expressa, tendo antes enfatizado o ainda mais peculiar e inaccessível – que a língua da psicanálise não deve ser confundida com a língua do inconsciente, desde que esse é um discurso que prima pela ausência, pelo negativo, a ser apreendido nas entrelinhas, nos lapsos, nos erros.
Publicado originalmente em Psychiatry on line – Brazil, Setembro de 2002 - Vol. 7 - Nº 9, Psicanálise em debate [link].
30 de Setembro de 2002 às 15:00
Sérgio Telles
Resenha de “Hipocondria – Impasses da Alma, Desafios do Corpo” – de Rubens Marcelo Volich – Coleção Clínica Psicanalítica – Editora Casa do Psicólogo – 2002 – São Paulo.
A tecno-ciência tem possibilitado avanços imensos na medicina, que se refletem nos campos do diagnóstico e da terapêutica. O corpo humano pode ser avaliado de forma cada vez mais precisa, o que possibilita intervenções médicas mais acuradas e eficazes.
Tudo estaria muito bem se no ser humano o corpo respondesse exclusivamente aos ditames da anatomia e da fisiopatologia, categorias que fornecem os dados positivos captados, registrados e tratados com os recursos da tecno-ciência.
Logo constatamos que a coisa não é bem assim.
É quando chegam aqueles pacientes que procuram os médicos com muitas e variadas queixas e, após a completa bateria dos exames mais modernos e minuciosos, não ficam contentes com as tranqüilizadoras afirmações de que eles nada têm de doentes. Não ficam convencidos de que estão gozando de perfeita saúde, tal como lhes asseguram os médicos. Não acreditam no que lhes dizem. Pensam que foram mal atendidos, que poderia ter havido um erro no diagnóstico – afinal, uma possibilidade sempre possível – e prosseguem em sua peregrinação à procura de outros médicos que lhes descubram a origem e o tratamento dos males que sentem atormentá-los.
São os hipocondríacos, os que estão convencidos da presença de uma doença que ataca seus corpos, doença essa não confirmada pelos exames médicos.
Eles, os hipocondríacos, não estão sós. Com eles estão os histéricos, os anoréxicos, os bulímicos, os psicossomáticos, os dismorfofóbicos (preocupados morbidamente com a aparência), os simuladores. Mais grave ainda, estão aqueles que provocam deliberadamente alterações em seus corpos, chegando a auto-mutilação, para induzir intervenções médico-cirurgicas. São os portadores da síndrome de Münchausen.
Constituem um batalhão de seres humanos que expressam seus sofrimentos psíquicos através de queixas deslocadas, sentidas no corpo.
Foi através do estudo destes pacientes que a psicanálise, a começar com Freud, entendeu que ao corpo real, regido pelas leis da anatomia e da fisiopatologia, corpo esse largamente desvendado pela moderna tecno-ciência médica, corresponde o corpo erógeno, totalmente permeado pelo imaginário, palco de inumeráveis fantasias inconscientes.
Esses pacientes estão em maus lençóis. Em primeiro lugar, porque eles mesmos ignoram que o corpo, onde zelosamente depositam suas queixas, é apenas um esconderijo de dores outras, advindas de seus relacionamentos com seus seres queridos, de suas perdas, de suas paixões, de sua história passada e atual. Em segundo, porque não há muito espaço na clínica médica moderna para tal tipo de paciente. Eles não são escutados.
Apesar de terem ouvido à exaustão nas escolas médicas que “o homem é um ser bio-psico-social” - afirmação que tenta enfatizar a necessidade de entender o paciente em sua totalidade, em sua tripla inserção nas realidades biológica, psiquica e social - na prática, os médicos terminam por fazer uma cisão muito marcada entre o “biológico” (a realidade do corpo físico) e o “psico-social”, privilegiando de longe o primeiro. O “psico-social”, na maioria das vezes, fica relegado para as longínquas e desprestigiadas províncias da psicologia médica, da psiquiatria e da saúde pública.
A ênfase nos achados da tecno-ciência médica, o privilegiar os dados por ela tornados disponíveis, parece reforçar essa situação. A preconizada relação médico-paciente, lugar onde a realidade “bio-psico-social” do paciente pode ser aquilatada tem sua importância diminuída. Além disso, o próprio crescimento do conhecimento médico levou à sua fragmentação, estabelecendo “especialidades’, fazendo desaparecer a figura do clínico geral e médico de família, que conhecia de perto seus pacientes e tinha uma visão médica mais integrada.
Como se não fosse o bastante, temos visto como a prática médica, enquanto exercício
de profissionais liberais, tirando as excessões de praxe, é uma atividade em extinção. A presença maciça das companhias de seguro-saúde (”managed-care”) domina o mercado e impõe critérios e modelos de atendimento para os pacientes. Isso tem aspectos positivos, como o estabelecimento da medicina baseada em evidências (”evidence-based medicine”), a organização de protocolos que uniformizam e racionalizam atendimentos de quadros mais comuns. Por outro lado, as companhias de seguro-saúde estão muito atentas à sua própria saúde econômica, ou seja, à geração de lucros, o que as deixa muito zelosas quanto aos custos operacionais de suas atividades.
