Publicações arquivadas sob Psicanálise
Somos todos egípcios
Resenha do livro “Derrida, um egípcio – o problema da pirâmide judia – de Peter Sloterdijk, Estação Liberdade, São Paulo, 2009
Sérgio Telles
Assim como o filósofo judeu franco-argelino Jacques Derrida (1930-2004) escreveu elogios fúnebres para seus amigos pensadores Emmanuel Levinas e Paul de Man, o também filósofo (alemão) Peter Sloterdijk presta-lhe as devidas homenagens póstumas neste livro pequeno e instigante, a começar pelo título – Derrida, um egípcio – o problema da pirâmide judia.
“Egito” aqui diz respeito ao lugar de cativeiro do povo judeu, do qual fugiu sob o comando de Moisés em busca da Terra Prometida, onde se instalaria a nova aliança com o deus único. Para o povo judeu, o Egito era o inimigo, o estrangeiro, o algoz, aquilo do que se tem de se libertar. O Egito era o Outro, em sua mais intensa alteridade.
Para Sloterdijk, Freud reverte completamente esta perspectiva, em seu desconcertante “Moisés e o monoteísmo”, publicado em 1939, ocasião em que o judaísmo vivia seu momento mais difícil frente ao nazismo. Ali Freud afirma que Moisés era egípcio e que o próprio monoteísmo, tido pelos judeus como uma prerrogativa sua, era também uma prática religiosa egípcia criada por Akhenaton. Com isso, Freud despoja os judeus de sua figura maior (Moisés) e, em assim fazendo, também desconstrói o mito do êxodo. O egípcio Moisés e as idéias monoteístas é que faziam o êxodo, transplantadas no povo judeu. Os egípcios - estrangeiros, o Outro - estão internalizados pelos judeus e constituem o cerne de sua própria identidade. “Moisés e o monoteísmo”- que suscitou tanta resistência por parte dos próprios judeus ao ser lançado e que durante todas estas décadas tem sido um texto pouco compreendido - seria uma hipótese psicanalítica sobre a formação da identidade do povo judeu, que ilustraria, por sua vez, os mecanismos mais amplos da constituição do sujeito forjada na relação com o Outro.
“Egito”, explica Sloterdijk, também é a expressão mais acabada das civilizações ditas “imortalistas” segundo a classificação do pensador austríaco de esquerda Franz Borkenau, em oposição às “mortalistas”. Borkenau propunha que as civilizações se sucedem como elos de uma cadeia, cada uma se colocando em oposição à anterior no que se refere à forma como encara a morte e a imortalidade. No Egito o estado girava em torno da negação da morte de um único ser, o faraó, com a conseqüente elaboração de uma doutrina sobre a imortalidade. A civilização que a sucedeu – a grego-romana - estava mais voltada para a aceitação da morte e os esforços da coletividade eram dirigidos para valores seculares, como a política e a melhoria da vida neste mundo. E assim teria ocorrido desde então, na seqüência formada pelo cristianismo, renascimento e modernidade.
“Egito” é o lugar da pirâmide, evidência incontornável da materialidade do signo, a representação do divino em irremovíveis e inabaláveis monumentos de pedra. É o contrário do deus inventado pelos judeus, um deus portátil que habita o livro, um deus não mais representado por monumentos intransponíveis (pirâmides) e sim por documentos (o texto sagrado). Esta nova versão de deus joga inesperada luz sobre toda uma problemática ligada a meios, transportabilidades, migrações. Se não é possível transportar deuses que moram em pirâmides ou templos colossais, é bem mais fácil transportar um deus que habita um texto, por mais sagrado que seja. É assim que Regis Debray, o filósofo ex-guerrilheiro, mostra como as rotas de transporte adquirem uma importância religiosa até então insuspeitada.
Se a pirâmide em si não pode ser transportada, o mesmo poderia ser dito sobre seu lugar mais sagrado, aquele onde repousa a múmia do faraó? Este espaço não poderia ser – como afirma Boris Groys, filósofo russo e um dos grandes críticos de arte contemporâneos - reconstituído em qualquer local , constituindo os recintos dos museus, onde estão recolhidos os objetos culturais a serem conservados, reverenciados, transformados em fonte de recolhimento e introspecção?
“Egito” é a localidade onde um jovem judeu subiu ao mais alto circulo do poder como interprete de sonhos do faraó, história retomada por Thomas Mann em seu grande romance José e seus irmãos.
A relação entre judeus e egípcios, com todos os desdobramentos daí decorrentes acima referidos, é o artifício usado magistralmente por Sloterdijk para homenagear a multifacetada obra de Derrida, articulando-a com as produções de Niklas Luhmann (tido como um dos pensadores mais importantes da atualidade), Freud, Thomas Mann, Franz Borkenau, Regis Debray e Boris Groys. Desta forma, Sloterdijk consegue expor de maneira compreensível conceitos e temas caros a Derrida, como a différance, a indecidibilidade e a importância do encontro com o Outro.
Ao afirmar que Derrida é um sucessor de José e Freud, representando a “terceira geração de intérpretes de sonho”, Sloterdijk reconhece que a desconstrução – procedimento derridiano - é um legitimo desdobramento da psicanálise
Ao terminar a leitura deste estimulante livro, ficamos desejosos de saber mais da obra de Derrida e entendemos que, como ele, de certa forma, somos todos “egipcios”- descentrados, habitados pelo Outro, oscilando entre sonhos de imortalidade e o apelo realístico do carpe diem.
Publicado no caderno “Cultura” do jornal “O Estado de São Paulo” em 22/11/2009
18 de Dezembro de 2009 às 09:28
Sérgio Telles
Uma trama feita de genética e afetos - dois livros sobre doença mental (*)
Sérgio Telles
Enquanto todos os outros animais são “irracionais”, apenas o homem é um animal “racional”.
Mas o que acontece quando este animal “racional” enlouquece e perde justamente a razão? Volta a ser um animal “irracional” como os outros ou passa a ser um ente possuído por demônios e espíritos maléficos?
É longo o trajeto que a loucura fez até ser compreendida como uma doença e, como tal, ter suas causas estudadas e estabelecidos seus tratamentos.
Mesmo assim, a doença mental continua sendo vista como algo inquietante e assustador, gerando medo e preconceitos.
Dois livros agora lançados ajudam a compreensão do transtorno psíquico, ao descrevê-lo de dentro, como experiências pessoais, pois seus autores o vivenciaram diretamente.
Um deles é “À espera do sol”, de Michael Greenberg. Publicado ano passado nos Estados Unidos por uma pequena editora, foi um inesperado sucesso, logo traduzido para dezesseis línguas.
O autor, crítico literário de jornais de prestígio e ficcionista, relata com sensibilidade e acuidade psicológica o impacto causado em sua família pela eclosão de um violento surto psicótico em Sally, sua filha de 15 anos, no verão nova-iorquino de 1996.
O livro cobre os primeiros quatro meses nos quais se desenrolam a instalação do quadro, a perplexidade e negação frente à estranheza dos sintomas, a necessidade de uma internação hospitalar e as angústias frente à alta. Num curto pós-escrito, o autor dá noticias da evolução do transtorno bipolar da filha, atualizando os dados até o presente.
Neste delicado relato ressalta um aspecto importante e de freqüente ocorrência nas circunstâncias ali descritas. Trata-se do sentimento de culpa que aguilhoa os familiares do paciente em surto psicótico. Greenberg evoca Joyce, que, como tantos outros pais, se culpava pela loucura de sua filha Lucia.
O outro livro é “Bem que eu queria ir” de Allen Shawn, no qual relata suas inúmeras e graves fobias. Compositor e pianista, o autor é filho de William Shawn, que foi editor da prestigiada “The New Yorker” por 35 anos, e irmão do ator e dramaturgo Wallace Shawn. Em seu livro, Shawn intercala material informativo sobre as causas da fobia com trechos autobiográficos, nos quais reflete sobre sua vida marcada pela irmã gêmea autista e pela vida dupla do pai, que mantinha uma outra mulher. Apoiando-se em Darwin, Shawn estabelece a diferença entre o medo e a fobia, mostrando as crises de fobia, atualmente mais referidas como “crises de pânico”, como a emergência inadequada e extemporânea de arcaicas reações de ataque e fuga frente a perigos concretos que nos afligiram durante nosso longo trajeto evolutivo filogenético. Tal compreensão dos mecanismos fisiológicos presentes nos ataques fóbicos ou de pânico, agora desencadeados por situações não mais perigosas, desemboca nos tratamentos cognitivos, nos quais os pacientes aprendem a lidar com a emergência destas descargas e a adotar medidas para superá-las.
Ao discorrer sobre as causas do transtorno da filha, Greenberg fica incomodado com a posição que julga ver nos psiquiatras, pois ao mesmo tempo em que afirmam que a doença decorre de fatores genéticos condicionadores de alterações químicas no cérebro e pouca importância dão à história de vida do paciente e seus relacionamentos afetivos importantes, sub-repticiamente terminam por atribuir aos pais a responsabilidade pela doença dos filhos.
Faz algum sentido a queixa de Greenberg. Talvez ela reflita alguns mal-entendidos decorrentes da dupla causalidade da doença mental.
Sabe-se que os transtornos psíquicos se devem a dois fatores determinantes que não se excluem, pelo contrário, potencializam-se. Por um lado, a carga genética que determina o desequilíbrio dos neurotransmissores cerebrais, provocando alterações no funcionamento mental. E por outro, o meio ambiente, que propiciará ou não o desenvolvimento destas tendências genéticas.
O meio ambiente, por sua vez, pode ser entendido de duas maneiras. Uma, como a somatória das experiências concretas efetivamente vividas pelo sujeito na realidade externa e que o marcarão, eventualmente produzindo sintomas. A outra – própria da psicanálise – entende que além da realidade externa, na qual o trauma adquire conotações objetivas, deve ser levada em conta prioritariamente a realidade psíquica, geradora de traumas fantasmáticos, decorrentes dos conflitos inconscientes próprios do fluxo pulsional. São de máxima importância as relações primárias com a mãe e o pai, nas quais os desejos inconscientes de ambas as partes (pais e filhos) jogam papel determinante.
