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Das escolhas do Inconsciente

Das escolhas do inconsciente
O que Freud tem a dizer sobre a democracia e as duas categorias de homens: os líderes e os liderados

Sérgio Telles*

- A inesgotável sucessão de escândalos políticos nos faz pensar que muitos de nossos homens públicos se vêem como grãos-senhores que se dão ao direito de saquear o tesouro nacional para constituir fortunas pessoais e sustentar familiares, serviçais, apaniguados e agregados. Quando confrontados com seus desmandos, abusos e crimes, ficam mortalmente ofendidos e posam de injustiçados.

É que o conceito de accountability, de importância fundamental nas democracias mais avançadas, parece não existir por aqui. Todo político do Primeiro Mundo sabe que deverá prestar contas, a seus eleitores, do poder que lhe foi por eles delegado. É isso a accountability.

Um bom exemplo desse estado de coisas nos deu Sarney recentemente. No epicentro dos escândalos do Senado, ao se defender das acusações que sobre ele incidem, Sarney afirmou que sua “biografia” é sua salvaguarda. Mas não é justamente sua biografia o que o condena? Se pensarmos em termos de accountability, que prestação de contas poderia ele apresentar a seus eleitores, se a realidade expõe a todos os péssimos índices de desenvolvimento do Estado no qual por quase quatro décadas tem exercido um anacrônico poder senhorial?

Frente a isso, somos levados a pensar que, numa democracia como a nossa, é baixo o nível dos políticos e uma grande maioria do eleitorado é despreparada, ignora seus direitos e se posta frente ao político de forma subserviente, implorando favores, avalizando a imagem de grão-senhor que os políticos se dão.

Poder-se-ia pensar que o problema da escolha de maus políticos é decorrência do subdesenvolvimento característico de nossas plagas e que uma melhor escolaridade muito faria por nosso processo eleitoral.

Isso é parcialmente verdadeiro, pois logo lembramos que eleitores com boa escolaridade e nível de informação política, como os do Primeiro Mundo, também fazem péssimas escolhas, elegendo políticos desqualificados e de reputação duvidosa. As reeleições de Bush e Berlusconi são exemplos recentes.

Assim constatamos que se a educação e a informação são necessárias para que os eleitores possam fazer boas escolhas políticas, isso não é o suficiente. A escolha do eleitor é permeada por uma forte irracionalidade que perturba a desejada objetividade. Embora isso possa nos surpreender, não deveria, pois é o que ocorre com todo e qualquer ato humano.

É aí onde a psicanálise pode dizer algo.

Para a compreensão dos motivos irracionais - ou seja, inconscientes - na escolha dos eleitores, é fundamental a leitura de Psicologia de Grupo e Análise do Ego, de Freud. Ali ele diz que o líder, pessoalmente identificado com uma forte figura paterna, ocupa efetivamente o lugar de pai na fantasia grupal, e o próprio grupo se vê como um bando de irmãos a ser comandado por esse pai poderoso de quem demanda amor e proteção. Os membros do grupo colocam o líder como um ideal do ego compartilhado por todos, condição que os une numa forte identificação entre si.

Essa configuração psíquica é tão generalizada que Freud a usa para estabelecer que os homens se dividem em duas categorias: a dos líderes, francamente minoritária, e a dos liderados, amplamente majoritária.

Freud faz tal afirmação numa correspondência trocada com Einstein em 1932, patrocinada pela Liga das Nações (atual ONU), que convidava cidadãos notáveis para refletirem sobre problemas de interesse geral. No caso específico, o tema era a guerra. Freud especula sobre o que determina a intensidade da destrutividade de um indivíduo e de como isso se refletiria numa postura pacifista ou belicista.

Ao propor as duas categorias de homens, líderes e liderados, posições determinadas por estruturas psíquicas inconscientes, Freud parece dizer que, independentemente do regime político, a grande maioria dos homens deseja ser comandada, ficando numa posição de dependência reveladora da persistência de desejos infantis por um pai forte e poderoso, a quem se sacrifica a independência e a autonomia em troca da proteção. Essa estrutura fantasmática sustenta e alimenta também a importância social da religião.

O reconhecimento da dimensão inconsciente do psiquismo faz com que a escolha democrática fique bastante problematizada. Por um lado, pelo infantilismo regressivo que alimenta o desejo de ser comandado por um pai forte e onipotente. Por outro, pela loucura “adulta” da ideologia, cujo exemplo mais cabal - como bem apontou Marx em A Ideologia Alemã - é a religião, alimentando idealizações e negações quase delirantes frente à realidade.

A tudo isso ainda se deve acrescentar o discurso político, que visa essencialmente à conquista e manutenção do poder, para tanto manipulando pessoas e fatos.

O diálogo entre Freud e Einstein estava centrado em como a pulsão de morte determinaria uma maior destrutividade nos lideres, fazendo-os assumir uma atitude belicista. Embora a guerra permaneça no panorama mundial, ela não tem a amplitude e urgência daquele momento. Em nossos tempos de “paz”, a destrutividade (pulsão de morte) de muitos líderes assume uma feição menos bélica, mais “civil” e se expressa como corrupção.

A voracidade com que os políticos organizam negociatas e se apoderam do bem público em detrimento da coletividade é uma manifestação predatória e fanática do poder. É expressão de um narcisismo maligno que desrespeita a coletividade e coloca multidões na miséria e no desamparo.

Políticos corruptos, eleitores despreparados, discursos mentirosos que visam exclusivamente o poder, interferência de aspectos regressivos infantis na escolha de homens públicos, a alienação das ideologias - mesmo assim, com tudo isso, não podemos desanimar com a democracia.

Ela é uma conquista e deve ser defendida a qualquer preço. A melhor forma de defendê-la é não idealizá-la, é reconhecer suas falhas e dificuldades e nos empenhar para superá-las.

Devemos lutar para que os eleitores se apropriem de seus direitos civis, possam eleger políticos honestos e capazes e que saibam reconhecer a diferença entre a escolha objetiva de um representante político e a fantasia de reencontrar a proteção perdida de um pai onipotente.

Talvez seja necessário reafirmar tudo isso, pois não poucas vezes tenho ouvido pessoas se declararem completamente desiludidas com nossa realidade política e, como forma de protesto, planejarem a anulação de seus votos nas próximas eleições.

*Publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em 05/07/09

Adicionar comentário 20 de Julho de 2009 às 17:58 Sérgio Telles

Estar ou não afim - algumas idéias sobre o sexo nas cidades (*)

Estar ou não afim – algumas idéias sobre o sexo nas cidades (*)

Sérgio Telles

“Sex and the city”, de Candace Bushnell e “Bridget Jones”, de Helen Fielding, são expoentes do “chick lit” (algo como “literatura das garotas”), gênero literário criado pelo mercado editorial dos Estados Unidos. Supostamente tal gênero aborda a problemática da mulher pós-feminista, não mais lutando por sua liberdade sexual ou pela igualdade de direitos frente aos homens, mas usufruindo dos ganhos da conquista e pagando seus ônus. O problema é que a “chick lit” banaliza e diminui as vitórias do feminismo, reduzindo-as a uma troca inconseqüente de parceiros amorosos e a um frenesi pelo consumo de alto luxo. Afinal, no universo ali descrito, todo mundo é chique, civilizado e mora em lugares de muito bom gosto. Paradoxalmente, ao mostrar as mulheres como românticas cujo único objetivo na vida é encontrar um bom partido, a “chick lit” termina por reforçar estereótipos contra os quais o próprio feminismo tanto lutou. Não é difícil ver, debaixo das sandálias Manolo Blahnick e das bolsas Louis Vuitton, as mesmas jovens sonhadoras que povoavam os livros de M.Delly.
É esse cenário que vamos encontrar no filme “Ele não está tão afim de você” (“He´s just not that into you”, 2009), dirigido Ken Kwapis e com um estrelado elenco (Ben Afleck, Jennifer Aniston, Drew Barrimore, Jennifer Connely e Scarlett Johansen). O filme se baseia num livro que vendeu dois milhões de exemplares nos Estados Unidos, escrito Greg Behrendt e Liz Tuccillo, roteiristas do “Sex and the city”, o seriado de televisão gerado pelo “best-seller” de Candace Bushnell.
Tendo como eixo central as desventuras de Gigi, uma empedernida ingênua às voltas com o enganoso mundo dos homens, perpassam no enredo alguns casais com diversos problemas amorosos. Preocupadas em atrelar sua sexualidade ao casamento, as mulheres são doces, amoráveis e vítimas dos homens, quase todos empenhados em seduzir e abandonar - com as exceções que confirmam a regra.
Vê-se que atrás da aparência moderninha que procura ostentar ao tratar da condição da mulher e dos relacionamentos amorosos nos dias de hoje, o filme se revela convencional e conservador. A própria heroína, a inacreditável Gigi, parece ter saído direto de algum volume da antiga Biblioteca das Moças.
As decorrências da liberdade sexual e da liberação da mulher observadas nas grandes metrópoles ocidentais parecem muito mais bem retratadas no excelente “Closer” (2004), dirigido por Mike Nichols, baseado na peça premiada de Patrick Marber, com Natalie Portman, Julia Roberts, Jude Law e Clive Owen.
O que “Closer” – cujos personagens não poderiam ser mais “cool” - mostra é que a liberdade sexual, a ausência de entraves religiosos e preconceitos sociais não eliminam os “antigos” conceitos de traição ou desilusão amorosa. Na verdade, poderíamos acrescentar, eles estarão sempre presentes, pois na medida em que se ama, é impossível não correr os riscos da perda e seus desdobramentos em termos de sofrimentos.
Assim, “Closer” parece dizer que a pós-modernidade não nos isenta das dores do amor. O que ela faz é facilitar as defesas contra estas dores, possibilitando, em função da liberdade sexual e do “ethos” narcisista que impregna atualmente a cultura, a prática do sexo casual.
Ao ver “Closer”, entendemos que sexo casual ou o “estar afim” são práticas que satisfazem basicamente ao narcisismo de cada um dos envolvidos. É como uma masturbação a dois. Não tem nada a ver com um relacionamento amoroso, pois este implica uma superação do narcisismo, o estabelecimento de uma relação objetal, a construção de um vinculo afetivo, a temeridade de lançar-se no vôo cego de uma entrega confiante no outro, sem nada a garantir o sucesso da empreitada.
“Ele não está tão afim de você” e “Closer” se inscrevem em diferentes registros. O primeiro é mero entretenimento, o segundo é uma obra de arte. O entretenimento pretende primordialmente divertir e, para tanto, evita abordar a dimensão trágica da vida. Uma posição radicalmente diferente da arte, que não se recusa a integrar em seu interior todas as contingências da existência humana, inclusive seu inevitável caminhar para a morte, ao mesmo tempo em que oferece o prazer estético, que ameniza e torna mais palatável seus fortes conteúdos.
Uma outra característica do entretenimento é o uso abundante de clichês e estereótipos, que proporcionam ao grande público um tranqüilizador sentimento de reconhecimento e familiaridade com o que lhe é apresentado. Mais uma vez, situação bem diferente daquela proposta pela criação artística, com sua preferência pelo inusitado, pelo inédito, pelo desafio do novo. É verdade que mesmo bons artistas, como Woody Allen, vez por outra apelam ao chavão para garantir uma boa bilheteria. É o que acontece em “Vicky, Cristine, Barcelona” (2008). Num ininterrupto desfile de lugares-comuns, duas jovens norte-americanas vão passar uma temporada de férias em Barcelona, na casa de um rico compatriota. Envolvem-se numa série de imbroglios amorosos e tudo se acaba com o verão, quando as duas voltam para seu país, “enriquecidas” com suas novas experiências. Há os “artistas” e os “burgueses”. Há os “espanhóis”, com seu sangue latino caliente, e há os “americanos” e “ingleses”, comedidos, sofisticados e irônicos. Os “artistas” têm um temperamento excessivamente “artístico”, criando “obras de arte” a todo instante. Penélope Cruz, num papel que lhe deu o Oscar (!), como a pintora genial e geniosa, explosiva e imprevisível, é a própria encarnação da artista “espanhola”. Os ricos “burgueses”, como era de se esperar, nada mais fazem que langorosamente lutar contra o tédio, em meio a festas, iates e pequenas traições.
Abordada de forma leve e estereotipada ou com a complexidade que ela exige, o fato é que a eterna luta entre os sexos é um tema da maior importância, abordado anteriormente por inúmeros cineastas. Para citar alguns, lembramos Bergman, especialmente em “Cenas de um casamento” (1974) e seu dilacerante epílogo, “Sarabanda” (2003); Ridley Scott em “Thelma e Louise” (1991), um dos mais pungentes filmes sobre os impasses da condição feminina em nossos tempos; e Almodóvar em “Volver” (2006), onde disfarçado no tom de comédia, transparece a visão trágica de dois mundos fechados – o masculino e o feminino – que ao se aproximarem, não produzem o amor e a criação, e sim o incesto, a violência, o assassinato.
“Anatomia é o destino”, disse Freud. Com isso apontava para o fato de ser a diferença anatômica entre os sexos um referencial incontornável na realidade humana, estabelecendo lugares e papéis específicos culturalmente determinados.
O embate entre homens e mulheres, no qual cada sexo usa de suas armas e estratagemas, toma feições diversas em função do tempo e do lugar na história. É inegável que, durante séculos e na maioria das culturas, o falicismo prevaleceu, fazendo com que as mulheres fossem submetidas ao poder dos homens. E assim ainda ocorre com vastas parcelas da população mundial.
Somente com Freud foi possível obter uma compreensão acurada dos aspectos mais profundos e inconscientes do falo e da castração, e de seus efeitos na organização dos grupos humanos.
É irônico que o feminismo, que tanto deve a Freud, tenha-se voltado, num determinado momento, contra a psicanálise, ignorando ter sido ela o que tornou possível entender o caráter fantasmático que sustentava (e ainda sustenta) a pretendida superioridade masculina sobre as mulheres.

