Arquivo de 30 de Janeiro de 2007

Comentário sobre um trecho da entrevista de Jacques Derrida a Elisabeth Roudinesco em “DE QUE AMANHÃ - Diálogos” (Jorge Zahar, Rio, 2004)

Sérgio Telles

Os editores da revista PERCURSO convidaram a Vladimir Sefatle, Miriam Chnaiderman, Daniel Kupermann e a mim para comentarmos um polêmico trecho da entrevista concedida por Jacques Derrida a Elisabeth Roudinesco, publicada em livro intitulado “De que amanhã… – (diálogo)” – Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004.
O texto foi publicado no último número da revista (número 37, segundo semestre de 2006), com o título “Psicanálise: 4 + 2 maneiras de manter uma herança viva”.
Reproduzo abaixo o trecho a ser comentado e, em seguida, meu comentário.

TRECHO DA ENTREVISTA

Jacques Derrida: […] O “amigo da psicanálise”, em mim, desconfia não do saber positivo, mas do positivismo e da substancialização de instâncias metafísicas ou metapsicológicas. As grandes entidades (eu, isso, supereu, etc.), mas também as grandes “oposições” conceituais, sólidas demais, e portanto tão precárias, que se seguiram às de Freud, como por exemplo o real, o imaginário e o simbólico, etc, a “introjeção” e a “incorporação” me parecem carregadas (e tentei demonstrá-lo mais de uma vez) pela inelutável necessidade de alguma “différance” que apaga ou desloca suas fronteiras. Priva-as, em todo caso, de todo rigor. Não estou nunca, portanto, pronto a seguir Freud e os seus no funcionamento de suas grandes máquinas teóricas, em sua funcionalização.

Elisabeth Roudinesco: A meu ver, ao contrário, é preciso considerar o recorte efetuado por Freud e continuar a trabalhar com a metapsicologia. Pois se cedermos no que os senhor chama de as “grandes máquinas teóricas”, arriscamo-nos a liquidar o próprio princípio da “subversão” freudiana, sua inovação e voltar às velhas noções de inconsciente (cerebral, neuronal, cognitivo, subliminar, etc), historicamente muito interessantes, mas de uma grande pobreza em relação ao poder inventivo do sistema freudiano, que deu origem a uma riqueza interpretativa que não encontramos em nenhum outro domínio. Tenho a impressão de que em filosofia fica-se menos confrontado com tal risco de regressão. Há uma fragilidade específica da psicanálise que se deve a seu próprio objeto: o inconsciente, no sentido freudiano, pode sempre ser evitado, refutado, considerado “perigoso” e, portanto, banido da consciência e da razão, etc. Daí a necessidade, para resguardar a criatividade,de retornar incessantemente ao gesto original de Freud, contra os dogmas que a psicanálise suscita ela mesma quando pretende “ultrapassar” Freud, isto é, enterrá-lo…

Jacques Derrida: Sem dúvida. Mas a especificidade da luta travada por Freud ainda está para ser aguçada. De um ponto de vista histórico, compreendo perfeitamente que se possa justificar a “construção” do discurso freudiano. Mas sob a condição de saber que o campo no qual ele trabalhou não é mais o nosso. Alguns elementos perduram, mas eu não faria do “inconsciente” e das instâncias da segunda tópica conceitos científicos e cientificamente garantidos. Quero efetivamente citá-los e utilizá-los em situações estrategicamente definidas, mas não acredito em seu valor, sem seu alcance para além desse campo de batalh. Outras “ficções teóricas” são agora necessárias. Não é de minha parte uma resposta relativista ou oportunista. Ao contrário, é um cuidado com a verdade científica e uma lição tirada da história das ciências, da vida ou do progresso das comunidades cientificas, que são também comunidades “produtivas”, “performáticas”, interpretativas. Um dia, o melhor da herança psicanalítica será capaz de sobreviver sem a metapsicologia e, talvez, até sem nenhum dos conceitos que acabo de nomear. Daí uma dificuldade estratégica às vezes perturbadora e angustiante. Arrisca-se sempre, ao dizer isso, a se ir com efeito em socorro dos que gostariam de “liquidar” a psicanálise. Não quero dizer que a obra será “ultrapassada”, mas gostaria de poder dizer o que estou dizendo sem concluir que a batalha está terminada. (p. 208-210).

