Publicações arquivadas sob Cinema

“Santiago” - de João Moreira Salles - uma meditação sobre a memória

“Santiago” de João Moreira Salles - uma meditação sobre a memória

Sérgio Telles

Recentemente, o filme “Santiago”, de João Moreira Salles foi adquirido pelo MOMA de Nova York, honra concedida a poucos, e ganhou mais um prêmio em Londres.

Aparentemente, “Santiago” é um documentário sobre o ex-mordomo dos Moreira Salles, um capricho de menino rico filmando um velho empregado.

Na verdade, “Santiago” é uma refinada meditação sobre o passado, e seu correlato, a memória, expressa quer seja nas lembranças afetivas pessoais, quer seja no registro formal dos documentos.

Em “Santiago”, o passado nos é apresentado em várias camadas superpostas – o passado de João Moreira Salles, tentando recordar a infância através do mordomo e suas lembranças; o passado pessoal do próprio Santiago, suas recordações sobre os parentes italianos e a imigração para a Argentina; o passado sedimentado na história de antigas dinastias e impérios que Santiago copia obsessivamente, tentando captar-lhes o sentido e o perdido esplendor. E há o passado recente do diretor, o intervalo de 11 anos entre as filmagens e a efetiva realização do filme, tempo que lhe possibilita uma reflexão sobre os objetivos que tinha na ocasião em que filmava e como os vê ao retomar os registros para finalizar a obra.

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O texto completo deste artigo está no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008.

3 comentários 29 de Abril de 2008 às 16:42 Sérgio Telles

Tropa de Elite - um retrato inquietante de nossa realidade

TROPA DE ELITE – Um retrato inquietante de nossa realidade

Sérgio Telles

O filme “Tropa de Elite”, de José Padilha, é excelente. A estrutura narrativa, a direção de atores, a montagem, o som, tudo isso em conjunto só têm um similar no cinema brasileiro, o também extraordinário “Cidade de Deus”, de Fernando Meireles.
Tenho lido criticas que o censuram por enaltecer o BOP e fazer a apologia ou banalização da tortura.
Parece-me uma leitura equivocada, mas talvez compartilhada pelos mais ingênuos e desinformados.
A meu ver, o filme mostra um panorama assustador da nossa realidade social, refletida na corrupção policial, na ineficiência do estado, no poder do trafico, no abandono das favelas, no fosso entre os ricos e os pobres. Apresenta-nos, como única e assustadora alternativa a uma policia corrupta e ineficiente, a brutalidade assassina do Bop, ficando o estado e seu aparato legal completamente dissociado desta realidade violenta.

O texto completo deste artigo está no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008

Adicionar comentário 29 de Dezembro de 2007 às 16:22 Sérgio Telles

Escrever em corpos, escrever no papel - Algumas idéias em torno de O LIVRO DE CABECEIRA’ (The Pillow Book, 1996), de Peter Greenaway

ESCREVER EM CORPOS, ESCREVER NO PAPEL – Algumas idéias em torno de O LIVRO DE CABECEIRA (The Pillow Book, 1996), de Peter Greenaway

Sérgio Telles

Peter Greenaway é um dos maiores criadores do cinema atual. De sua instigante obra, o filme “O livro de cabeceira” (“The Pillow Book”, 1996) ilustra com muita acuidade questões próprias à linguagem, como a representação e a simbolização.
Ao comentá-lo, deixo de lado seus extraordinários aspectos cinematográficos e me restrinjo àqueles que iluminam nosso conhecimento psicanalítico.
Nesta abordagem, mantenho-me na trilha que venho seguindo, há algum tempo, na leitura psicanalítica de filmes (Telles, 2004) e que Gabbard explicita bem quando diz:

(…) esperamos ilustrar o potencial do pluralismo na crítica psicanalítica de cinema. Baseamos nosso trabalho (…) nos conceitos derivados de um largo espectro de escritos clínicos psicanalíticos. Como o clínico que adota diferentes posições teóricas de acordo com as necessidades dos diferentes pacientes, usamos uma variada gama de perspectivas para iluminar uma quantidade de filmes marcadamente diferentes. Enquanto a abordagem lacaniana produziu intrigantes relatos de filme enquanto processo, estamos mais interessados nos filmes em si – em seus textos, subtextos, temas e personagens. Cada filme convida diferentes níveis do poder explanatório de uma variedade de formulações teóricas ( Gabbard, 1999, p. 201-2).

