Arquivo de Julho de 2009
Das escolhas do inconsciente
O que Freud tem a dizer sobre a democracia e as duas categorias de homens: os líderes e os liderados
Sérgio Telles*
- A inesgotável sucessão de escândalos políticos nos faz pensar que muitos de nossos homens públicos se vêem como grãos-senhores que se dão ao direito de saquear o tesouro nacional para constituir fortunas pessoais e sustentar familiares, serviçais, apaniguados e agregados. Quando confrontados com seus desmandos, abusos e crimes, ficam mortalmente ofendidos e posam de injustiçados.
É que o conceito de accountability, de importância fundamental nas democracias mais avançadas, parece não existir por aqui. Todo político do Primeiro Mundo sabe que deverá prestar contas, a seus eleitores, do poder que lhe foi por eles delegado. É isso a accountability.
Um bom exemplo desse estado de coisas nos deu Sarney recentemente. No epicentro dos escândalos do Senado, ao se defender das acusações que sobre ele incidem, Sarney afirmou que sua “biografia” é sua salvaguarda. Mas não é justamente sua biografia o que o condena? Se pensarmos em termos de accountability, que prestação de contas poderia ele apresentar a seus eleitores, se a realidade expõe a todos os péssimos índices de desenvolvimento do Estado no qual por quase quatro décadas tem exercido um anacrônico poder senhorial?
Frente a isso, somos levados a pensar que, numa democracia como a nossa, é baixo o nível dos políticos e uma grande maioria do eleitorado é despreparada, ignora seus direitos e se posta frente ao político de forma subserviente, implorando favores, avalizando a imagem de grão-senhor que os políticos se dão.
Poder-se-ia pensar que o problema da escolha de maus políticos é decorrência do subdesenvolvimento característico de nossas plagas e que uma melhor escolaridade muito faria por nosso processo eleitoral.
Isso é parcialmente verdadeiro, pois logo lembramos que eleitores com boa escolaridade e nível de informação política, como os do Primeiro Mundo, também fazem péssimas escolhas, elegendo políticos desqualificados e de reputação duvidosa. As reeleições de Bush e Berlusconi são exemplos recentes.
Assim constatamos que se a educação e a informação são necessárias para que os eleitores possam fazer boas escolhas políticas, isso não é o suficiente. A escolha do eleitor é permeada por uma forte irracionalidade que perturba a desejada objetividade. Embora isso possa nos surpreender, não deveria, pois é o que ocorre com todo e qualquer ato humano.
É aí onde a psicanálise pode dizer algo.
Para a compreensão dos motivos irracionais - ou seja, inconscientes - na escolha dos eleitores, é fundamental a leitura de Psicologia de Grupo e Análise do Ego, de Freud. Ali ele diz que o líder, pessoalmente identificado com uma forte figura paterna, ocupa efetivamente o lugar de pai na fantasia grupal, e o próprio grupo se vê como um bando de irmãos a ser comandado por esse pai poderoso de quem demanda amor e proteção. Os membros do grupo colocam o líder como um ideal do ego compartilhado por todos, condição que os une numa forte identificação entre si.
Essa configuração psíquica é tão generalizada que Freud a usa para estabelecer que os homens se dividem em duas categorias: a dos líderes, francamente minoritária, e a dos liderados, amplamente majoritária.
Freud faz tal afirmação numa correspondência trocada com Einstein em 1932, patrocinada pela Liga das Nações (atual ONU), que convidava cidadãos notáveis para refletirem sobre problemas de interesse geral. No caso específico, o tema era a guerra. Freud especula sobre o que determina a intensidade da destrutividade de um indivíduo e de como isso se refletiria numa postura pacifista ou belicista.
Ao propor as duas categorias de homens, líderes e liderados, posições determinadas por estruturas psíquicas inconscientes, Freud parece dizer que, independentemente do regime político, a grande maioria dos homens deseja ser comandada, ficando numa posição de dependência reveladora da persistência de desejos infantis por um pai forte e poderoso, a quem se sacrifica a independência e a autonomia em troca da proteção. Essa estrutura fantasmática sustenta e alimenta também a importância social da religião.
