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Tributo a Michael Jackson

Michael Jackson – um pequeno tributo

Sérgio Telles

No final dos anos 80, circularam fortes rumores que Michael Jackson pretendia comprar o esqueleto do Homem Elefante, que estava então sob a guarda do Royal London Hospital. Numa famosa entrevista a Oprah Winfrey algum tempo depois, Michael Jackson desmentiu tal compra, apesar de afirmar que se identificara muito com o Homem Elefante ao tomar conhecimento sua história, pois percebera como havia muito de comum em suas vidas.
É uma confissão muito reveladora e que torna irrelevante saber se ele teria ou não comprado o esqueleto do Homem Elefante.
O Homem Elefante viveu na Inglaterra vitoriana e ficou famoso por sua aparência grotescamente deformada por uma doença congênita – a neurofibromatose. Para não assustar as pessoas nas ruas ou suscitar reações agressivas, ele habitualmente usava um capuz que tapava completamente seu rosto. David Lynch fez um belo filme sobre a vida trágica do Homem Elefante, que atrás de sua aparência monstruosa, tinha marcantes inteligência e sensibilidade.
Em que Michael Jackson poderia se identificar com este pobre homem? Seja qual for o motivo, tal identificação deixa transparecer uma grande infelicidade, uma não conformação consigo mesmo que poderia ter uma expressão mais ampla, mas que seguramente se ancorava na aceitação de sua própria realidade física, corporal.
Como sabemos, uma das coisas mais estranhas na inusitada vida de Michael Jackson foi justamente sua relação com o próprio corpo, que submeteu a inúmeras intervenções cirúrgicas a ponto de deixá-lo irreconhecível. No trato de sua própria realidade física, MJ expôs a luta por encontrar uma impossível identidade, ele que se auto-proclamava um Peter Pan, o menino que não queria crescer.
Assim, de certa forma, sua antiga identificação com o Homem Elefante terminou por se concretizar. Ao provocar tantas alterações em seu próprio corpo, transformou-se, ele mesmo, numa figura assustadora, inquietante, quase desumana.
A vida de Michael Jackson, paradigmática dos tempos midiáticos a confundirem o público e o privado, mostra também como o psiquismo humano pode ficar cindido, permitindo a coexistência de aspectos muito regressivos e patológicos com facetas extraordinariamente talentosas e criativas.
E é por estas ultimas que Michael Jackson será lembrado. Sua morte provocou um grande impacto e foi tocante ver as manifestações espontâneas de multidões nos mais variados lugares do mundo, cantando e dançando suas músicas, numa comovida homenagem de despedida.

Adicionar comentário 7 de Julho de 2009 às 09:48 Sérgio Telles

Comentários econômicos na imprensa

Comentários econômicos na imprensa
Sérgio Telles

Num momento de crise econômica como o que vivemos, muitos buscam informações nas páginas de economia em jornais e revistas, visando preservar suas poupanças de danos maiores.
De modo geral, tais leituras são frustrantes.
Em primeiro lugar, porque o leitor percebe que as próprias autoridades não parecem muito seguras sobre o assunto. O que, aliás, não surpreende. Afinal, como é possível que uma crise de dimensões tamanhas possa ter ocorrido sem que as supostas autoridades não se apercebessem e tomassem as devidas providencias?
Por se expressarem através de estatísticas e números, os dados econômicos adquirem a aparência de ciência exata, fazendo-nos esquecer que a economia faz parte das ciências sociais, está mais próxima das humanidades, onde jogam um papel mais decisivo o desejo inconsciente, o pensamento mágico e onipotente, a louca voracidade pelo poder.
Em segundo lugar, o leitor não consegue entender o jargão usado, o economês incompreensível para os leigos, entremeado que é de cifras e números.
É verdade que cada campo do saber tem sua linguagem própria, que precisa ser traduzida, digamos assim, para a compreensão geral.
No caso da economia, a transparências da informação através de uma linguagem clara encontra ainda outros obstáculos. Num país como o nosso e no momento em que vivemos, a economia está tão intimamente atrelada à política que fica quase impossível discriminar um campo do outro. E o compromisso com a verdade por parte do discurso político é, para dizer o mínimo, muito tênue.
Não esqueçamos, entretanto, que a questão da linguagem é muito mais ampla. Com ela saímos da natureza e ingressamos no mundo simbólico, na cultura.
Através da linguagem nos comunicamos e, com sua forma escrita, registramos para as futuras gerações a historia e o conhecimento acumulado no correr do tempo.
Tudo estaria muito bem se a linguagem não mantivesse uma incontrolável ambigüidade, não acolhesse os duplos sentidos e com isso não se constituísse numa permanente fonte de mal-entendidos, mesmo quando aquele que a usa age de boa fé e pensa estar expressando aquilo que acredita ser a verdade.
Refletindo a dualidade intrínseca do ser humano, que tem permanentemente abertas à sua frente as trilhas do bem e do mal, a linguagem nos permite dizer a verdade e expressar amor, tanto quanto dizer a mentira e manifestar o ódio e a destrutividade.

Adicionar comentário 1 de Junho de 2009 às 10:34 Sérgio Telles


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