Apresento uma sinopse do filme e, em seguida, alguns comentários interpretativos.

Sinopse do filme

Nos aniversários da menina Nagiko Kiohara cumpre-se um ritual. Seu pai, escritor e calígrafo, escreve o seguinte texto em seu rosto e nuca: “Quando Deus fez o primeiro modelo de barro do ser humano, pintou-lhe os olhos, os lábios e o sexo. E então pintou o nome da pessoa, temendo que ela pudesse esquecê-lo. Se aprovasse sua própria criação, Deus daria vida ao modelo de barro pintado ao assinar sobre ele seu próprio nome”.
Aos quatro anos, Nagiko vê pela primeira vez o pai em práticas homossexuais com seu editor.
Aos seis anos, a tia lhe fala de Sei Shonagon, uma extraordinária mulher que vivera quase mil anos antes e escrevera um livro, o “Livro de Cabeceira”. Com isso, a tia procura estimular Nagiko a também escrever um diário
No dia em que começa a escrever seu diário, Nagiko conhece seu futuro marido, sobrinho do editor de seu pai. Fora encontrar o pai na gráfica e ali, mais uma vez, percebe o envolvimento sexual do pai com o editor.
Para seu desgosto, o editor freqüenta sua casa e, numa ocasião, toma o pincel do pai e tenta, ele mesmo, escrever a frase ritualística, o que Nagiko recusa.
O casamento de Nagiko com o sobrinho do editor se realiza com grande pompa, mas logo fracassa. O marido se recusa a reproduzir o gesto paterno de escrever-lhe a frase no rosto em seu aniversário e, posteriormente, a ridiculariza por suas ambições literárias. Queima seu diário em meio a grandes exibições como arqueiro, atirando setas num alvo.
Como vingança, Nagiko incendeia a casa e foge para Hong Kong, onde passa a exercer funções humildes antes de trabalhar como designer e, posteriormente, como modelo de moda. Sozinha, constata ser impossível escrever sobre si mesmo a frase paterna. Passa a procurar escritores e calígrafos para escreverem sobre seu corpo os mais variados tipos de ideogramas, pagando seus serviços com relações sexuais.
Numa ocasião, tendo seu corpo coberto de ideogramas, Nagiko se deixa fotografar por um profissional que por ela se apaixona, sem reciprocidade de sua parte. Em sua busca, Nagiko termina por encontrar Jérôme, poliglota, escritor e tradutor inglês, que atende a seu pedido de escrever sobre seu corpo e, diferentemente dos demais, pede que ela escreva sobre o corpo dele, o que Nagiko inicialmente recusa. Declara só ter prazer quando escrevem em seu corpo. Jérôme insiste, dizendo: “use meu corpo como uma página de um livro”. Posteriormente, mergulhada na banheira de casa, Nagiko, meditativa, escreve no espelho embaçado “trate-me como a página de um livro”. Pensa: “Agora serei também o pincel e não mais só o papel” e passa a escrever sobre corpos masculinos.
Ao terminar sua primeira escrita sobre um homem, chama o fotógrafo e ele decide copiar o texto escrito e mandá-lo para um editor, que vem a ser justamente o antigo amante do pai de Nagiko, naquele momento morando também em Hong Kong. Para a grande decepção de Nagiko, o editor recusa o texto, dizendo não valer ele o papel no qual está escrito.
Sem se identificar, Nagiko vai à gráfica do editor e – para sua surpresa - vê Jérôme saindo de seu escritório e, tal como presenciara anteriormente com o pai, constata haver uma ligação erótica entre eles.
Disposta a honrar o pai tornando-se escritora, Nagiko não desiste. Uma amiga sugere que seduza o editor para conseguir a publicação de seu livro. Reflete que como não pode seduzir o editor homossexual, só lhe resta seduzir o amante do editor.
Jérôme aceita sua proposta, dispondo-se a servir como mensageiro, levando para o editor o texto que Nagiko escrevera em seu próprio corpo.
O editor fica encantado simultaneamente com o corpo de Jérôme e o texto de Nagiko nele escrito. Manda seus secretários copiarem o texto e, em seguida, vai para a cama com Jérôme.
Jérôme não retorna para Nagiko como ela esperava, permanecendo por um longo tempo com o editor.
Enciumada, Nagiko passa então a procurar outros homens para escrever em seus corpos e enviá-los para o editor. Faz assim cinco novos livros-corpos, o que, por sua vez, provoca ciúmes em Jérôme.
Nagiko rechaça a tentativa de reaproximação de Jérôme, que procura então se aconselhar com o fotógrafo. Este, de certa forma agindo como Iago, sugere a Jérôme que, para facilitar a reaproximação e punir Nagiko pela rejeição, encene um suicídio como em “Romeu e Julieta”. Para tanto, dá a Jérôme os comprimidos a serem ingeridos.
Não fica claro se, por ciúmes, o fotógrafo deliberadamente provoca seu envenenamento ou se isto ocorre por acidente, o fato é que a tentativa causa a morte de Jérôme, para desespero de Nagiko.
Sobre seu corpo morto, Nagiko escreve um poema de amor.
No enterro, Nagiko encontra a mãe de Jérôme, que expressa sentimentos muito ambivalentes em relação ao filho.
Informado pelo fotógrafo, o editor toma conhecimento da morte de Jérôme. Desesperado, viola seu túmulo e rouba seu cadáver. Retira sua pele, na qual está escrita a poesia de Nagiko, separando-a do resto de suas carnes, e com ela faz um livro. Usa o livro como um objeto erótico, envolvendo seu próprio corpo com as páginas feitas com a pele do amante morto.
Ao saber do fato, Nagiko resolve resgatar o livro-pele de Jérôme e para tanto volta a escrever, completando, desta forma, um total de treze livros escritos em treze diferentes corpos masculinos enviados ao editor.
Nagiko escreve em lugares inusitados do corpo de seus mensageiros, forçando o editor a procurar o texto, como nas pálpebras, língua, entre os dedos, etc.