(*) Artigo publicado no suplemento “Cultura” do jornal “O Estado de São Paulo” em 12/04/09

Adicionar comentário 16 de Abril de 2009 às 15:10 Sérgio Telles

ADOLESCÊNCIA E VIOLÊNCIA

ADOLESCÊNCIA E VIOLÊNCIA

Sérgio Telles

(Artigo publicado na revista E-Sesc – no. 140 - Janeiro 2009)

“Em um mundo que parece cada dia mais violento, pretendemos debater a violência à qual os adolescentes, em especial, estão submetidos. Em que a violência da qual eles são vitimas se diferencia dos adultos? Quais são os riscos de uma adolescência submetida à violência?”

A questão proposta superpõe dois importantes problemas – o da violência e o da adolescência.
Comecemos pela violência. Sempre que falamos sobre ela, a primeira coisa que fazemos é vê-la como um problema externo, que não nos diz respeito a não ser como eventuais vítimas inocentes. Jamais admitimos que nós mesmos possamos ser agentes produtores de violência. Os violentos e agressivos são sempre os outros, nunca nós mesmos.
Agimos de modo semelhante com a sexualidade. Estamos muito atentos e fazendo julgamentos sobre os comportamentos sexuais dos outros, como se nós mesmos não passássemos por vicissitudes semelhantes àquelas que tão severamente censuramos nos outros.
Negamos e reprimimos nossos impulsos agressivos e sexuais.
Até certo ponto isso é necessário. Como Freud dizia, para vivermos em sociedade, não podemos dar plena vazão a nossos desejos sexuais e agressivos. Temos de controlá-los, caso contrário ficaria impossibilitada a convivência que com o outro.
Mas esse controle não deve fazer com que neguemos a presença de tais fortes pulsões em nós mesmos e que as projetemos no outro, atribuindo-lhe com exclusividade aquilo que também possuímos. A projeção dos desejos agressivos e sexuais no outro, e sua concomitante negação em nós mesmos, é fonte de inesgotáveis desentendimentos entre os seres humanos.
O ideal é que reconhecêssemos nossa constituição pulsional, que nos dota de sexualidade e agressividade, sendo tarefa de todos e de cada um a administração destas poderosas forças internas.
Assim, quando se fala da violência que atingiria o adolescente, tal afirmação pareceria colocá-lo como vítima indefesa e passiva, deixando de lado que a violência habita também o adolescente, pois ela nos habita a todos.
Mas é verdade que os recursos internos para o manejo da violência diferem em função do nível de estruturação do psiquismo, estando ele ainda em processo de organização nas crianças e nos adolescentes.
Falemos agora da adolescência. Ela é um período de extraordinária turbulência interna, no qual o corpo e o psiquismo sofrem amplas modificações. O adolescente deve deixar a vida infantil com todos seus valores e se defrontar com grandes desafios, especialmente aqueles ligados a sua personalidade, a sua identidade. O adolescente não é mais o filhinho de papai e mamãe, a quem deve obedecer sem discussão. Ele agora precisa se firmar como sujeito, deve definir sua sexualidade e descobrir a posição que vai ocupar no mundo dos adultos.
O adolescente está exposto à violência interna de seus próprios desejos e conflitos, pois tanto sua sexualidade como sua agressividade adquirem aspectos e intensidades por ele até então desconhecidas. Seu complexo de Édipo ressurge com grande intensidade, deixando-o confuso e assustado ao constatar que agora poderia realizar suas velhas fantasias incestuosas inconscientes, coisa que seu corpo infantil impossibilitava. Da mesma forma, sua própria agressividade precisa ser modulada.
O adolescente se depara com muitos desafios. Como lidar com os modelos que a sociedade lhe oferece para seu sexo, sua posição social, seu futuro? Deve se conformar com eles? Precisa se rebelar contra eles?
Para impor sua identidade, deverá lutar contra os pais. Mesmo quando estes estão do seu lado e se dispõem a ajudá-lo, ainda assim ele tem de se desprender deles. Ao mesmo tempo em que ele quer fazer isso e seguir seu próprio caminho, teme se afastar dos pais e perder o lugar protegido que eles lhe têm proporcionado. Frente a angústia que tudo isso lhe provoca, o adolescente pode reagir com grande agressividade, voltada para os outros ou contra si mesmo, em condutas auto-destrutivas.
As questões sobre a identidade sexual ocupam um lugar central para os adolescentes. Os rapazes confundem masculinidade com agressividade e se engajam em estrepitosas exibições machistas. As meninas engravidam como uma forma de provar que são mulheres, apesar de terem as informações objetivas necessárias que as poupariam dos problemas daí decorrentes. Ambos podem ser levados a praticar sexo não seguro, expondo-se a doenças sexualmente transmissíveis ou de gravidezes não planejadas. Aqueles que descobrem ter uma sexualidade diversa da maioria padecem grandes agonias.
Ao se afastar do protegido grupo familiar, o adolescente necessita vitalmente se incluir em outros grupos, que o amparem em seus conflitos identitários. Nos novos grupos, deve aprender a lidar com os fortes mecanismos que regem seus funcionamentos, com as lideranças, as disputas de facções rivais que podem uni-los ou fragmentá-los, a eleição de bodes expiatórios, etc. Nestes grupos, a afirmação da masculinidade faz com que os comportamentos agressivos nos rapazes sejam supervalorizados, da mesma forma que o comportamento sedutor por parte das meninas, o que gera situações potencialmente perigosas.
Tais são os percalços quase inevitáveis que o adolescente tem de atravessar em sua busca de uma nova identidade. Este tumulto interno deixa os adolescentes especialmente vulneráveis às drogas e ao álcool, que são ingeridos como calmantes, no intuito de aplacar o sofrimento que lhes provoca o crescimento, a perda da identidade infantil, o ter de enfrentar desafios que, naquele instante, podem parecer-lhes imensos e intransponíveis.
Até agora, falei da violência interna própria do momento psíquico da adolescência. Mas, é claro, aspectos sociais e culturais podem acolher e proteger o adolescente neste momento de confusão identitária e violentas descargas sexuais e agressivas, ou deixá-lo entregue a si mesmo, agravando suas dificuldades.
De modo geral, para que a adolescência transcorra do melhor modo possível, desembocando numa organização estável da identidade, os pais deveriam ocupar adequadamente suas funções paterna e materna. Teóricos da psicanálise julgam que, nas ultimas décadas, tem havido um progressivo enfraquecimento da figura paterna. Isso se dá por inúmeros fatores – o abandono dos valores ligados ao patriarcado, as conquistas do feminismo, por exemplo - o que tem criado novas dificuldades no já critico processo da adolescência.
Além disso, nos últimos anos a família também tem sofrido grandes alterações. Ao invés do modelo tradicional, a prática difundida do divórcio faz com que as famílias reconstituídas sejam cada vez mais numerosas e isto certamente não ajuda a atenuar os conflitos desencadeados pela adolescência.
Num país como o nosso, de profundos abismos socioeconômicos, com grandes parcelas da população segregadas em condições sub-humanas de vida, é claro que o tumulto próprio da adolescência encontra uma retaguarda social e familiar muito precária.
Frequentemente lemos nos jornais noticias sobre “chacinas”, a forma consagrada pela imprensa para se referir aos freqüentes assassinatos em massa de adolescentes e jovens moradores de bairros pobres das grandes cidades. Habitualmente tais chacinas são atribuídas a lutas de gangues de traficantes de drogas, acertos de contas, ação de grupos policiais. A indiferença da sociedade frente a estes bárbaros assassinatos fica ainda mais chocante ao se contrastá-la com o alarde que é produzido pela morte de um único adolescente das classes mais abastadas, coisa que raramente ocorre.
A adolescência é um período de grande violência interna e essa violência interna pode ser neutralizada ou potencializada pelo meio ambiente, pela familia, pela sociedade. No Terceiro Mundo, a desigualdade social é, em si, uma violência que recai sobre todos nós. Sendo os adolescentes mais frágeis e susceptíveis, não é de admirar que sejam por ela mais atingidos.

