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Três orelhas de livro

Três orelhas de livro – “Abraços Negados” de Simone Paulino (2005) “A Maldição das Cadeiras de Plástico” (2006) de Doris Fleury (ambos da Editora Allbooks – Casa do Psicólogo) e “Contos do Divã” de Sylvia Loeb (Ateliê Editorial, 2007)

Sérgio Telles

1) Abraços Negados – de Simone Paulino

“Abraços Negados”, o livro de estréia da jornalista Simone Paulino que dá seguimento à nossa coleção “Além da Letra”, proporciona uma tocante leitura.

Seus contos curtos seguem o périplo dos moradores das distantes periferias de São Paulo, a luta pela sobrevivência das famílias de migrantes nordestinos, com seu conhecido cortejo de carências – a falta do pai, a habitação precária, o trabalho infantil, a fome e a experiência do desamparo social, a marginalidade.

O que surpreende em “Abraços Negados” é a forma como Simone Paulino aborda essa penosa realidade. Afastando-se das facilidades do panfletário e do demagógico, a autora usa uma linguagem cujos distanciamento, contenção e apuro formal bem poderiam ser chamados de clássicos. Isso faz com que a denúncia implícita em seu texto tenha mais força e impacto do que qualquer abordagem mais engajada.

Ainda assim, sua escrita lembra, por sua clara linearidade, descrições escolares infantis, nas quais nos deparamos, de repente, com súbitos e profundos mergulhos no mais puro lirismo.

Outro ponto original: ela mostra a migração vista pelos olhos da segunda geração, por aqueles que não conheceram diretamente o nordeste, que o vêem como um lugar mítico, recriado imaginariamente na busca das origens para sempre perdidas.
Simone Paulino expõe como os filhos de (i)migrantes são receptáculos da memória secreta dos pais, sofrem por delegação seu luto pela perda da terra e dos costumes.

Dividido em três segmentos, “Abraços Negados” mantém uma unidade temática – o mesmo universo: os bairros de periferia e sua gente humilde, tratada com a mesma sensibilidade mostrada por Chico Buarque na letra que fez para a música de Garoto.

Os contos amealhados na primeira parte configuram uma espécie de autobiografia ou livro de memórias da narradora. Usando a primeira pessoa, ela discorre sobre uma existência dura e sofrida, na qual os afetos são intensos e sufocados. Por todos eles, perpassa a figura perdida do pai, uma grande e enigmática sombra a toldar para sempre sua alegria.

Na segunda, entram em cena novos personagens, mas o mundo é o mesmo anteriormente retratado.

A terceira parte se afasta das anteriores, na medida em que tudo o que fora expresso anteriormente reaparece agora noutro registro ficcional, no qual a narradora faz sua profissão de fé como escritora.

2) A Maldição das Cadeiras de Plástico – de Doris Fleury

O sexo do autor condicionaria sua produção literária? Essa é uma questão importante nos estudos sobre gênero sexual no cânone literário encetados na academia norte-americana. Tal perspectiva, levada a extremos do “politicamente correto”, classifica os grandes clássicos como produção de “machos brancos europeus mortos”, salientando dessa maneira – o que não deixa de ser verdade – o fato do referido cânone literário não ser universal e sim ocidental; dele, portanto, estão excluídos mulheres e autores de outras etnias e culturas.
Diluindo esse conceito, em meados dos anos 90 a mídia norte-americana passou a veicular no mercado o conceito de chick lit – algo como “literatura das garotas, das minas” – e sua contraparte masculina, a lad lit ou dick lit (aproximadamente “literatura dos caras, dos manos”). Como se vê, ambas as denominações estão carregadas de conotações sexistas e um tanto debochadas.
A chick lit tem como paradigma os livros de Helen Fielding (O diário de Bridget Jones) e Candace Bushnell (Sex and the city) – estrondosos sucessos editoriais transformados em filmes e séries de TV de grande apelo popular. É uma literatura pós-feminista, na medida em que as mulheres já não estão brigando por direitos – especialmente os sexuais – e sim relatando as vicissitudes do usufruto desses direitos.
Há um quê de chick lit em Dóris Fleury. Suas personagens são inteligentes, independentes, despachadas e decididas, e nos divertem ao relatar suas peripécias no exercício da condição feminina na atualidade.
Mas há algo em Dóris Fleury que a afasta da conotação de mero entretenimento comercial de alto nível, própria da chick lit, e garante seu assento entre os produtores da boa literatura. É o trato da linguagem e a profundidade com que aborda seus/suas personagens. Suas mulheres não são Bridget Jones nem, muito menos, Amélias ou peruas deslumbradas. São seres humanos dotados de vida mental complexa e ambígua, vivendo seus impasses existenciais sem perder o humor ou a crítica.
Assim, A Maldição das Cadeiras de Plástico é um livro sério sem ser sisudo, de leitura muito prazerosa.

