Publicações arquivadas sob Psicanálise
A Questão Humana (La Question Humaine) de Nicolas Klotz
Sérgio Telles *
O grande trunfo do muito premiado filme “A Condição Humana”, de Nicolas Klotz, é o inteligente e polêmico roteiro baseado no livro de François Emmanuel.
Nele vemos Simon, um psicólogo indústrial, ser convocado para uma delicada tarefa - avaliar secretamente a saúde mental do presidente da empresa onde trabalha, uma sucursal francesa de um conglomerado alemão. Logo o psicólogo se dá conta dos jogos de poder entre os diretores da empresa e de que pode estar havendo uma conspiração para eliminar o presidente. Suas investigações avançam e o levam à descoberta do passado nazista de seus superiores. Ao mesmo tempo, Simon começa a questionar seu próprio trabalho, especialmente os procedimentos realizados por ele mesmo no downsizing da empresa, quando, sem questionar os motivos, obedeceu às ordens superiores de eliminar a metade dos funcionários, descartando-se impiedosamente de todos aqueles tidos como “doentes” e “problemáticos”. Percebe que sua forma de agir não é muito diferente daquela dos nazistas frente às “depurações raciais”, da mesma maneira que as desculpas que encontrava para si mesmo não eram muito diferentes das que os nazistas davam ao serem questionados sobre seus atos - a alegação de que estavam apenas “cumprindo ordens”.
E aí está a idéia central e provocadora do filme – Teria sido eliminada a ideologia nazista no final da 2a. Grande Guerra ou ela persistiria entranhada no funcionamento das grandes corporações, evidenciando-se na maneira como estas tratam seus funcionários? A desumana e delirante ideologia nazista, que pregava a supremacia racial e a eliminação dos mais fracos seria muito diferente da igualmente desumana e delirante ideologia do lucro-a-qualquer-preço, que elimina todos aqueles considerados supérfluos a este objetivo? Se no nazismo a linguagem foi completamente subvertida, neutralizada para, de forma asséptica, tratar de assuntos inomináveis, o mesmo não ocorreria agora, quando, através de eufemismos e metáforas, ficam escamoteadas realidades como a miséria, o desemprego, o preconceito contra os imigrantes por parte das superpotências européias, a perseguição que lhes oferecem?
A superposição da ideologia nazista com a ideologia do lucro-a-qualquer-preço é mostrada por Klotz ao reproduzir nos subúrbios pobres da Paris de hoje - onde moram os imigrantes orientais, africanos, árabes, portugueses e espanhóis – as clássicas imagens de documentários sobre campos de extermínio e movimentações em massa de judeus forçadas pelos nazistas.
Simon teme estar perdendo sua sanidade mental ao ver tais cenas, pensa estar alucinando as situações do passado nazista. Mas, o que está ocorrendo é o oposto. Trata-se de sua percepção de uma realidade que até então lhe era inadvertida. Elas evidenciam sua conscientização da efetiva semelhança entre a ideologia à qual presta seus serviços e a dos nazistas.
Neste sentido, o filme faz uma grave critica ao chamado psicólogo industrial, que usaria de seus conhecimentos para manipular e condicionar os empregados aos objetivos da empresa. Seria o contrário dos objetivos da psicanálise, que visam ampliar o auto-conhecimento do sujeito pela integração dos aspectos até então inconscientes e reprimidos, o que lhe daria maior autonomia e melhores condições para enfrentar as tentativas exteriores de manipulação e controle.
14 de Julho de 2008 às 16:33
Sérgio Telles
JOGO SUBTERRÂNEO, de Roberto Gervitz (2005)
Sérgio Telles
“Jogo Subterrâneo”, o belo filme de Roberto Gervitz, recebeu indicação para o prêmio de Melhor Filme nos Festivais de Cartagena e de Mannheim-Heildelberg e no Festival de Havana venceu nas categorias de Melhor Edição e Trilha Sonora.
Baseado no conto “Manuscrito encontrado em um bolso”, de Julio Cortazar, conta a história de Martin, um homem que procura a mulher de sua vida através de um complicado ritual por ele inventado. Graças a esta artimanha, Martin se envolve com algumas mulheres. Uma delas é Tânia, uma tatuadora mãe de uma filha autista. Outra é Laura, uma cega a quem relata os progressos de sua busca, embora tratando-a como parte das aventuras de um personagem sobre o qual estaria escrevendo. É quando aparece Ana, que o faz romper completamente com os rituais de seu jogo.