2 comentários 3 de Janeiro de 2009 às 10:32 Sérgio Telles

Ideologia do Consumo e Psicanálise

Ideologia do Consumo e Psicanálise

Sérgio Telles

O que é uma ideologia? É um sistema de crenças no qual estão abordadas e resolvidas todas as grandes questões que angustiam uma determinada parcela da humanidade num certo período do tempo. Ela fornece explicações sobre o passado, organiza o presente e estabelece rotas para o futuro. Com facilidade, a ideologia pode transformar-se num programa político, traçando objetivos e prioridades a serem alcançados através de uma ação organizada. A ideologia permite que o poder seja exercido de forma discreta, acobertado por crenças que simultaneamente o disfarçam e legitimam. O exemplo padrão da ideologia é a religião, qualquer religião. Outros exemplos são os partidos políticos.

No século passado, tivemos duas expressões máximas de organização estatal ideológica, o nazismo e o stalinismo, que deram origem a várias cópias mais circunscritas e regionais.

Assim como não se pode conceber estes totalitarismos sem a propaganda política que divulgava sua ideologia monolítica, não se pode abordar a atual produção de bens do capitalismo sem a publicidade maciça que nos induz ao consumo.

A publicidade comercial é a herdeira direta da propaganda político-ideológica. Por isso mesmo, a publicidade veicula uma ideologia própria das democracias ocidentais regidas pelo capitalismo globalizado e pela ditadura dos mercados, que transcendem e subjugam as antigas soberanias nacionais – a ideologia do consumo.

Esta atual ideologia promete a felicidade através da aquisição de uma mercadoria. Diz ela: “Compre tal carro e você será feliz, demonstrando seu sucesso. Compre determinada marca de roupa e você será sexy e bem sucedido. Fume tal cigarro ou beba tal bebida e será um vencedor”.

A propaganda cria um mundo completamente distante da realidade. Nele não existe dor e sofrimento, não existe a morte. Existe apenas a possibilidade imediata de alcançar a felicidade, entendida como a posse de um determinado bem de consumo.

Além disso, a propaganda vende a idéia de um “direito” à felicidade. É uma sutil perversão de uma grande conquista política conseguida pela democracia. Como reza a Constituição Norte-Americana, todos temos o direito de procurar a felicidade, o que não é o mesmo que o direito à felicidade. A diferença é fundamental. A procura da felicidade implica a idéia de liberdade política, a possibilidade de o cidadão fazer – dentro da lei - escolhas que lhe sejam convenientes de acordo com o seu desejo. Mas não se pode falar em direito à felicidade, pois isto implicaria no salto de uma categoria político-social para uma outra, situada em um outro campo, aquele do existencial, do desejo e da fantasia. Quem pode garantir um “direito” à felicidade, se esta é algo evanescente, impossível de generalizar por se configurar de forma singular e especifica para cada um? Por acaso, pode-se falar num “direito” de ser mais feliz, se a felicidade for entendida como ter uma outra dotação de inteligência, ter uma outra aparência, possuir uma outra cor de pele ou outra altura - para se dar alguns exemplos corriqueiros?

A resposta é negativa, pois a distribuição de dotes realizada pela natureza é totalmente aleatória, ao azar, não se submete a nenhuma norma do “direito”.

Entretanto, os avanços da tecnociência médica permitem realizar intervenções antes impensáveis no manejo do corpo humano, possibilitando mudanças no aspecto formal (cirurgias estéticas) e até mesmo no gênero sexual (cirurgias transexuais). É o que faz com que a ideologia do consumo se aproprie destes procedimentos médicos e os ofereça como uma novo bem a ser consumido.

Essa confusão entre direito a buscar a felicidade e direito a ser feliz tem duas conseqüências imediatas.

Uma delas é do âmbito do psicológico. Ela propicia a negação dos limites inevitáveis e irremediáveis que a realidade impõe a nossos desejos. Afinal, dentro do exemplo acima, haverá sempre pessoas mais inteligentes, mais bonitas, mais altas, do que outras. Ter de reconhecer, admitir e aceitar as diferenças entre o eu e o outro, um outro que poderá ser ou ter tudo aquilo que o eu deseja e não pode ter ou ser é o resultado de um longo e indispensável percurso a ser trilhado pelo ser humano na conquista do crescimento psíquico e emocional.

A outra conseqüência do embuste promovido pela publicidade é que ao prometer “direitos” impossíveis, ela propositadamente confunde a noção de direitos do cidadão com os direitos do consumidor.

A ideologia do consumo veiculada pela publicidade alimenta o narcisismo infantil existente em todos nós. Ela promete a felicidade e a realização de todas as nossas fantasias onipotentes de beleza, força, encanto, poder, charme sexual. Para tanto, basta comprar tal ou qual mercadoria.

Todos nós, ao vermos um anúncio de qualquer bem de consumo, com todas as promessas de beleza, felicidade, sucesso sexual, afetivo e profissional ao que teríamos acesso com sua aquisição, sabemos que aquilo é um logro, um engano, uma mentira. Mas, lá no fundo, uma parte de nós tende a acreditar, quer acreditar. É justamente aquela parte que se rebela contra os impedimentos e as limitações que a realidade nos impõe e quer restaurar o narcisismo onipotente perdido em nosso desenvolvimento. Ao nos constituirmos como sujeitos, tivemos de abdicar da fantasia de fazermos uma totalidade com a mãe, tivemos de aceitar nossa incompletude e construir, a partir dela, nossa existência.

É por isso que a publicidade comercial funciona. Ela, com grande habilidade, manipula nossos mais regressivos desejos inconscientes.

Sob este aspecto, a psicanálise e a publicidade estão em campos rigorosamente opostos. A psicanálise nos confronta com a falta, a incompletude, a castração, por saber que é somente a partir da abdicação do narcisismo e da onipotência que podemos crescer e viver plenamente. A publicidade faz o inverso. Alimenta a fantasia onipotente e narcisista de completude através da aquisição de bens de consumo.