3 – Contos do Divã – de Sylvia Loeb

O livro “Contos do Divã” da psicanalista Sylvia Loeb tem um ritmo narrativo ágil, possibilitando uma leitura fácil e agradável. Apesar disso, na medida em que avança em sua leitura, o leitor vai sendo tomado por uma crescente, inesperada e talvez inexplicada comoção.
Seus sentimentos ficam esclarecidos ao se deparar com o Posfácio, no qual Sylvia Loeb explicita aquilo que já fora sugerido no próprio titulo do livro.
Todos os casos ali coligidos são regidos pela pulsão de morte, apontam para a compulsão à repetição, para o eterno retorno que nos leva aos impasses, aos impedimentos, às impossibilidades de mudanças, aos fracassos nas tentativas de buscar o novo.
Ao fazer um recorte muito especifico de sua clinica e privilegiar o tanático, Sylvia Loeb nos mostra o lado negro, mais difícil e doloroso de nossa tarefa como psicanalistas - aquele que nos faz deparar com limitações, quer sejam as do analisando; quer sejam as nossas próprias, pessoais, que se refletem em nosso papel de analistas; quer sejam as da psicanálise; quer sejam as da vida, do destino, da história de cada um de nós seres humanos.
Desprende-se do livro um pathos trágico, despertando no leitor a comiseração e a compaixão pelo sofrimento humano, assim como o desejo de dele poder ter uma maior compreensão e entendimento.
Não seria esse o pathos da psicanálise configurado na leitura freudiana de Édipo Rei ?

Adicionar comentário 3 de Fevereiro de 2009 às 10:34 Sérgio Telles

A HISTÓRIA DA V

A Historia da V - Abrindo a caixa de Pandora - Uma ampla investigação da história, da cultura e do poder do sexo da mulher (Apresentação do livro “A História de V” de Catherine Blackledge, traduzido por José Manuel Bertolotte, Editora DeGustar, São Paulo, 2004).

A partir dos anos 60 do século XX as lutas feministas tomaram forte impulso nos países mais avançados. Em grandes manifestações públicas, as mulheres queimavam os sutiãs e clamavam por direitos iguais aos dos homens em todos os campos de atividades, inclusive o da sexualidade. Era um luta legítima, que denunciava séculos de submissão ao poder masculino, que se exercia direta e indiretamente, através de crenças e ideologias as mais variadas.

Nesses momentos de maior entusiasmo, as mulheres negavam as efetivas diferenças que existem entre os gêneros sexuais, alardeando uma impossível igualdade e adotando comportamentos paródicos que as colocavam numa posição simétrica e contrária daquilo que mais combatiam - a intolerância e a discriminação sexista.

No momento atual, as mulheres não mais negam as diferenças. Pelo contrário, partem delas para reivindicar seus direitos, cujo exercício apresenta dificuldades específicas como aquelas decorrentes da difícil conciliação entre a maternidade e a presença pública profissional, para a qual elas se mostram tão capacitadas quanto qualquer homem.

