Impossivel sair de Mariembad
IMPOSSÍVEL SAIR DE MARIENBAD (*)
Sérgio Telles
O ANO PASSADO EM MARIENBAD – filme de Alain Resnais e roteiro de Alain Robbe-Grillet - sempre me suscitou um grande interesse. Vi-o pela primeira vez na década de 60, numa sessão de clube de cinema universitário em Fortaleza. Foi uma experiência de grande estranhamento, pois era uma cópia não legendada e eu não sabia (como continuo sem saber) falar francês! Mas ficaram comigo aquelas imagens hieráticas, iterativas, solenes. Grupos de pessoas a cumprir com um formalismo quase mecânico um complicado minueto social no espaço fantasmagórico de um magnífico palácio barroco e seu imenso jardim de simétrica e rígida geometria, vigiado eternamente por um casal de pedra em pose dramática. As estátuas – em sua veemência escultórica - pareciam mais intensas e vivas que as pessoas que por elas passavam.
Muitos tempo depois, há uns oito anos, revi-o Centro Cultural Banco do Brasil aqui em São Paulo. Era uma cópia muito usada, cheia de falhas, riscos e traços brancos. Mas desta vez ali estavam as necessárias legendas e me foi possível seguir a narrativa que reverberava em inúmeras repetições e retomadas no relato de uma história de amor em clima de incertezas e desconfianças. Mais uma vez senti-me completamente arrebatado pela atmosfera marcada pelo palácio barroco e seu jardim, os quais – um, com sua grandiloqüente arquitetura e pesada decoração; o outro, com sua matemática disposição racional do espaço - pareciam dominar a história, reger os destinos dos personagens principais.
Mais recentemente, revi-o várias vezes, numa cópia em DVD , usufruindo das facilidades introduzidas pela tecnologia. Com o DVD, o cinema pode ser visto como se lê um livro – com pausas, voltando páginas atrás, dando uma olhadinha mais à frente para ver como a coisa andou, etc. Mais ainda, com a tecnologia o expectador pode até mesmo remontar o filme como bem entender, fazendo intervenções antes impensáveis.
Assim, pude avançar, retroceder ou me deter me determinadas seqüências do filme quantas vezes quis, dirimindo dessa forma parte das dúvidas que nas vezes anteriores fui obrigado a suportar.
Não que todas elas ficaram solucionadas. É preciso lembrar que a estrutura narrativa de O ANO PASSADO EM MARIENBAD procura deliberadamente o enigmático e não almeja encerrar-se numa conclusão definida.
O esboço do filme é relativamente simples. Num hotel de luxo em “Marienbad” – na verdade, filmado no Nynphenburg Schloss em Munique - um homem “X” tenta convencer uma mulher “A” que ela prometera no ano anterior, naquele mesmo hotel, que abandonaria o marido “M” e ficaria com ele, coisa que a mulher reluta em aceitar, negando ter feito tal promessa e até mesmo a conhecê-lo.
Dois grandes temas se perfilam imediatamente - tempo e memória.
O texto completo deste artigo se encontra no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008.
1 comentário 13 de Abril de 2007 às 10:48 Sérgio Telles