O Cheiro do Ralo - O Analisando Brasil

Wilkomirski e alguns problemas ligados à criação literária

31 de Julho de 2007 às 18:57 Sérgio Telles  | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 1323

Wilkomirski e problemas literários ligados à relação do autor com sua obra, à diferença entre os gêneros literários, à indústria editorial e aos aspectos para-literários no reconhecimento de uma obra de arte.

Sérgio Telles

Em 1995, o mundo editorial viveu um momento interessante com o lançamento do livro Bruchstücke. Aus einer Kindheit 1939–1948 (Fragmentos: Memórias de uma infância em tempos de guerra 1939-1948), escrito por Binjamin Wilkomirski.
Tratava-se das memórias de um sobrevivente dos campos de concentração nazistas, relatando os terrores inomináveis pelos quais tinha passado enquanto criança e sua epopéia para sobreviver até ser adotado por suíços.
O livro foi imediatamente apontado como uma obra prima, os talentos do escritor foram louvados e elevados ao grau de franca genialidade. Como se tratava de mais uma obra de sobrevivente do Shoah, logo foi equiparada às de Primo Levi, Elie Wiesel ou Anne Frank, recebendo imediatamente o apoio das grandes instituições judaicas internacionais, que ajudaram a promover o livro mundialmente. Quando a coisa estava nesse ponto, algumas dúvidas começaram a surgir, apesar de negadas com veemência pela editora. Afinal, descobriu-se que o autor não era judeu, nunca estivera num campo de concentração. Era um suíço filho de mãe solteira, que o tinha entregado a um orfanato e que fora posteriormente adotado por um casal, com quem vivera uma pacata vida burguesa até o lançamento de seu livro.
A descoberta causou um imenso constrangimento, especialmente entre as instituições judaicas, que tinham dado o maior apoio à divulgação do livro e que o apresentavam como uma das maiores obras do engenho humano, comparável a Shakespeare e Homero, para citar o padrão pelo qual estava sendo julgado o livro.
Descobriu-se posteriormente que a editora, ao lançar o livro, já sabia de antemão que se tratava de uma obra de ficção e não um registro autobiográfico. Ao vender gato por lebre, a editora configurou o caso como uma fraude. Como resultado, o livro foi relegado ao ostracismo. O acontecimento foi amplamente notificado e pode ser rastreado com profundidade na internet.
O caso é muito interessante e serve para ilustrar uma quantidade de questões ligadas ao trauma e à criação literária.

O texto completo deste artigo está no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008.

Publicação arquivada em: Resenhas, Cinema, Literatura, Psicanálise

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1 Comentário Faça seu próprio

  • 1. osrevni  |  13 de Setembro de 2007 às 17:54

    Não conhecia o livro, nem a história, mas fiquei encantado. Fez-me lembrar de algo que ouvi de meu avô, quando era pequeno, e só fui entender muito mais tarde. Uma vez, ele disse “Homero não era Aquiles”. A arte tem sempre, de fato, um mistério enorme.

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