Até chegarem ao atual estágio de sua luta, as feministas passaram por instantes em que viam Freud e a psicanálise como inimigos. Essa visão baseava-se num equívoco que as fazia entender o falicismo presente na teoria freudiana como uma clara defesa do machismo.

Dado sua abrangência e importância na teoria psicanalítica, não poderei abordar a questão do falo como seria necessário sem me afastar demasiado dos escopos dessa apresentação. Mas apenas para sinalizar alguns aspectos mais importantes desse problema, explicito que o falo é o pênis imaginário que, segundo a fantasia infantil, todos os seres humanos - homens e mulheres - possuiriam. É essa a forma pela qual as crianças se explicam a diferença anatômica entre os sexos.

O que significa isso? Significa que as crianças, ao se depararem com o fato de que algumas delas têm o pênis e outras não, não entedem isso como uma diferença anatômica normal e sim como o efeito de uma mutilação, de uma castração, já que, como afirmei, elas partem do princípio de que todas as pessoas nascem com o falo, esse pênis imaginário. Se alguém não o tem, é por tê-lo perdido através de uma mutilação, a castração.

Essa visão infantil, que não entende a diferença entre homem e mulher a não ser em termos de fálico e castrada, terá amplas conseqüências no psiquismo, fazendo com que o falo seja o significante mais importante no que diz respeito à representação e simbolização do outro, do diferente, do não-eu, daquele ou daquilo sobre o que será depositado tudo o que o narcisismo de cada um não suporta ver em si mesmo.

Freud diz que o falicismo é uma forma infantil de idealizar uma completude narcísica onipotente que nega todos os limites e insuficiencias próprios da existência humana. Perder o falo, aceitar a castração simbólica, ou seja, as diferenças, é um processo indispensável que todos nós, homens e mulheres, temos que passar para superar o narcisismo, termos acesso à realidade, à vida adulta, à maturidade emocional.

Freud não valorizava o pênis ou a masculinidade em detrimento da vagina ou da feminilidade. Vê-se então que confundir com uma defesa machista do poder dos homens a importância teórica que Freud concede ao falo na estruturação do psiquismo é um erro grave.

O que Freud fez, sim, foi mostrar as conseqüências da visão infantil fálica do mundo, que persiste no inconsciente de todos e no imaginário das culturas. É ela que alimenta a valorização machista do homem e seu pênis e a atitude de desprezo e descaso frente a mulher e seu orgão sexual. É ainda ela que não entende o genital feminino em sua positividade de uma vulva e suas estruturas conexas e sim na negatividade de um pênis inexistente, por ter sido mutilado, castrado. Um genital que - por esse motivo - desperta horror, como explica Freud em “A Cabeça de Medusa” (1922-1940), para citar um entre tantos escritos onde aborda esse tema.

Toda essa abordagem freudiana sobre as consequências psíquicas das diferenças anatômicas entre os sexos é deixada de lado por Catherine Blackledge, em seu interessante livro - “A História de V - Abrindo a caixa de Pandora - Uma ampla investigação da história, da cultura e do poder do sexo da mulher”. Ela prefere abordar a sexualidade feminina sob o prisma histórico, cultural, antropológico e fisiológico. A ênfase com que articula seus argumentos em prol da valorização da genitália feminina e do direito da mulher ao gozo sexual muitas vezes dá a sua obra um tom quase panfletário, característicos de projetos politico-ideológicos.

Blackledge faz uma extensiva apresentação sobre a forma como os genitais femininos aparecem registrados na cultura desde os tempos pré-históricos, fazendo incursões na biologia e na fisiologia da sexualidade de animais e seres humanos.

