COMO NÃO DESESPERAR
A recente “Operação Abafa”, que custou ao governo - ou seja, a nós contribuintes - a módica quantia de 400 mil reais, sofreu uma brusca inflexão, transformando-se numa operação contrária, decorrente das acusações do deputado Roberto Jefferson. Com seus dotes de tenor, o parlamentar ajudou a dar a esse episódio os merecidos toques de uma opera bufa.
Mas, ao contrário do divertimento proporcionado pela ópera, o ridículo, a desarticulação, o atabalhoamento, a impressão de completo despreparo, a evidente incompetência dos atores de mais uma das atrapalhadas cenas do PT provocam efeitos bem funestos para nossa auto-estima nacional e nossas esperanças de um futuro melhor.
Penso que é importante refletir sobre o luto que a sociedade brasileira atravessa decorrente da perda das expectativas colocadas no PT. Parece-me que mesmo aqueles que não faziam parte das hostes petistas esperavam alguma mudança com a chegada do PT ao poder.
Afinal, sua atuação política, sempre preocupada com a ética, o colocava como o grande guardião da moralidade pública.
A falência da idealização do PT provoca um brutal encontro com a realidade da política possível de ser realizada no atual estágio de nossa democracia. Se em curto prazo a visão da realpolitik que o PT pratica nos decepciona, a médio e longo prazo ela será benéfica. Como psicanalistas, sabemos que nenhuma idealização acaba bem. Toda vez que ela se desfaz, instala-se um sentimento de perda, mas torna-se possível um contato maior com a realidade. Por mais dolorosa que ela seja, é sempre melhor reconhecer e enfrentar a realidade, pois somente assim podemos ter uma ação efetiva sobre ela.
A decepção provocada pelas práticas do PT nos faz ver que – por comodismo ou omissão - o tínhamos colocado como os exclusivos detentores do zelo pela coisa pública, atribuição que nos eximia de ter de exercê-la também como cidadãos conscientes. Seu fracasso nessa posição devolve a todos nós aquilo que sempre foi nosso – o dever cívico da participação política.
Vivemos um momento histórico importante e peculiar. Se antes a corrupção ocorria acobertada pelo silêncio da imprensa, esta atualmente tem total liberdade de mostrar todos os meandros do poder e expõe com todas as letras as maracutaias, os golpes, as formas de lesar o erário público, etc.
Essa liberdade cria um efeito estranho, pois ao se expor claramente a corrupção, espera-se a conseqüência lógica: a punição dos culpados. Como sabemos, isso ainda não existe regularmente no Brasil. Para cada Juiz Nicolau que é punido, uma infinidade de outros equivalentes seus passam incólumes pelas malhas da lei.
Essa situação gera um stress, uma tensão social muito grande, mas - a meu ver - positiva. É muito melhor que a imprensa denuncie a corrupção, mesmo que não possamos ainda punir os culpados, desde que os mecanismos sociais necessários para tanto são ainda ineficazes, do que ter nostalgia da suposta honestidade dos tempos da ditadura, quando os mesmos desmandos ocorriam acobertados pela censura.
A liberdade de imprensa é um dos maiores bens da democracia. Se, no momento atual, ela causa um stress social ao deixar cada vez mais patente impunidade dos corruptos, esse stress pode ser a mola para mobilizar a sociedade, fazendo-a pressionar o estado visando mudanças necessárias, como as do sistema judiciário - esse poço escuro e ainda intocável.
Adicionar comentário 21 de Fevereiro de 2006 às 14:20 Sérgio Telles