Arquivo de 19 de Dezembro de 2008

Masturbação

MASTURBAÇÃO

Este artigo foi publicado em SexoS – A Trama da Vida – Volume 4 – As Fronteiras da Transgressão – série especial da revista Mente&Cérebro, Editora Duetto, dezembro 2008

Sérgio Telles

Qualquer abordagem sobre a masturbação, ou sobre a sexualidade em geral, encontra um inarredável divisor de águas - a teoria freudiana. Há um antes de Freud e um depois de Freud.
Neste artigo, o antes de Freud consiste em um percurso histórico baseado no rico livro de Thomas Lacqueur, Solitary Sex: A Cultural History of Masturbation . Apoiado em extensa pesquisa, o livro de Lacqueur traz novas informações e estabelece interessantes hipóteses sobre aquilo que Foucault chamou de “a guerra contra o onanismo, que durou quase dois séculos no Ocidente” . Tal guerra é um bom exemplo da loucura humana travestida de conhecimento científico, no caso, o saber médico.
Em seguida veremos como Freud transforma o que até então era visto como uma terrível aberração geradora da corrupção dos corpos e da sociedade, como uma manifestação inevitável da sexualidade infantil, derivando toda sua importância do contexto incestuoso edipiano na qual se inscreve.
No depois de Freud comentaremos algumas situações mais recentes.
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Diz Laqueur que na Grécia Antiga e em Roma, a masturbação podia ser objeto de ridicularias e brincadeiras, como se vê em Aristófanes, mas nunca lhe foi dada qualquer significação especial.
No judaísmo mais antigo, não há menção a ela, a não ser indiretamente nos comentários à história de Onan. Por desperdiçar sua semente, Onan despertou o ódio do Criador, que o fulminou com um raio. Embora “onanismo” tenha se transformado em sinônimo de masturbação, estudiosos do Talmud acreditam que o pecado de Onan não foi a masturbação e sim o coitus interruptus, a recusa em procriar.
Ao contrário dos rabinos, os teólogos medievais do cristianismo, viam a masturbação como um pecado em si, embora não lhes concedessem grande importância. Dentro da vida confinada nos mosteiros, a preocupação maior era a sodomia e não a masturbação. Na vida fora dos claustros, a atenção dos padres se voltava para o incesto, a bestialidade, a fornicação e o adultério.
Como se poderia esperar do cristianismo, que não priorizava o principio rabínico de procriar e, pelo contrário, celebrava a vida celibatária e a castidade monástica, a argumentação de Santo Agostinho sobre Onan se desloca da obrigação de gerar filhos para um tema mais vasto, o dos deveres morais de ajudar os necessitados. Não é que os teólogos cristãos permitissem a masturbação, apenas não a censuravam com grande severidade, pois era a própria sexualidade que devia ser combatida e não a sexualidade não reprodutiva.
Em nada se altera a concepção da masturbação com o advento da Reforma. A idéia que dela os protestantes tinham os aproximava mais dos rabinos que dos padres católicos. Seu caráter pecaminoso residia na recusa à procriação, no desperdício do sêmen. Os protestantes censuravam os católicos por darem primazia ao celibato e à abstinência sexual, desvalorizando o casamento. A seu ver, ao criarem mosteiros e conventos, os católicos terminavam por incentivar a masturbação.
Na Renascença, abandona-se a preocupação com a procriação, defendida por rabinos e protestantes, e retoma-se sua ligação com a concupiscência, tal como viam os padres católicos.
Sem que a masturbação tivesse adquirido o estatuto de um pecado maior ou o crime de desperdício de sêmen recebido renovado agravamento, uma mudança radical aconteceu meio século depois. A medicina se apropriou da masturbação e dela fez uma doença gravíssima, capaz de colocar em risco não só o individuo, mas toda a sociedade.
Diz Lacqueur: “A masturbação moderna pode ser datada com uma precisão rara na historia da cultura. Deve ter sido por volta de 1712, com a publicação de um pequeno livro que tinha um longo titulo – Onania ou O Terrível Pecado da Auto-Polução, e todas suas Assustadoras Conseqüências, consideradas em ambos os SEXOS, com Aconselhamento Espiritual e Físico para aqueles que já incidiram nessa prática abominável, e oportuno Conselho para a Juventude da nação de ambos os SEXOS”.
Laqueur identifica o autor deste livreto anônimo como John Marten, um charlatão que publicara anteriormente outros trabalhos nos quais a pornografia mal se escondia atrás de assuntos supostamente médicos. Em Onania, após as descrições das doenças terríveis decorrentes da masturbação, Marten anunciava sua cura – os remédios que vendia junto com o livreto.
O livro teve um estrondoso sucesso de vendas na Inglaterra e logo foi publicado em outras capitais européias. Uma edição americana apareceu em 1724 e em 1752 já estava na 17ª edição, algo espantoso para a época.
Em 1760, Samuel Auguste David Tissot, um dos médicos mais prestigiados da França, depois de desqualificar o livro de Marten, apropria-se de seu título e de sua idéia central, dá-lhe uma nova versão ao revesti-la com a linguagem médica protocolar e a publica como L´Onanisme ou Dissertation physique sur les maladies produit par la masturbation. Seu livro provoca enorme repercussão por toda a Europa e não demorou muito para que médicos de toda parte passassem a atribuir uma lista inesgotável de doenças ao sexo solitário.
Mas como explicar que uma contrafação tão grosseira tenha conseguido tamanho acolhimento? Em parte, diz Laqueur, a resposta se deve a um esperto truque de vendas criado por Marten: esgotada a primeira edição, as seguintes – e houve muitas – traziam cartas picantes de leitores que confessavam seus hábitos masturbatórios e testemunhavam a cura com os remédios tomados. Desta forma, os leitores compravam um material pornográfico escondido sob o sisudo manto da medicina.
Mas esta explicação é insuficiente para justificar como o “onanismo” passou a interessar aos enciclopedistas e a um médico como Tissot, tornando-se um tema incontornável na cultura.
Lacqueur pensa ter sido, paradoxalmente, o Iluminismo - com sua luta contra a superstição, seu culto à Razão, sua tolerante aceitação da sexualidade humana - o responsável pela extraordinária mudança na concepção da masturbação, transformando-a de uma prática comum e anódina, num monstro temido, a terrível fonte de muitas doenças físicas e corrupção moral.
O Iluminismo provocou um declínio da autoridade eclesiástica e promoveu a ascensão secular da autoridade médica. Com isso retirou a masturbação do âmbito do moralismo religioso e a fez ingressar no campo da medicina. Certamente se pensava – equivocadamente - que dessa forma “científica” ela estaria a salvo dos desvios próprios da ignorância e do dogmatismo.
Laqueur aponta três aspectos da masturbação que levantavam suspeitas e oposição por parte dos valores defendidos pelo Iluminismo. Em primeiro lugar, era uma prática solitária, enquanto todas as outras formas de sexualidade são tranquilizadoramente sociais. Em segundo, o encontro sexual masturbatório não se dava com uma pessoa de carne e osso, decorria de uma fantasia, o que, diziam os médicos, provocava um “falso prazer”. E, em terceiro lugar, o que era mais grave - ao contrário de outros apetites, o desejo masturbatório nunca se saciava plenamente, o que poderia levar a excessos intoleráveis.
As conquistas do Iluminismo trouxeram um aumento dramático da autonomia do sujeito, liberando-o de antigas peias políticas e religiosas. A nova ordem política e social então possibilitada desencadeou grandes ansiedades, que foram projetadas na masturbação, fazendo com que ela passasse a ser condenada com máximo rigor, diz Laqueur. Vista como indutora de um prazer não socializado, não produtivo (reprodutivo), alimentado pelos incontroláveis vagares de uma mente dispersiva, a masturbação se transformou numa ameaça ao próprio sujeito e à sociedade, na medida em que poderia perverter todas as novas conquistas tão duramente conseguidas pelo Iluminismo, referentes à independência social, psicológica e moral.