COMENTÁRIO DE SÉRGIO TELLES

O trecho de Derrida a ser comentado é antecedido no mesmo livro em duas páginas pela seguinte afirmação: “A grande conceitualidade freudiana provavelmente foi necessária, admito. Necessária para romper com a psicologia num dado contexto da história das ciências. Mas me pergunto se esse aparelho conceitual sobreviverá por muito tempo. Talvez me engane, mas o isso, e eu, o supereu, o eu ideal, o ideal do eu, o processo secundário e o processo primário do recalcamento, etc – em suma, as grandes máquinas freudianas (incluindo o conceito de inconsciente!) não passam a meus olhos de armas provisórias, utensílios retóricos montados contra uma filosofia da consciência, da intencionalidade transparente e plenamente responsável. Não creio em nada no seu futuro. Quase não se fala mais disso. Prefiro em Freud as análises parciais, regionais, menores, as sondagens mais aventureiras. Esses vislumbres às vezes reorganizam, pelo menos virtualmente, todo o campo do saber. É preciso, como sempre, estar disposto a se render a eles e poder lhe restituir a sua força revolucionária. Poder invencível”(1).
Esse trecho, juntamente com o proposto e quiçá ainda mais instigante que ele, talvez cause, numa primeira impressão, estupor e perplexidade em todos aqueles que se aferram de forma religiosa a textos teóricos, dando-lhes o estatuto de coisa sagrada.
Lendo mais atentamente, fica claro que a proposta de Derrida remete ao empenho de manter vivo e em expansão o pensamento freudiano, evitando a esclerose e o dogmatismo que acompanham a institucionalização e o corporativismo. Não faz ele outra coisa que seguir a linha esboçada por Freud no momento em que dizia: “ A teoria das pulsões é por assim dizer a nossa mitologia. As pulsões são seres míticos, grandiosos em sua indeterminação”(2).
Penso que Derrida sugere que as “grandes máquinas” teóricas, embora úteis e necessárias, podem funcionar como uma defesa “egóica” contra o irreversível Unheimichkeit próprio do Inconsciente.
Um texto no qual explicita com detalhes essa argumentação é o “Eu, a psicanálise”(3) - prefácio que fez para a tradução norte-americana do livro “L´Écorce et le Noyau” de Nicholas Abraham e Maria Torok”, publicado no Brasil pela Editora Escuta como “A Casca e o Núcleo”.
Um dos artigos daquele livro é a resenha crítica que Torok e Abraham fizeram do “Vocabulário da Psicanálise”, de Laplanche e Pontalis. Sem desmerecer o percuciente trabalho daqueles autores, Torok e Abraham meditam que se é verdade que o empenho em discernir os conceitos teóricos organiza o saber psicanalítico, isso está longe de esgotar o campo do Inconsciente, que, em sua heterogeneidade radical com a lógica consciente, continua a desafiar frontalmente esses mesmos conceitos.
Os autores apelam para a “anassemia” – inexistente figura retórica proposta por eles para elucidar uma “‘anti-semântica escandalosa’, aquela dos conceitos des-significados em virtude do contexto psicanalítico”(4). Desta forma, um efetivo e verdadeiro “vocabulário da psicanálise” não seria um compêndio de conceitos formais como o elaborado por Laplanche e Pontalis e sim uma lista de “anassemas”.
Torok e Abraham mostram como todas as polaridades semânticas ficam inadequadas a partir da descoberta do Inconsciente, a ponto de ser necessário inventar uma nova língua, criar novas palavras – “anassemas” - para expressar aquilo que o Inconsciente abriga. O masoquismo, por exemplo, introduz um impasse semântico, dado que ao se referir a uma situação onde a dor provoca prazer, faz imediatamente com que as palavras “dor” e “prazer” percam sua estabelecida até então e irreversível antinomia original.
Nas palavras de Derrida: “No interior do mesmo sistema lingüístico, no francês, a mesma palavra, por exemplo “prazer”, pode se traduzir como ela mesma e, sem verdadeiramente “mudar” de sentido, passar para uma outra língua, a mesma em que, tendo sido, contudo, total a alteração, quer seja na língua fenomenológica e entre aspas, a “mesma” palavra funciona de outra forma na língua “natural”, revelando, porém, o sentido noético-noemático; quer seja, na língua psicanalítica, essa própria suspensão é suspensa e a mesma palavra se encontra já traduzida em um código onde não há mais sentido, de tal forma que, possibilitando por exemplo o que se sente ou se entende por prazer, prazer não significa mais ele mesmo, “o que se sente” (Freud em “Além do Princípio do Prazer”, fala de um prazer vivenciado como sofrimento e será preciso acentuar a conseqüência rigorosa de uma afirmação assim escandalosamente insustentável para a lógica clássica, para a filosofia, para o senso comum, bem como para a fenomenologia) (5)” (grifos do autor).
