Arquivo de 31 de Julho de 2007

O Analisando Brasil

O ANALISANDO BRASIL

Sérgio Telles
psicanalista e escritor

NOTA - Em 1992, os escândalos em torno do Presidente Collor culminaram com o processo de “impeachment”. Em meio ao tumulto cívico em que vivíamos, Edla van Steen - então na direção do Centro Cultural e de Estudos Superiores Aúthos Pagano, ligado à Secretaria de Estado de Cultura de São Paulo - teve a idéia de convidar uma série de pessoas, na qual fui honrosamente incluído, a refletirem sobre aquele momento.

Os textos assim produzidos foram publicados por aquela instituição, em dezembro daquele mesmo ano, sob o título “Brasil 90 – Desafios e Perspectivas”.

Relendo minha contribuição, tive sentimentos contraditórios. Já lá se vão 17 anos e continuamos com os mesmos problemas. Nada teria mudado? A corrupção continua a mesma, senão piorou. As esperanças de que governantes com uma maior consciência social fariam diferente ao chegarem ao poder não se concretizaram.

De qualquer forma, a análise que ali propus sobre a inquietação que enfrentávamos naquela ocasião parece continuar pertinente, pois muito do que ali foi abordado continua a acontecer no momento, gerando semelhante mal-estar. Isto me motivou a publicá-la novamente.

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A primeira coisa que o analista vê é o – digamos assim – o “ego” da sociedade assustado, deprimido, desesperançado, perplexo, confuso. Em conversas particulares com amigos, nas notícias e editoriais de jornais e da TV ouvem-se previsões catastróficas e desalentadoras, estarrecedoras informações sobre a corrupção do poder público, a desagregação da máquina do estado, o rompimento do tecido social.

Arrastões, milhares de menores abandonados, assaltos, seqüestros, roubos, desemprego, analfabetismo, miséria, e os pais da pátria, aqueles em quem supostamente deveríamos confiar, desmascarados, expostos nuamente em sua hedionda face vampiresca. A sociedade brasileira é uma espécie de mais um “menor abandonado”, vítima de pais incompetentes, fracos e incapazes.

Tudo parece estar condenado e sem perspectivas. Resta saber se tudo isso é tão desesperador como parece à primeira vista.

Creio ser possível fazer uma analogia entre o Brasil de agora e o processo de uma análise. O analisando ao chegar ao analista está todo estruturado, organizado e, entretanto, há um desarranjo de base, que se evidencia na produção de inúmeros sintomas que o fazem sofrer. Os sintomas mostram a falsidade daquela organização, pois evidenciam que uma importante parte do sujeito é negada, reprimida, não encontra espaço dentro dele. Esta parte insiste em se afirmar, precisa ser ouvida. No correr da análise, isso finalmente ocorre. São momentos decisivos quando a repressão é rompida e a denegação é superada. Isso quer dizer que nesses momentos é possível simbolizar, falar, comunicar e integrar à consciência aspectos inconscientes do psiquismo até então ignorados e desconhecidos, mas inegável e dolorosamente presentes sob a forma de sintomas. Tal superação da repressão e da denegação promove a verdade e a liberação do desejo. O reprimido, ao ser integrado, necessariamente desestrutura a organização anterior que o ignorava, forçando um novo rearranjo interno, uma nova organização, permitindo uma nova forma de viver. Neste processo, o sujeito deve tolerar alguns períodos de incertezas enquanto a estrutura anterior se desfaz e a nova não está consolidada.

Assim estava o Brasil, tudo aparentemente em seu devido lugar, com seus presidentes e generais no poder, tudo organizado, estruturado, e – apesar de reprimidos e negados – os “sintomas” abundavam.

Para dar um exemplo mais direto – qualquer brasileiro medianamente informado “sabia” que nos últimos anos a corrupção tem imperado abusivamente no trato da coisa pública. Mas tal saber era totalmente “reprimido” e “denegado” pelos meios de comunicação de massa e pelos instrumentos do poder.

Por uma série de circunstâncias históricas, isso mudou e os fatos vêm à tona com toda a força da verdade e capacidade de mobilização implícita nesta liberação. Nossas mazelas estão todas à vista.

A sociedade brasileira vive um momento de catarse e purgação desta verdade reprimida, vergonhosa e traumática que é a corrupção no Poder e de suas conseqüências. Mas também a sociedade brasileira fica confusa e atrapalhada com a integração desta verdade até então reprimida e denegada, desde que esta integração força mudanças no status quo, provocando nele rupturas que geram insegurança e intranqüilidade.

Acho que não devemos temer estas rupturas, pois, tal como num processo de análise, elas são indicio do nascimento do novo, quem sabe de um Brasil não mais “menor abandonado” cujos pais da pátria de há muito o maltratam e espoliam, mas um Brasil disposto agora a cobrar o que lhe é de direito.

A psicanálise não acredita, e consequentemente não promete, paraísos neste ou em qualquer outro mundo. Sabe que os “paraísos” são fantasias de reconstrução de uma completude para sempre perdida, completude advinda do gozo do corpo da mãe, ou seja, da fusão inicial do bebê com a mãe, estado que necessariamente tem que ser rompido, para tanto se impondo a presença do pai, o nome-do-pai, a instauração da Lei que promove a castração da mãe e do filho, para que – somente então – o sujeito possa se constituir como tal. O sujeito se constitui, pois, na falta, o que o faz para sempre um ser desejante e incompleto, dotado de um desejo que vem a ser o primum movens de seu psiquismo, gerador de uma irreversível insatisfação.