O reconhecimento da dimensão inconsciente do psiquismo faz com que a escolha democrática fique bastante problematizada. Por um lado, pelo infantilismo regressivo que alimenta o desejo de ser comandado por um pai forte e onipotente. Por outro, pela loucura “adulta” da ideologia, cujo exemplo mais cabal - como bem apontou Marx em A Ideologia Alemã - é a religião, alimentando idealizações e negações quase delirantes frente à realidade.
A tudo isso ainda se deve acrescentar o discurso político, que visa essencialmente à conquista e manutenção do poder, para tanto manipulando pessoas e fatos.
O diálogo entre Freud e Einstein estava centrado em como a pulsão de morte determinaria uma maior destrutividade nos lideres, fazendo-os assumir uma atitude belicista. Embora a guerra permaneça no panorama mundial, ela não tem a amplitude e urgência daquele momento. Em nossos tempos de “paz”, a destrutividade (pulsão de morte) de muitos líderes assume uma feição menos bélica, mais “civil” e se expressa como corrupção.
A voracidade com que os políticos organizam negociatas e se apoderam do bem público em detrimento da coletividade é uma manifestação predatória e fanática do poder. É expressão de um narcisismo maligno que desrespeita a coletividade e coloca multidões na miséria e no desamparo.
Políticos corruptos, eleitores despreparados, discursos mentirosos que visam exclusivamente o poder, interferência de aspectos regressivos infantis na escolha de homens públicos, a alienação das ideologias - mesmo assim, com tudo isso, não podemos desanimar com a democracia.
Ela é uma conquista e deve ser defendida a qualquer preço. A melhor forma de defendê-la é não idealizá-la, é reconhecer suas falhas e dificuldades e nos empenhar para superá-las.
Devemos lutar para que os eleitores se apropriem de seus direitos civis, possam eleger políticos honestos e capazes e que saibam reconhecer a diferença entre a escolha objetiva de um representante político e a fantasia de reencontrar a proteção perdida de um pai onipotente.
Talvez seja necessário reafirmar tudo isso, pois não poucas vezes tenho ouvido pessoas se declararem completamente desiludidas com nossa realidade política e, como forma de protesto, planejarem a anulação de seus votos nas próximas eleições.
*Publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em 05/07/09
20 de Julho de 2009 às 17:58
Sérgio Telles
Michael Jackson – um pequeno tributo
Sérgio Telles
No final dos anos 80, circularam fortes rumores que Michael Jackson pretendia comprar o esqueleto do Homem Elefante, que estava então sob a guarda do Royal London Hospital. Numa famosa entrevista a Oprah Winfrey algum tempo depois, Michael Jackson desmentiu tal compra, apesar de afirmar que se identificara muito com o Homem Elefante ao tomar conhecimento sua história, pois percebera como havia muito de comum em suas vidas.
É uma confissão muito reveladora e que torna irrelevante saber se ele teria ou não comprado o esqueleto do Homem Elefante.
O Homem Elefante viveu na Inglaterra vitoriana e ficou famoso por sua aparência grotescamente deformada por uma doença congênita – a neurofibromatose. Para não assustar as pessoas nas ruas ou suscitar reações agressivas, ele habitualmente usava um capuz que tapava completamente seu rosto. David Lynch fez um belo filme sobre a vida trágica do Homem Elefante, que atrás de sua aparência monstruosa, tinha marcantes inteligência e sensibilidade.
Em que Michael Jackson poderia se identificar com este pobre homem? Seja qual for o motivo, tal identificação deixa transparecer uma grande infelicidade, uma não conformação consigo mesmo que poderia ter uma expressão mais ampla, mas que seguramente se ancorava na aceitação de sua própria realidade física, corporal.
Como sabemos, uma das coisas mais estranhas na inusitada vida de Michael Jackson foi justamente sua relação com o próprio corpo, que submeteu a inúmeras intervenções cirúrgicas a ponto de deixá-lo irreconhecível. No trato de sua própria realidade física, MJ expôs a luta por encontrar uma impossível identidade, ele que se auto-proclamava um Peter Pan, o menino que não queria crescer.
Assim, de certa forma, sua antiga identificação com o Homem Elefante terminou por se concretizar. Ao provocar tantas alterações em seu próprio corpo, transformou-se, ele mesmo, numa figura assustadora, inquietante, quase desumana.