Ao contrário do que acontecia alguns anos atrás, o aporte psicanalítico à compreensão da clínica foi deixado em segundo plano pela psiquiatria norte-americana. Isto faz com que deixe de procurar entender os quadros psíquicos à luz da história do paciente e de suas experiências emocionais e relacionais mais significativas, e os atribua quase que exclusivamente às alterações dos neurotransmissores cerebrais, geneticamente determinadas. A abordagem psicoterapêutica preferencial deste enfoque psiquiátrico é a cognitiva, baseada na dimensão consciente do psiquismo e na informação racional de dados sobre a doença feita aos pacientes, treinando-os para conter seus sintomas. Vê-se que é uma forma diferente da abordagem psicanalítica, que parte do pressuposto de uma dimensão inconsciente da mente, organizada pela introjeção das relações primarias objetais (mãe, pai, etc), razão do caráter simbólico, deslocado e descentrado do sintoma, que necessita ser interpretado.
Por isso mesmo, é muito interessante que tanto Greenberg como Shawn , quase que à revelia dos psiquiatras - que não se interessavam pela história e pelas relações afetivas em jogo ou pelo conteudo simbólico dos sintomas - estabelecem, eles mesmos, uma clara ligação entre a sintomatologia e as perturbações que constatavam nas relações familiares.
No caso de Greenberg, somos informados que seu irmão, Steve, tem sérios problemas mentais. Quando sua filha Sally entra em surto, ele teme ver nisso a evidência de uma predisposição genética familiar. Na ocasião da internação de Sally, a mãe de Greenberg, com quem ele tinha uma relação difícil, vem cuidar da neta e faz a ele confidências inusitadas. Ao tentar afastar o fantasma de uma predisposição hereditária, assegura-lhe que o caso de Sally nada tem a ver com o do tio, pois sabe exatamente o que provocou a doença dele. É quando revela ter rejeitado Steve, que teria nascido num momento difícil de seu casamento, motivo pelo qual não encontrou disposição emocional para abrigar aquele filho indesejado. Chegara ao extremo de “esquecer” o bebê ao relento num inverno rigoroso, numa possível tentativa inconsciente de deixá-lo morrer.
Ao deslocar o foco da doença da filha Sally para a do irmão Steve e dar uma explicação tão taxativa sobre as origens da doença dele, ou seja, a ênfase na relação patógena da criança com a mãe, o que deixa em segundo plano a eventual predisposição genética , Greenberg abre a porta para que se pense o mesmo em relação a Sally. Indiretamente reconhece que na instalação da doença da filha foram importantes os conflitos familiares, a ruptura de seu casamento, as características de sua ex-esposa - uma mulher mística, fantasiosa, voltada para as concepções New Age, declaradamente incapaz de lidar com a filha.
Da mesma forma, Shawn, em sua introspecção, chega a conclusões parecidas. Transcendendo as explicações etológicas, neuroquímicas e cognitivistas, mostra a dimensão simbólica de seus sintomas ao ligá-los com sua história, suas fantasias, suas identificações com os pais também fóbicos. Sem nenhuma preparação prévia, sua irmã autista fora levada de casa para uma instituição psiquiátrica, para nunca mais voltar. Esse era um assunto sobre o qual não se podia falar em sua casa, um a mais entre os muitos outros segredos familiares, “áreas perigosas” pelas quais não podia transitar, justamente como acontecia com a agorafobia, seu sintoma mais importante. É muito significativo que Shawn termine o livro com o relato da visita que fez à irmã, vencendo uma fobia que o impediu de vê-la por 27 anos, apesar de estar ela internada numa instituição próxima de sua cidade.
Os dois autores reafirmam aquilo que Freud tinha estabelecido sobre os escritores, ao lhes atribuir uma fina percepção da dinâmica dos conflitos inconscientes.
O reconhecimento da importância da dinâmica familiar na evolução da enfermidade mental é uma questão delicada e que deve ser manejada com cuidado para não ser, precipitada e erroneamente, entendido como uma acusação que confirmaria os sentimentos de culpa dos pais.
Aqueles que se interessam pelos livros de Greenberg e de Shawn seguramente tirarão proveito de um outro, “Uma mente inquieta”, de Kay Redfield Jamison (Martins Fontes, 2004). A autora é uma brilhante psiquiatra norte-americana que sofre de transtorno bipolar, e que, de maneira muito vívida, descreve suas vivências maníacas e depressivas. Os que lêem em inglês, também se beneficiariam com o “Dakness Visible – a memoir of madness” do escritor norte-americano William Styron.
(*) – este texto foi publicado, com pequenas alterações, no jornal “O Estado de São Paulo”, no caderno “Cultura”, em 29/08/09
2 de Setembro de 2009 às 19:16
Sérgio Telles
O CONFORMISTA, de Bernardo Bertolucci (1970)
Sérgio Telles
Tido como uma das obras-primas de Bernardo Bertolucci, O CONFORMISTA, baseado no romance homônimo do Alberto Moravia, está disponível em DVD, após ter sido relançada uma nova cópia nos cinemas europeus em meados deste ano. Além do requintado visual do filme, que recria cuidadosamente a década de 30 e a ascensão do fascismo em Roma, o filme é um interessante estudo sobre o papel da ideologia como suporte identificatório para uma estrutura de ego desorganizada e frágil.
Bertolucci não segue a estrutura linear do romance de Moravia, preferindo montar um quebra-cabeça estruturado em flashbacks.
O filme inicia com Marcello Clerici recebendo um telefonema que o coloca em perseguição de um inimigo do regime fascista a quem deve assassinar. Enquanto seu comparsa Manganiello dirige o carro, Clerici rememora em flashbacks sua trajetória até aquele momento. .
Vê-mo-lo em longas conversas com seu amigo cego que é ideólogo do partido fascista. A cegueira do ideólogo expressa a clara critica de Bertolucci às idéias por ele (ideólogo) defendidas. Numa expressão de identidade confusa e frágil, Clerici pergunta ao amigo o que é ser “um homem normal”. Este lhe diz que “um homem normal” é aquele que volta a cabeça para olhar o traseiro de uma mulher que passa, é aquele que gosta de estar entre iguais, é aquele que se perde na multidão, que não tolera o diferente. Clerici diz querer ser “normal”, para isso quer se casar. Através do amigo, ingressa no partido e se dispõe a prestar-lhe qualquer serviço.
O coronel que recebe Clerici no partido diz ser seu currículo excelente e que todos estavam bem impressionados, pois ele se apresentava voluntariamente para servir ao partido, o que era raro, pois na maioria das vezes as pessoas obedeciam às ordens do partido por medo ou por dinheiro. Após um período de observação, o partido lhe dá uma tarefa importante – assassinar o prof. Quadri, um importante intelectual inimigo do regime, que fora professor de filosofia de Clerici e que se exilara em Paris. Clerici não dá uma resposta imediata ao convite.
Um policial, Manganiello, é designado para acompanhá-lo na missão. Com ele, Clerici vai até a casa de sua mãe, uma mansão abandonada e decadente. Ali a encontra dormindo ao meio dia, dividindo a cama com vários filhotes de cão, uma sugestiva imagem de promiscuidade e indiscriminação, que logo se confirma com a conversa que se estabelece entre mãe e filho, em tons eróticos incestuosos. Ele pede que ela se cubra, pois está seminua, e ela, após beijá-lo na boca, lamenta ter um filho “moralista”. O filho está ali para levá-la a uma visita ao pai, internado num hospício.
Enquanto espera a mãe no jardim da mansão, Clerici conversa com Manganielo. Pergunta-lhe se acha possível alguém ter uma infância normal naquela casa, tendo uma mãe viciada em morfina e explorada por seu motorista, misto de amante e fornecedor de droga. Pede então que o policial dê fim ao amante da mãe, o que Managaniello imediatamente realiza. Isso parece fazer com que Clerici se decida a realizar a missão para a qual fora designado.
No hospício, Clerici encontra o pai louco, repetindo mecanicamente as palavras “violência e melancolia”, escrevendo algo sobre as relações entre o individuo e o estado, que deveriam ser harmônicas, indutoras de identificações recíprocas. Clerici avisa ao pai que vai casar-se, o que o pai mal registra. A seu pedido, a mãe se afasta para que ele possa ter uma conversa particular com o pai. Clerici então o confronta, indagando se ele fora um torturador e assassino, o que o pai admite, para logo dele se afastar, chamando o enfermeiro, a quem solicita que lhe coloque a camisa de força.
Incumbido de matar seu antigo professor, Clerici dirige-se a Paris. Sua viagem para aquela cidade conjuga o objetivo de realizar sua missão política com a lua-de-mel, importantes passos para executar seu projeto de ser “normal”, como antes afirmava para o amigo ideólogo cego.
Casara-se sem entusiasmo com Giulia, que considera uma burguesa medíocre e mesquinha. Frente a sua relutância em cumprir com os rituais religiosos do casamento, deixa-se convencer ao ouvir dela que não deve levá-los muito a sério, pois “ninguém acredita mesmo neles”.
Ao se confessar, Clerici tem atitude insolente e desrespeitosa com o padre, a quem confidencia ter sofrido uma aproximação homossexual aos 13 anos, por parte de um homem mais velho, a quem teria então assassinado. Recrimina o padre, que parece estar mais interessado na sodomia e considerá-la um pecado mais grave do que o próprio assassinato que estava confessando naquele momento. Provoca o padre ao ridicularizá-lo, ao casamento, à igreja, a Cristo, mostrando um desespero existencial avassalador. O padre, que até então o censurava, para a perplexidade de Clerici, absolve-o imediatamente ao ouvi-lo dizer que é um fascista e que agora luta contra os subversivos. Uma clara mostra da cumplicidade da igreja com o partido, dos usos que a ideologia política faz da religião.
Na viagem de lua-de-mel, no trem, sua noiva Giulia diz não mais ser virgem, pois há 6 anos era amante de um amigo do pai, que freqüentava sua casa desde sua infância. Fora ele quem mandara a carta anônima querendo indispor Clerici com a sogra, levantando suspeitas sobre sua saúde, ao afirmar que seu pai enlouquecera por ser sifilítico. Com isso, o autor desmascara os valores “familiares” tão exaltados pelo fascismo.