Mas o que acontece quando as pessoas compram o objeto de seu desejo? Elas ficam mais felizes, como promete a publicidade?

Claro que não. Em primeiro lugar porque o desejo humano estará sempre insatisfeito, pois ele se baseia na restauração de uma impossível completude com o corpo da mãe, imagem de paraíso para sempre perdido. Por causa disso, quando se obtém aquilo que se deseja, o obtido imediatamente tende a se desvalorizar e a procura recomeça. De certa forma, a produção capitalista intui isso. Ao planejar a obsolescência de seus produtos, visa, por um lado, o lucro desmesurado; por outro, ao criar sucessivas versões de um mesmo objeto, atende não a critérios objetivos e racionais que deveriam reger a aquisição de bens necessários, mas à economia do desejo, da fantasia, da busca por um objeto, por definição, inalcançável.

De qualquer forma, seja pela própria estrutura do desejo que faz impossível sua satisfação, seja pelas promessas ilusórias da propaganda, o que ocorre após a compra é que, passada a euforia da aquisição, o consumidor se depara com uma grande decepção. Ele constata então que o objeto fetiche que adquirira não o deixa imune ao sofrimento, à dor e á angústia, elementos afetivos inalienáveis da condição humana.

Tal frustração pode descambar numa “depressão”. As aspas vão por conta do excessivo uso deste diagnóstico por parte de leigos e profissionais da saúde, a ponto de torná-lo o atual mal du siècle. Essa “depressão” difere da efetiva depressão decorrente de perdas e dificuldades de elaborar o luto. Esta “depressão”, tão difundida hoje em dia, decorre do penoso reencontro do consumidor com a realidade (interna e externa), que se mantém inalterada, ao contrário do afirmavam as vãs promessas da publicidade.

(Este artigo foi publicado na revista “E” do Sesc-SP, agosto de 2008, no. 135)

2 comentários 14 de Agosto de 2008 às 16:36 Sérgio Telles

O Analisando Brasil

O ANALISANDO BRASIL

Sérgio Telles
psicanalista e escritor

NOTA - Em 1992, os escândalos em torno do Presidente Collor culminaram com o processo de “impeachment”. Em meio ao tumulto cívico em que vivíamos, Edla van Steen - então na direção do Centro Cultural e de Estudos Superiores Aúthos Pagano, ligado à Secretaria de Estado de Cultura de São Paulo - teve a idéia de convidar uma série de pessoas, na qual fui honrosamente incluído, a refletirem sobre aquele momento.

Os textos assim produzidos foram publicados por aquela instituição, em dezembro daquele mesmo ano, sob o título “Brasil 90 – Desafios e Perspectivas”.

Relendo minha contribuição, tive sentimentos contraditórios. Já lá se vão 17 anos e continuamos com os mesmos problemas. Nada teria mudado? A corrupção continua a mesma, senão piorou. As esperanças de que governantes com uma maior consciência social fariam diferente ao chegarem ao poder não se concretizaram.

De qualquer forma, a análise que ali propus sobre a inquietação que enfrentávamos naquela ocasião parece continuar pertinente, pois muito do que ali foi abordado continua a acontecer no momento, gerando semelhante mal-estar. Isto me motivou a publicá-la novamente.

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A primeira coisa que o analista vê é o – digamos assim – o “ego” da sociedade assustado, deprimido, desesperançado, perplexo, confuso. Em conversas particulares com amigos, nas notícias e editoriais de jornais e da TV ouvem-se previsões catastróficas e desalentadoras, estarrecedoras informações sobre a corrupção do poder público, a desagregação da máquina do estado, o rompimento do tecido social.

Arrastões, milhares de menores abandonados, assaltos, seqüestros, roubos, desemprego, analfabetismo, miséria, e os pais da pátria, aqueles em quem supostamente deveríamos confiar, desmascarados, expostos nuamente em sua hedionda face vampiresca. A sociedade brasileira é uma espécie de mais um “menor abandonado”, vítima de pais incompetentes, fracos e incapazes.

Tudo parece estar condenado e sem perspectivas. Resta saber se tudo isso é tão desesperador como parece à primeira vista.

Creio ser possível fazer uma analogia entre o Brasil de agora e o processo de uma análise. O analisando ao chegar ao analista está todo estruturado, organizado e, entretanto, há um desarranjo de base, que se evidencia na produção de inúmeros sintomas que o fazem sofrer. Os sintomas mostram a falsidade daquela organização, pois evidenciam que uma importante parte do sujeito é negada, reprimida, não encontra espaço dentro dele. Esta parte insiste em se afirmar, precisa ser ouvida. No correr da análise, isso finalmente ocorre. São momentos decisivos quando a repressão é rompida e a denegação é superada. Isso quer dizer que nesses momentos é possível simbolizar, falar, comunicar e integrar à consciência aspectos inconscientes do psiquismo até então ignorados e desconhecidos, mas inegável e dolorosamente presentes sob a forma de sintomas. Tal superação da repressão e da denegação promove a verdade e a liberação do desejo. O reprimido, ao ser integrado, necessariamente desestrutura a organização anterior que o ignorava, forçando um novo rearranjo interno, uma nova organização, permitindo uma nova forma de viver. Neste processo, o sujeito deve tolerar alguns períodos de incertezas enquanto a estrutura anterior se desfaz e a nova não está consolidada.

Assim estava o Brasil, tudo aparentemente em seu devido lugar, com seus presidentes e generais no poder, tudo organizado, estruturado, e – apesar de reprimidos e negados – os “sintomas” abundavam.

Para dar um exemplo mais direto – qualquer brasileiro medianamente informado “sabia” que nos últimos anos a corrupção tem imperado abusivamente no trato da coisa pública. Mas tal saber era totalmente “reprimido” e “denegado” pelos meios de comunicação de massa e pelos instrumentos do poder.

Por uma série de circunstâncias históricas, isso mudou e os fatos vêm à tona com toda a força da verdade e capacidade de mobilização implícita nesta liberação. Nossas mazelas estão todas à vista.

A sociedade brasileira vive um momento de catarse e purgação desta verdade reprimida, vergonhosa e traumática que é a corrupção no Poder e de suas conseqüências. Mas também a sociedade brasileira fica confusa e atrapalhada com a integração desta verdade até então reprimida e denegada, desde que esta integração força mudanças no status quo, provocando nele rupturas que geram insegurança e intranqüilidade.

Acho que não devemos temer estas rupturas, pois, tal como num processo de análise, elas são indicio do nascimento do novo, quem sabe de um Brasil não mais “menor abandonado” cujos pais da pátria de há muito o maltratam e espoliam, mas um Brasil disposto agora a cobrar o que lhe é de direito.