A vida de Michael Jackson, paradigmática dos tempos midiáticos a confundirem o público e o privado, mostra também como o psiquismo humano pode ficar cindido, permitindo a coexistência de aspectos muito regressivos e patológicos com facetas extraordinariamente talentosas e criativas.
E é por estas ultimas que Michael Jackson será lembrado. Sua morte provocou um grande impacto e foi tocante ver as manifestações espontâneas de multidões nos mais variados lugares do mundo, cantando e dançando suas músicas, numa comovida homenagem de despedida.
7 de Julho de 2009 às 09:48
Sérgio Telles
A literatura como o Döppelganger da psicanálise - a relação de Freud com Schnitzler
Sérgio Telles
Freud tinha sua grande admiração pelos escritores. Dizia que enquanto trabalhava duro para descobrir os mecanismos inconscientes nos sintomas, queixas e comportamentos de seus pacientes, os escritores deles tinham um conhecimento intuitivo, o que lhes possibilitava - na construção de suas obras literárias - dar a seus personagens uma complexa constituição psíquica, compatível com seus atos e comportamentos.
Em “Delírios e Sonhos na Gradiva de Jensen” (1907), Freud explicita muitas de suas observações sobre a criatividade literária e a intimidade do escritor com o inconsciente. Ali afirma que o “campo mais legítimo” da atuação de um escritor é a “descrição da mente humana”, coisa que tem feito desde tempos imemoriais. É por essa via que constata a proximidade de seu trabalho com o do escritor. Mas reconhece que se ambos trabalham com o mesmo objeto, seus métodos são bem diferentes. Enquanto o psicanalista observa os processos mentais de outras pessoas para ali pesquisar as leis que os regem, o escritor se volta para sua própria mente, perscrutando-a em suas sutilezas e oscilações, dando-lhes uma clara expressão em suas obras, ao invés de reprimi-los ou censurá-los.
Hoje em dia diríamos que, tal como o escritor descrito por Freud, o psicanalista também vasculha sua própria mente para poder entender o que se passa no psiquismo da pessoa por ele analisada. A diferença fundamental entre o psicanalista e o escritor está no fato de que o psicanalista se preocuparia em apreender as regras do funcionamento mental, seu e de seu paciente, visando com isso obter resultados terapêuticos, enquanto o escritor – seguindo ou rompendo os cânones estéticos de sua época - integra aquilo que sua percepção lhe fornece em termos do funcionamento psíquico na construção de seus personagens, na organização da estrutura de sua obra. Posteriormente, ao ler esta obra, o psicanalista se surpreende com a acuidade com a qual o escritor apreendeu as secretas regras do funcionamento psíquico inconsciente.
A proximidade da literatura com a psicanálise já se impusera a Freud ao escrever seus primeiros casos clínicos em “Estudos sobre a Histeria”(1895). Para provar que os sintomas tinham um significado oculto somente desvendado através da análise, Freud se viu obrigado a fazer longos relatos sobre o passado e o presente de suas pacientes, o que os deixava semelhantes a textos literários, algo muito diferente dos registros de casos médicos aos que estava acostumado. Tal semelhança o incomodava, pois temia que ela o desacreditasse nos meios científicos, nos quais ansiava por introduzir o novo campo de saber que desbravava.
Se, no inicio, Freud procurava encontrar nas obras literárias confirmações sobre suas descobertas do inconsciente, logo depois procurou conhecer as lembranças e experiências pessoais do autor e os processos internos conscientes e inconscientes por ele utilizados que faziam com que elas se transformassem numa obra de arte.
Em “Escritores Criativos e Devaneios” (1908), Freud mostra como o escritor entra em contato com suas próprias fantasias inconscientes e as usa como matéria prima para sua obra. Desta maneira, através da linguagem escrita, lhes dá uma representação simbólica, possibilitando que outras pessoas, os leitores, com elas se identifiquem. Assim, o escritor age ao contrário do neurótico, cujas fantasias e desejos produzem sintomas incompreensíveis para o próprio sujeito, sendo necessário um trabalho analítico para desvendar seu significado.