O texto completo deste artigo está no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008

3 comentários 13 de Novembro de 2007 às 08:07 Sérgio Telles

PERSONA e GRITOS E SUSSURROS, duas obras primas de Bergman

Sérgio Telles
psicanalista e escritor

Com a recente morte de Bergman, ocorrida em 30 de julho ultimo, resolvi ver dois de seus filmes por ele mesmo considerados pontos culminantes de sua obra. Refiro a “Persona” (1966) e a “Gritos e Sussurros” (1972).

Não os via há muitos anos e temia me decepcionar. Mas não foi o que aconteceu. Mais uma vez, rendi-me a sua excelência, reconhecendo estar diante de duas inequívocas obras primas.

O filme “Persona” é de clara inspiração psicanalítica.

A grande atriz Elisabeth Vogler (Liv Ullmann), ao ficar inexplicavelmente muda durante uma cena em que interpretava o papel trágico de Electra, é levada para uma instituição psiquiátrica. Ali é examinada por uma psiquiatra, que a considera “normal” e a encaminha para uma temporada de descanso em sua própria casa de praia, acompanhada por Alma (Bibi Anderson), uma enfermeira de sua confiança.

A psiquiatra diz que entende o que se passa com Elisabeth Vogler. Em sua opinião, ao constatar que o contato social não é possível sem o uso de mentiras e fingimentos, que nele, tanto quanto no teatro, é necessário representar papéis, Elisabeth entra num impasse. Disposta a dizer somente a verdade e constatando ser isso impossível, Elisabeth abdica de falar. Por esse motivo, a psiquiatra não a considera doente e sim “normal”. Respeita e admira o que entende como uma atitude “ética” e deixa a cargo da própria Elisabeth a escolha do momento de seu regresso ao palco do teatro e da vida.

Ao falar para a Alma, a psiquiatra diz que Elisabeth emudecera durante a peça e tivera vontade de rir num momento dramático. Alma diz não se sentir segura de poder tratar de Elisabeth, mulher tão admirável e forte.

Mesmo assim Alma aceita a incumbência e se depara com o silêncio e o distanciamento de Elisabeth, rompidos uma única vez e com grande intensidade de afetos ao receber uma carta do marido, que nela enviara uma foto do filho. Elisabeth se recusa a ler a carta e rasga a foto do filho.

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1 comentário 2 de Outubro de 2007 às 19:52 Sérgio Telles

Wilkomirski e alguns problemas ligados à criação literária

Wilkomirski e problemas literários ligados à relação do autor com sua obra, à diferença entre os gêneros literários, à indústria editorial e aos aspectos para-literários no reconhecimento de uma obra de arte.