Usando o modelo da segunda tópica como símile, Torok e Abraham postulam que o “Vocabulário de Psicanálise” de Laplanche e Pontalis seria uma espécie de “ego” defensivo e resistencial – a “casca” - de um “núcleo” que seria o Inconsciente.
Por extensão, poderíamos dizer, como Derrida o faz, que as “máquinas teóricas” são “cascas” que recobrem o Inconsciente, “ficções” provisórias e substituíveis por outras sempre que necessário for.
Desta maneira, Derrida mantém o acolhimento de novas “ficções” teóricas, como a trazida pelo livro “Verbier de l’Homme aux Loup”, obra original e provocadora de Abraham e Torok” por ele prefaciada (6), considerada “delirante” por Lacan (7), e ainda praticamente ignorada em nosso país.
Nesse livro, Torok e Abraham propõem uma surpreendente leitura do Homem dos Lobos, baseada num procedimento ao mesmo tempo simples e engenhoso. Levando em conta que Serguei Pankejeff (8), o Homem dos Lobos, era poliglota – falava inglês, russo, francês e alemão, procuraram homofonias de palavras nessas diversas línguas ou, ainda, esquadrinharam o significado em inglês ou russo de determinadas palavras faladas por ele em alemão e registradas por Freud em sua história clinica. Pode-se dizer que, em agindo assim, ampliaram o procedimento que o próprio Freud fizera de forma pontual no episódio descrito como do “brilho no nariz” (Glanz auf der Nase), relatado anonimamente no texto sobre o fetichismo, mas que é atribuído ao Homem dos Lobos (9).
Para dar apenas um exemplo do procedimento de Abraham e Torok. Os autores se debruçaram sobre o sintomático ato falho de Serguei Pankejeff ao fazer o famoso desenho do sonho dos lobos. Pankejeff diz que haveria seis (ou sete) lobos na árvore sonhada e, curiosamente, nela desenha apenas cinco (5) lobos. Torok e Abraham procuraram no dicionário russo a palavra “seis” e constataram que ela é muito semelhante à palavra “irmã”, “irmãzinha”, fato que – como não poderia deixar de ser - passou completamente desapercebido a Freud.
Tendo em vista o papel importante que a irmã do Homem dos Lobos ocupou em sua vida – sabemos que ela o seduziu aos 3 anos, rechaçou uma investida sexual por ele feita aos 10 anos e suicidou-se com 20 e poucos anos – Freud seguramente teria visto essa “ponte verbal” entre o “seis lobos” e “irmã”, e daria rumos completamente diferentes à interpretação do sonho.
A partir dessa simples descoberta, os autores ousadamente reconstroem uma historia que se nos afigura bastante plausível, na qual o Homem dos Lobos seria a testemunha do incesto de seu pai com sua irmã, testemunho sufocado por sua mãe, que temia um escândalo público. Além dessa inédita história familiar do Homem dos Lobos, Torok e Abraham propõem novas possibilidades teóricas, como o conceito de “cripta” e aprofundamentos dos mecanismos de identificação, incorporação e introjeção.
Se as “grandes máquinas” teóricas (freudianas, kleinianas, lacanianas, bionianas, etc) forem consideradas como definitivas, não resta espaço algum para trilhas diversas, como essas propostas por Abraham e Torok, com suas indagações sobre a anassemia e a necessidade de tradução para uma língua da psicanálise.
É interessante salientar que o próprio titulo do livro “A Casca e o Núcleo” (“L’Écorce e le Noyau”) é uma referência ao escrito de Benjamin sobre os impasses da tradução, tema retomado e ampliado por Derrida em “Torre de Babel”(10).
Os trabalhos de Torok e Abraham podem ser considerados como ampliações e desdobramentos da carta 52 de Freud, na qual a transcrição de traços mnêmicos de um sistema para outro é descrita como “erros de tradução” ou como a persistência de antigo fueros, de antigas leis que persistem apesar de estar em vigência uma nova ordem.
Uma imagem visual que mostra essa “falha de tradução” ou a persistência de velhos fueros numa nova ordem seria aquela na qual aparece a técnica pictórica da anamorfose. Ela mostra a intrusão de um objeto captado por uma perspectiva diferente daquela que predomina no campo visual, como bem o ilustra o quadro de Holbein, “Os Embaixadores”, que, não por acaso, ilustra a capa do seminário 11 de Lacan.
Para concluir, lembremos que o que Derrida propõe em relação às “grandes máquinas” teóricas da psicanálise não é diferente do que propõe em relação à literatura, ao direito, as ciências, à história, enfim, a todos os espaços simbólicos da cultura sobre os quais se debruçou. Ao desconstruí-los, não visa sua destruição e sim dar espaço para o que chama de o “por vir”.