Por este motivo, como Laqueur mostra com grande detalhe e numa argumentação que o aproxima de Foucault, o projeto liberador do Iluminismo contraditoriamente se transforma num programa de vigilância e tentativa de controle daquilo que até então tinha sido o mais secreto, privado e aparentemente inofensivo dos atos sexuais – a masturbação. Para tanto, passou a policiar a imaginação, o desejo e as expressões da individualidade que ele mesmo acabava de promover.
Laqueur mostra como os riscos do sexo solitário se misturam com duas das mais importantes inovações da modernidade: a implantação dos mercados financeiro e editorial. Onania foi publicado no momento da primeira crise financeira no mercado de ações e da fundação do Banco da Inglaterra. “A masturbação passa a ser vista como o vício de uma sociedade civil não religiosa, na qual a cultura de mercado faz com que as tradicionais barreiras contra a luxúria cedam espaço para justificativas filosóficas que defendem o excesso. Filósofos e economistas como Adam Smith, David Hume e Bernard Mandeville apontavam para as maravilhosas condições auto-reguladoras do mercado, no qual atos individuais de auto-indulgência e ambição se transformavam em bens comuns. A masturbação poderia parecer uma representação lógica do mercado: afinal, o impulso potencialmente ilimitado para gratificar o desejo é o motor que alimenta todo o imenso empreendimento econômico” – diz Greenblat . Mas, ao contrário do mercado e suas forças auto-reguladoras, nada poderia regular a masturbação e seu prazer insaciável. Daí o medo que ela inspirava e as rigorosas medidas implantadas para controlá-la.
Se a primeira inovação moderna contemporânea ao terror à masturbação foi a implantação do mercado financeiro, a segunda foi a leitura solitária. Na ocasião, o hábito da leitura se expandia em função da enxurrada de livros produzidos pelo incipiente mercado editorial e pela criação de novos espaços domésticos nos quais as pessoas podiam gozar de alguma privacidade e ficarem sozinhas. Desta forma, a masturbação ficou associada à leitura privada e solitária e esta passou a ser vista como a indutora da primeira. A grande forma literária inventada para se adequar a estes espaços que possibilitavam a prática da leitura solitária foi o romance. Como Rousseau ironicamente disse, certos romances eram escritos especificamente para ser lidos com uma única mão… Mas não era só a pornografia o que aproximava a masturbação do romance. Temia-se qualquer leitura num ambiente reservado e silencioso, pois ela poderia despertar a imaginação e esta rapidamente levaria aos descontroles do vício solitário.
E este era um vício democrático. Seu poder destrutivo estava ao alcance de servos e senhores, e o que era pior, estava disponível também às mulheres. Elas, com sua emotividade à flor da pele, sua rica imaginação, sua irracionalidade, estavam – é claro – muito mais expostas aos perigos das excitações sexuais provocadas pelos romances.
No começo do Século XX, começam a se dissipar os terríveis nevoeiros que ligavam a masturbação à morte e à loucura e que tinham gerado uma cultura de vigilância e controle. A descoberta da real etiologia de uma série de doenças atribuídas à masturbação - como as doenças venéreas, a epilepsia, a tuberculose - foram decisivas para tanto. Apesar de ainda serem perceptíveis nos dias de hoje elementos daquela antiga forma de ver a masturbação, acabou o terror imposto a todos e por tantos anos pela medicina. Laqueur atribui essa mudança em grande parte ao trabalho de Freud e de uma subseqüente sexologia liberal.