A conduta de Martin ilustra com propriedade vários aspectos do comportamento obsessivo. O obsessivo, fixado ou regredido à fase anal do desenvolvimento da libido, não elabora de forma adequada seu complexo de Édipo. Está mergulhado na relação com a mãe, a quem ama e odeia intensamente. Se durante a própria fase oral já intuira que ela não fazia com ele uma unidade indivisível, pois muitas vezes ela estava longe e não lhe proporcionava imediatas gratificações em termos de alimentação (não lhe dava o desejado seio) ou cuidados gerais (não trocava suas fraldas, deixando-a com fezes e urina irritantes para sua pele), esta intuição adquire uma nova intensidade, provocando-lhe um abalo definitivo, ao perceber que ela tem desejos opostos ao dele, impondo-lhe o controle dos esfíncteres, afrontando diretamente sua onipotência e ferindo-lhe o narcisismo.
O texto completo deste artigo está no livro “O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008.
2 de Junho de 2008 às 09:48
Sérgio Telles
Sobre A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS (La Vida Secreta de las Palabras), de Isabel Coixet (2005)
Sérgio Telles
O filme “A vida secreta das palavras” de Isabel Coixet apresenta uma densa trama emocional. Começa lentamente, seguindo a rotina insípida de Hanna, uma soturna operária de fábrica que usa aparelho para corrigir a surdez e que incomoda os colegas com seu isolamento. Um dia, Hanna é chamada pelo chefe e é por ele instada a tirar férias, o que ela não fazia há quatro anos. Ele lhe sugere uma praia tropical, com palmeiras. Hanna pergunta se seria obrigada a usar a piscina do hotel (depois entenderemos o irônico porquê de sua indagação) e escolhe uma praia chuvosa e fria para descansar, o contrário do sugerido pelo chefe. Ali, por acaso, toma conhecimento de que procuram uma enfermeira para cuidar de um homem que sofrera graves queimaduras num incêndio ocorrido numa plataforma de petróleo, situada em alto mar. Hanna se oferece para o cargo e é aceita. É a primeira de uma série de revelações sobre a vida de Hanna, até então restrita à sua pobre rotina na fábrica, cumprida com um comportamento quase autístico.
Hanna descobre que desde o acidente que provocara as queimaduras em Josef e a morte de um outro homem, a plataforma está desativada, ali restando apenas sete funcionários que aguardam a transferência para outros postos.
O texto completo deste artigo está no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Editora Casa do Psícólogo, São Paulo, 2008.
2 de Maio de 2008 às 09:45
Sérgio Telles
Uma leitura analítica do filme “Lúcia e o sexo”, de Julio Medem
Sérgio Telles
O filme “Lúcia e o sexo”, de Julio Medem (2001) tem uma estrutura narrativa não linear, na qual passado e presente se misturam, bem como a realidade e sua ficcionalização, pois o personagem principal é um escritor.
O expectador deve ficar atento para desembaraçar tal emaranhado, para encontrar a seqüência temporal dos acontecimentos e assim poder avaliar os atos e suas conseqüências, bem como discriminar o que é a realidade diegética e o que é fantasia e a criação literária.
Feito este trabalho, chegaria a algo próximo ao que passo a relatar.
Seis anos antes, numa bela noite de luar em uma ilha paradisíaca, o escritor Lorenzo, no dia de seu aniversário, faz sexo casual com uma desconhecida. A única informação que ela tem sobre ele é justamente que aquele é o dia de seu aniversario. Lourenço tampouco procura saber quem ela é, que engravida desta relação e passa a procurar o pai de sua filha.
Sem saber da existência desta filha, Lourenço leva sua vida de escritor. Produzira um livro de sucesso e seu agente o pressiona pelo novo livro, que ele sente dificuldades em terminar.
Estando num bar, é abordado por uma moça, Lúcia, garçonete de um restaurante, que se declara apaixonada por ele desde que lera seu livro, quando passara a segui-lo, o que fez com que conhecesse detalhes de sua vida. Impactado, Lourenço se deixa seduzir e inicia uma relação com Lúcia, vivendo um tórrido caso amoroso.