A psicanálise não acredita, e consequentemente não promete, paraísos neste ou em qualquer outro mundo. Sabe que os “paraísos” são fantasias de reconstrução de uma completude para sempre perdida, completude advinda do gozo do corpo da mãe, ou seja, da fusão inicial do bebê com a mãe, estado que necessariamente tem que ser rompido, para tanto se impondo a presença do pai, o nome-do-pai, a instauração da Lei que promove a castração da mãe e do filho, para que – somente então – o sujeito possa se constituir como tal. O sujeito se constitui, pois, na falta, o que o faz para sempre um ser desejante e incompleto, dotado de um desejo que vem a ser o primum movens de seu psiquismo, gerador de uma irreversível insatisfação.

O sujeito humano tem uma falta estrutural eu não será jamais preenchida. Apesar disso, ele não fará outra coisa em sua vida que tentar preenchê-la, quer seja de forma realística – reconhecendo-a como irredutível, mas compatível com realizações afetivas e profissionais, quer seja através de ilusões pessoais, a criação das mitologias particulares que são seus sintomas, quer seja abraçando ilusões socialmente compartilhadas, como a religião – que promete o paraíso em outro mundo – ou as várias ideologias políticas que advogam utopias sociais, prometendo o paraíso para este mundo aqui mesmo. Esta é, em ultima instância, a tese central de Freud em “O Mal-estar na Cultura”, livro nunca o suficientemente lido e pensado.

De alguma forma, “O Mal-estar na Cultura” estabelece algumas fronteiras na complicada relação que o sujeito mantém com a realidade, com o mundo externo. O impacto da realidade imediata sobre o psiquismo adulto não é simples e direto. Para os adultos, a realidade imediata é sempre lida e apreendida através do filtro de seu psiquismo já estruturado, de sua organização interna, da maneira como se constituiu como sujeito. Os acontecimentos externos vão sempre acordar antigas experiências com as quais vão ser confundidas e para as quais se vão lançar mão das respostas usadas anteriormente, que, evidentemente, já estão caducas e anacrônicas. Um dos trabalhos da analise é justamente ajudar o analisando a discriminar tais situações, fazendo-o separar o passado do presente, possibilitando-o fazer uso mais realístico e objetivo de seus recursos, resolvendo os problemas e desafios que a realidade lhe impõe de forma atual e adulta e não regressiva e infantilmente.

A realidade imediata e presente é decisiva como tal para as crianças, para as quais tem uma importância mais direta, na medida em que está sendo introjetada para estruturar seu próprio psiquismo, instituindo-a como sujeito. Não devemos esquecer, entretanto, o modo especial como essa realidade se impõe às crianças, ou seja, totalmente mediada pelos pais, que são seus representantes magnos, portadores das normas e leis da cultura, da linguagem e, é claro, de sua própria dimensão desejante, portadores e assujeitados também a um inconsciente.

Evidentemente que a crise tem trazido para a maioria grandes sofrimentos, em função das perdas não só econômicas mas de seus desdobramentos mais amplos: a insegurança social, o abandono da esperança de um futuro melhor, a descrença nas instituições. Mas a forma como cada um vai reagir a isso é estritamente singular, única, particular, dependendo de como está estruturado internamente, de como elaborou sua castração. Frente as angústias que a realidade da crise econômica pode despertar, as pessoas poderão reagir melancolicamente, acreditando serem elas um castigo superegoico, de há muito desejado e temido; poderão reagir paranoicamente, atribuindo-as a maquinações de poderosos inimigos; poderão senti-las como um desafio edipiano a ser enfrentado denodadamente; poderão percebê-las como apenas mais um percalço no acidentado caminho da vida.

3 comentários 31 de Julho de 2007 às 19:06 Sérgio Telles

Sérgio Telles na “Folha de São Paulo”

São Paulo, terça-feira, 24 de outubro de 2006

Petistas usaram eleições para “elaborar” luto do partido, diz psicanalista
FLÁVIA MARREIRO
DA REPORTAGEM LOCAL

Para o psicanalista Sergio Telles, o candidato tucano à Presidência, Geraldo Alckmin, fez o petista Luiz Inácio Lula da Silva respirar aliviado no final do primeiro bloco do debate da TV Record.
“Pensei que ele [Alckmin], eventualmente, pudesse voltar à carga inquisitória como na Bandeirantes. Quando ele falou de dois escândalos, pensei que um deles fosse o caso que envolve o filho de Lula. E não foi. Isso marcou o tom de todo o resto do debate: mais morno.”
A Folha acompanhou o duelo dos candidatos na casa do analista. “Alckmin não fez isso por bondade. Foi por estratégia, em virtude da avaliação que deve ter tido. No primeiro [debate], Lula, acuado, tornou-se vítima. A população se identificou com o mais frágil.”
Para Telles, “as pessoas esperam ouvir a verdade [em debates], mas é uma ingenuidade”. O importante, diz, é que os eleitores saiam do “papel infantil”. “Os políticos falam o que querem. É como se eles fossem os pais e tivessem falando de um assunto que eu, criança, não entendo. Uma discussão na qual não posso intervir. Assim o eleitor não pode cobrar coerência.”
Segundo o psicanalista, essa é a eleição em que os petistas “estão elaborando o luto”. “A militância está tendo de elaborar um luto muito grande, toda a fantasia que tinha de um partido ideal. Eles caíram na real”.
O processo, afirma o analista, foi em etapas: “Vi isso até em amigos meus. Primeiro, era a negação total. Agora, chega a hora de justificar o que aconteceu”.

Adicionar comentário 24 de Outubro de 2006 às 10:55 Sérgio Telles

Preconceito contra Nordestinos

Sérgio Telles
psicanalista e escritor

Haveria um toque de ridículo na forma como se noticia o crescimento do preconceito contra os nordestinos. É como se, vendo o preocupante ressurgimento, na Europa e no Oriente Médio, do nacionalismo xenófobo, do fundamentalismo re­ligioso, das intolerâncias frente às diferenças culturais, rapidamente se providenciasse similares nacionais, tratan­do-se o problema como se fosse mais um modismo a ser importado, dentro da costumeira atitude de copiar sub­serviente e indiscriminadamente modelos do Primeiro Mundo, numa postura típica de colonizado, sintoma de ­subdesenvolvimento e alienação, decorrente da compreensível nostalgia causada pela nossa posição subalterna, sempre a reboque dos grandes acontecimentos internacionais, nós aqui deste longínquo e pitoresco arraial, o Brasil.

Isso não quer dizer que não haja preconceito contra os nordestinos. Ele existe, é um fato absolutamente indiscutível, não é recente e tem-se intensificado nos últimos tempos, provavelmente em função da crise econômica. O fato de somente agora ser noticiado é que mostra nossa alienação, nossa falta de identidade, pois é preciso que algo semelhante ocorra no Primeiro Mundo, para ser então aqui reconhecido.

A própria maneira de denunciar o preconceito – atribuí-lo a “nazistas” caboclos que picham instituições nordestinas, para usar um fato emblemático – é falsa não só pela clara importação de modelos europeus, mas também por tentar centrá-los nestes grupos marginais e excêntricos, sem reconhecer que o preconceito é muito mais arraigado e disseminado, presente mesmo nos extratos supostamente mais bem pensantes da sociedade. Antes de tudo, não podemos negar que a grande maioria dos nordestinos que migram para São Paulo e demais cidades e regiões do Sul do País é constituída por pessoas que viviam na mais absoluta miséria em seus lugares de origem, e que migram não por opção voluntária, mas para fugir de uma realidade insuportável. Literalmente fogem da morte. São pobres pessoas ignorantes, analfabetas, sem conhecimentos básicos de qualquer espécie, com graves e crônicas carências alimentares que se refletem diretamente em sua compleição física, desaparelhadas para enfrentar uma metrópole.