Essa admiração ampla e generalizada que Freud tinha para com a literatura e os escritores toma uma conotação muito concreta e, de certa forma, assustadora, na figura de Arthur Schnitzler. Ambos tinham muito em comum. Viviam na Viena no final do império dos Habsburg, um período muito especial. Eram judeus de classe média, embora Schnizler fosse filho de um médico de grande sucesso e Freud, de um modesto comerciante de lã. Ambos estudaram medicina com os mesmos mestres, ambos se interessaram pelas incipientes investigações sobre o psiquismo possibilitadas pelo uso médico da hipnose. Mas Schnizler, que logo abandonou a medicina e dedicou-se inteiramente à literatura, foi sempre um bon vivant, aproveitando ao máximo os privilégios de sua classe social e de seu sexo, tendo uma vida sexual intensa e comentada, ao contrário do monógamo e discreto Freud. E ambos provocaram escândalo na moral e nos costumes da sociedade a que pertenciam.
“Na sociedade habsburguesa como um todo, artificialidade e fingimento eram nesse momento mais a regra do que a exceção, e em todos os aspectos da vida o que importava eram as aparências e os adornos apropriados. Ninguém percebeu isso melhor, ou o retratou melhor em sua obra do que Arthur Schnitzler”, dizem Janik & Toulmin. De fato, Schnitzler, produziu uma literatura que desmascarava duramente a hipocrisia social e expunha a importância fundamental do sexo.
Freud, por sua vez, causava espanto com suas teorias revolucionárias sobre a descoberta do Inconsciente e sobre a importância da sexualidade. No inicio, com a “teoria da sedução”, provocava forte abalo na figura respeitável do pater familias burguês, ao atribuir a causa da histeria a reminiscências de uma experiência traumática sexual sofrida na infância e perpetrada por um adulto da família, habitualmente o pai. Depois, ao abandonar esta teoria e pôr em evidência as características de uma sexualidade infantil, com isso desfazendo uma crença até então inabalada, a da inocência das crianças.
Freud sentia-se tão próximo de Schnitzler a ponto de lhe confessar que o considerava como seu Döppelganger, seu Duplo, seu Outro. Por este motivo, apesar de muito o admirar, temia uma aproximação maior, preferia manter uma distância.
A crença no Döppelganger, (o Outro ou o Duplo) está presente em muitas culturas e foi explorada em várias obras literárias, como “O Elixir do Diabo” de Hoffman, “O Outro” de Dostoievski, “Willliam Wilson” de Poe e “Horlá” de Maupassant. O Döppelganger é o ente misterioso que, como uma sombra, estaria ligado inextricavelmente a cada ser humano e em tudo se lhe assemelha, mas que, ao contrário da sombra, permanece-lhe habitualmente oculto e desconhecido. Seu inesperado aparecimento é sempre um evento traumático, causando espanto e desconcerto no sujeito que o vê, pois, ao mesmo tempo nele se reconhece, nele também percebe uma radical estranheza. O assustador encontro com o Duplo é tido como um anúncio da Morte, um sinal de que a vida está prestes a se apagar.
Freud coloca a figura do Döppelganger como um bom exemplo de Unheimich, o estranho familiar, a extraordinária mescla de familiaridade e radical estranheza – sentimento característico que acompanha qualquer surgimento de um conteúdo inconsciente, que, driblando a repressão, chega à consciência de forma sempre inopinada e inoportuna.
A estranheza causada pelo aparecimento de conteúdos inconscientes reprimidos é tal que o sujeito se sente como que habitado por um “Outro” desconhecido sobre o qual tudo ignora e que lhe foge do controle. É um assustador encontro com o Duplo. .