Lúcia diz que perdera os pais e o irmão num acidente automobilístico e fora criada por uma avó amorosa que cozinhava só para ela. Lourenço diz que muito pequeno fora abandonado pela mãe e que ele mesmo cozinhava para o pai, mas este fora assassinado com uma navalhada.
O texto completo deste artigo está no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008.
29 de Abril de 2008 às 16:56
Sérgio Telles
Kosinski e algumas questões sobre a autoria
Sérgio Telles
Um aspecto que parece ressaltar na literatura ocidental do século XX é a crescente preocupação com a linguagem e esta preocupação pode ser enfocada de várias maneiras.
De um lado, a tentativa de captar a língua viva, como ela é pensada intrapsiquicamente e falada efetivamente pelos vários estratos de uma sociedade. De certa forma com isso parece romper-se de vez o antigo e recorrente fosso existente entre a linguagem falada e a escrita, cada uma com suas características e convenções próprias.
Por outro lado, é a própria linguagem que parece exigir um papel maior na produção literária, muitos autores se deleitando em brincadeiras e descobertas com suas infindáveis riquezas e ambigüidades, com sua lógica específica e desconcertante, com o inapreensível e fugidio fluxo de significantes, produzindo uma literatura que muitas vezes se compraz nos trocadilhos, nos ditos de espírito, no bon mot.
Talvez poder-se-ia atribuir tal ênfase na linguagem às descobertas da psicanálise, com a descrição das “associações livres”, este monólogo interno onde as idéias se agrupam como a cadeia significante do desejo, desdobrando-se por meandros e desfiladeiros surpreendentes e vertiginosos, formando um discurso diferente, longe do habitual, consciente, que seria supostamente o usado na linguagem escrita. O paradigma desta vertente seria o “Ulisses”, de Joyce, que me parece ser a obra que melhor expressa a compreensão deste aspecto da descoberta freudiana, ou seja, a “associação livre”.
Outra influência possível seria a da lingüística, que recoloca inúmeros problemas da linguagem e descobre seus segredos mais íntimos. Nesta linha teríamos como maior exemplo o “Finnegans Wake”, também de Joyce. Aí a língua é desconstruída, desarticulada e montada novamente, é recriada, experimentada, exposta a mutações e fusões.
A importância de Joyce e a radicalização de sua experiência com a linguagem em “Finnegans Wake” faz lembrar uma dolorosa passagem de sua sofrida vida. Sabe-se que a filha de Joyce tornou-se esquizofrênica e, nos primórdios desta enfermidade, passou a apresentar uma das alterações de pensamento típicas desta condição, que é a glossolalia, a estereotipia de palavras, a criação de neologismos num jargão novo e incompreensível, pois, no rompimento com a realidade, algumas vezes o esquizofrênico perde também a linguagem, este meio que o homem tem para simbolizar o real e com isso possibilitar o contato com a realidade e o Outro. O esquizofrênico inventa uma linguagem própria sua, não compartilhada pelos demais. Estava assim a filha de Joyce, e este, que com grande maestria destruía a língua para depois reconstruí-la, achava que a filha seguia-lhe os passos, exibindo a mesma criatividade que ele próprio no trato com as palavras e a linguagem, como se dele tivesse herdado tal capacidade. Recusava-se Joyce a ver a doença da filha. Foi Jung, a quem levou a filha, que lhe explicou: “O senhor mergulha no rio da linguagem e volta à tona. Sua filha afunda inexoravelmente”. Marcava assim Jung a diferença entre a produção estética, esta solitária criação de um só, que – não obstante – é reconhecida por todos, por expressar o que todos secreta e inarticuladamente pensam e sentem, da também solitária produção psicótica, inacessível a todos, provocadora de estranheza e repulsa nos demais, e que é abordável apenas e com grande dificuldade pelos psicanalistas.
Dentro deste referencial de uma literatura “lingüística”, às vezes preocupada mais com o significante que com o significado, é interessante lembrar as experiências um tanto tumultuadas de Jerzy Kosinski, autor, entre outros, de “The Painted Bird”, “Steps”, “Being There” (traduzido no Brasil como “O Vidiota”, do qual foi feito um filme “Being There”, estrelado por Peter Sellers e que no Brasil recebeu o título de “Muito além do jardim”), “Passion Play”, “PInball”.