Claro que inevitavelmente vão ocupar os trabalhos mais braçais e humildes, engrossar os cortiços e favelas, sofrer um longo e terrível período de aclimatação e adap­tação cultural e social que muitas vezes levam ao esfacela­mento do núc1eo familiar, à perda de identidade, com todas as implicações daí decorrentes.

De tudo isso concluir que o nordestino - como mui­tos pensam e dizem cada vez mais freqüentemente - é um povo sujo, escuro e feio, baixinho e preguiçoso, em última instância, um povo inferior é erro grosseiro e que só demonstra a ignorância ­dos que assim.

­São pessoas que não conseguem ver que este drama que se repete há muito tempo, esta cruel, terrível e involuntária migração interna se deve exclusivamente a fatores sócio-econômicos e políticos, principalmente decorrentes da falta de consciência de uma elite corrupta que não tem a menor visão da coisa pública, que encara o poder unicamente coma meio de enriquecer o mais rápido possível e que se nutre. no caso do Nordeste, como já foi denunciado inúmeras vezes, da indústria da seca. Uma elite política que, com as exceções de praxe, luta para manter uma estrutura arcáica, patriarcal, oligárquica, esmagando um povo que se estiola, totalmente alienado de seus direitos e de sua cidadania, imerso e aprisionado que está em escan­dalosa escuridão feudal em pleno final do século XX.

A situação, vista no próprio Nordeste, como era de se esperar, muda de figura. 0 que existe ali é uma negação da efetiva gravidade do problema, uma reação de orgulho ferido cada vez que se menciona o fato de ser ele uma das regiões mais miseráveis do mundo, palco de desigualdades absolutamente surrealistas, a convivência do esplendor de grandes riquezas com a miséria mais degradante. Com­preendo que seja uma ferida narcísica, difícil de aceitar, mas este reconhecimento é o primeiro passo para uma efetiva mudança neste quadro.

Como nordestino radicado há mais de vinte anos em São Paulo e que vai periodicamente para o Nordeste, sinto-me autorizado para dizer tudo isto.

Como analista, entendo os preconceitos como evidência de mecanismos psíquicos grupais. Caracterizam-se pela eleição, feita por um grupo, de um inimigo comum, no qual é depositado projetivamente todo o mal e imperfeição do próprio grupo. O grupo, assim purificado, passa então a perseguir o inimigo comum, o bode expiatório, que - exatamente por ser o representante de todo o mal e imperfeição do próprio grupo - tem que ser eliminado, simbolicamente ou de fato. Os preconceitos habitualmente ficam exacerbados em situações de crises econômicas e so­ciais, quando a luta pela sobrevivência no mercado de traba­lho se agudiza e se procura eliminar rivais e concorrentes. Ou seja, na enorme crise econômica e social que vivemos, não é surpreendente que nordestinos, judeus e outros gru­pos, sobre os quais é lançado todo o mal e toda imperfei­ção, passem a ser hostilizados.

Se nada disso nos surpreende, estes fatos continuam nos indignando e merecendo nosso repúdio e contra eles combatemos severamente. Ainda mais quando vemos, justa­mente ao contrário do que a visão preconceituosa tenta impor, nordestinos que enfrentando dificuldades enormes, gigantescas, conseguem não só sobreviver mas reorganizar totalmente suas vidas e de suas famílias, numa clara de­monstração de força e valor que precisam ser reconhecidos e valorizados.

A saga dos nordestinos já foi descrita na literatura e no cinema. Dom Pedro II, numa fala grandiloqüente, dizia que venderia até a última pedra de sua coroa para que nenhum nordestino morresse de fome. Ainda hoje ouvi­mos arroubos retóricos que tais, mas o fato é que os nordestinos continuam morrendo de fome, fugindo para plagas que supõem mais amenas, onde pelo menos a sobrevivência imediata não está ameaçada. Não esqueçamos que não só os nordestinos morrem de fome nem que não só seus políticos são corruptos e inconscientes do papel que deveriam exercer no mando da coisa publica.

O Nordeste é o espelho onde o Brasil recusa ver a própria face.

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(*) Esse artigo foi publicado no “Caderno de Sábado” do “jornal da tarde” (São Paulo), no início dos anos 90. Apesar de reconhecer que algumas mudanças pontuais ocorreram desde então, penso que as estruturas básicas continuam inalteradas. A concentração de riquezas só tem se agravado, aprofundando o fosso entre ricos e pobres, o que mantém a atualidade do texto..

Publicado em Psychiatry on Line - Outubro de 2006 - Vol.11 - Nº 10 - http://www.polbr.med.br/ano06/psi1006.php

79 comentários às 10:40 Sérgio Telles

Sérgio Telles no Centro Universitário Maria Antonia

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maria antonia - maria antonia

Adicionar comentário 27 de Setembro de 2006 às 15:02 Sérgio Telles

COMO NÃO DESESPERAR

A recente “Operação Abafa”, que custou ao governo - ou seja, a nós contribuintes - a módica quantia de 400 mil reais, sofreu uma brusca inflexão, transformando-se numa operação contrária, decorrente das acusações do deputado Roberto Jefferson. Com seus dotes de tenor, o parlamentar ajudou a dar a esse episódio os merecidos toques de uma opera bufa.

Mas, ao contrário do divertimento proporcionado pela ópera, o ridículo, a desarticulação, o atabalhoamento, a impressão de completo despreparo, a evidente incompetência dos atores de mais uma das atrapalhadas cenas do PT provocam efeitos bem funestos para nossa auto-estima nacional e nossas esperanças de um futuro melhor.

Penso que é importante refletir sobre o luto que a sociedade brasileira atravessa decorrente da perda das expectativas colocadas no PT. Parece-me que mesmo aqueles que não faziam parte das hostes petistas esperavam alguma mudança com a chegada do PT ao poder.

Afinal, sua atuação política, sempre preocupada com a ética, o colocava como o grande guardião da moralidade pública.

A falência da idealização do PT provoca um brutal encontro com a realidade da política possível de ser realizada no atual estágio de nossa democracia. Se em curto prazo a visão da realpolitik que o PT pratica nos decepciona, a médio e longo prazo ela será benéfica. Como psicanalistas, sabemos que nenhuma idealização acaba bem. Toda vez que ela se desfaz, instala-se um sentimento de perda, mas torna-se possível um contato maior com a realidade. Por mais dolorosa que ela seja, é sempre melhor reconhecer e enfrentar a realidade, pois somente assim podemos ter uma ação efetiva sobre ela.