Em Paris, Clerici tenta se aproximar do Professor Quadri e reconhece em sua mulher Anna uma prostituta de alto escalão, que vira na companhia de altas autoridades fascistas, em suas peregrinações para entrar no partido. Anna lhe diz que todos suspeitam ser ele um espião e se oferece sexualmente a ele, pedindo sua clemência.
Anna dá um tom permanentemente bissexual ao contexto, pois ao mesmo tempo em que se envolve com Clerici, se interessa por Giulia, como se vê na belíssima cena do baile e no quarto de hotel. No baile, Clerici já sabendo que suspeitam dele, tenta abandonar a missão, mas Manganiello o contem, dizendo ser demasiado tarde para tanto. O professor Quadri o submete a testes, nos quais aparentemente se convence de sua neutralidade política, mas, na verdade, ele e Anna fogem, colocando Clerici e Manganiello em sua perseguição.
Na estrada, o carro do Prof. Quadri é interceptado por um outro cujo motorista aparentemente está ferido. Ele desce para investigar o que acontece. Anna sabe que está sendo seguida por Clerici, cujo carro bloqueia a fuga por trás. Vários homens aparecem da floresta e apunhalam seguidamente o professor. Anna corre até o carro onde estão Clerici e Manganiello, e pede auxilio a Clerici, que nada faz, assistindo impassível seu assassinato. Manganiello sai do carro e expressa seu desprezo por Clerici, a quem equipara a outros “covardes”, como os judeus e homossexuais, etc.
A ação corta para quatro anos depois, quando vemos Clerici com sua filhinha, a quem ensina a rezar a Ave Maria, enquanto ouve no rádio as noticias sobre a queda de Mussolini. Giulia diz que o amigo ideólogo havia ligado e pedido para encontrá-lo no lugar de sempre. Giulia pede para Clerici não sair e pela primeira vez menciona saber de sua participação no assassinato de Quadri e sua mulher. Ao ser interrogada por Clerici, Giulia diz que Anna, talvez com o objetivo de separá-los, dissera que ele era do serviço secreto e estava tentando eliminá-los. Mais uma vez Clerici pergunta a Giulia o que ela pensava disto e ela responde que entendia ser o trabalho dele e que o assassinato do casal o teria feito progredir profissionalmente. Giulia insiste ser perigoso que ele saia às ruas naquele momento, pois poderia ser identificado como um homem do regime.
Mesmo assim Clerici sai. O tumulto político é simbolizado por apagões de luz, multidões nas ruas. Clerici encontra o antigo amigo ideólogo cego numa ponte e saem andando. Ao passarem por um beco, inadvertidamente Clerici ouve uma cena de sedução homossexual, na qual reconhece a fala e o texto da antiga sedução que sofrera na infância.
Chocado, Clerici para, reconhece o antigo sedutor que até então pensava ter assassinado e que simplesmente recebera um tiro de raspão.
Neste momento, tal como o sistema político que caíra, Clerici também desmorona. Totalmente descontrolado, grita contra o sedutor atribuindo-lhe seus próprios crimes – o assassinado de Quadri e sua mulher Anna. O sedutor foge, debaixo de acusações de pederasta e fascista. Em seguida, Clerici passa a denunciar o amigo cego como fascista, que é levado de roldão pela multidão.
Quando esta se afasta, Clerici se encontra sozinho com o homossexual que estava conversando com o antigo sedutor e aparentemente a ele se entrega sexualmente.
Em função da loucura familiar, da experiência traumática da sedução homossexual e da fantasia de ter assassinado o sedutor, Clerici se sente diferente, constata sua não “normalidade”, sua identidade pouco definida e confusa sexualmente. Busca desesperadamente ser igual a todos, ser “normal”.
Procurara se “conformar”, entrar na forma, ou seja, ter uma identidade estável e definida, para tanto se apoiando numa ideologia forte e violenta, que estabelece claros parâmetros e fortes repressões.
O filme mostra como uma ideologia política pode ser usada como apoio identitário por personalidades frágeis mal constituidas. Na hora em que o regime e a ideologia que o amparava se esfacelam, Clerici também se desorganiza psiquicamente, despersonaliza-se, desidentifica-se, confunde-se com o homossexual pederasta em quem simultaneamente projeta toda sua conflitiva psíquica e com o qual se identifica.
O final do filme é uma bom exemplo da cena traumática externa e atual que reatualiza catastroficamente a cena traumática infantil reprimida, provocando uma completa desestruturação psíquica pelo fracasso das defesas mantidas até então.
Como o filme foi relançado na Europa este ano, isso deu vez a muitas entrevistas com Bertolucci, quando foram levantadas interessantes questões, às quais não foram por ele dadas respostas diretas: quereria ele dizer que o fascismo e a ideologia direitista seriam uma defesa contra o homossexualismo? A desesperada luta de Clerici para ser “normal” era uma luta contra a homossexualidade? Ser “normal” é ser heterossexual? Seria esta uma tese homofóbica?
9 de Novembro de 2008 às 09:23
Sérgio Telles
Resenha de SEDUÇÕES DA PSICANÁLISE – FREUD, LACAN E DERRIDA – de John Forrester, 265 páginas, Papirus Editora, Campinas, 1990
Sérgio Telles
John Forrester é conferencista em História e Filosofia da Ciência na Universidade de Cambrigde. Resume seu trajeto assim: “da Ciência para sua história, da sociologia da ciência para a história da psicanálise e daí para a ‘teoria francesa’”.
Encontrou em Lacan o Freud que admirava, traduziu para o inglês seus primeiros seminários. É admirador de Foucauld e Derrida, autores que o influenciaram. Escreveu “Linguagem e as Origens da Psicanálise”. Já traduzido para o português, onde reconhece algumas deficiências que pretende corrigir no atual livro.
O livro traz seis artigos publicados em periódicos e coletâneas inglesas, sendo que três deles foram originalmente conferências proferidas na França e na Inglaterra.
Os três primeiros abordam aspectos históricos do início da psicanálise e, sendo este um terreno lavrado à exaustão, o autor procura achar algumas idéias interessantes.
Em “A verdadeira história de Anna O.”, enfoca o tema da responsabilidade pela paternidade física e intelectual, problema que Freud estaria atravessando naquela ocasião, com o nascimento de sua filha Anna e a descoberta da psicanálise. Como se sabe, inicialmente Freud dava a Breuer todos os créditos desta descoberta a Breuer, atribuía a paternidade da psicanálise a Breuer, que, por sua vez, negou-se a assumir a “paternidade” do filho imaginário de sua paciente Anna O., fugindo da descoberta da transferência amorosa que ali se exibia plenamente.
Em “Contraindo a Doença do Amor: Autoridade e Liberdade nas Origens da Psicanálise”, Forrester aprofunda o tema do capítulo anterior, o da transferência amorosa, rebatendo uma critica de Robert Castel à psicanálise. Sendo estruturalmente uma relação assimétrica, a relação analítica reativa anseios infantis profundos, ligados à dependência e à ligação exclusiva com a figura parental projetada no analista. Forrester traz à baila a teoria da sedução de Freud e sua atualidade, discutindo ambígua dialética entre sedução e estupro, distinção legal que a psicanálise ousa, de certa forma, relativizar.
“Os Prazeres Inauditos (unspeakable) da Psicanálise: Freud, Dora e a Madona”, o capitulo três, faz Forrester mostrar a dificuldade de Freud em aceitar a posição feminina na transferência (transferência materna), o que teria levado ao fracasso o caso Dora. Na opinião do autor, Freud não queria que a analise se transformasse em “conversa de comadres”, “fofocas de mulheres”, daí “recusar” as confidencias de Dor. Preocupado em dar uma conotação “séria” à psicanálise, Freud ter-se-ia incomodado com este fato peculiar de que a análise envolve um tipo de discurso, uma fala que limita permanentemente com a fofoca, a boataria, este campo onde, por excelência, manifesta-se o imaginário das pessoas, e que se expressa numa palavra reveladora e próxima do processo analítico, o “ouvi dizer”, o “diz-que-diz”, o “hearsay” em inglês.
Os três últimos capítulos são mais interessantes.
Em “O que o Psicanalista faz com as Palavras: Austin, Lacan e os Atos de Fala em Psicanálise”, Forrester aproxima o conceito de “ato de fala” do filósofo inglês Austin com o conceito de “fala plena” de Lacan. Ambos recusam uma concepção funcionalista da linguagem como comunicação, reconhecendo nela outras e mais importantes funções. Austin critica a “reitificação do discurso encontrado nas teorias da linguagem influenciadas pelo positivismo lógico”, que dizem ser ela “descritiva” ou “constatativa”, onde os enunciados são sempre “falsos” ou “verdadeiros”. Em lugar disso, considera a maioria dos proferimentos como “performáticos”. O titulo de um de seus livros é “How to do things with words” (“como fazer coisas com palavras”)que – em francês foi traduzido como “Quand dire c´est fairre” (“quando dizer é fazer”), mostrando as conseqüências diretas e concretas na realidade dos que falam, desencadeando complexos fatos e circunstancias interssubjetivas. Por exemplo: quando alguém diz “sim, aceito” numa cerimônia de casamento, esta fala “performa”, transforma seu estado, tem imensos desdobramentos, todos diversos de meros enunciados “verdadeiros” ou “falsos”, como se pensaria dentro dos modelos positivistas da linguagem.
Semelhante, mas muito mais abrangente e estruturante, Lacan desenvolve seu corpo teórico em cim da importância da linguagem, do discurso do Outro enquanto constitutivo do sujeito humano.
O capítulo cinco: “Em cima da hora: a Teoria da Temporalidade segundo Lacan”, é um tema riquíssimo, no qual Forrester procura descrever a dimensão do tempo no inconsciente na visão lacaniana, delineando as duas vertentes do tempo da compulsão à repetição, da posteridade (“après-coup”) – com suas complexas implicações no estudo da causalidade em psicanálise, e do “tempo lógico”, com seus três momentos. O autor aborda os efeitos práticos dessa teoria do tempo lógico nas problemáticas sessões curtas lacanianas e em suas salas de espera lotadas de pacientes que nunca sabiam se e quando seriam atendidos.