O próprio Kosinski é – ele mesmo – um personagem rocambolesco. Judeu polonês, aos seis anos, com o advento do nazismo, é entregue por seus abastados pais a uma empregada cristã que deveria escondê-lo no campo e que, ao invés de cumprir com o que prometera aos pais da criança, logo a abandona à própria sorte. O menino Kosinski ficou perambulando pelo interior da Polônia e tal experiência lhe foi tão traumática que fez com que perdesse a voz, ficando mudo por seis anos, só a recuperando depois de reencontrado pelos pais, após a guerra. Fez brilhantes estudos em Varsóvia e conseguiu de maneira nebulosa escapar do regime comunista, chegando aos Estados Unidos com 24 anos, em 1957. Logo fez sucesso com um livro anti-soviético chamado “The future is ours, comrades” e ingressa no circuito universitário de conferências, sendo convidado como professor em vários importantes campi. Casa com uma milionária, depois com uma baronesa, ultimamente com uma executiva e foi periodicamente lançando com grande sucesso seus livros de ficção, tendo ganho o “National Book Award” em 1969, com “Steps”. Freqüenta a alta sociedade e é amigo dos poderosos de Hollywood. É amigo de Polanski e apenas por um atraso de avião não foi chacinado juntamente com Sharon Tate e o folclore em torno de sua pessoa é muito grande.
Mas o que interessa aqui é seu método de trabalho. Como polonês, o inglês é sua segunda língua e para a feitura de seus livros sempre contou com vários editores que o ajudavam na escolha de palavras, faziam sugestões de construções lingüísticas, cortes, etc. Kosinski os usava como “dicionários humanos”. Com eles discutia longamente suas próprias idéias e construções, aceitando e incorporando as sugestões deles, as estruturas lingüísticas que julgavam mais apropriadas para expressar o que desejava.
Interessado em lingüística, tinha curiosidade em aprender e usar jargões e gírias próprias dos mais variados grupos etários, sociais, étnicos e profissionais. Queria saber como pessoas de ascendência hispânica ou germânica falariam em inglês. Contratava pessoas advindas dos mais variados guetos lingüísticos para o ajudarem, com isso enriquecendo suas próprias obras.
Em 1982, foi acusado de falsário, de assinar obras das quais não era o autor, de ter ghost writers que faziam seu trabalho.
A acusação foi muito rumorosa no meio literário norte-americano e gerou cerca de 600 artigos pelo mundo afora, entre defensores e detratores. Abalado, Kosinski recolheu-se e somente ano passado voltou à carga, lançando “The Hermit of 69th. Street”, onde defende seus métodos e pretende dar uma resposta a seus inimigos.
Parece-me rico o episódio, especialmente para nós no Brasil, onde o mercado editorial está longe de ter a pujança e complexidade do norte-americano.
Em primeiro lugar, a figura e o papel do editor nos Estados Unidos cria interessantes problemas. Sabe-se que o tipo de trabalho que fizeram junto a Kosinski não é excepcional e sim rotineiro, pois fazem o mesmo com inúmeros outros escritores. Parece que, com o trabalho deles, fica discriminado o que é um criador na linguagem e no estilo, atributos mantidos pelo autor enquanto árbitro supremo na escolha, seleção, montagem e provável recriação de todos os elementos que ele tem a seu dispor, além de ser o indiscutível pai das idéias que se desenvolvem na obra. Isso não teria nada a ver com o que às vezes poderia ser confundido – o saber colocar pontos e vírgulas e – no nosso caso – colocar acentos e não se deixar humilhar pela crase, o construir estruturas lingüísticas variadas, com ortografia correta e concordância verbal adequada. Para isso, o autor pode contar com equipes inteiras de revisores e especialistas. Ao autor compete o que lhe é de fato inerente, o ato criador.
Em segundo lugar, Kosinski, dentro da moda lingüística faz um experimento muito curioso. Para dar um exemplo grosseiro de seu método em nossos termos, suponhamos que planejasse um romance onde entrassem como personagens um peão baiano, uma doméstica carioca, um escritor filho de italianos, um pintor de família judia russa – o que implicaria pequenas e grandes diferenças lingüísticas. Kosinski não se “aperrearia” – para falar nordestinês, já que estamos falando de sotaques. Contrataria pessoas com as características lingüísticas de seus personagens e as faria falar e escrever as situações eu teria inventado e calmamente usaria esse material em seu livro.
Com tal procedimento teria facilitado ao máximo a feitura de seu livro. As pessoas contratadas para consultas poderiam depois processá-lo por plágio ou co-autoria?