Sérgio Telles

Em 1995, o mundo editorial viveu um momento interessante com o lançamento do livro Bruchstücke. Aus einer Kindheit 1939–1948 (Fragmentos: Memórias de uma infância em tempos de guerra 1939-1948), escrito por Binjamin Wilkomirski.
Tratava-se das memórias de um sobrevivente dos campos de concentração nazistas, relatando os terrores inomináveis pelos quais tinha passado enquanto criança e sua epopéia para sobreviver até ser adotado por suíços.
O livro foi imediatamente apontado como uma obra prima, os talentos do escritor foram louvados e elevados ao grau de franca genialidade. Como se tratava de mais uma obra de sobrevivente do Shoah, logo foi equiparada às de Primo Levi, Elie Wiesel ou Anne Frank, recebendo imediatamente o apoio das grandes instituições judaicas internacionais, que ajudaram a promover o livro mundialmente. Quando a coisa estava nesse ponto, algumas dúvidas começaram a surgir, apesar de negadas com veemência pela editora. Afinal, descobriu-se que o autor não era judeu, nunca estivera num campo de concentração. Era um suíço filho de mãe solteira, que o tinha entregado a um orfanato e que fora posteriormente adotado por um casal, com quem vivera uma pacata vida burguesa até o lançamento de seu livro.
A descoberta causou um imenso constrangimento, especialmente entre as instituições judaicas, que tinham dado o maior apoio à divulgação do livro e que o apresentavam como uma das maiores obras do engenho humano, comparável a Shakespeare e Homero, para citar o padrão pelo qual estava sendo julgado o livro.
Descobriu-se posteriormente que a editora, ao lançar o livro, já sabia de antemão que se tratava de uma obra de ficção e não um registro autobiográfico. Ao vender gato por lebre, a editora configurou o caso como uma fraude. Como resultado, o livro foi relegado ao ostracismo. O acontecimento foi amplamente notificado e pode ser rastreado com profundidade na internet.
O caso é muito interessante e serve para ilustrar uma quantidade de questões ligadas ao trauma e à criação literária.

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1 comentário 31 de Julho de 2007 às 18:57 Sérgio Telles

O Cheiro do Ralo -

O CHEIRO DO RALO, de Heitor Dhalia
Sérgio Telles

Baseado num livro de Lourenço Mutarelli e roteiro de Marçal Aquino, o filme de Dhalia ganhou vários prêmios nacionais e internacionais, e tem recebido uma boa atenção do público.
O protagonista do filme tem o mesmo nome do autor, Lourenço. Ele é dono de uma loja de penhores, onde as pessoas necessitadas de dinheiro vêm vender seus objetos, muitos deles cheios de historias e lembranças pessoais. Ao receber seus clientes, Lourenço sempre explica que o mau cheiro que eventualmente possam sentir decorre de um ralo entupido em seu banheiro, não vem dele mesmo.
Lourenço desiste na véspera de seu casamento, alegando não amar ninguém, nem mesmo sua mãe, a quem a noiva perplexa tenta recorrer de sua decisão. O mundo de Lourenço reduz-se a seu ambiente de trabalho, que mais parece um esquálido depósito de lixo, um amontoado de objetos velhos, e seu apartamento, também inóspito.

O texto completo deste artigo está no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008.

Adicionar comentário 8 de Junho de 2007 às 15:06 Sérgio Telles

O labirinto do fauno

O LABIRINTO DO FAUNO (*)

Sérgio Telles

O filme de Guillermo del Toro entrelaça duas diferentes narrativas.
Uma, de cunho realista, se passa em 1944, na guerra civil espanhola. Capitão Vidal comanda um posto militar sediado num antigo moinho e ali recebe sua mulher grávida, acompanhada por Ofélia, a filha que ela teve em outro casamento. Acontecem escaramuças entre o exército franquista e guerrilheiros esquerdistas, com cenas de violências, heroísmo, lutas, perseguições, mortes, etc.
A outra é um conto de fadas que mostra o encontro de Ofélia com um fauno no labirinto do jardim do moinho. Ele a identifica como a princesa Moana e lhe delega tarefas para reconquistar seu perdido reino.
Embora seja possível interpretar o filme sob vários enfoques, restrinjo-me ao psicanalítico.

