Sérgio Telles
psicanalista e escritor
Apesar de não pretender ser uma biografia rigorosa e explicitamente se apresentar como um “retrato imaginário”, o filme “A Pele” (“Fur”) dá uma boa idéia da vida e da peculiar produção artística da fotógrafa norte-americana Diane Arbus.
Perde-se um pouco a precisão dos elementos informativos e muito se ganha com a sensibilidade e a liberdade com as quais o diretor Steven Shainberg e a roteirista Erin Cressida Wilson recriaram sua realidade interna e seus conflitos.
Filha de ricos negociantes de pele, proprietários da elegante loja Russek na Quinta Avenida, Diane se casa - contra a vontade dos pais - com o fotógrafo Allan Arbus, responsável pela divulgação da loja e passa a trabalhar como sua assistente, fazendo inicialmente a produção de fotografias para revistas de moda. Incentivada pelo marido, Diane estuda com grandes fotógrafos de Nova York e se dedica à profissão.
Logo se afasta do mundo belo e irreal das fotos de moda e publicidade e vai para o pólo oposto, um universo onde a realidade se impõe com a máxima dureza, determinando a marginalização através dos defeitos físicos aberrantes, da feiúra, da pobreza, dos comportamentos não convencionais.
Curiosamente, ambos os mundos são regidos pela aparência. De um lado, a bela aparência dos modelos de publicidade. De outro, a aparência grotesca dos “freaks”, dos aleijões com suas aberrações físicas, dos pobres e feios, da gente comum das ruas.
O texto completo deste artigo está no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008.
2 de Outubro de 2007 às 19:53
Sérgio Telles
Sérgio Telles
psicanalista e escritor
Com a recente morte de Bergman, ocorrida em 30 de julho ultimo, resolvi ver dois de seus filmes por ele mesmo considerados pontos culminantes de sua obra. Refiro a “Persona” (1966) e a “Gritos e Sussurros” (1972).
Não os via há muitos anos e temia me decepcionar. Mas não foi o que aconteceu. Mais uma vez, rendi-me a sua excelência, reconhecendo estar diante de duas inequívocas obras primas.
O filme “Persona” é de clara inspiração psicanalítica.
A grande atriz Elisabeth Vogler (Liv Ullmann), ao ficar inexplicavelmente muda durante uma cena em que interpretava o papel trágico de Electra, é levada para uma instituição psiquiátrica. Ali é examinada por uma psiquiatra, que a considera “normal” e a encaminha para uma temporada de descanso em sua própria casa de praia, acompanhada por Alma (Bibi Anderson), uma enfermeira de sua confiança.
A psiquiatra diz que entende o que se passa com Elisabeth Vogler. Em sua opinião, ao constatar que o contato social não é possível sem o uso de mentiras e fingimentos, que nele, tanto quanto no teatro, é necessário representar papéis, Elisabeth entra num impasse. Disposta a dizer somente a verdade e constatando ser isso impossível, Elisabeth abdica de falar. Por esse motivo, a psiquiatra não a considera doente e sim “normal”. Respeita e admira o que entende como uma atitude “ética” e deixa a cargo da própria Elisabeth a escolha do momento de seu regresso ao palco do teatro e da vida.
Ao falar para a Alma, a psiquiatra diz que Elisabeth emudecera durante a peça e tivera vontade de rir num momento dramático. Alma diz não se sentir segura de poder tratar de Elisabeth, mulher tão admirável e forte.
Mesmo assim Alma aceita a incumbência e se depara com o silêncio e o distanciamento de Elisabeth, rompidos uma única vez e com grande intensidade de afetos ao receber uma carta do marido, que nela enviara uma foto do filho. Elisabeth se recusa a ler a carta e rasga a foto do filho.
O texto completo deste artigo está no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008.
às 19:52
Sérgio Telles