Freud aborda a questão da masturbação em vários textos. Logo abandona a visão convencional de sua época e insere a masturbação dentro de sua revolucionária construção teórica, na qual a sexualidade tem papel central.
No caso do “Homem dos Ratos” (1909), em longo comentário, Freud estabelece o que me parece ser o essencial de sua visão sobre a masturbação. Ali ele parte de uma observação clínica: os pacientes habitualmente atribuem à masturbação ocorrida na adolescência a causa de seus padecimentos, coisa que os médicos, em geral, rejeitam, por saberem que todos – normais e neuróticos – passam por uma fase de masturbação neste período. Freud considera que os pacientes estão parcialmente corretos e necessitam ser interpretados, pois a masturbação da adolescência é apenas a revivescência da masturbação infantil. Diz ele:
A masturbação infantil atinge uma espécie de clímax, via de regra, entre as idades de três a quatro ou cinco anos; e constitui a mais evidente expressão da constituição sexual de uma criança, na qual se deve buscar a etiologia das neuroses subseqüentes. Logo, sob esse disfarce, os pacientes ficam atribuindo a culpa por suas doenças à sua sexualidade infantil, e têm toda razão de fazê-lo. Por outro lado, o problema da masturbação torna-se insolúvel se tentarmos tratá-lo como uma unidade clinica e esquecermos que pode representar a descarga de toda variedade de componente sexual e de toda espécie de fantasia às quais tais componentes possam dar origem. Os efeitos prejudiciais da masturbação são autônomos – ou seja, determinados por sua própria natureza – apenas em um bem pequeno grau. São, em sua essência, meramente parte e parcela da significação patogênica da vida sexual, como um todo, do indivíduo. O fato de muitas pessoas poderem tolerar a masturbação – ou seja, determinada porção deste ato – sem prejuízo, mostra apenas que a sua constituição sexual e o curso da evolução de sua vida sexual foram de tal forma a permitir-lhes exercer a função sexual dentro dos limites daquilo que é culturalmente permissível; ao passo que outras pessoas, de vez que sua constituição sexual foi menos favorável, ou perturbado o seu desenvolvimento, caem doentes em conseqüência de sua sexualidade – isto é elas não conseguem alcançar a necessária supressão ou sublimação de seus componentes sexuais sem recorrerem a inibições ou substituições .
Resumindo - Freud diz que a masturbação é uma das manifestações universais da sexualidade infantil e que seus eventuais aspectos prejudiciais não decorrem dela em si e sim do contexto mais amplo da vida sexual. Refere-se ele aos turbilhões inevitáveis da castração e do complexo de Édipo, que dão conformidade à nossa própria constituição como sujeitos e – consequentemente - à nossa identidade sexual. São estes conflitos inconscientes que produzem as fantasias que alimentam não só a masturbação, mas a vida psíquica em geral. Assim, a questão não é – como durante os últimos dois séculos se dizia – combater a masturbação e as fantasias que a geravam, e sim analisar os conflitos geradores de fantasias, inibições e sintomas.
Freud pensava que a masturbação deveria ser abandonada na vida adulta, na medida em que o sujeito transitasse plenamente do auto-erotismo e do narcisismo para as relações objetais amorosas. Via a masturbação como uma persistência do erotismo infantil ligado ao complexo de Édipo, o que a deixava irremediavelmente tingida pela culpa.
Na ocasião de um debate especifico sobre o assunto, Freud se aproximou da posição de Stekel, que defendia a masturbação como um recurso legitimo, não necessariamente regressivo. Afirmou que a masturbação possibilita “desenvolvimentos e sublimações sexuais na fantasia” que apesar de serem “conciliações prejudiciais”, “tornam inofensivas graves inclinações perversas e previne as piores conseqüências da abstinência” .