Não li “Fogueira de Vaidades” de Tom Wolf, mas dizem que um dos encantos do livro em inglês é como ele capta a realidade social, econômica e étnica de Nova York através da linguagem dos representantes dos vários grupos em jogo. Seria, pois, um livro a la Kosinski?
Parece que com seu interesse neste aspecto lingüístico da produção literária, paradoxalmente, Kosinski o banaliza, e, em assim fazendo, desnuda-lhe o verdadeiro contorno e dimensão, pois tal recurso, no momento em que se mostra de tão fácil aquisição, parece devolver a real importância para outros fatores na execução da obra literária – enredo, personagem, ambientação, estrutura, métodos narrativos, etc.
O caso Kosinski talvez coloque em pauta o que é ser um escritor, o que é ser artista e criar uma obra literária neste final de século. Estaria mudando a convencional visão do escritor como um solitário produtor? Ou será apenas que Kosinski usa abertamente e com todas as facilidades os recursos atuais o que outros fazem à sombra e de maneira mais tateante e artesanal? Não podemos esquecer os processadores de palavras, que automaticamente corrigem erros ortográficos. Que novos programas não serão possíveis nos tempos vindouros? Kosinski talvez dê a resposta antecipada a todos eles, afirmando o especifico e inalienável da criação humana.
Nota 1 – Este artigo foi publicado no Jornal da Tarde – Caderno de Sábado – em 01/07/89
Nota 2 – Alguns dados sobre Kosinski foram colhidos em “The Kosinski Connundrum” , artigo de Stephen Schiff publicado em,Vanity Fair, June 1988
Nota 3 – Kosinski, que teve seus livros traduzidos em 30 línguas e até 1991 tinha vendido mais de 70 milhões de exemplares, suicidou-se em 1991. A polêmica despertada por sua principal obra “The painted bird” em muito se assemelha àquela causada pelo livro “Fragmentos” de Wilkomirski. Ambos foram acusados de falsários, na medida em que teriam apresentado um material ficcional como se fora um registro autobiográfico. A maneira como produzia seus textos continua levantando interessantes questões – como penso ter apontado acima – sobre o que é a autoria de uma obra.
Nota 4 – Maiores informações sobre Kosinski na Wikipedia -http://en.wikipedia.org/wiki/Jerzy_Kosinski
28 de Fevereiro de 2008 às 16:34
Sérgio Telles
ESCREVER EM CORPOS, ESCREVER NO PAPEL – Algumas idéias em torno de O LIVRO DE CABECEIRA (The Pillow Book, 1996), de Peter Greenaway
Sérgio Telles
Peter Greenaway é um dos maiores criadores do cinema atual. De sua instigante obra, o filme “O livro de cabeceira” (“The Pillow Book”, 1996) ilustra com muita acuidade questões próprias à linguagem, como a representação e a simbolização.
Ao comentá-lo, deixo de lado seus extraordinários aspectos cinematográficos e me restrinjo àqueles que iluminam nosso conhecimento psicanalítico.
Nesta abordagem, mantenho-me na trilha que venho seguindo, há algum tempo, na leitura psicanalítica de filmes (Telles, 2004) e que Gabbard explicita bem quando diz:
(…) esperamos ilustrar o potencial do pluralismo na crítica psicanalítica de cinema. Baseamos nosso trabalho (…) nos conceitos derivados de um largo espectro de escritos clínicos psicanalíticos. Como o clínico que adota diferentes posições teóricas de acordo com as necessidades dos diferentes pacientes, usamos uma variada gama de perspectivas para iluminar uma quantidade de filmes marcadamente diferentes. Enquanto a abordagem lacaniana produziu intrigantes relatos de filme enquanto processo, estamos mais interessados nos filmes em si – em seus textos, subtextos, temas e personagens. Cada filme convida diferentes níveis do poder explanatório de uma variedade de formulações teóricas ( Gabbard, 1999, p. 201-2).
Apresento uma sinopse do filme e, em seguida, alguns comentários interpretativos.
Sinopse do filme
Nos aniversários da menina Nagiko Kiohara cumpre-se um ritual. Seu pai, escritor e calígrafo, escreve o seguinte texto em seu rosto e nuca: “Quando Deus fez o primeiro modelo de barro do ser humano, pintou-lhe os olhos, os lábios e o sexo. E então pintou o nome da pessoa, temendo que ela pudesse esquecê-lo. Se aprovasse sua própria criação, Deus daria vida ao modelo de barro pintado ao assinar sobre ele seu próprio nome”.
