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| Vânia Toledo/AE |
A peça “Estórias Roubadas” (”Collected Stories“) de Donald Margulies, com Beatriz Segall e Rita Elmôr, mostra o desdobramento da relação que se estabelece, no correr de seis anos, entre uma escritora consagrada e uma aprendiz. Esta ocupa o lugar de secretária e confidente da primeira e termina por usar as confidências daquela na construção de seu primeiro romance. A peça fecha em pleno impasse. Não há reconciliação possível entre as duas escritoras. Uma se sente traída, a outra pensa ter dado provas de que aprendera todas as lições recebidas.
O autor usou alguns elementos de um fato real acontecido em 1993, quando o poeta inglês Sir Stephen Spender acusou o jovem romancista David Leavitt de ter se apropriado de detalhes de sua autobiografia, publicada em 1951. Além disso, o próprio Margulies diz ter tido atritos com o famoso escritor Arthur Miller. (…)
O texto completo encontra-se no livro “O psicanalista vai ao cinema” - EdUFSCar / Casa do Psicólogo, 2004.
2 de Setembro de 2000 às 18:12
Sérgio Telles
As luzes se apagam e lentamente se iluminam, mostrando estranhos seres de cabeça raspada, totalmente pintados de branco, vestindo inusitadas roupas que lembram vestes talares. Ao som de uma música que é mais uma sequência de rítmos sóbrios, essas figuras surpreendentes executam desconhecidos movimentos que não consiguimos identificar ou atribuir a qualquer repertório já visto ou conhecido. Eles se movem também num ritmo inaudito, tão lento que quase parecem não se mexer. Mais ainda, assumem posições corporais que parecem provar a inexistência de um esqueleto ósseo, tal é a flexibilidade e fluidez das sequências. O efeito geral é de grande beleza.
O espectador, entre aterrorizado e fascinado, sente como se estivesse presenciando um antiquíssimo e secreto cerimonial de sacerdotes egípicios preparando a múmia de algum faraó, ou a uma cerimônia desconhecida de extra-terrestres, prestando tributo a seus líderes, a alguma divindade num ritual misterioso.
Em qualquer dos casos, o expectador sente como se estivesse indevidamente presenciando um espetáculo secreto e que será severamente punido caso seja flagrado em sua observação. Assim, é com alívio que bate palmas enquanto as luzes voltam a acender.
Trata-se do espetáculo “Hiyomeki – Em meio a uma gentil e agitada vibração”, magnífica realização do grupo Sankai Juku, um dos mais célebre de Butô, que se apresentou pela terceira vez em São Paulo há poucos dias. Segundo a Oxford International Encyclopaedia of Dance, o Butô é uma dança contemporânea japonesa, criada nos anos 50, que funde formas tradicioanais daquele país - como a dança folclórica , o nô e o kabuki - com contribuições ocidentais atuais, tais como o ballet, a dança moderna e pós-moderna e as formas dançantes de arte performática.

O espetáculo constava de quatro danças. É verdade que já na terceira, o impacto visual e afetivo tinha se diluido. Talvez para um espectador ocidental ele foi longo demais. Mas como entender o misto de terror e fascínio que ele consegue despertar - pelo menos neste que vos escreve? Seria por acordar antigos registros de quando criança víamos os adultos se movendo, fazendo coisas que desconhecíamos, ignorávamos? Seriam evocações da cena primária, a descoberta da vida sexual dos pais, esse mistério doloroso e infindável da vida dos adultos com o qual as crianças tem de conviver?
Publicado originalmente em Psychiatry on line – Brazil, Maio de 2000 - Vol. 5 - Nº 5, Psicanálise em debate [link].
30 de Maio de 2000 às 19:52
Sérgio Telles