A autora mostra como as representações da vulva são muito mais antigas do que as do pênis na pinturas rupestres, atribuindo esse fato ao tardio reconhecimento da importância do orgão masculino nos processos reprodutivos. Descreve antigas crenças relacionadas com a vagina, cuja exibição teria o poder de afastar o mal, proporcionar uma maior fertilidade nos animais, garantir a germinação das plantações, paralizar os inimigos - até mesmo o Diabo. Com o advento do cristianismo, houve uma grande reviravolta, o orgão feminino passou a ser visto como fonte do mal e - conseqüentemente - algo a ser reprimido. Tal enfoque permanece até nossos dias, evidenciando-se na pobreza etimológica para descrever suas várias estruturas, como o clitóris, os pequenos lábios e os grandes lábios.

Uma considerável parte do livro é dedicada à descrição da anatomia e da fisiologia dos genitais da mulher e das fêmeas de vários espécimes do mundo animal. A autora, com insistência, defende a idéia de que as fêmeas têm papel ativo no ato da concepção, senão seu controle total. Levanta dados que provam serem seus genitais não meros receptáculos passivos à investida dos machos, já que teriam a capacidade de identificar e selecionar os espermatozóides mais compatíveis, eliminando os indesejáveis, capacidade que lhes deixa como as responsáveis finais pelo sucesso do processo reprodutivo.

O livro ganha mais interesse quando Blackledge mostra os preconceitos culturais e sociais que reprimiram e censuraram por tanto tempo a sexualidade feminina, especialmente aqueles que se manifestavam através das ideologias científicas das diferentes épocas. A negação da sexualidade feminina era de tal ordem que se refletia até mesmo na observação do comportamento sexual das fêmeas dos animais, cuja poliandria era sistematicamente negada em nome de uma monogamia ideologicamente concebida.

Uma outra evidência disso é a forma como o clitóris foi abordado pelo saber médico de épocas passadas, refletindo os tabus culturais então vigentes. Como se desconhecia o papel do clitóris na reprodução, por muito tempo ele foi ignorado pelos tratados médicos. Sua qualidade de zona erógena, de orgão de prazer sexual, não podia ser reconhecida, pois isso implicaria na questão do orgasmo feminino, fato negado pelas autoridades científicas e religiosas.

Entretanto, embora denegada, a função erótica do clitóris era implicitamente reconhecida e reprimida pela prática médica. No final do século. XIX, em Londres, eram realizadas clitoridectomias (extirpação cirúrgica do clitóris) para curar histéricas. O médico Isac Baker Brown, defensor dessa prática médica, em 1865 foi eleito presidente da Associação Médica de Londres. Antes escrevera o livro “Sobre a curabilidade de certas formas de insanidade, epilepsia e histeria em mulheres”, no qual descrevia sua experiência cirúrgica. A mesma terapeutica era preconizada nos Estados Unidos em outros países da Europa.

Como lembra Blackledge, essa não é apenas uma lamentável prática do passado. Atualmente há entre 100 e 130 milhões de mulheres que sofreram a infibulação (extirpação do clitóris, parte dos pequenos lábios e/ou sutura dos grandes lábios), procedimento costumeiro em países muçulmanos. Calcula-se que cerca de 2 milhões de meninas por ano são submetidas a tais práticas de mutilação genital. Elas ocorrem em 27 países africanos, algumas regiões do Oriente Médio e da Ásia e - em função dos movimentos migratórios - aumenta na Europa, América do Norte, Austrália e Nova Zelândia.

A infibulação é considerada como uma mutilação cruel dos genitais femininos, pois a ablação do clitóris, cuja função geradora de prazer não pode ser desprezada, causaria um grave deficit erógeno na mulher. Sua prática visaria controlar ou negar a sexualidade feminina, concentrando seu prazer exclusivamente na vagina. Por outro lado, é um rito de passagem que marca a identidade sexual das mulheres naquelas culturas, um comportamento milenar cuja abolição não é de fácil realização. Daí a ambiguidade com a qual esse difícil problema é abordado, mesmo pelas líderes feministas daqueles países.