Aos quatro anos, Nagiko vê pela primeira vez o pai em práticas homossexuais com seu editor.
Aos seis anos, a tia lhe fala de Sei Shonagon, uma extraordinária mulher que vivera quase mil anos antes e escrevera um livro, o “Livro de Cabeceira”. Com isso, a tia procura estimular Nagiko a também escrever um diário
No dia em que começa a escrever seu diário, Nagiko conhece seu futuro marido, sobrinho do editor de seu pai. Fora encontrar o pai na gráfica e ali, mais uma vez, percebe o envolvimento sexual do pai com o editor.
Para seu desgosto, o editor freqüenta sua casa e, numa ocasião, toma o pincel do pai e tenta, ele mesmo, escrever a frase ritualística, o que Nagiko recusa.
O casamento de Nagiko com o sobrinho do editor se realiza com grande pompa, mas logo fracassa. O marido se recusa a reproduzir o gesto paterno de escrever-lhe a frase no rosto em seu aniversário e, posteriormente, a ridiculariza por suas ambições literárias. Queima seu diário em meio a grandes exibições como arqueiro, atirando setas num alvo.
Como vingança, Nagiko incendeia a casa e foge para Hong Kong, onde passa a exercer funções humildes antes de trabalhar como designer e, posteriormente, como modelo de moda. Sozinha, constata ser impossível escrever sobre si mesmo a frase paterna. Passa a procurar escritores e calígrafos para escreverem sobre seu corpo os mais variados tipos de ideogramas, pagando seus serviços com relações sexuais.
Numa ocasião, tendo seu corpo coberto de ideogramas, Nagiko se deixa fotografar por um profissional que por ela se apaixona, sem reciprocidade de sua parte. Em sua busca, Nagiko termina por encontrar Jérôme, poliglota, escritor e tradutor inglês, que atende a seu pedido de escrever sobre seu corpo e, diferentemente dos demais, pede que ela escreva sobre o corpo dele, o que Nagiko inicialmente recusa. Declara só ter prazer quando escrevem em seu corpo. Jérôme insiste, dizendo: “use meu corpo como uma página de um livro”. Posteriormente, mergulhada na banheira de casa, Nagiko, meditativa, escreve no espelho embaçado “trate-me como a página de um livro”. Pensa: “Agora serei também o pincel e não mais só o papel” e passa a escrever sobre corpos masculinos.
Ao terminar sua primeira escrita sobre um homem, chama o fotógrafo e ele decide copiar o texto escrito e mandá-lo para um editor, que vem a ser justamente o antigo amante do pai de Nagiko, naquele momento morando também em Hong Kong. Para a grande decepção de Nagiko, o editor recusa o texto, dizendo não valer ele o papel no qual está escrito.
Sem se identificar, Nagiko vai à gráfica do editor e – para sua surpresa - vê Jérôme saindo de seu escritório e, tal como presenciara anteriormente com o pai, constata haver uma ligação erótica entre eles.
Disposta a honrar o pai tornando-se escritora, Nagiko não desiste. Uma amiga sugere que seduza o editor para conseguir a publicação de seu livro. Reflete que como não pode seduzir o editor homossexual, só lhe resta seduzir o amante do editor.
Jérôme aceita sua proposta, dispondo-se a servir como mensageiro, levando para o editor o texto que Nagiko escrevera em seu próprio corpo.
O editor fica encantado simultaneamente com o corpo de Jérôme e o texto de Nagiko nele escrito. Manda seus secretários copiarem o texto e, em seguida, vai para a cama com Jérôme.
Jérôme não retorna para Nagiko como ela esperava, permanecendo por um longo tempo com o editor.
Enciumada, Nagiko passa então a procurar outros homens para escrever em seus corpos e enviá-los para o editor. Faz assim cinco novos livros-corpos, o que, por sua vez, provoca ciúmes em Jérôme.
Nagiko rechaça a tentativa de reaproximação de Jérôme, que procura então se aconselhar com o fotógrafo. Este, de certa forma agindo como Iago, sugere a Jérôme que, para facilitar a reaproximação e punir Nagiko pela rejeição, encene um suicídio como em “Romeu e Julieta”. Para tanto, dá a Jérôme os comprimidos a serem ingeridos.