Finalmente, “Quem está em analise com quem – Freud, Lacan, Derrida”, o último artigo, é de longe o mais instigante, o mais polêmico e aquele sobre o qual muito poderia ser dito. Forrester fala aí dos problemas da formação do analista, das instituições psicanalíticas, das re-análises, das fofocas entre psicanalistas. São dissecados aí os “discretos charmes da freudosia” (saborosa expressão citada pelo psicanalista francês Granoff ), este espaço onde é difícil delimitar o analítico do não-analitico, onde reinam a analise selvagem e a transferência selvagem.
Uma boa interpretação deste mundo é a recolhida num trabalho de Serge Leclaire, citado por Forrester, que diz que a cena primária aqui é o que ocorre no divã do outro.
A formação do analista é abordada através dos interessantíssimos exemplos da relação Freud-Jones-Loe (amante de Jones) e Jones-Joan Riviere (paciente de Jones) -Freud, bem como do trabalho sobre contratransferência de Margareth Little, citado equivocadamente por Lacan em seu seminário I como de Annie Reich. Os impasses nesta formação são relembrados, inclusive o que o autor chama de “instrutivo fracasso” da experiência lacaniana do “passe”.
Forrester fala da diferente postura dos analistas franceses e anglo-saxões. Aqueles parecem tem uma relação transferencial direta com Freud, enquanto estes julgam “começar” com Freud, procurando mostrar um avanço “para além de Freud”. Neste capitulo, a referência central é Derrida, do qual vários textos são citados, especialmente “Du tout”, publicado em “La Carte Postale”.
Concluindo, Forrester retoma o ponto abordado no capítulo quatro, o não analisável em Freud e nas instituições, vinculando-o com a transferência feminina, como o papel da mulher, a fofoca, o diz-que-diz.
Lendo “Seduções da Psicanálise” tem-se muitas vezes a impressão estranha de estar ouvindo alguém falar de muito próximo da psicanálise, mas não de dentro dela. Mas é compreensível por não ser o autor um analista e não evidenciar ter tido alguma experiência pessoal direta com a análise, além da teórica. Mesmo assim e por mais que se possa discordar de algumas de suas idéias, aborda ele estimulantes temas lacanianos, que enriquecem o debate psicanalítico.
Há um problema de editoração. Há muitas notas de pé-de-página, colocadas no final de cada capítulo, o que dificulta muito a leitura. O capitulo cinco chega a ter um impossível numero de 194 extensas notas. É de se perguntar se não seria o caso de o autor refazer todo o capitulo e integrar aquele material ao texto principal, possibilitando uma leitura fluida e sem interrupções desagradáveis.
29 de Março de 2008 às 16:38
Sérgio Telles
Sérgio Telles
Apesar de ter inúmeras vinhetas clínicas espalhadas abundantemente por toda sua obra, Freud escreveu mais extensivamente sobre cinco pacientes que ficaram conhecidos como o caso Dora (Fragmento da análise de um caso de histeria - 1905), o caso Joãozinho (Pequeno Hans - Análise de uma fobia em um menino de cinco anos - 1909), o”Homem dos Ratos” (Notas sobre um caso de neurose obsessiva - 1909), o caso Schreber (Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia - 1911) e o”Homem dos Lobos” (História de uma Neurose infantil - 1918).
Magníficas exposições do evoluir da cura (excetuando-se o caso Schreber) , do progressivo desvendar da sintomatologia inconsciente, num integrado desdobramento em formulações teóricas, são eles paradigmas do trabalho teórico-clínico em psicanálise.
Desde que foram escritos, estes casos foram revisitados muitas vezes por analistas que procuravam rever os critérios de Freud, discutir o diagnóstico, as inferências transferênciais e contra-transferênciais, ampliando hipóteses, rejeitando outras tantas, pesquisando material histórico sobre os pacientes, numa atitude onde o desejo edipiano de sobrepujar o pai da psicaná1ise não estaria de todo ausente.
O “Homem dos ratos” deriva seu nome de seu sintoma principal: uma idéia obcidente que o atormentava, uma história de tortura que tinha ouvido durante seu serviço militar. Ratos famintos eram colocados dentro de um recipiente que seria, por sua vez, acoplado às nádegas de uma pessoa devidamente acorrentada e manietada e colocada em posição adequada, de modo que os ratos, fustigados através de uma abertura determinada, tentariam fugir, para tanto penetrando no ânus do torturado.
O Homem dos Ratos imaginava que tal tortura seria aplicada a seu pai (já falecido) e à sua “dama” (maneira como chamava a mulher que amava), aplicação esta que dependeria de determinadas circunstâncias sobre as quais era responsável. Com este ponto de partida, Freud estabelece a estrutura básica da neurose obsessiva, desvendando seus vários mecanismos - a ambivalência afetiva, a onipotência do pensamento mágico, a dúvida, a anulação, o isolamento, as idéias de morte.
Patrick Mahony faz sua peregrinação ao Homem dos Ratos, como tantos outros antes dele, o que se verifica na extensa bibliografia por ele citada. Sendo, além de analista, professor de literatura inglesa na Universidade de Montreal, faz interessantes abordagens sobre o estilo literário e posição
retórica de Freud. Revela a identidade do Homem dos Ratos, o advogado Dr. Ernst Lanzer, morto na Primeira Guerra Mundial, onze anos após o final de sua análise, aos 35 anos. Elabora uma hipótese na qual afirma que Freud se deixa contaminar pelos mecanismos obsessivos do paciente, o que se evidenciaria na própria construção do texto.
Mahony salienta uma especificação deste caso. Ao contrário do Homem dos Lobos e do Caso Dora, que estão basicamente centrados em torno de sonhos, ou seja, acontecimentos visuais, todo o caso do Homem dos Ratos gira em torno dos atos e frases obsessivas, ou seja, na linguagem verbal, nas palavras.
De fato, este é um caso onde a importância da linguagem se evidencia de imediato, desde que tudo se organiza em função da descoberta de um significante principal na história do paciente - Ratten (ratos), Spielratten (joqador de baralho), raten (supor, suposiçäo), Heilraten (casamento, acasalamento), Raten (prestação, pagamento) - significante este por onde circula incessantemente a complicada trama associativa que aprisiona expressa a estrutura conflitiva do paciente.
Mahony mostra várias outras reiterações do significante observadas claramente na versão original alemã, cuja riqueza está totalmente perdida na tradução de Strachey, que recebe novamente uma saraivada de críticas, ela que há tão.pouco tempo era louvada irrestritamente….
Mahony revela as discrepâncias entre o relato do caso como foi publicado e as anotações privadas de Freud, sendo as mais importantes - a seu ver - as incongruências cronológicas na seqüência de fatos tal como relatado por Freud, assim como a própria duração do tratamento, que teria sido bem mais curto do que o afirmado por Freud. Aponta o total descuido que Freud revela quanto a transferência, preocupado que estava em construir o passado e preencher as lacunas de memória do paciente, sem atentar para o aqui e agora da relação terapêutica, o que fica gritantemente ilustrado após três intervenções feitas por Freud durante o tratamento – quando pede ao paciente para ver o retrato da “dama”, quando enviou um cartão postal para ele e quando o convidou para uma refeição em sua casa. Com facilidade, Mahony mostra a repercussão imediata destas atuações de Freud nas associações livres do paciente, que evidencia tê-las vivenciado como intrusiva penetração anal por parte de Freud.
Determinados progressos técnicos ainda estavam por vir, especialmente o manejo massivo da transferência, embora Mahony mencione a eficácia terapêutica de Freud (via sugestão?) e compare sua atitude com a robotização da postura que muitos analistas atualmente julgam correta.
Mahony faz interessantes observações sobre a qualidade essencialmente oral da psicanálise, a estranheza que isso provoca num mundo científico onde a escrita predomina. Tal oralidade essencial da psicanálise gera inúmeros problemas em sua transmissão escrita, localizando nisto a especial aridez e falta de fluência na maioria dos trabalhos analíticos, critica não aplicável a Freud, teria superado os impasses próprios desta transcrição.
Neste sentido, Mahony afirma que na formação do analista falta estudar e atentar para a “cena da comunicação profissional pública”, a comunicação de trabalhos entre colegas, que ele contrapõe à “cena ele comunicação terapêutica”, o estudo da prática entre analista e paciente, esta sim, bem estudada.
A respeito das divergentes leituras de Freud, problema tão atual, diz Mahony: “A leitura de Freud em oposição à leitura de outros colegas é uma questão especialmente complicada dadas as transferências que possamos ter com ele, com os temas de seus escritos, com seus interlocutores imaginários e com a instituição psicanalítica. Quem sabe, com o tempo, as diversas leituras de Freud passarão a ser classificadas por século ou nação, como tem acontecido com a Bíblia e Shakespeare (o Shakespeare espanhol, o Shakespeare do século XVIII e assim por diante). Talvez a rivalidade ressentida que se vê entre as interpretações do “Freud francês” e do Freud anglo-americano” servirá. para futura reflexão das psicopatologias possíveis da leitura de Freud, permitindo distinguir-se, entre outros tipos, as leituras hitéricas, obsessivas, narcisistas, fetichistas e de outras espécies”
Com isso Mahony assinala a importante e inevitável presença da transferência pessoal e institucional que marca a leitura de Freud, obstaculizando-a , transformando-a num sintoma, ao mesmo tempo que atribui, corretamente, ao texto freudiano uma grandeza e uma profundidade inesgotáveis, uma atemporalidade (como a do inconsciente) que no correr da História possibilitaria divergentes leituras, enfoques diferentes, em perpétuo reflorescer, como o grande Bardo, de quem Freud era grande admirador.
“Freud e o Homem dos Ratos”, de Patrick Mahony é de grande interesse não só para analistas mas para todos aqueles interessados na cultura e na aventura humana. Pena que num livro onde a linguagem e o estilo são tão importantes, a tradução - apesar de muito esforçada - não tem a inspiração e o brilho que seriam desejáveis no caso.
29 de Janeiro de 2008 às 16:26
Sérgio Telles
O CHEIRO DO RALO, de Heitor Dhalia
Sérgio Telles
Baseado num livro de Lourenço Mutarelli e roteiro de Marçal Aquino, o filme de Dhalia ganhou vários prêmios nacionais e internacionais, e tem recebido uma boa atenção do público.