A autora mostra como, ao contrário do Ocidente, onde a vagina é tão desvalorizada e a sexualidade feminina reprimida, a etnografia dos últimos 100 anos mostra como é diferente o que ocorre em várias outras culturas ( ilhas Marquesas, ilha de Páscoa, ilhas do Pacifico, Polinésia). Ali os genitais femininos são valorizados - é frequente que o clitóris, os pequenos e grandes lábios sejam manipulados e alongados artificialmente e enfeitados com piercings, tendo como objetivo sua maior capacitação para o prazer sexual.

Essa valorização se reflete no rico vocabulário existente para designar as várias estruturas da genitália feminina, o que contrasta com nossas civilizações ocidentais, onde a única dessas formações que tem uma designação amplamente difundida e usada é o himem, e isso devido à fetichização machista que o valoriza como garantia da paternidade da prole a ser engendrada. A repressão da sexualidade tal como realizada em nossas culturas difere da forma como ela era encarada no Havai antes da colonização ocidental - ali os genitais das crianças de ambos os sexos eram manipulados desde cedo, com o intuito de ensinar-lhes o prazer sexual.

Blackledge termina com amplas considerações sobre o orgasmo feminino, apontando para as duas vertentes teóricas que determinaram a forma como ele foi encarado até recentemente em nossas culturas ocidentais. As autoridades especulavam sobre a função do orgasmo feminino no processo da reprodução. Para Aristóteles, ele era dispensável; sustentava que poderia haver concepção sem que a mulher tivesse prazer no ato sexual. Essa tese recebeu um forte apoio posteriormente, em 1770, quando Spallanzani fez a primeira inseminação artificial numa cadela. Essa linha de pensamento ignorava ou negava o orgasmo feminino. Paralelamente mantinha-se a concepção oposta, baseada em Hipócrates, que afirmava ser o orgasmo essencial na liberação das sementes retidas em ambos os sexos. Isso implicava que a retenção das mesmas provocaria um acúmulo que desequilibraria os fluidos corporais, com efeitos danosos sobre a saúde. Daí a necessidade de provocar o orgasmo para manter a saúde das mulheres. Essas idéias se mantiveram no correr de vários séculos, o que pode ser constatado pela leitura de textos como o livro do médico francês François Ranchin, intitulado “Se se está autorizado a friccionar a vulva de mulheres em estado de paroxismo histérico”, de 1627.

Assim, diz a autora, apesar de ter-se rompido nos séculos. XVIII e XIX a ligação entre orgasmo e concepção, essa idéia se manteve até a passagem do sec. XIX para o XX. Teve seu apogeu no final do século XIX e alimentou largamente a prática médica, que preconizava as “massagens pélvicas”, extremamente freqüentes na ocasião, e que eram - nada mais nada menos - do que masturbações vaginais praticadas pelos médicos. Da mesma forma, a venda de vibradores era abertamente estimulada, fato que perdurou até os anos 20 do século XX, como se pode constatar em anúncios comerciais nos catálogos das grandes lojas.

Essa situação ilustra muito bem os mecanismos de dissociação e isolamento ao nivel do social, pois se tolerava e estimulava as “massagens pélvicas” como procedimento médico, enquanto a masturbação era fortemente reprimida.

É nesse momento histórico no qual entra em cena Freud, propondo-se a ouvir as mulheres histéricas e, ao desvendar seu desejo, termina por descobrir o inconsciente.

Ao abordar sem subterfúgios a sexualidade feminina e comprometer-se pessoalmente, ao descrever seu próprio gozo sexual, Catherine Blackledge contribui para derrubar as barreiras e repressões que ainda persistem e constrangem tantas mulheres. Ao agir assim, aproxima-se do legado de Freud, que muito fez para combater as hipocrisias e ideologias que cerceavam a sexualidade humana.