A decepção provocada pelas práticas do PT nos faz ver que – por comodismo ou omissão - o tínhamos colocado como os exclusivos detentores do zelo pela coisa pública, atribuição que nos eximia de ter de exercê-la também como cidadãos conscientes. Seu fracasso nessa posição devolve a todos nós aquilo que sempre foi nosso – o dever cívico da participação política.

Vivemos um momento histórico importante e peculiar. Se antes a corrupção ocorria acobertada pelo silêncio da imprensa, esta atualmente tem total liberdade de mostrar todos os meandros do poder e expõe com todas as letras as maracutaias, os golpes, as formas de lesar o erário público, etc.

Essa liberdade cria um efeito estranho, pois ao se expor claramente a corrupção, espera-se a conseqüência lógica: a punição dos culpados. Como sabemos, isso ainda não existe regularmente no Brasil. Para cada Juiz Nicolau que é punido, uma infinidade de outros equivalentes seus passam incólumes pelas malhas da lei.

Essa situação gera um stress, uma tensão social muito grande, mas - a meu ver - positiva. É muito melhor que a imprensa denuncie a corrupção, mesmo que não possamos ainda punir os culpados, desde que os mecanismos sociais necessários para tanto são ainda ineficazes, do que ter nostalgia da suposta honestidade dos tempos da ditadura, quando os mesmos desmandos ocorriam acobertados pela censura.

A liberdade de imprensa é um dos maiores bens da democracia. Se, no momento atual, ela causa um stress social ao deixar cada vez mais patente impunidade dos corruptos, esse stress pode ser a mola para mobilizar a sociedade, fazendo-a pressionar o estado visando mudanças necessárias, como as do sistema judiciário - esse poço escuro e ainda intocável.

Adicionar comentário 21 de Fevereiro de 2006 às 14:20 Sérgio Telles

AMOR SÓ DE MÃE

Recentemente uma mulher jogou sua filha recém-nascida na lagoa de Pampulha.

A ampla repercussão do fato parece dar uma medida de sua significação no imaginário coletivo.

Ao invés de mostrar o proverbial amor que supostamente todas as mães têm por seus filhos, esta mãe rejeita o seu, expondo-o a uma situação na qual sua vida correu sérios riscos.

Esse seu gesto abala arraigadas convicções compartilhadas por todos no que diz respeito às relações familiares, especialmente as relação mãe-filho/a.

Habitualmente essas relações são muito idealizadas, descritas de forma irrealística, como se fossem a expressão pura de um grande e inesgotável amor. A força dessa crença é notável e resiste a qualquer evidência em contrário, coisa que facilmente se constata quando se observam as relações familiares com um cuidado mais detalhado. Quantas queixas contra os pais por parte dos filhos, quantas queixas dos filhos por parte dos pais!

A rigidez com que se apresenta a crença no amor materno e na devoção filial, a dificuldade de tolerar que tais sentimentos não sejam universais e inquestionáveis, parece revelar uma formação reativa, uma fachada que oculta uma realidade psíquica reprimida bem diferente – aquela dos afetos conflitivos e ambivalentes que envolvem as relações primárias próprias de todo ser humano.

Não sendo psicóticos, todos nos constituímos passando pelos desfiladeiros agônicos da ruptura da relação fusional com a mãe e os constrangimentos inevitáveis do Édipo. Ao longo desse trajeto, abrimos mão do desejo de exclusividade do amor materno e aceitamos, a duras penas, que o amor da mãe seja compartilhado com o pai e com os demais irmãos, além de eventuais outros interesses que ela possa ter. Assim, constatamos que a mãe necessariamente nos causou uma grande decepção, ela não correspondeu a nossa expectativa amorosa, ela nos “traiu”.

É verdade que, no decorrer do tempo, constatamos que essa “traição” era necessária e constitutiva. Somente assim abre-se o caminho para o mundo das relações com o outro, com o mundo, com a realidade. Mas é duro reconhecer essa perda prototípica, essa perda que será o modelo de todas as demais perdas que teremos de suportar pela vida afora. O grau de ressentimento e ódio que ela desperta não é pequeno, e deve ser contrabalançado pelo amor que, apesar de tudo, persistiu.

Se descrevemos acima a situação vista pelo ângulo do filho, ao mudarmos de posição e observarmos pelo lado da mãe, vemos que a situação não é mais fácil. O filho vem reavivar na mãe seus antigos conflitos edipianos, nos quais joga importante papel a fantasia de ter um filho como substituto do desejado pênis, assim como aquela de ter um filho do pai, a quem se ligou intensamente após a grande decepção sofrida com a mãe, que a fez “castrada”. Além do mais, ter um filho a faz ocupar o lugar de mãe, o que reativa toda a conflitiva que vivenciou anteriormente com a própria mãe, com a qual se sentirá identificada ou não.

A ruptura da relação com a mãe é constitutiva, pois engendra um vazio que nos organiza como sujeitos desejantes. Mas pode ser vivida imaginariamente como um primeiro e definitivo abandono, o que não afasta a possibilidade de efetivos abandonos realizados na realidade por uma mãe impossibilitada de exercer adequadamente a função materna. Essa impossibilidade pode chegar ao extremo de fazê-la vivenciar a maternidade dentro de referenciais infantis e regressivos, em função dos quais o filho é vivido como um produto incestuoso, prova viva de um crime insuportável e que precisa, conseqüentemente, ser eliminado.

Toda essa momentosa, complexa e delicada trama de fantasias, desejos, amores, ódios, vinganças e culpas fica sepultada, esquecida e substituída por uma “versão oficial” – as mães amam os filhos e, em contrapartida, os filhos igualmente amam as mães.

Essa negação radical parece pateticamente expressa no costume daqueles que se fazem tatuar com a frase “amor só de mãe”.

Ao fazerem tal afirmativa, declaram que o amor de todas as mulheres é falso e enganador, todas elas são infiéis e traidoras. Apenas a mãe foge a essa regra. Ela não trairia jamais, ela merece toda a confiança, somente dela o amor vale a pena.

Não seria o oposto? Por terem vivido de forma traumática e violenta a ruptura da relação com a mãe ou por terem sofrido efetivos abandonos por parte dela, não podem mais confiar em mulher alguma. Todas elas são traidoras e infiéis, como a mãe o foi.

Ao se fazerem tatuar, ou seja, ao gravarem de forma indelével na própria pele essa declaração, estariam negando o irreversível trauma vivido com suas mães. Tentariam assim fazer calar as evidências internas que permanentemente a questionariam ou a negariam.

É como se dissessem “Preciso tatuar isso em mim, para me convencer que é verdade; para negar a terrível percepção do abandono que sofri e o ódio dele decorrente. Preciso tatuar minha mãe em mim, como forma de tentar fazer aquilo que nunca consegui: mantê-la sempre perto de mim, grudada em minha pele, me dando forma e conteúdo, ela que tão pouco ficou comigo”.

Publicado originalmente em Psychiatry on line – Brazil, Fevereiro de 2006 - Vol.11 - Nº 2, Psicanálise em debate [link]

3 comentários 13 de Fevereiro de 2006 às 13:49 Sérgio Telles

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