O protagonista do filme tem o mesmo nome do autor, Lourenço. Ele é dono de uma loja de penhores, onde as pessoas necessitadas de dinheiro vêm vender seus objetos, muitos deles cheios de historias e lembranças pessoais. Ao receber seus clientes, Lourenço sempre explica que o mau cheiro que eventualmente possam sentir decorre de um ralo entupido em seu banheiro, não vem dele mesmo.
Lourenço desiste na véspera de seu casamento, alegando não amar ninguém, nem mesmo sua mãe, a quem a noiva perplexa tenta recorrer de sua decisão. O mundo de Lourenço reduz-se a seu ambiente de trabalho, que mais parece um esquálido depósito de lixo, um amontoado de objetos velhos, e seu apartamento, também inóspito.
O texto completo deste artigo está no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008.
8 de Junho de 2007 às 15:06
Sérgio Telles
Sérgio Telles
psicanalista e escritor
“Bruna Surfistinha” é o nome de guerra de uma jovem prostituta que, a partir de 2005, assinava um blog na internet, no qual registrava seu cotidiano, comentando suas atividades e o desempenho de seus parceiros sexuais.
O blog teve uma inesperada receptividade por parte dos internautas, chegando a receber 15 mil visitas diárias, fato que chamou a atenção da grande imprensa, abrindo grande espaço em jornais e programas de televisão para Bruna Surfistinha. Foi então que ela publicou seu primeiro livro, “O DOCE VENENO DO ESCORPIÃO - O Diário de uma Garota de Programa” (Panda Books, 2005), tornando acessível sua história para aqueles que não a conheciam através da internet.
O livro rapidamente entrou na lista dos best-sellers, vendendo mais de 200 mil exemplares, algo inusitado na indústria editorial brasileira, acostumada com números bem mais modestos, com títulos que raramente ultrapassam a marca dos 10 mil exemplares vendidos. Os direitos autorais do livro foram comprados por editoras dos Estados Unidos, Inglaterra, Nova Zelândia, Canadá, França, Espanha, Itália, Alemanha, Holanda, Coréia do Sul, Turquia e Vietnã. Além disso, prepara-se um roteiro cinematográfico nele baseado. Seu sucesso mereceu artigo no prestigiado The New York Times.
Em 2006, Bruna Surfistinha lançou um novo livro “O QUE APRENDI COM BRUNA SURFISTINHA - Lições de uma vida nada fácil” (Panda Books, 2006), agora assinado pelo que seria seu verdadeiro nome, Raquel Pacheco.
Os dois livros mostram seu percurso de menina de classe média que entra na prostituição e dela é resgatada por um “verdadeiro amor” - um ex-cliente que por ela se apaixona, abandonando mulher e filhos, fato que também foi amplamente explorado por revistas e programas populares na televisão. A mulher abandonada, Samantha Moraes, aproveitando a publicidade, escreveu sua versão da história (”DEPOIS DO ESCORPIÃO: Uma História de Amor, Sexo e Traição” - Ed. Seoman, 2006).
A leitura dos dois livros de Bruna Surfistinha suscita algumas idéias em torno da pornografia, da prostituição, da escrita como expressão e simbolização organizadoras do psiquismo e das autobiografias enquanto gênero literário.
A pornografia tem uma longa tradição histórica. Embora sua definição não seja fácil, pois os critérios que a caracterizam como tal variam largamente em função de padrões culturais em jogo, pode-se dizer que a pornografia é a representação de comportamentos eróticos - em livros, pinturas, estátuas, filmes, etc - com o objetivo de provocar excitação sexual, tendo ou não esta representação uma preocupação formal estética.
Suas expressões mais antigas estão ligadas a canções lascivas entoadas nas orgias dionisíacas gregas. Representações gráficas, como as de Pompéia, mostram sua presença no Império Romano, assim como o texto clássico Ovídio “Ars Amatoria” (”A Arte de Amar”), um bom exemplo de “pornografia” escrita.
Na Idade Média, a pornografia foi difundida basicamente de forma oral, através de canções que satirizavam a luxúria de homens e mulheres da Igreja, supostamente castos. Sob a forma escrita, um bom exemplo dessa época é o “Decameron”, de Boccaccio.
A invenção da imprensa deu novo alento à pornografia escrita, criando um campo que desde então não parou de se expandir, apesar das sanções legais. O mesmo ocorreu com a invenção da fotografia e do cinema, assim como, mais recentemente, com a internet.
Ou seja, cada vez que um novo meio de comunicação se estabelece, a pornografia passa a ser um de seus maiores usuários, fato da maior importância e que necessita ser encarado sem preconceitos.
A pornografia tem sido objeto de perseguições morais e religiosas, por se acreditar que ela tende a corromper ou depravar as pessoas, além de induzir a prática de crimes sexuais. Por este motivo, em muitos países, a produção, a distribuição e a posse de material considerado pornográfico são vistos como crimes passíveis de punição.
Tais idéias têm sido combatidas com argumentos legais e científicos. A ampla difusão de material pornográfico pela internet fez caducarem muitos dos controles sociais até então eficientes e mostra o caráter fantasioso dessas idéias. A crer no que elas afirmam, a divulgação de material pornográfico pela internet deveria ter feito com que os crimes sexuais crescessem de forma extraordinária, o que não aconteceu.
Assim, os livros de Bruna Surfistinha se inscrevem numa longa tradição e se beneficiam da última invenção tecnológica - a internet - para serem divulgados. Eles têm uma disposição editorial especifica - um corpo extenso de páginas brancas e um outro menor, de páginas pretas lacradas, onde supostamente estaria o material mais censurado. É uma divisão arbitrária, que atenderia mais a um marketing visando estimular a curiosidade acerca de material “proibido”, pois não há uma diferença notável no teor dos textos assim discriminados. Nas páginas pretas apenas estão mais concentradas descrições de práticas sexuais que estão expostas pelo livro inteiro e que satisfazem nosso voyerismo, componente importante de nosso acervo erótico, imprescindível não só nas preliminares como no próprio ato sexual.
Mas os livros de Bruna Surfistinha terminam por se afastarem daquilo que é o mais específico das produções pornográficas - a franca e direta provocação do desejo sexual, cujo poder eventualmente transgressivo a muitos assusta.
Os dois livros contam uma história romântica, recheada de conselhos aos leitores e apimentada com uma pornografia light. Ao mostrar uma prostituta que trilha o caminho de erros e é redimida pelo amor, Bruna Surfistinha reafirma uma visão convencional e moralista sobre a prostituição, acomodada aos estereótipos do imaginário coletivo, sendo este - possivelmente - uma das razões de seu grande sucesso comercial.
Por outro lado, a prostituta resgatada pelo amor é uma das modalidades de escolha de objeto por parte dos homens, como Freud descreve em “Contribuições à Psicologia do Amor” (1910): determinados homens se apaixonam por prostitutas por equipará-las às suas mães - a prostituta é uma “mulher de outros homens”, assim como a mãe é a “mulher de um outro homem”, o pai.
Estruturados como autobiografia, os livros nos remetem aos problemas específicos deste gênero literário. Se “Bruna Surfistinha” é um personagem criado por Raquel Pacheco, “Raquel Pacheco” não deixa de ser também uma outra ficção, desta vez involuntária, como ocorre na maioria das autobiografias. Nelas, a imagem de si mesmo construída pelo autor atende mais ao desejo de mostrar uma bela figura para a posteridade do que ser fiel aos fatos. Mas o que ocorre com as autobiografias reflete uma verdade mais profunda, aquela decorrente da divisão interna de nosso psiquismo em função do inconsciente reprimido, o que nos impossibilita uma auto-percepção adequada.
De certa forma, os livros de Bruna Surfistinha quebram um estereótipo sobre a prostituição. Sendo ela uma moça de classe média, sua realidade não está tão distante da de seus leitores, o que não ocorre com os relatos de prostituição feitos por aquelas que ali chegaram por uma pressão direta da miséria sócio-econômica.
Segundo Bruna Surfistinha, foi uma outra “miséria” o que a levou para a prostituição - a miséria psicológica, o trauma decorrente da descoberta de sua adoção.
Levando em conta tal explicação, sua ida para a prostituição decorreria de graves problemas identitários, já sinalizados por sintomas anteriores, como a obesidade, a cleptomania, as idéias de suicídio e o uso de drogas. Isso estabeleceria a conotação sintomática de sua conduta rumo à prostituição, o que contradiz diretamente sua tentativa de apresentá-la como um trabalho comum, semelhante a qualquer outro.
Embora Bruna Surfistinha / Raquel Pacheco explicite que o jornalista Jorge Taquini a ajudou na elaboração dos textos, a autoria dos mesmos não pode ser colocada em questão ou atribuída a um ghost writer. Não podemos esquecer que foi dela a idéia de criar um blog e nele escrever regularmente suas experiências, acobertada pelo “personagem” Bruna Surfistinha.
Foi justamente isso que lhe deu notoriedade, tirando-a da vala comum de tantas outras jovens prostitutas. E é isso que a estabelece como autora, alguém que tem uma proximidade com a escrita e é capaz de usá-la para expressar suas vivências.
Talvez não seja excessivo correlacionar a proeza de Bruna Surfistinha com as construções teóricas de Lacan em torno de Joyce, ao afirmar que a escrita ocupou para o autor de “Ulisses” o lugar vacante da função paterna, evitando assim a eclosão de uma psicose. Talvez Bruna Surfistinha, da mesma forma que Joyce, tenha usado da capacidade de escrever para organizar e simbolizar o caos psíquico e com isso escapar da loucura.
Para terminar, sublinho algo que Bruna Surfistinha menciona muitas vezes em seu texto - a hipocrisia em relação à prostituição.
A atitude da sociedade frente à prostituição é muito ambígua. Condena a prostituta e secretamente admira seus fregueses, que assim reafirmam sua virilidade. Todas as vezes que a prostituição é penalizada e as prostitutas perseguidas, dificilmente o mesmo ocorre com seus clientes. Algo semelhante acontece no combate à corrupção e ao tráfico de drogas. Pune-se o corrupto, ficando o corruptor invariavelmente protegido, livre de qualquer ônus. Demoniza-se o traficante de droga e se ignora que ele atende à demanda de um mercado milionário composto por milhões de usuários.