Além das normas das empresas de seguro-saúde (”managed-care”), que forçosamente influenciam a postura do médico frente ao paciente, não devemos esquecer as grandes corporações da indústria farmacêutica que, através de maciça propaganda para os próprios médicos e para os leigos – a publicidade farmaceutica gira 2.7 bilhões de dólares por ano só nos Estados Unidos - exercem grande pressão na escolha da terapeutica a ser utilizada, sobrevalorizando a farmacoterapia em detrimento de qualquer abordagem mais pessoal, psicoterapeutica.
Um dos resultados desta situação é que o paciente não tem com quem falar de seus sofrimentos, perdeu o médico como o interlocutor privilegiado na escuta possível de suas dores físicas e psíquicas. Isso termina por provocar uma reação curiosa e maléfica: o avanço da medicina científica – com seu distanciamento afetivo e emocional do paciente - termina por favorecer o recrudescimento da medicina dita “alternativa”, com suas práticas obsoletas e muitas vezes mágicas, mas que oferece aquilo que é negado ao paciente pela medicina moderna – a escuta de sua dor. Ela atende à necessidade que o paciente tem de ser ouvido.
Os hipocondríacos e seus companheiros sofredores de doenças “imaginárias”, assim como os portadores de doenças “reais”, pois toda doença física não deixa de Ter uma dimensão hipocondríaca, na medida em que se insere no imaginário que o paciente tem em relação a seu próprio corpo - mostram como a medicina por querer-se “científica” incorre no mesmo impasse da ciência – que, para se estabelecer e ser reconhecida como tal, tem de imediatamente suprimir de si tudo aquilo que é mais especificamente humano, cercando-se de uma ilusão de objetividade e neutralidade, onde não há lugar para a manifestação da subjetividade.
Por estranho que possa parecer, esse equívoco cientificista invade também a própria psiquiatria, hoje regida pelos cânones da DSM-IV – sigla pela qual é conhecido o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, organizado pela Associação Psiquiátrica Americana. Com a justificativa legítima de sistematizar ordenada e claramente as queixas dos pacientes psiquiátricos, os critérios da DSM-IV terminam por privá-los de suas histórias pessoais, das marcas que suas experiências deixaram em seus psiquismos, suas inserções no mundo simbólico que rege a cultura. O psiquiatra-modelo-DSM-IV não quer saber da história do paciente, não tem interesse em sua subjetividade ou na forma em que se estabelece seu contato emocional e afetivo com o paciente . Este psiquiatra tem listas de sintomas que consulta para saber qual medicação é mais eficaz na manipulação dos neuro-transmissores, supostos causadores da sintomatologia apresentada pelo paciente. Todo o acervo de conhecimento trazido pela psicanálise é por ele desprezado.
As idéias acima são desdobramentos do capítulo mais político-social (cap. 4) do denso livro de Rubem Marcelo Volich, “Hipocondria – Impasses da Alma, Desafios do Corpo” (Casa do Psicólogo – 2002).
Ali, além dos assuntos já ventilados, Volich nos mostra os percalços do conceito de hipocondria na história da medicina, rastreando-o desde a Antiguidade, passando pela Idade Média e Renascimento, até chegar aos tempos modernos e ao advento da psicanálise, centro do maior interesse do autor e aspecto mais substancioso do livro.
Volich descreve as imaginosas teorias antigas sobre a hipocondria, que a faziam decorrer de humores localizados no hipocôndrio (região subdiafragmática) e a confundiam com a histeria. Com a teorização freudiana, fica ela classificada como uma “neurose narcísica”, fruto da retração da libido objetal, o que a aproxima da paranóia.
De fato, é bem conhecida a afirmação freudiana de que se o paranóico sente-se perseguido por inimigos localizados no mundo externo, o hipocondríaco está perseguido por seus órgãos.
Volich faz um cuidadoso levantamento do conceito na obra de Freud e em autores pós-freudianos como Ferenczi, Schilder, Melanie Klein, Rosenfelt e Fedida, entre outros.
Diz ele: “Muitas vezes, diante do sofrimento e da perda, entre o vazio e a palavra, o corpo se vê convocado. Diante do outro, do médico, do terapeuta, nos pequenos e grandes sinais do corpo, na exuberância e timidez de suas formas, no silêncio e na eloqüência de suas expressões, escamoteiam-se as marcas da existência humana. Inscrevem-se ali os prazeres, os encontros felizes e gratificantes, mas também as dores, as perdas, as separações mais difíceis de serem compartilhadas. Entre o real e o imaginário, inclina-se muitas vezes o corpo à exigência de conter o sofrimento indizível, de suportar a dor impossível de ser representada. A hipocondria é apenas um dos recursos do humano para lidar com as dores do drama de sua existência”.
Volich, que é psicólogo e psicanalista, residiu na França de 1985 a 1994, onde trabalhou no Serviço de Oncologia do Hospital Saint-Louis em Paris e obteve o título de doutor em 1992 pela Universidade de Paris VII - Denis Diderot.
O livro de Volich é o 19o. da coleção “Clínica Psicanalítica” publicada pela Casa do Psicólogo. Esta editora, juntamente com a Editora Escuta, tem criado um valioso espaço onde a produção de autores psicanalíticos brasileiros é acolhida e divulgada.
Publicado originalmente em Psychiatry on line – Brazil, Agosto de 2002 - Vol. 7 - Nº 8, Psicanálise em debate [link].
30 de Agosto de 2002 às 14:46
Sérgio Telles
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