Não fica claro se, por ciúmes, o fotógrafo deliberadamente provoca seu envenenamento ou se isto ocorre por acidente, o fato é que a tentativa causa a morte de Jérôme, para desespero de Nagiko.
Sobre seu corpo morto, Nagiko escreve um poema de amor.
No enterro, Nagiko encontra a mãe de Jérôme, que expressa sentimentos muito ambivalentes em relação ao filho.
Informado pelo fotógrafo, o editor toma conhecimento da morte de Jérôme. Desesperado, viola seu túmulo e rouba seu cadáver. Retira sua pele, na qual está escrita a poesia de Nagiko, separando-a do resto de suas carnes, e com ela faz um livro. Usa o livro como um objeto erótico, envolvendo seu próprio corpo com as páginas feitas com a pele do amante morto.
Ao saber do fato, Nagiko resolve resgatar o livro-pele de Jérôme e para tanto volta a escrever, completando, desta forma, um total de treze livros escritos em treze diferentes corpos masculinos enviados ao editor.
Nagiko escreve em lugares inusitados do corpo de seus mensageiros, forçando o editor a procurar o texto, como nas pálpebras, língua, entre os dedos, etc.
O texto completo deste artigo está no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008
13 de Novembro de 2007 às 08:07
Sérgio Telles
Sérgio Telles
psicanalista e escritor
Apesar de não pretender ser uma biografia rigorosa e explicitamente se apresentar como um “retrato imaginário”, o filme “A Pele” (“Fur”) dá uma boa idéia da vida e da peculiar produção artística da fotógrafa norte-americana Diane Arbus.
Perde-se um pouco a precisão dos elementos informativos e muito se ganha com a sensibilidade e a liberdade com as quais o diretor Steven Shainberg e a roteirista Erin Cressida Wilson recriaram sua realidade interna e seus conflitos.
Filha de ricos negociantes de pele, proprietários da elegante loja Russek na Quinta Avenida, Diane se casa - contra a vontade dos pais - com o fotógrafo Allan Arbus, responsável pela divulgação da loja e passa a trabalhar como sua assistente, fazendo inicialmente a produção de fotografias para revistas de moda. Incentivada pelo marido, Diane estuda com grandes fotógrafos de Nova York e se dedica à profissão.
Logo se afasta do mundo belo e irreal das fotos de moda e publicidade e vai para o pólo oposto, um universo onde a realidade se impõe com a máxima dureza, determinando a marginalização através dos defeitos físicos aberrantes, da feiúra, da pobreza, dos comportamentos não convencionais.
Curiosamente, ambos os mundos são regidos pela aparência. De um lado, a bela aparência dos modelos de publicidade. De outro, a aparência grotesca dos “freaks”, dos aleijões com suas aberrações físicas, dos pobres e feios, da gente comum das ruas.
O texto completo deste artigo está no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008.
2 de Outubro de 2007 às 19:53
Sérgio Telles
Sérgio Telles
psicanalista e escritor
Com a recente morte de Bergman, ocorrida em 30 de julho ultimo, resolvi ver dois de seus filmes por ele mesmo considerados pontos culminantes de sua obra. Refiro a “Persona” (1966) e a “Gritos e Sussurros” (1972).
Não os via há muitos anos e temia me decepcionar. Mas não foi o que aconteceu. Mais uma vez, rendi-me a sua excelência, reconhecendo estar diante de duas inequívocas obras primas.
O filme “Persona” é de clara inspiração psicanalítica.
A grande atriz Elisabeth Vogler (Liv Ullmann), ao ficar inexplicavelmente muda durante uma cena em que interpretava o papel trágico de Electra, é levada para uma instituição psiquiátrica. Ali é examinada por uma psiquiatra, que a considera “normal” e a encaminha para uma temporada de descanso em sua própria casa de praia, acompanhada por Alma (Bibi Anderson), uma enfermeira de sua confiança.
A psiquiatra diz que entende o que se passa com Elisabeth Vogler. Em sua opinião, ao constatar que o contato social não é possível sem o uso de mentiras e fingimentos, que nele, tanto quanto no teatro, é necessário representar papéis, Elisabeth entra num impasse. Disposta a dizer somente a verdade e constatando ser isso impossível, Elisabeth abdica de falar. Por esse motivo, a psiquiatra não a considera doente e sim “normal”. Respeita e admira o que entende como uma atitude “ética” e deixa a cargo da própria Elisabeth a escolha do momento de seu regresso ao palco do teatro e da vida.