Inegavelmente, a prostituição, a corrupção e o tráfico de drogas são encarados pela sociedade de forma dissociada e hipócrita.
(*) Uma versão mais sucinta desse artigo foi publicada na revista “Mente&Corpo”, no. 169, Fevereiro de 2007
Foi também publicado em Psychiatry on Line Brasil, fevereiro de 2007
27 de Fevereiro de 2007 às 15:00
Sérgio Telles
Resenha do livro de Renato Mezan, A Sombra de Don Juan e outros ensaios, São Paulo, Casa do Psicólogo, São Paulo, 2005, 310 p.
Num país iletrado como o nosso, a publicação da segunda edição de um bom livro é sempre um fato auspicioso. É o que ocorre agora com o relançamento, pela Casa do Psicólogo, de A sombra de Don Juan de Renato Mezan, previamente publicado pela Editora Brasiliense em 1992.
Trata-se de uma coletânea de artigos e conferências que descerram um rico repertório: considerações sobre o sedutor Don Juan; comentários a respeito de uma proposta de Habermas sobre a posição do analista quanto às lembranças do Holocausto; elaborações sobre epistemologia psicanalítica; reflexões sobre as vicissitudes da formação; ponderações sobre a pessoa e meio de Freud e as características próprias da psicanálise.
Como constatei agora, já que não os lera quando de sua publicação anterior, são temas que mantêm por completo a atualidade e pertinência. A propriedade e domínio com que Mezan os aborda jamais resvalam para o pedantismo ou para o tom autoritário de um discurso de mestre. Pelo contrário, seu texto nada empolado expõe com clareza seu raciocínio e tem a fluência e a proximidade de uma conversa entre amigos, o que torna sua leitura muito agradável, estimulando o leitor a com ele dialogar, coisa que passo a fazer.
A tônica do conjunto é a plena convicção dos indissociáveis e íntimos vínculos existentes entre a psicanálise e a cultura, atitude que Mezan compartilha com Freud. Diz ele: “Um pesadelo assombrava as noites de Freud: que a psicanálise acabass por ficar restrita a uma especialidade terapêutica, nas mãos dos médicos, ou viesse a se converter naquilo que Phillip Rieff chamou ‘uma sutil ideologia de salvação pessoal’, nas mãos dos sacerdotes - fossem estes devidamente ordenados pelas religiões instituídas ou não. (…) E precisamente por que não se reduzia à sua dimensão clínica, a psicanálise não devia, para o seu fundador, se limitar à esfera terapêutica: certa ou erradamente, Freud acreditava que o método psicanalítico era um instrumento valioso para compreender as formações culturais, e dedicou boa parte de sua obra a empregá-lo dessa maneira” (p.187/8).
A interessante abordagem de Don Juan aponta um tema de permanentente interesse teórico e clínico, que é o do narcisismo. O Don Juan abordado por Mezan é aquele da ópera de Mozart, do libreto de Da Ponte e estudado por Kierkegaard. Ao elaborar algumas idéias sobre a prática da sedução, seus engodos no jogo amoroso, Mezan aponta para os elementos narcísicos atuantes em ambos os lados do processo – por parte do sedutor, que se engrandece com a conquista, e por parte da seduzida, que se sente gratificada por ser objeto da sedução: “Há assim na sedução um jogo sutil entre o ‘prometido’ para depois – que serve como isca – e algo que se passa aqui e agora, na relação entre os dois e que é fonte de um prazer muito mais real e muito mais intenso do que o sedutor descreve com suas palavras” (…) “Seu desejo as enobrece, e daí nasce seu efeito sedutor, na precisa formulação de Kiekergaard, porque esse desejo as torna diferentes do que eram antes, até um momento atrás, a seus próprios olhos. O jogo da sedução enraíza-se assim numa reduplicação do narcisismo, tanto do agente como do objeto seduzido” (p.25-9). A leitura que Kierkegaard faz de Don Juan desloca a convencional ênfase na condenação moral do sedutor e enfatiza sua exuberância sensual, o que o faz ofensivo não mais a Deus e sim a todos os outros homens por ele humilhados frente a sua habilidade junto às mulheres. É esse enfoque de uma sensualidade vista sem moralismo que possibilita Mezan estabelecer um elo com a abordagem freudiana da sedução, seguindo seus importantes desdobramentos na elaboração do corpo teórico freudiano e pós-freudiano, como nas formalizações mais recentes feitas por Laplanche. Além disso, discorre sobre sua atualização na situação analítica, como um dos avatares da transferência.
Em “Esquecer? Não: in-quecer”, Mezan responde a uma sugestão de Habermas a respeito do trabalho de luto a ser feito pela sociedade alemã frente às atrocidades do Holocausto e o papel que os analistas poderiam ter nesse processo. É um assunto sempre atual, que evoca a questão da representabilidade do trauma e da catástrofe e a necessidade de sua elaboração, o que é bem diferente do mero esquecimento. Pensando junto com Mezan, eu acrescentaria as decisivas contribuições de Derrida, nas quais se vê que quando o trauma transcende o individual e alcança o social - como é o caso do Holocausto - a questão da memória e dos arquivos passa a ter uma conotação política decisiva, que determinará a forma como a história será escrita; por isso mesmo, se postula a necessidade de sua permanente desconstrução, que revela os jogos de poder que ali se escondem. É ainda Derrida quem, ao criticar “uma psicanálise que resiste a si própria”, conclama a participação política do analista no cenário social, tal como evocado por Habermas.
“Existem paradigmas na psicanálise?” e “Que significa ‘pesquisa’ em psicanálise?” são preciosos nesse momento em que a psicanálise sofre ataques do cientificismo advindos das neurociências e do cognitivismo, que nos exigem critérios de validação semelhantes aos das hard sciences. Sem explicitá-lo, Mezan mostra que não devemos nos intimidar com tal terrorismo ideológico e sim defender as especificidades de nosso campo de saber. Ao comparar, por exemplo, a forma como Freud, Kohut e Green elaboram um trabalho, Mezan salienta como em todos eles é possível detectar procedimentos que são muito próximos das balizas que delimitam as formulações científicas - coesão interna, comunicabilidade, verificabilidade e cumulatividade. Entretanto, a essas há que se acrescentar o elemento que é próprio da psicanálise, a inclusão da dimensão do inconsciente no próprio cerne da elaboração teórica, reconhecendo as enormes dificuldades epistemológicas daí decorrentes, inclusive a produção de distorções verdadeiramente sintomáticas, em função do narcisismo do pesquisador (cf. p.130).
Em “Explosivos na sala de jantar” (onde discorre sobre Freud e a criação da psicanálise) - e “Psicanálise na cultura” (texto no qual agrupa resenhas de livros), Mezan detém-se naquilo que é o pano de fundo de seu livro: a íntima ligação da cultura com a psicanálise. Ao contrário daqueles que temem a funda penetração do saber psicanalítico no tecido social por considerá-la uma banalização do mesmo, Mezan muito a valoriza, como se vê no trecho abaixo, no qual grifei aspectos que considero de maior relevância: “A influência exercida pelas idéias de Freud e de seus discípulos sobre nosso modo de pensar e de sentir dificilmente pode ser exagerada; ela se manifesta na maneira como educamos nossas crianças, na forma como nos relacionamos conosco mesmos, e com os que nos rodeiam, no que nos é oferecido pelas artes e pela literatura, na linguagem cotidiana. Disto resulta, segundo alguns, uma diluição da aspereza própria da psicanálise; não penso assim. Creio que é confundir os níveis em que se desdobra um fato da cultura pretender que a maneira como a sociedade se serve dele o corrompe; ao contrário, parece-me que tal maneira faz parte do próprio fato, e que as implicações dessa situação devem ser pensadas e não caluniadas. A existência de representações ou de imagens da psicanálise, bem como do retrato que ela nos propõe da nossa vida interior, faz hoje parte das condições em que ela é praticada. Esse resultado foi intensamente desejado por Freud, e ele colocou boa parte de suas energias a serviço da divulgação de suas idéias, escrevendo com vigor e clareza, para públicos especializados e leigos, e sempre encontrando o tom justo para mobilizar seu leitor”. (p.146).
A questão abordada em “O Bildungsroman do psicanalista” parece-me mais aguda do que nunca. Entre nós, a perda da hegemonia das instituições ligadas à IPA e a instalação dos grupos lacanianos têm levado, como subproduto, à proliferação incontrolável de cursos e institutos que oferecem “formação analítica”, o que em muitos suscita grande apreensão. Parece que se saltou de uma rigidez obsessiva, esterilizante e burocrática para um laxo laissez-faire, tão problemático quanto a situação anterior. Mezan discorre sobre a training analysis, a análise didática, a formação, a transmissão, apontando para os inúmeros percalços e escolhos no Bildungroman do jovem psicanalista. Seu artigo me fez lembrar o texto de Piera Aulagnier, no qual ela põe a nu essas mesmas dificuldades, ao mostrar como o “candidato”, presa das inevitáveis idealizações próprias de seu estado, especialmente aquelas dirigidas às figuras parentais do analista, dos supervisores e da própria instituição, não se dá conta de ser muitas vezes peão nos perigosos jogos de prestígios que se desenrolam dentro das instituições, nos quais aquelas figuras por ele tão idealizadas estão mergulhadas até a raiz dos cabelos. Frente a tantas dificuldades, o que esperar da tal formação? Diz Mezan: “Talvez o paradoxo da formação seja o de que quanto mais ela avança, mais distante se torne o seu perfazer-se. Um analista ‘formado’: o que significa isso? Se indicar um estado de acabamento definitivo, sem virtualidades de evolução ulterior, a idéia é contraditória com a postura psicanalítica e deve ser recusada. Já a expressão um tanto melancólica ‘formação interminável’ se presta à demagogia e ao obscurecimento do fato de que em qualquer trajeto há etapas já vencidas e momentos que ficaram para trás: no caso da formação psicanalítica, conflitos resolvidos consigo mesmo, com a teoria, com a técnica, com os mestres e com as instituições. É mais verdadeiro, segundo penso, falar na aquisição de condições suficientes, como no caso do artista”. (p.185)
Em “Violinistas no telhado: clínica da identidade judaica”, Mezan retoma e amplia largamente um tópico já presente em “Explosivos na sala de jantar”: a psicanálise é uma ciência judaica? Se antes, em épocas nazistas, essa era um afirmação que se pretendia ultrajante e ofensiva, mais recentemente, ao ser reivindicada pelos próprios judeus, ela passa a ter a conotação oposta, idealizante – a psicanálise seria uma demonstração do gênio dos judeus. Cuidadosamente Mezan mostra como a psicanálise é inquestionavelmente uma aquisição humana de emprego universal, mas isso não o impede de propor aspectos que seriam próprios da comunidade judaica. Sem querer resumir sua complexa argumentação, salientaria aquelas que são, a seu ver, as duas marcas constitutivas da judeidade, duas “mutações” que a modificaram. A primeira decorreria da queda do Segundo Templo pelos romanos, que teria provocado um definitivo abalo narcísico identitário e a segunda se deveria ao choque com a modernidade, que teria desencadeado o aparecimento do sentimento de vergonha. Ambos os elementos fariam com que, no momento, a identidade judaica infirme mais que nunca.