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3 comentários 24 de Abril de 2007 às 18:34 Sérgio Telles

Impossivel sair de Mariembad

IMPOSSÍVEL SAIR DE MARIENBAD (*)

Sérgio Telles

O ANO PASSADO EM MARIENBAD – filme de Alain Resnais e roteiro de Alain Robbe-Grillet - sempre me suscitou um grande interesse. Vi-o pela primeira vez na década de 60, numa sessão de clube de cinema universitário em Fortaleza. Foi uma experiência de grande estranhamento, pois era uma cópia não legendada e eu não sabia (como continuo sem saber) falar francês! Mas ficaram comigo aquelas imagens hieráticas, iterativas, solenes. Grupos de pessoas a cumprir com um formalismo quase mecânico um complicado minueto social no espaço fantasmagórico de um magnífico palácio barroco e seu imenso jardim de simétrica e rígida geometria, vigiado eternamente por um casal de pedra em pose dramática. As estátuas – em sua veemência escultórica - pareciam mais intensas e vivas que as pessoas que por elas passavam.
Muitos tempo depois, há uns oito anos, revi-o Centro Cultural Banco do Brasil aqui em São Paulo. Era uma cópia muito usada, cheia de falhas, riscos e traços brancos. Mas desta vez ali estavam as necessárias legendas e me foi possível seguir a narrativa que reverberava em inúmeras repetições e retomadas no relato de uma história de amor em clima de incertezas e desconfianças. Mais uma vez senti-me completamente arrebatado pela atmosfera marcada pelo palácio barroco e seu jardim, os quais – um, com sua grandiloqüente arquitetura e pesada decoração; o outro, com sua matemática disposição racional do espaço - pareciam dominar a história, reger os destinos dos personagens principais.
Mais recentemente, revi-o várias vezes, numa cópia em DVD , usufruindo das facilidades introduzidas pela tecnologia. Com o DVD, o cinema pode ser visto como se lê um livro – com pausas, voltando páginas atrás, dando uma olhadinha mais à frente para ver como a coisa andou, etc. Mais ainda, com a tecnologia o expectador pode até mesmo remontar o filme como bem entender, fazendo intervenções antes impensáveis.
Assim, pude avançar, retroceder ou me deter me determinadas seqüências do filme quantas vezes quis, dirimindo dessa forma parte das dúvidas que nas vezes anteriores fui obrigado a suportar.
Não que todas elas ficaram solucionadas. É preciso lembrar que a estrutura narrativa de O ANO PASSADO EM MARIENBAD procura deliberadamente o enigmático e não almeja encerrar-se numa conclusão definida.
O esboço do filme é relativamente simples. Num hotel de luxo em “Marienbad” – na verdade, filmado no Nynphenburg Schloss em Munique - um homem “X” tenta convencer uma mulher “A” que ela prometera no ano anterior, naquele mesmo hotel, que abandonaria o marido “M” e ficaria com ele, coisa que a mulher reluta em aceitar, negando ter feito tal promessa e até mesmo a conhecê-lo.
Dois grandes temas se perfilam imediatamente - tempo e memória.

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1 comentário 13 de Abril de 2007 às 10:48 Sérgio Telles

Considerações sobre “O Código Da Vinci” (*)

Considerações sobre “O CÓDIGO DA VINCI” (*)