O sujeito humano tem uma falta estrutural eu não será jamais preenchida. Apesar disso, ele não fará outra coisa em sua vida que tentar preenchê-la, quer seja de forma realística – reconhecendo-a como irredutível, mas compatível com realizações afetivas e profissionais, quer seja através de ilusões pessoais, a criação das mitologias particulares que são seus sintomas, quer seja abraçando ilusões socialmente compartilhadas, como a religião – que promete o paraíso em outro mundo – ou as várias ideologias políticas que advogam utopias sociais, prometendo o paraíso para este mundo aqui mesmo. Esta é, em ultima instância, a tese central de Freud em “O Mal-estar na Cultura”, livro nunca o suficientemente lido e pensado.

De alguma forma, “O Mal-estar na Cultura” estabelece algumas fronteiras na complicada relação que o sujeito mantém com a realidade, com o mundo externo. O impacto da realidade imediata sobre o psiquismo adulto não é simples e direto. Para os adultos, a realidade imediata é sempre lida e apreendida através do filtro de seu psiquismo já estruturado, de sua organização interna, da maneira como se constituiu como sujeito. Os acontecimentos externos vão sempre acordar antigas experiências com as quais vão ser confundidas e para as quais se vão lançar mão das respostas usadas anteriormente, que, evidentemente, já estão caducas e anacrônicas. Um dos trabalhos da analise é justamente ajudar o analisando a discriminar tais situações, fazendo-o separar o passado do presente, possibilitando-o fazer uso mais realístico e objetivo de seus recursos, resolvendo os problemas e desafios que a realidade lhe impõe de forma atual e adulta e não regressiva e infantilmente.

A realidade imediata e presente é decisiva como tal para as crianças, para as quais tem uma importância mais direta, na medida em que está sendo introjetada para estruturar seu próprio psiquismo, instituindo-a como sujeito. Não devemos esquecer, entretanto, o modo especial como essa realidade se impõe às crianças, ou seja, totalmente mediada pelos pais, que são seus representantes magnos, portadores das normas e leis da cultura, da linguagem e, é claro, de sua própria dimensão desejante, portadores e assujeitados também a um inconsciente.

Evidentemente que a crise tem trazido para a maioria grandes sofrimentos, em função das perdas não só econômicas mas de seus desdobramentos mais amplos: a insegurança social, o abandono da esperança de um futuro melhor, a descrença nas instituições. Mas a forma como cada um vai reagir a isso é estritamente singular, única, particular, dependendo de como está estruturado internamente, de como elaborou sua castração. Frente as angústias que a realidade da crise econômica pode despertar, as pessoas poderão reagir melancolicamente, acreditando serem elas um castigo superegoico, de há muito desejado e temido; poderão reagir paranoicamente, atribuindo-as a maquinações de poderosos inimigos; poderão senti-las como um desafio edipiano a ser enfrentado denodadamente; poderão percebê-las como apenas mais um percalço no acidentado caminho da vida.

3 comentários 31 de Julho de 2007 às 19:06 Sérgio Telles

Wilkomirski e alguns problemas ligados à criação literária

Wilkomirski e problemas literários ligados à relação do autor com sua obra, à diferença entre os gêneros literários, à indústria editorial e aos aspectos para-literários no reconhecimento de uma obra de arte.

Sérgio Telles

Em 1995, o mundo editorial viveu um momento interessante com o lançamento do livro Bruchstücke. Aus einer Kindheit 1939–1948 (Fragmentos: Memórias de uma infância em tempos de guerra 1939-1948), escrito por Binjamin Wilkomirski.
Tratava-se das memórias de um sobrevivente dos campos de concentração nazistas, relatando os terrores inomináveis pelos quais tinha passado enquanto criança e sua epopéia para sobreviver até ser adotado por suíços.
O livro foi imediatamente apontado como uma obra prima, os talentos do escritor foram louvados e elevados ao grau de franca genialidade. Como se tratava de mais uma obra de sobrevivente do Shoah, logo foi equiparada às de Primo Levi, Elie Wiesel ou Anne Frank, recebendo imediatamente o apoio das grandes instituições judaicas internacionais, que ajudaram a promover o livro mundialmente. Quando a coisa estava nesse ponto, algumas dúvidas começaram a surgir, apesar de negadas com veemência pela editora. Afinal, descobriu-se que o autor não era judeu, nunca estivera num campo de concentração. Era um suíço filho de mãe solteira, que o tinha entregado a um orfanato e que fora posteriormente adotado por um casal, com quem vivera uma pacata vida burguesa até o lançamento de seu livro.
A descoberta causou um imenso constrangimento, especialmente entre as instituições judaicas, que tinham dado o maior apoio à divulgação do livro e que o apresentavam como uma das maiores obras do engenho humano, comparável a Shakespeare e Homero, para citar o padrão pelo qual estava sendo julgado o livro.
Descobriu-se posteriormente que a editora, ao lançar o livro, já sabia de antemão que se tratava de uma obra de ficção e não um registro autobiográfico. Ao vender gato por lebre, a editora configurou o caso como uma fraude. Como resultado, o livro foi relegado ao ostracismo. O acontecimento foi amplamente notificado e pode ser rastreado com profundidade na internet.
O caso é muito interessante e serve para ilustrar uma quantidade de questões ligadas ao trauma e à criação literária.

O texto completo deste artigo está no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008.

1 comentário às 18:57 Sérgio Telles


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