Com A sombra de Don Juan, Mezan joga luz sobre importantes temas que nos concernem a todos.
Publicado originalmente em Psychiatry on line – Brazil, Julho de 2006 - Vol.11 - Nº 7, Psicanálise em debate [link]. Publicado também na revista PERCURSO, no. 36, ano XVIII, 1º Semestre de 2006.
25 de Julho de 2006 às 13:48
Sérgio Telles
Resenha do livro “O PERIGO DE CURAR-SE” - Beatriz Mecozzi - Fapesp / Via Lettera - 2003.
A reação terapêutica negativa – descoberta clínica feita por Freud em 1919 - é um fenômeno de difícil manejo e avaliação. Difícil manejo por mostrar ao analista os limites de sua atuação, na medida em que ali vê todo seu empenho ser tragado pelo gozo mortífero do paciente que insiste e persiste na compulsão à repetição. Difícil avaliação por levantar questões de complicado equacionamento: a paralisia de uma análise e seu subseqüente rompimento deve-se à compulsão à repetição resistencial do paciente que se manifestaria com todo e qualquer analista ou a reação terapêutica negativa se instala, cresce e produz efeitos em função das características específicas de uma determinada dupla de analista e analisando?
A reação terapêutica negativa é o espinhoso tema escolhido por Beatriz Mecozzi. Sobre sua escolha, ela se pergunta: “Porque escrever sobre isso? É legítimo que os leitores se perguntem por que me arrisco a publicar um texto que exala o paradoxo de expor as barreiras que não consegui ultrapassar. (…) Autocrítica pública precoce de uma escritora tardia? Autobiografia desnecessária, uma confidência escandalosamente reveladora de restos transferenciais não analisados em mão dupla? Quem sabe tudo isso e mais uma ponta de exibicionismo excêntrico, para aqueles que consideram a escrita psicanalítica um estilo a mais na impostura pós-moderna” (p.16).
Não é essa a impressão que o texto de Beatriz Mecozzi produz no leitor. Ele vai se deparar com um bem urdido trabalho de elaboração conceitual, no qual a autora minuciosamente vasculha textos freudianos e pós-freudianos à procura de elementos que a ajudem na compreensão dos casos de Vitta, Vlixem, o fotógrafo flanêur e Molly - casos truncados, nos quais a análise foi subitamente interrompida, deixando a analista apenas com um vislumbre de inóspitos e hostis mundos internos que rejeitaram sua presença.
Como diz Purificación Barcia Gomes na apresentação do livro, “essa atitude revela coragem, pois é raro, na literatura psicanalítica, depararmo-nos com autores que se disponham a mostrar os bastidores de seu trabalho e seus eventuais insucessos”. (p.11).
Beatriz Mecozzi revê com cuidado os trabalhos freudianos sobre o sentimento de culpa inconsciente, a necessidade de punição, o masoquismo, os lucros secundários, a viscosidade da libido, a onipotência narcísica, as resistências, as oposições entre Eros e Tânatos, a pulsão de morte até deter-se extensivamente nas considerações em torno da pulsão em termos de força (ponto de vista econômico) e de representação (sentido).
Diz ela: “Sabemos que a metapsicologia freudiana foi construída na sua totalidade, de maneira que seu objeto, o inconsciente, seja explorado como ´sentido encarnado, significação materializada, viva´ (Castoriadis, 1978:48) e, por isso, a psicanálise rompe com a ciência psicológica e psicopatológica da era positivista. (…) Não por acaso, a psicanálise, um saber que trata do sentido e da força que lhe dá pulso, (…) encontra problemas em sua teorização, diante dos moldes conceituais clássicos da ciência e da filosofia, colocando-se à margem do saber formal”(p. 92).
Por essa via, aborda a palpitante questão epistemológica da psicanálise, passando por Ricoeur e apoiando-se em Monzani, que propõe uma epistemologia própria para o campo psicanalítico, “uma vez que toda a problemática que atravessa as leituras de Freud esbarra na busca de conciliação entre o discurso do sentido e o discurso energético” (p. 101).
Sem desconhecer a importância fundamental da força (fator econômico, energético) na constituição da resistência, da reação terapêutica negativa, nem a crise do conceito de representação na contemporaneidade, Beatriz Mecozzi termina por reconhecer a primazia da representação em todo suceder psíquico: “É bom lembrar que, para nós psicanalistas, o único campo abordável é o da representação. O psíquico é representação (Bleichmar, 1986:133) (p.132)”.
Esse mesmo eixo (força e sentido) é usado por Beatriz Mecozzi para articular o arsenal da metapsicologia freudiana ao importante aporte da escola francesa, que amplia uma visão excessivamente centrada na pulsão e suas fontes internas e se abre para a decisiva importância do Outro na constituição do sujeito. Um dos autores dessa vertente é Aulagnier, que fala – baseada em Lacan – no “Eu antecipado no discurso materno (…) um Eu historicizado que inscreve a criança, desde o começo, em uma ordem temporal e simbólica” (p.26). Outro é Laplanche, que é convocado para falar da importância do desejo e da fantasia dos pais na constituição do psiquismo de seus filhos, ao lhes fornecerem as “metáboles” ou “significantes enigmáticos” (p.119).
Mecozzi segue Piera Aulagnier ao teorizar a relação entre a representação e a força, propondo uma equivalência entre a primeira e o processo de metabolização característico da atividade orgânica: “Nesse sentido, a metabolização é homogeneização de um elemento heterogêneo ao sistema, que o metaboliza e representa. No caso do trabalho psíquico, o elemento heterogêneo absorvido e metabolizado não é um corpo físico, é elemento libidinal de informação veiculado pela experiência do vivido, pelo encontro da psique com o mundo. Assim, (…) a atividade de representação constitui-se pelo conjunto de três metabolizações: o originário, o primário e o secundário” (p.136).
Para Aulagnier, toda representação é representação de objeto e a atividade de representação é co-extensiva ao investimento libidinal com seu circuito prazer-desprazer. A atividade representacional gera prazer sempre que consegue abarcar seu objeto, ou seja, sempre que aproxima representação e objeto. Haverá desprazer sempre que esse movimento fracasse, quando houver impedimento para a aproximação entre representação e objeto. A capacidade de representar vai depender da qualidade das relações primitivas de objeto. Se com ele é estabelecida uma relação amorosa e prazerosa, há um desejo de ingestão e incorporação, ou seja, a representação se realiza a contento. Se a relação é desprazerosa, regida pelo ódio, há uma rejeição e desejo de aniquilação e a atividade representacional não se realiza a contento. No registro do originário, mediante a instância psicografante, a persistência da necessidade ou o déficit do exercício da função materna são vividos como auto-engendrados, daí que - no originário - o desprazer seja equivalente ao desejo de auto-destruição. Seria essa a primeira manifestação e representação da pulsão de morte, diferente do desejo de um retorno a um estado anterior a qualquer representação - ao Nirvana, ao silêncio da pulsão.
Diz Mecozzi: “Tudo acontece como se ´ter que representar´ fosse corolário do ´ter que desejar´(Aulagnier, 1975:45) e, com isso, o sono, de um antes ininteligível para o pensamento e em cujo curso tudo era silêncio, é perturbado. Aulagnier é perspicaz ao observar que o ódio radical, originário, é contra toda atividade psíquica de representação” (p.141).
Isso leva a autora a afirmar que a reação terapêutica negativa se deve ao fato de que a análise, onde a função representacional é exercida com toda intensidade (através da interpretação, da construção, da simbolização) passa a ser uma ameaça insuportável para aqueles que estão fixados em ou fundidos com primitivos objetos.
Beatriz Mecozzi cita ainda as elaborações de Betty Joseph, Stein, Pontalis e Leclaire que, apesar de distantes dos referencias teóricos de Aulagnier, chegam a conclusões semelhantes ao observarem que os analisandos que respondem ao trabalho analítico com uma reação terapêutica negativa repetem na transferência o “apego desesperado a objetos primários marcados pela violência, falta de afetividade e compreensão”, dos quais não conseguem realizar o luto que lhes propiciaria uma separação adequada. (p.59). Esse objeto primário materno objeto da mais extremada ambivalência, vai despertar desde o ódio assassino, revelado na tragédia de Orestes por Ésquilo, até as fantasias sexuais incestuosas mais proibidas, como no caso de Du Roc, descrito por Leclaire: “Os muros que Du Roc ergue diante de sua mulher, sua ejaculação, sua análise, são, na verdade, representações da barreira nunca erguida contra sua mãe invasora, ativa, assim como foi seu desejo por ela” (p.73).
Ou seja, a reação terapêutica negativa se instala quando o analisando, reatualizando essas relações primitivas na transferência, teme que a proximidade com o analista o faça reviver o ódio assassino ou a relação incestuosa fusional, simultaneamente desejada e temida. São situações insuportáveis que levam ao rompimento da análise.
