PECADOS INOCENTES (”Savage Grace” - 2007) de Tom Kalin
8 de Março de 2009 às 14:10 Sérgio Telles | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 1851
“PECADOS INOCENTES” (“SAVAGE GRACE” - 2007) de Tom Kalin
Sérgio Telles
Baseado no livro homônimo de Natalie Robins e Steven L. M. Aronson, roteirizado por Howard A. Rodman, o filme “Pecados Inocentes” (“Savage Grace”), de Tom Kalin (2007), conta a história real dos herdeiros Baekeland.
Leo Baekeland foi o químico belga que, após imigrar para os Estados Unidos, inventou o papel fotográfico e a baquelita, o primeiro dos plásticos. Ambas as invenções o deixaram multimilionário.
Seu neto Brooks Baekeland se casa com a instável beldade Barbara Daly, proveniente de uma família de parcos recursos materiais e emocionais. O pai de Barbara se suicidara e sua mãe – que a instruíra para casar / caçar um homem rico - também era sujeita a episódios psiquiátricos. Brooks trata Barbara de forma superior e condescendente, quando não a humilha e desqualifica abertamente, o que nela provoca vinganças violentas e escandalosas. É deste casal que nasce Anthony, o filho único.
Usufruindo da herança do avô de Brooks, o casal vive nos Estados Unidos e faz longas temporadas no Velho Continente, freqüentando a alta sociedade norte-americana e a aristocracia européia.
Brooks não pára de idealizar o avô, ao mesmo tempo em que denigre o pai, a quem se refere como o “crápula”, que teria passado a vida esbanjando a herança. Bárbara tenta vencer sua insegurança social, em meio a explosivas descargas emocionais que afastam os amigos. Brooks e Bárbara estão empenhados numa guerra ininterrupta e o filho Antony ora é abandonado por ambos, ora recebe uma atenção excessiva por parte de Bárbara, que o faz cúmplice de suas escaramuças contra o marido.
A conduta excêntrica dos pais logo se reflete no filho, que ostensivamente lhes exibe condutas homossexuais desde muito cedo. Na adolescência, tenta se aproximar de uma namorada, mas o pai a seduz e com ela foge, abandonando definitivamente mulher e filho.
Esta separação tem amplos efeitos sobre ambos. Bárbara tenta vencer a humilhação e a vergonha envolvendo-se com Sam, um bissexual que poderia ajudá-la numa improvável carreira como pintora. Sua relação com Sam possibilita um bizarro ménage a trois entre eles e o filho, fazendo com que os três compartilhem a mesma cama.
Antony, por sua vez, procura se aproximar do pai, mas o faz de forma canhestra e encontra pouca ou nenhuma receptividade por parte dele.
Após mostrar uma tolerância absoluta com todas as atitudes do filho, Bárbara passa a censurar-lhe as amizades homossexuais e a tentar fazer dele um “homem”. Como forma de voltar seu interesse sexual para as mulheres, resolve ter – ela mesma – relações sexuais com o filho, plano que leva a cabo.
É a gota d´água que desencadeia a loucura de Antony, que progredira lentamente no correr dos anos, levando-o a matá-la com uma faca de cozinha e depois se entregar aos policiais.
Nos créditos, tomamos ciência de que Tony ficou preso alguns anos e, ao ter sua pena suspensa, foi morar com a avó materna. Logo a esfaqueia várias vezes, mas ela escapa com vida. É então internado definitivamente num hospital psiquiátrico, onde se suicida tempos depois.
O filme mostra com clareza os efeitos da falta da lei paterna. O pai distante, ausente, é incapaz de cortar o vínculo narcísico entre mãe e filho. Na medida em que o pai não exerce sua função, fica escancarada a porta para a indiscriminação e a concretização do incesto sob várias formas. Ele mesmo, o pai, rouba a namorada do filho e deixa que o filho “roube” sua mulher. A mãe, por sua vez, ativamente proporciona a concretização do incesto, episódio final de numa seqüência de comportamentos promíscuos com o filho.
Previsivelmente, tal situação desencadeia a psicose em Antony.
O roteirista mostra uma sugestiva imagem para simbolizar o processo de desagregação psicótica de Antony.
Como foi dito, a partir de certo momento, Bárbara se dá conta da regressão e infantilidade do filho, de como ele está distante da autonomia adulta e, a partir de sua habitual onipotência, decide resolver esta situação, sem se aperceber de que, em grande parte, é por ela responsável.
Vivendo sempre numa situação caótica e nômade, acompanhando os pais em suas andanças e viagens, Antony guardava cuidadosamente desde a infância a coleira de um querido cão que morrera. Fica evidente que a coleira tinha fortes conotações simbólicas para Antony. Representaria o desejo de uma ligação firme e estável, um estar preso a algo (alguém) que lhe proporcionasse segurança e sentimento de pertencimento, de não estar sozinho, de fazer parte de algo maior. A coleira simbolizaria sua ânsia por se sentir querido e desejado como um sujeito e não como um apêndice narcísico do outro (mãe). Ao mesmo tempo, poderia significar submissão e aprisionamento ao desejo da mãe, o se sentir seu cãozinho, um objeto de brinquedo, não reconhecido em sua condição de sujeito. Por outro lado, uma coleira contém, retém, prende. Pode assim representar aquele núcleo de subjetividade que possibilita a própria coesão interna, aquilo que impede a desagregação.
Ignorando tudo isso e acreditando que ajudaria Antony a crescer, Bárbara esconde a coleira e pretende devolver-lhe a virilidade praticando o incesto.
São duas atuações catastróficas. Bárbara não vê que o infantilismo emocional de Antony em grande parte decorre de sua própria relação narcísica e incestuosa para com ele e que a concretização do incesto, ao invés de proporcionar-lhe a autonomia e a virilidade desejadas, as impossibilitariam de forma definitiva. Ao roubar-lhe a coleira, Bárbara retira de Antony qualquer apoio simbólico que ele pudesse mediar sua relação real com ela.
Ao matá-la, Antony tentar se separar, se desentranhar da fusão com a mãe, numa impossível tentativa de adquirir sua condição de sujeito desejante.
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3 Comentários Faça seu próprio
1. Vanessa Souza | 15 de Maio de 2009 às 21:27
Esse filme causou-me um mal estar enorme…
Ou seja, é muito bom!
2. Mariana Rodrigues | 25 de Junho de 2009 às 17:58
Digo o mesmo que a Vanessa… um suuuuper mal estar, mas também uma abertura para novos horizontes. Assisti ao filme em um aula de psicologia da personalidade e, por favor, só mesmo Freud pra explicar aquela família…. Aproveito para agradecer o compartilhamento desta resenha excelente e sucinta.
3. Leandro | 30 de Dezembro de 2009 às 14:51
Caro Sérgio
Cheguei ao seu blog justamente por me interessar por alguma resenha sobre este filme com Julianne Moore. Lendo seu texto, me senti impulsionado a lhe escrever por alguns motivos: primeiro, com o título de seu blog, o mesmo escolhido por Pablo Vilaça, o que depõe contra seu blog, mesmo que tenha sido uma casualidade. Segundo, fiquei preocupado, pois ao ler sua resenha, você simplesmente contou o filme todo…o que discaracteriza uma resenha de verdade e acaba por se tornar mera tagarelice. Espero que não leve a mal, acho que quanto mais pessoas discutirem sobre cinema e arte melhor. E desejo mesmo que seu blog ganhe espaço. Mas achei que, dada à boa qualidade de seu texto, poderia tomar mais cuidado com a elaboração do mesmo.
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