Ao falar para a Alma, a psiquiatra diz que Elisabeth emudecera durante a peça e tivera vontade de rir num momento dramático. Alma diz não se sentir segura de poder tratar de Elisabeth, mulher tão admirável e forte.
Mesmo assim Alma aceita a incumbência e se depara com o silêncio e o distanciamento de Elisabeth, rompidos uma única vez e com grande intensidade de afetos ao receber uma carta do marido, que nela enviara uma foto do filho. Elisabeth se recusa a ler a carta e rasga a foto do filho.
O texto completo deste artigo está no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008.
às 19:52
Sérgio Telles
Wilkomirski e problemas literários ligados à relação do autor com sua obra, à diferença entre os gêneros literários, à indústria editorial e aos aspectos para-literários no reconhecimento de uma obra de arte.
Sérgio Telles
Em 1995, o mundo editorial viveu um momento interessante com o lançamento do livro Bruchstücke. Aus einer Kindheit 1939–1948 (Fragmentos: Memórias de uma infância em tempos de guerra 1939-1948), escrito por Binjamin Wilkomirski.
Tratava-se das memórias de um sobrevivente dos campos de concentração nazistas, relatando os terrores inomináveis pelos quais tinha passado enquanto criança e sua epopéia para sobreviver até ser adotado por suíços.
O livro foi imediatamente apontado como uma obra prima, os talentos do escritor foram louvados e elevados ao grau de franca genialidade. Como se tratava de mais uma obra de sobrevivente do Shoah, logo foi equiparada às de Primo Levi, Elie Wiesel ou Anne Frank, recebendo imediatamente o apoio das grandes instituições judaicas internacionais, que ajudaram a promover o livro mundialmente. Quando a coisa estava nesse ponto, algumas dúvidas começaram a surgir, apesar de negadas com veemência pela editora. Afinal, descobriu-se que o autor não era judeu, nunca estivera num campo de concentração. Era um suíço filho de mãe solteira, que o tinha entregado a um orfanato e que fora posteriormente adotado por um casal, com quem vivera uma pacata vida burguesa até o lançamento de seu livro.
A descoberta causou um imenso constrangimento, especialmente entre as instituições judaicas, que tinham dado o maior apoio à divulgação do livro e que o apresentavam como uma das maiores obras do engenho humano, comparável a Shakespeare e Homero, para citar o padrão pelo qual estava sendo julgado o livro.
Descobriu-se posteriormente que a editora, ao lançar o livro, já sabia de antemão que se tratava de uma obra de ficção e não um registro autobiográfico. Ao vender gato por lebre, a editora configurou o caso como uma fraude. Como resultado, o livro foi relegado ao ostracismo. O acontecimento foi amplamente notificado e pode ser rastreado com profundidade na internet.
O caso é muito interessante e serve para ilustrar uma quantidade de questões ligadas ao trauma e à criação literária.
O texto completo deste artigo está no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008.
31 de Julho de 2007 às 18:57
Sérgio Telles
O CHEIRO DO RALO, de Heitor Dhalia
Sérgio Telles
Baseado num livro de Lourenço Mutarelli e roteiro de Marçal Aquino, o filme de Dhalia ganhou vários prêmios nacionais e internacionais, e tem recebido uma boa atenção do público.
O protagonista do filme tem o mesmo nome do autor, Lourenço. Ele é dono de uma loja de penhores, onde as pessoas necessitadas de dinheiro vêm vender seus objetos, muitos deles cheios de historias e lembranças pessoais. Ao receber seus clientes, Lourenço sempre explica que o mau cheiro que eventualmente possam sentir decorre de um ralo entupido em seu banheiro, não vem dele mesmo.
Lourenço desiste na véspera de seu casamento, alegando não amar ninguém, nem mesmo sua mãe, a quem a noiva perplexa tenta recorrer de sua decisão. O mundo de Lourenço reduz-se a seu ambiente de trabalho, que mais parece um esquálido depósito de lixo, um amontoado de objetos velhos, e seu apartamento, também inóspito.
O texto completo deste artigo está no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008.
8 de Junho de 2007 às 15:06
Sérgio Telles
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