Que essas barreiras e repressões são resistentes dão provas o fato de que a autora, que demonstra tanta bravura no corpo de seu livro, não ousa escrever o título com todas as letras…

Uma palavra final sobre as fotos que ilustram o texto. As imagens de vulvas ali apresentadas constrastam com aquelas atualmente divulgadas pelas revistas pornográficas ou “masculinas”. Isso dá oportunidade para, mais uma vez, constatar como a sexualidade humana se distancia da natureza e se submete a padrões culturais, reflexão que nos ocorre várias vezes durante a leitura deste livro.

Publicado originalmente em Psychiatry on line – Brazil, Dezembro de 2004 - Vol. 9 - Nº 12, Psicanálise em debate [link].

Adicionar comentário 27 de Dezembro de 2004 às 23:35 Sérgio Telles

Babel e a criação da necessidade estrutural da tradução

Resenha de “Torres de Babel” –Jacques Derrida – Editora da Universidade Federal de Minas Gerais – Belo Horizonte – 2002 – 76p.

O pequeno ensaio “Torres de Babel” de Derrida faz parte de seu livro “Psyché”, de 1987.

O tema central é a tradução.

Ao invés de se contentar com o convencional “Traduttore, traditore”, ditado que classicamente condensa as dificuldades e impasse inerentes à tradução, Derrida aborda o tema bem a seu estilo. Mais uma vez, seguimos os tortuosos caminhos de seu pensamento, que, a cada volta surpreende e encanta o leitor com sua sutileza e finura, mas só se ele (o leitor) estiver atento. Caso contrário, logo ficará perdido no labirinto de suas complexas frases, cheias de parágrafos digressivos, parênteses pretensamente esclarecedores, comentários, adiantamentos, flash-backs e ilustrações.

Na verdade, “Torres de Babel” está centrado em um comentário de Derrida sobre o famoso ensaio de Benjamin sobre a tradução, o “A Tarefa do Tradutor” (”Die Aufgabe des Übersetzers”), texto que, por sua vez, ele o lê já numa tradução, realizada por seu mestre Maurice de Gandillac. É interessante lembrar que o próprio texto de Benjamin é, por sua vez, o prefácio de uma tradução por ele feita de “Tableaux Parisiens” de Beaudelaire. Está montado então um jogo de espelhos lingüísticos, a refletirem infinitamente o enigma das línguas.

O livro abre com o texto bíblico sobre a Torre de Babel. Ali está escrito que, naquela ocasião, os homens orgulhosamente planejavam a construção de uma torre com a qual chegariam aos céus, marcando uma cidade que os uniria e protegeria para sempre, evitando sua dispersão pela face da terra. Ao mesmo tempo, com isso, se fariam um nome. Esse projeto ousado e audacioso não agradou a Deus, que o interpretou como fruto da arrogância e soberba dos homens, desafiando-o em sua posição de criador supremo. Deus então raivosamente “clama seu nome: Babel, Confusão”, o que estabelece a confusão de línguas, impede a consecução do projeto, provoca a dispersão dos homens e a incompreensão entre eles.

Segundo Derrida, Deus destrói o nome que os homens queriam se dar, construindo sua própria língua e sua identidade humanas. Deus reafirma seu próprio nome, que se confunde, nesse momento, com o de Babel e de Confusão. Está imposta a confusão de línguas, assim como a necessidade da tarefa impossível do tradutor, que deve trabalhar com a língua de Deus, que é Babel e confusão. Desta forma, fica estabelecida uma ligação entre a linguagem e Deus, a língua falada é a sua, e está imposto o nome-do-pai. Pergunta-se Derrida qual língua era falada durante a construção da torre, antes de ter sido proclamada “Babel”. Pode-se traduzir um nome próprio (Deus, Babel)? Pode-se confundi-lo com um nome comum (confusão)?