No depois de Freud, constata-se que apesar do indiscutível impacto social trazido pela psicanálise, das informações objetivas sobre a anatomia e a fisiologia dos processos sexuais pedagogicamente oferecidas às novas gerações, parece não ser possível ver a sexualidade de forma objetiva. Por sua ligação intrínseca com os processos psíquicos inconscientes, ela estará sempre envolta por um manto de fantasias, nas quais o erotismo se confunde com culpas, medos, angústias.
No que diz respeito à masturbação, ela está longe de ser uma prática assumida abertamente e continua sendo algo profundamente privado e objeto de vergonha para adolescentes e adultos.
Por outro lado, lembra Lacqueur, as feministas, rebelando-se contra as opiniões de Freud sobre a sexualidade feminina, têm feito da masturbação clitoridiana uma bandeira de seu movimento . Artistas de vanguarda do Primeiro Mundo, como Lynda Benglis, Annie Sprinkle e Vito Acconci, aproveitam-se do aspecto transgressivo que a masturbação ainda hoje tem como importante elemento em suas obras.
Mais recentemente, a questão da masturbação mostra um renovado interesse, em função da internet.
A internet tornou obsoletas todas as medidas legais com as quais os estados tentavam controlar a produção, divulgação e comercialização da pornografia. Com isso, ela tem quebrado idéias preconcebidas que atribuíam à pornografia conseqüências assustadoras, como a incitação ao crime e à violência sexual. Será que os mesmos fantasmas que faziam com que, antes, a masturbação fosse vista como uma perigosa ameaça individual e social, ressurgem no que diz respeito à pornografia? O fato é que se digitarmos pornography num buscador como o Google, encontramos 28.000.000 (vinte e oito milhões) de indicações de sites e para porn, 234.000.000 (duzentos e trinta e quatro milhões). Números semelhantes se encontram ao digitar-se masturbation – 45.800.000 (quarenta e cinco milhões e oitocentos mil) .
Nos sites ligados à masturbação, tem de tudo, desde sua mais aberta defesa, com explícitos manuais de instrução, até os que pregam a castidade e apresentam, como antes, a masturbação como um perigoso vício.
Um acontecimento público mostra como a masturbação continua sendo objeto de grande repressão e hipocrisia social. Em 1994, Jocelyn Elder, que ocupava o posto de Surgeon General (algo como o Ministro da Saúde no Brasil) na gestão Clinton, foi destituída de seu cargo no dia seguinte a uma entrevista na televisão, onde dissera que a masturbação “é algo que faz parte da sexualidade humana e é parte de algo que talvez pudesse ser ensinada” . Numa coletiva à imprensa em Miami, Clinton disse que as opiniões de Jocelyn Elder sobre o assunto revelavam “diferenças com a política administrativa e minhas próprias convicções”. Algumas dessas suas “convicções” seguramente ficaram expostas no episódio Mônica Lewinsky…

Adicionar comentário 19 de Dezembro de 2008 às 14:22 Sérgio Telles


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