Vitta, dissociada, narcisista, procura uma imobilidade que a afaste do sofrimento entrevisto quando fala de sua mãe depressiva e do pai inacessível. O fotógrafo flâneur, em meio à obnubilação causada pela drogadição e alcoolismo, inopinadamente aparece no consultório num horário que não é o seu, dizendo querer apenas ver se a analista está ali; sua atuação invasiva provoca uma forte reação contratransferencial na analista, que vive um estado de estranhamento e despersonalização, talvez uma forma que o paciente usa para comunicar-lhe como se sente quando fora do efeito da droga, uma criança presa a objetos inanimados e mortos que ele recupera em suas fotografias de natureza morta, os stills. Vlixem, um moderno Ulisses incapaz de se lançar nos mares da viagem analítica, já que está aprisionado na teia da mãe viúva e enredado na lembrança melancólica de um pai idealizado. Molly, que em sua afetada inapetência fingia nada desejar, pois o desejo a confrontaria com a falta, vivida como catastrófica.
Diz Beatriz Mecozzi: “Nesses casos fracassados de minha clínica (…) a aliança entre nós se partiu nos momentos em que a ação de Eros estava a todo vapor e algumas mudanças fundamentais eram iminentes. No entanto, não puderam aceitar minhas intervenções, nem conseguiram representar os afetos que pulsavam na transferência, porque tudo o que eu pudesse fazer ou dizer ameaçava seu equilíbrio instável, cujo controle buscavam manter a qualquer custo, por meio de suas denegações onipotentes assentadas num fundo de medo de que sua realidade psíquica veiculasse algum desastre, lançando ao caos”.
O livro de Beatriz Mecozzi faz pensar sobre questões clínicas e teóricas que nos envolvem a todos os praticantes da psicanálise.
Publicado originalmente na revista PERCURSO – 1º Semestre de 2005 - Nº 34 [link].
26 de Julho de 2005 às 22:49
Sérgio Telles
Considerações em torno de A “BATEDORA” DE LACAN - Lembranças de uma estenotipista irritada, reflexões de uma psicanalista aflita - de Maria Pierrakos, Editora Perspectiva, 2005, tradução de Eva e Fábio Landa, 69 p.
Maria Pierrakos foi durante doze anos estenotipista oficial dos seminários de Lacan. Ocupava, pois, um lugar privilegiado como observadora da grande cena que então se dava. A presença do mestre, seus discípulos, a platéia. Posteriormente Maria Pierrakos fez sua formação psicanalítica e fundou, com outros analistas, o Collège International de Psychanalyse et Anthropologie.
Seu pequeno livro é um libelo contra o fanatismo religioso que se desenvolveu em torno da pessoa de Lacan, com efeitos extremamente prejudiciais na formação analítica, na clinica, na política institucional e suas lutas pelo poder. Anos depois de sua morte, essa situação persiste na posição militante agressiva da Escola da Causa Freudiana, liderada pelo genro de Lacan, Jacques Allan Miller.
Embora centrando suas baterias no fundamentalismo lacaniano, Pierrakos nos lembra como a prática analítica exige um comprometimento ético rigoroso, única coisa capaz de contrabalançar os perigos e facilitações inerentes à posição do psicanalista. É sempre necessário lembrar o poder que o analista tem advindo da transferência dos analisandos, que na situação analítica revivem o desamparo com suas angústias primárias, seus anseios de proteção, seu amor idealizado. O narcisismo e a pulsão de dominação, a megalomania e o sadismo, a onipotência do analista estão todos permanentemente mobilizados pela situação transferencial, e ele não pode se entregar ao gozo que lhe é aí oferecido. Eticamente deve lembrar do sofrimento que ali trouxe o analisando e mobilizar sua capacidade reparadora para ajudá-lo a libertar-se da anacrônica fantasmagoria infantil da qual é prisioneiro.
Ao falar do fanatismo religioso despertado por Lacan e mantido até hoje por seus discípulos, Pierrakos nos faz lembrar da maneira como Freud interpretou o sentimento religioso e sua extraordinária força na humanidade.
O anseio pelo infinito, o desejo de Deus é entendido por Freud como decorrente da vivência de desamparo experimentado pela criança ao ter que romper sua relação fusional com a toda-poderosa mãe. Seu desvalimento, sua fragilidade frente às intempéries do mundo fazem-na desejar restabelecer a fusão com um ser maior, que a abrigue e a proteja, que a garanta contra os perigos que tem de arrostar. Num desdobramento, a criança vai almejar a proteção de um pai forte, a quem prestará obediência e respeito.
Essa estrutura psíquica faz com que qualquer atividade grupal humana possa adquirir uma conotação religiosa. A necessidade infantil de proteção e garantia contra os perigos inevitáveis da vida fazem com que se escolham textos que passam a ser vistos como “sagrados”, elegem-se pessoas que são idealizadas (”santos” e “deuses”) e às quais se prestam homenagens e obrigações, recebendo-se em troca proteção e a garantia de fazer parte de um todo maior e mais forte, que afaste a solidão e o isolamento.
Por alimentar um desejo tão arcaico infantil, a religião pode ter efeitos extremamente perniciosos, impossibilitando os seres humanos de usarem seus recursos intelectuais criativos e inventivos na produção de uma vida autônoma e responsável.
Muitos consideram a religião como uma das grandes aquisições da humanidade e acham impensável qualquer proposta de superá-la ou torná-la desnecessária. Acreditam que ela é um dos fundamentos do laço social e que sua abolição implicaria no estabelecimento da barbárie, da selvageria mais desenfreada.
Penso que tal opinião advém de uma confusão entre religião e ética, confusão compreensível pois, milenarmente, a religião tem sido a depositária dos valores éticos e morais. A própria origem da ética tem sido atribuída às divindades, que teriam estabelecido inquestionáveis definições do certo e do errado, do bem e do mal. Assim atestam as antigas imagens que mostram Hamurabi recebendo da mão de Deus o código que veio a receber seu nome, um dos mais antigos da humanidade. Da mesma forma, temos notícia de que Moisés recebeu de Deus as tábuas com os dez mandamentos.
Essa confusão entre religião e ética faz com que a grande sabedoria coletada nos livros sagrados de todas as religiões não seja reconhecida como um acervo humano, o testemunho da aventura do homem no tempo e o registro das formas como resolveu seus conflitos internos e com o outro.
Com a progressiva laicização da cultura, tem sido possível discriminar melhor esses dois campos, a religião e a ética, desfazendo uma visão totalizadora desta última. Filósofos, como Nietzche, têm desenvolvido o tema. Estudos transculturais mostram a extrema variedade do que é considerado certo e errado em culturas diferentes. Estudos com grupos de primatas evidenciam esboços do que, posteriormente, chamaríamos de ética e moral - os comportamentos baseados na reciprocidade e no parentesco. “Você tira meu piolho, que eu tiro o seu” - diria um primata para um outro. Se o que foi cuidado não age de forma recíproca, fica discriminado pelo grupo como um aproveitador. Ele não agiu “certo”, agiu “errado”.
Quem sabe, no futuro, estando a humanidade menos infantil e dependente, vamos reconhecer que devemos fazer o bem e evitar o mal não porque “papai do céu” vai nos castigar com o inferno se assim não o fizermos, e sim porque devemos respeitar nosso semelhante, o outro, e, reciprocamente, ser por ele respeitado.
Psicanaliticamente podemos dizer que os valores éticos se baseiam no abandono do narcisismo e na aceitação da radical alteridade do outro, no reconhecimento e acolhimento do diferente.
O contraste entre ética e religião, ou seja, a visão laica do homem oposta a uma visão religiosa, fica especialmente transparente em problemas como controle de natalidade, aborto e eutanásia. Abstraindo uma infinidade de problemas de ordem prática referentes à efetiva aplicação desses conceitos na realidade, é importante sublinhar a diferença conceitual das duas posições. A postulação laica diz que é um direito o homem poder escolher dar continuidade ou não à vida em determinadas situações desesperadoras, bem como planejar sua prole, através do controle da natalidade ou de um eventual aborto. A visão religiosa, por considerar a “santidade” da vida decorrente da existência de uma alma, considera que cabe exclusivamente a Deus dar e tirar a vida.
Frente a posição religiosa que defende a “santidade” da vida, uma visão mais laica propõe o que recebeu o nome de “bioética”, exatamente o estudo das implicações éticas das decisões que envolvem o aparecimento e o final da vida, englobando todo o leque de novas situações criadas pela tecnociência atual - inseminação artificial, “barriga de aluguel”, congelamento de esperma e óvulos, paternidade e maternidade de parceiros homossexuais, etc.
A bioética permite transformar em questões humanitárias o que antes era tido como questões religiosas, algo da ordem do sagrado.
As conseqüências disso são enormes, como todos sabem. Nos países do terceiro mundo, o planejamento familiar traria enormes benefícios econômicos e sociais. Em todo o mundo, a eutanásia aliviaria o sofrimento inútil de muitos pacientes e seus familiares.
Quanto ao aborto, a mesma coisa. Aliás, há um dado muito curioso, estabelecido por Steven Levitt, o jovem e original economista norte-americano ganhador de merecidos prêmios. Em 1999, ao perceber que nos Estados Unidos as taxas de criminalidade tinham caído radicalmente na década anterior, procurou entender seus motivos. Ficou surpreso ao notar que a criminalidade começara a cair em todos os estados dezoito anos depois de ter sido efetivada pela Suprema Corte a legalização do aborto. Ficou ainda mais surpreso pelo fato de que em cinco estados a criminalidade começara a cair três anos mais cedo do que nos demais. Eram exatamente aqueles que haviam legalizado o aborto três anos antes da federalização da decisão. Sua hipótese - o aborto evitou o nascimento de filhos não desejados pelos pais, que se tivessem vivido teriam sofrido abandono e traumas que os levariam à criminalidade. Embora não seja possível afirmar conclusivamente sua correção, não podemos negar que essa hipótese faz muito sentido.
Publicado originalmente em Psychiatry on line – Brazil, Abril de 2005 - Vol.10 - Nº 4, Psicanálise em debate [link]
26 de Abril de 2005 às 18:13
Sérgio Telles
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