Ao projeto humano, que visava a racionalidade de uma comunicação clara e direta entre os homens, Deus impõe a sua própria língua, que – fragmentada numa miríade de línguas humanas - será para sempre estranha e estrangeira para os homens, que estarão irremediavelmente condenados à falibidade e incompletude, além de necessitarem de uma sempre falha tradução.

Antes de abordar o texto de Benjamim, Derrida lembra os três tipos de tradução segundo Jakobson: a intralingual (que se dá dentro da própria língua), a interlingual ou tradução propriamente dita, (feita entre diferentes línguas) e a tradução intersemiótica (interpretação de signos lingüísticos através de signos não lingüísticos).

Do texto de Benjamim, Derrida sublinha o título, “A Tarefa do Tradutor”, insistindo no aspecto de missão, compromisso, obrigação, dívida, responsabilidade, restituição, todos eles elementos implícitos no ato de traduzir.

Dos trechos pinçados por Derrida do ensaio de Benjamin, o mais importante é onde se estabelece o vínculo entre a linguagem dita “pura” e a “verdade” a partir de um texto de Mallarmé que Benjamin, significativamente, cita em francês, sem traduzi-lo para o alemão, língua em que escreve.

Eis a tradução em português desse trecho: “Às línguas imperfeitas porque várias, falta a suprema: pensar sendo escrever sem acessórios, sem cochicho mas tácita ainda a imortal palavra, a diversidade, sobre a terra, dos idiomas, impede pessoas de proferir as palavras que, de outro modo, se encontrariam, por um golpe único, ela mesma materialmente a verdade”.

Para Benjamin, a tarefa do tradutor não é a recepção, a comunicação ou representação do original. Ele deve centrar seu interessa basicamente sobre a forma, como evidencia qualquer tentativa de traduzir textos sagrados ou poéticos. Fica aí caracterizado como o conteúdo não deve ser o interesse maior do tradutor. Dizendo de outra forma, a tarefa do tradutor é “fazer amadurecer a semente de uma linguagem pura”.

Essa “linguagem pura” parece remeter à mítica linguagem primeira, originária, da qual todas derivaram e que garante o parentesco essencial entre todas elas, sendo ela a portadora da mais depurada verdade. É a língua de Deus, que ao se impor em Babel, o fez para “deixar entender que é difícil traduzi-lo e assim entendê-lo”.

Toda grande obra literária, todo original importante impõe-se como algo a ser traduzido (ele “suporta” e “exige” uma tradução) por ser portador de um fragmento dessa “linguagem pura”. Cabe ao tradutor captar esse fragmento, essa “semente de linguagem pura” e produzi-la em sua própria língua. É aquela “verdade” anunciada por Mallarmé.

Reside nisso também o que Benjamin chama de “sobrevida” de uma obra: o fato de ela ter uma vida própria, distinta da do autor, cuja existência natural se extingue, enquanto ela – por estar inscrita num universo simbólico – persiste e cresce toda vez que é traduzida.

A importância da tradução se dá pela promessa que estabelece de que é possível um acordo entre as línguas, a transmissão de algo, a base de todo entendimento.

A relação entre as línguas e a “linguagem pura” portadora da “verdade” fica bem sintetizado na bela “metáfora da ânfora” criada por Benjamin: “Pois, da mesma forma que os restos de uma ânfora, para que se possa reconstituir o todo, devem ser contíguos nos menores detalhes, mas não idênticos uns aos outros, assim, no lugar de tornar-se semelhante ao sentido do original, a tradução deve de preferência, em um movimento de amor e quase no detalhe, fazer passar na sua própria língua o modo de intenção do original: assim, da mesma forma que os restos tornam-se reconhecíveis como fragmentos de uma mesma ânfora, original e traduções tornam-se reconhecíveis como fragmentos de uma linguagem maior”.