Diz Freud:
“O tema do ‘duplo’ foi abordado de forma muito completa por Otto Rank. Ele penetrou nas ligações que o ‘duplo’ tem com reflexos em espelhos, com sombras, com os espíritos guardiões, com a cren¬ça na alma e com o medo da morte; mas lança também um raio de luz sobre a surpreendente evolução da idéia. Originalmente, o ‘duplo’ era uma segurança contra a destruição do eu, uma ‘enérgica negação do poder da mor¬te’, como afirma Rank; e, provavelmente, a alma ‘imortal’ foi o primeiro ‘duplo’ do corpo… Tais idéias, no entanto, brotaram no solo do amor próprio ilimitado, do narcisismo primário que domina a mente da criança e do homem primitivo. Entretanto, quando essa etapa está superada, o ‘du¬plo’ inverte seu aspecto. Depois de haver sido uma garantia de imortalidade, transforma-se em estranho anunciador da morte. A idéia do ‘duplo’ não desaparece necessariamente ao passar o narcisismo primário, pois po¬de receber novo significado nos estádios posteriores do desenvolvimento do ego. Forma-se ali, lentamente, uma atividade especial, que consegue resistir ao resto do ego, que tem a função de observar e de criticar o eu e de exercer uma censura dentro da mente, e da qual tomamos conheci¬mento como nossa ‘consciência’”.
Ou seja, quando Freud diz que Schnitzler era seu Döppelganger, seu Duplo, podemos entender sua afirmação como a declaração do susto que lhe causava a percepção da excessiva proximidade existente entre eles. Esse susto não era novo. Como vimos acima, ao escrever seus primeiros casos, Freud se incomodava ao constatar a semelhança que havia entre eles e as produções literárias, pois isso poderia privá-los da “seriedade” própria da ciência que neles gostaria de imprimir.
Se Freud se preocupava com a semelhança entre seus casos clínicos e contos literários, desde então há uma grande produção ficcional que muito se assemelha a descrição de casos da clínica psicanalítica, a começar com os textos do próprio Schnitzler e os de Stefan Zweig.
Isso abre uma interessante questão que apenas citarei, pois foge ao nosso tema central. Freud falava do conhecimento intuitivo sobre o inconsciente que todo escritor demonstra ao produzir sua obra. Com a extraordinária divulgação do saber psicanalítico, muitos escritores passaram a ter também um conhecimento teórico sobre o inconsciente e sobre a prática psicanalítica, na medida em que muitos se submeteram a uma psicanálise. Este conhecimento seguramente teria fornecido elementos formais e conteudístico aos escritores, que logo os incorporaram em suas obras. Em sendo assim, não seria possível falar numa literatura especificamente pós-freudiana, pós-psicanalítica? O Ulisses de Joyce, não seria uma longa associação livre, tanto quanto o Complexo de Portnoy, de Philip Roth? A obra de Roth está impregnada pela psicanálise e sua novela “The Breast” não pareceria ser uma ficcionalização direta dos conceitos de Melanie Klein? E o que dizer da influência que a psicanálise realizada com Bion teve sobre o estilo e a temática de Beckett?
Voltando a Freud e Schnitzler, podemos dizer que a posteridade tratou de forma diferente estes dois homens que estiveram tão próximos durante a vida. Se a obra de Freud, apesar de permanentemente atacada por diferentes razões, atingiu uma reconhecimento universal, ampliando-se e se ramificando na produção de seus discípulos e seguidores, o mesmo não se pode dizer de Schnitzler. Apesar de traduzida em vários países e ter originado vários filmes, como La Ronde (Max Ophuls, 1950) e Eyes Wide Shut (Stanley Kubrick, 1999), sua obra persiste basicamente na língua alemã e o próprio Schnitzler muitas vezes aparece como um personagem característico do grande cenário vienense montado no desmoronar do império austro-húngaro, da grande débâcle do mundo burguês que culminou com a Primeira Grande Guerra.
De qualquer maneira, a curiosa relação estabelecida entre Freud e Schnitzler aponta para aquilo que a psicanálise e a literatura efetivamente têm em comum: a importância central que a linguagem ocupa em seus campos e a “descrição da mente humana”, na qual tem grande relevo a dimensão do inconsciente. A Literatura e a Psicanálise representam e simbolizam, criam sentidos e significados onde antes reinava o inarticulado, o silêncio, a falta.
Assim, talvez pudéssemos ampliar a afirmação de Freud.
Se ele reconhecia Schnitzler como seu Döppelganger, não poderíamos dizer que a Literatura é o Döppelganger da Psicanálise? Ou, respeitando a precedência cronológica, que a Psicanálise é o Döppelganger da Literatura?
às 09:45
Sérgio Telles