NOTAS

(1) J. Derrida e E. Roudinesco – De que amanhã… – Diálogos – São Paulo, Jorge Zahar Editor, 2004, p. 206/7
(2) S. Freud, “Ansiedade e Vida Pulsional” em Novas Conferencias Introdutórias sobre a Psicanálise (Conferência XXXII), Standard Edition, Livro XXII – Rio de Janeiro, Imago Editora, 1976, p. 119
(3) J. Derrida – “Eu, a psicanálise” – tradução de Élida Ferreira, Pulsional, Junho de 2002, no. 158 – p.11
(4) J. Derrida, op. cit. p. 13
(5) J. Derrida , op. cit. p.15
(6) J. Derrida, “Fora – As palavras angulosas de Nicolas Abraham e Maria Torok” – tradução de Fábio Landa, in Ensaio sobre a criação teórica em Psicanálise – De Ferencki a Nicolas Abraham e Maria Torok – Fapesp / Editora Unesp – São Paulo, 1998 – p. 269
(7) E. Roudinesco, História da Psicanálise na França – vol. 2 (1925-1985), Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1988, p. 652
(8) E. Roudinesco e M. Plon – Dicionário de Psicanálise – Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1998, p. 564
(9) S, Freud, Fetichismo, S.E., Vol. XXI, Imago, Rio de Janeiro, 1974, p.179
(10) S. Telles – “Babel e a Criação da Necessidade Estrutural da Tradução” - Resenha do livro Torres de Babel - Jacques Derrida - Editora da Universidade Federal de Minas Gerais - Belo Horizonte - 2002 - 76p. Publicado no suplemento MAIS do jornal Folha de São Paulo, 17/11/02. Versão ampliada na net http://www.estadosgerais.org/resenhas/telles-babel.shtml

Publicado também em Psychiatry on Line - Brasil, janeiro de 2007, http://www.polbr.med.br/ano07/psi0107.php

Adicionar comentário 30 de Janeiro de 2007 às 18:54 Sérgio Telles

Considerações sobre “O Código Da Vinci” (*)

Considerações sobre “O CÓDIGO DA VINCI” (*)

Sérgio Telles

O extraordinário sucesso do livro de Dan Brown “O Código Da Vinci” e do filme nele baseado caracterizam-no como um produto típico da indústria cultural globalizada.
O que quer dizer isso? Muitas coisas, todas elas derivadas da dicotomia “indústria cultural” e “arte”.
Os produtos da indústria cultural constituem o universo do Entretenimento. São divertimentos, distrações, passatempos, diversões - em sua grande maioria de teor escapista, alienante - voltados para as massas, que envolvem grandes investimentos financeiros em busca dos lucros correspondentes. Para tanto, os produtos são divulgados através de campanhas publicitárias maciças veiculadas pelos diversos meios de comunicação, incentivando seu consumo no mercado.
Todas essas características afastam o “produto da indústria cultural” das chamadas “criações artísticas”. Estas não têm como objetivo imediato o consumo das massas e sim a expressão de novas formas e conteúdos elaborados pelo artista em seu trabalho solitário. Muito embora possam também entreter e distrair, não têm esse propósito como prioridade e sim simbolizar e representar as grandes questões humanas, enriquecendo aqueles que delas se aproximam. Quando aparecem na mídia, as “criações artísticas” ocupam espaços muito específicos e restritos, na maioria das vezes, ignorados pelo grande público.
Não quer isso dizer que ocasionalmente algumas delas não tenham grande apelo popular nem que o artista não tenha ambições, não almeje o reconhecimento e fortuna. Mas o fato é que o que eles produzem, por suas características intrínsecas, dificilmente pode atingir o consumo de massa.
O artista precisa vender suas obras para viver e assim estabelece complexas relações com o mercado, tema que não é possível abordar no momento. Apenas assinalo que o atual mercado de arte usa dos mesmos recursos da indústria cultural em termos de divulgação e marketing, mas está voltado não para as massas e sim para o topo da pirâmide social, para a plutocracia. Se é verdade que o artista não despreza o dinheiro que um bem sucedido produtor da indústria cultural recebe, ele talvez seja ainda mais ambicioso que este, pois aspira a imortalidade.
Produtos da indústria cultural, como “O Código Da Vinci”, são consumidos vorazmente em escala de milhões, saturando o mercado, para logo ser esquecido e substituído por um similar, que inicia um novo ciclo de consumo. Tirando as exceções, uma obra de arte (livro, quadro, filme, etc) atinge um número modesto de pessoas, mas persiste ao longo do tempo, seduzindo novas gerações. Dificilmente ela é tão lucrativa quanto o produto da indústria cultural, que enche os bolsos de todos envolvidos em sua consecução.

O texto completo deste artigo se encontra no livro O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II - Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008.

2 comentários às 18:42 Sérgio Telles


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