Se as línguas se aproximam e tendem para uma linguagem maior, também é verdade que elas se afastam e que há algo intocável e intransferível na passagem de uma para outra, visível na absoluta singularidade com que cada língua expressa cada conteúdo. É isso que marca a diferença entre o original e a tradução, expressa por Benjamin na metáfora do caroço, do fruto e do invólucro, do caroço e da casca.

No original,iz ele, está o caroço, o núcleo duro que permite a tradução, a reprodução. Ali, teor e linguagem formam uma unidade determinada como a do fruto e do invólucro. Já a tradução, “envelopa seu teor como um manto real de largas dobras”. Enquanto no original há uma natural harmonia e integração entre teor e língua, na tradução há uma solene e severa sobreposição de um “manto real” sobre o teor, que representa a autoridade do simbólico.

Chegamos finalmente à questão já mencionada da verdade. Diz agora Derrida: “A verdade seria de preferência a linguagem pura na qual o sentido e a letra não se dissociam mais. Se um tal lugar, o ter-lugar de tal acontecimento, permanecesse não encontrável, não se poderia mais, fosse esse de direito, distinguir entre um original e uma tradução”.

A relação entre original e tradução tem, evidentemente, conseqüências jurídicas sobre direitos autorais que estabelecem a legitimidade das traduções, reconhecendo-lhe inclusive uma parcela de originalidade e trabalho autoral.

Embora o texto faça muitas referências ao sagrado e a palavra de Deus como aquela primeira, instauradora da estranheza e da impossibilidade de entendimento direto, impondo-se a tradução, mas também evocando uma inefável e fugidia verdade, penso que isso não deve ser confundido com qualquer posição religiosa ou mística. O nome de Deus aqui parece evocar a nostalgia frente ao próprio mistério indecifrável da existência das línguas. Afinal, o que querem elas dizer? O único que podemos constatar é que elas querem dizer. Elas – todas - querem simbolizar, representar. Elas falam.

Mais ainda, o nome de Deus é uma metáfora na própria língua para simbolizar o enigma da origem de tudo - nosso anseio de paternidade, nós, pobres homens órfãos, condenados à vida sem sabermos o porquê.

A meu ver, as grandes obras são portadoras dessa “linguagem pura” e da “verdade” não tanto por expressarem revelações sagradas ou divinas, mas por apontarem profundas verdades humanas produzidas e buriladas pelos autores e prontamente reconhecidas pelos leitores.

O problema da tradução, abordado aqui em profundidade, necessariamente interessa a todos nós analistas. Ao interpretar e construir, estamos sempre fazendo traduções do inconsciente para o consciente, tarefa ainda mais complicada e comprometida do que a do tradutor, tal como vista por Benjamin e comentado por Derrida.

Penso que essa afinidade de teores se concretiza no artigo “A Casca e o Núcleo” (1), de Abraham, que, como se vê, não acidentalmente aproveita no título a metáfora de Benjamim sobre o caroço, o fruto e o invólucro, sublinhada em “Torres de Babel” por Derrida. É também significativo que Derrida tenha feito um pequeno artigo para apresentar este texto de Abraham nos Estados Unidos, o “EU, a Psicanálise” (2).

O artigo de Abraham tendo como ponto de partida o aparecimento do “Vocabulário de Psicanálise” de Laplanche e Pontalis, faz uma interessante análise sobre o complexo trabalho de tradução entre a língua da psicanálise e a língua na qual se expressa, tendo antes enfatizado o ainda mais peculiar e inaccessível – que a língua da psicanálise não deve ser confundida com a língua do inconsciente, desde que esse é um discurso que prima pela ausência, pelo negativo, a ser apreendido nas entrelinhas, nos lapsos, nos erros.

Publicado originalmente em Psychiatry on line – Brazil, Setembro de 2002 - Vol. 7 - Nº 9, Psicanálise em debate [link].

Adicionar comentário 30 de Setembro de 2002 às 15:00 Sérgio Telles


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