Sérgio Telles

O extraordinário sucesso do livro de Dan Brown “O Código Da Vinci” e do filme nele baseado caracterizam-no como um produto típico da indústria cultural globalizada.
O que quer dizer isso? Muitas coisas, todas elas derivadas da dicotomia “indústria cultural” e “arte”.
Os produtos da indústria cultural constituem o universo do Entretenimento. São divertimentos, distrações, passatempos, diversões - em sua grande maioria de teor escapista, alienante - voltados para as massas, que envolvem grandes investimentos financeiros em busca dos lucros correspondentes. Para tanto, os produtos são divulgados através de campanhas publicitárias maciças veiculadas pelos diversos meios de comunicação, incentivando seu consumo no mercado.
Todas essas características afastam o “produto da indústria cultural” das chamadas “criações artísticas”. Estas não têm como objetivo imediato o consumo das massas e sim a expressão de novas formas e conteúdos elaborados pelo artista em seu trabalho solitário. Muito embora possam também entreter e distrair, não têm esse propósito como prioridade e sim simbolizar e representar as grandes questões humanas, enriquecendo aqueles que delas se aproximam. Quando aparecem na mídia, as “criações artísticas” ocupam espaços muito específicos e restritos, na maioria das vezes, ignorados pelo grande público.
Não quer isso dizer que ocasionalmente algumas delas não tenham grande apelo popular nem que o artista não tenha ambições, não almeje o reconhecimento e fortuna. Mas o fato é que o que eles produzem, por suas características intrínsecas, dificilmente pode atingir o consumo de massa.
O artista precisa vender suas obras para viver e assim estabelece complexas relações com o mercado, tema que não é possível abordar no momento. Apenas assinalo que o atual mercado de arte usa dos mesmos recursos da indústria cultural em termos de divulgação e marketing, mas está voltado não para as massas e sim para o topo da pirâmide social, para a plutocracia. Se é verdade que o artista não despreza o dinheiro que um bem sucedido produtor da indústria cultural recebe, ele talvez seja ainda mais ambicioso que este, pois aspira a imortalidade.
Produtos da indústria cultural, como “O Código Da Vinci”, são consumidos vorazmente em escala de milhões, saturando o mercado, para logo ser esquecido e substituído por um similar, que inicia um novo ciclo de consumo. Tirando as exceções, uma obra de arte (livro, quadro, filme, etc) atinge um número modesto de pessoas, mas persiste ao longo do tempo, seduzindo novas gerações. Dificilmente ela é tão lucrativa quanto o produto da indústria cultural, que enche os bolsos de todos envolvidos em sua consecução.

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2 comentários 30 de Janeiro de 2007 às 18:42 Sérgio Telles

Carta de uma desconhecida

Sobre o filme “Carta de uma desconhecida” de Max Ophuls (1948), baseado num conto de Stefan Zweig.

O enredo

Alta madrugada, amigos deixam Stephan Brand (Louis Jourdan) em sua residência. Logo mais todos teriam que acordar cedo, já que nas primeiras horas da manhã Brand deveria comparecer a um duelo para o qual fora desafiado por um marido traído e os amigos seriam suas testemunhas. Quando ele desce da carruagem, seus companheiros expressam dúvidas quanto a sua disposição de honrar o compromisso, refletindo que desta vez ele calculara mal e fora surpreendido, deparando-se com um temível adversário. Efetivamente, ao entrar em casa, Brand diz ao valet de chambre que prepare sua bagagem, pois pretende fugir da cidade, evitando o duelo. O empregado se retira para cumprir as ordens e lhe entrega uma carta que chegara há pouco.

Ao ler a carta, Brand se intera de fatos que até então lhe eram desconhecidos e que terão graves conseqüências sobre seu destino.

A carta fora escrita por uma desconhecida Lisa (Joan Fontain), que ele vem a descobrir ser uma jovem mocinha que fora sua vizinha muitos anos antes. Em flash backs, seguimos a forte paixão que Lisa desenvolveu por Brand, sem que ele disso se apercebesse. Vemos o interesse de Lisa com a chegada do novo inquilino, a curiosidade que lhe despertam seus objetos e móveis, a admiração que lhe causa o fato de ser ele um pianista famoso e requisitado, o encanto que sua música lhe provocava, os ciúmes que sentia ao constatar seu grande sucesso com as mulheres. Numa ocasião, com a desculpa de ajudar o valet de chambre de Brand na limpeza do apartamento, penetra na casa e fica ali bisbilhotando até ser surpreendida pelo empregado.

Algum tempo depois, no mesmo local da escada de onde observava a chegada de Brand com suas mulheres, Lisa surpreende a mãe com um homem. A mãe então lhe informa que sua viuvez chegara ao fim e que aceitara a proposta de casamento daquele pretendente. Deixariam Viena e morariam em Linz. Para surpresa da mãe, a noticia deixa Lisa furiosa. Em Linz, para o contentamento da mãe, Lisa é cortejada por um jovem e promissor oficial, sobrinho de um militar importante. Quando ele lhe pede a mão, para sua perplexidade, ela diz estar comprometida com um homem em Viena, o que deixa em maus lençóis a mãe e o padrasto, que incentivam o rapaz através da amizade com seu poderoso tio.

O texto completo deste artigo se encontra no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II, Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008.

1 comentário 27 de Setembro de 2006 às 12:54 Sérgio Telles

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