Arquivo de Fevereiro de 2006

COMO NÃO DESESPERAR

A recente “Operação Abafa”, que custou ao governo - ou seja, a nós contribuintes - a módica quantia de 400 mil reais, sofreu uma brusca inflexão, transformando-se numa operação contrária, decorrente das acusações do deputado Roberto Jefferson. Com seus dotes de tenor, o parlamentar ajudou a dar a esse episódio os merecidos toques de uma opera bufa.

Mas, ao contrário do divertimento proporcionado pela ópera, o ridículo, a desarticulação, o atabalhoamento, a impressão de completo despreparo, a evidente incompetência dos atores de mais uma das atrapalhadas cenas do PT provocam efeitos bem funestos para nossa auto-estima nacional e nossas esperanças de um futuro melhor.

Penso que é importante refletir sobre o luto que a sociedade brasileira atravessa decorrente da perda das expectativas colocadas no PT. Parece-me que mesmo aqueles que não faziam parte das hostes petistas esperavam alguma mudança com a chegada do PT ao poder.

Afinal, sua atuação política, sempre preocupada com a ética, o colocava como o grande guardião da moralidade pública.

A falência da idealização do PT provoca um brutal encontro com a realidade da política possível de ser realizada no atual estágio de nossa democracia. Se em curto prazo a visão da realpolitik que o PT pratica nos decepciona, a médio e longo prazo ela será benéfica. Como psicanalistas, sabemos que nenhuma idealização acaba bem. Toda vez que ela se desfaz, instala-se um sentimento de perda, mas torna-se possível um contato maior com a realidade. Por mais dolorosa que ela seja, é sempre melhor reconhecer e enfrentar a realidade, pois somente assim podemos ter uma ação efetiva sobre ela.

A decepção provocada pelas práticas do PT nos faz ver que – por comodismo ou omissão - o tínhamos colocado como os exclusivos detentores do zelo pela coisa pública, atribuição que nos eximia de ter de exercê-la também como cidadãos conscientes. Seu fracasso nessa posição devolve a todos nós aquilo que sempre foi nosso – o dever cívico da participação política.

Vivemos um momento histórico importante e peculiar. Se antes a corrupção ocorria acobertada pelo silêncio da imprensa, esta atualmente tem total liberdade de mostrar todos os meandros do poder e expõe com todas as letras as maracutaias, os golpes, as formas de lesar o erário público, etc.

Essa liberdade cria um efeito estranho, pois ao se expor claramente a corrupção, espera-se a conseqüência lógica: a punição dos culpados. Como sabemos, isso ainda não existe regularmente no Brasil. Para cada Juiz Nicolau que é punido, uma infinidade de outros equivalentes seus passam incólumes pelas malhas da lei.

Essa situação gera um stress, uma tensão social muito grande, mas - a meu ver - positiva. É muito melhor que a imprensa denuncie a corrupção, mesmo que não possamos ainda punir os culpados, desde que os mecanismos sociais necessários para tanto são ainda ineficazes, do que ter nostalgia da suposta honestidade dos tempos da ditadura, quando os mesmos desmandos ocorriam acobertados pela censura.

A liberdade de imprensa é um dos maiores bens da democracia. Se, no momento atual, ela causa um stress social ao deixar cada vez mais patente impunidade dos corruptos, esse stress pode ser a mola para mobilizar a sociedade, fazendo-a pressionar o estado visando mudanças necessárias, como as do sistema judiciário - esse poço escuro e ainda intocável.

Adicionar comentário 21 de Fevereiro de 2006 às 14:20 Sérgio Telles

AMOR SÓ DE MÃE

Recentemente uma mulher jogou sua filha recém-nascida na lagoa de Pampulha.

A ampla repercussão do fato parece dar uma medida de sua significação no imaginário coletivo.

Ao invés de mostrar o proverbial amor que supostamente todas as mães têm por seus filhos, esta mãe rejeita o seu, expondo-o a uma situação na qual sua vida correu sérios riscos.

Esse seu gesto abala arraigadas convicções compartilhadas por todos no que diz respeito às relações familiares, especialmente as relação mãe-filho/a.

Habitualmente essas relações são muito idealizadas, descritas de forma irrealística, como se fossem a expressão pura de um grande e inesgotável amor. A força dessa crença é notável e resiste a qualquer evidência em contrário, coisa que facilmente se constata quando se observam as relações familiares com um cuidado mais detalhado. Quantas queixas contra os pais por parte dos filhos, quantas queixas dos filhos por parte dos pais!

A rigidez com que se apresenta a crença no amor materno e na devoção filial, a dificuldade de tolerar que tais sentimentos não sejam universais e inquestionáveis, parece revelar uma formação reativa, uma fachada que oculta uma realidade psíquica reprimida bem diferente – aquela dos afetos conflitivos e ambivalentes que envolvem as relações primárias próprias de todo ser humano.

Não sendo psicóticos, todos nos constituímos passando pelos desfiladeiros agônicos da ruptura da relação fusional com a mãe e os constrangimentos inevitáveis do Édipo. Ao longo desse trajeto, abrimos mão do desejo de exclusividade do amor materno e aceitamos, a duras penas, que o amor da mãe seja compartilhado com o pai e com os demais irmãos, além de eventuais outros interesses que ela possa ter. Assim, constatamos que a mãe necessariamente nos causou uma grande decepção, ela não correspondeu a nossa expectativa amorosa, ela nos “traiu”.

É verdade que, no decorrer do tempo, constatamos que essa “traição” era necessária e constitutiva. Somente assim abre-se o caminho para o mundo das relações com o outro, com o mundo, com a realidade. Mas é duro reconhecer essa perda prototípica, essa perda que será o modelo de todas as demais perdas que teremos de suportar pela vida afora. O grau de ressentimento e ódio que ela desperta não é pequeno, e deve ser contrabalançado pelo amor que, apesar de tudo, persistiu.

Se descrevemos acima a situação vista pelo ângulo do filho, ao mudarmos de posição e observarmos pelo lado da mãe, vemos que a situação não é mais fácil. O filho vem reavivar na mãe seus antigos conflitos edipianos, nos quais joga importante papel a fantasia de ter um filho como substituto do desejado pênis, assim como aquela de ter um filho do pai, a quem se ligou intensamente após a grande decepção sofrida com a mãe, que a fez “castrada”. Além do mais, ter um filho a faz ocupar o lugar de mãe, o que reativa toda a conflitiva que vivenciou anteriormente com a própria mãe, com a qual se sentirá identificada ou não.

A ruptura da relação com a mãe é constitutiva, pois engendra um vazio que nos organiza como sujeitos desejantes. Mas pode ser vivida imaginariamente como um primeiro e definitivo abandono, o que não afasta a possibilidade de efetivos abandonos realizados na realidade por uma mãe impossibilitada de exercer adequadamente a função materna. Essa impossibilidade pode chegar ao extremo de fazê-la vivenciar a maternidade dentro de referenciais infantis e regressivos, em função dos quais o filho é vivido como um produto incestuoso, prova viva de um crime insuportável e que precisa, conseqüentemente, ser eliminado.

Toda essa momentosa, complexa e delicada trama de fantasias, desejos, amores, ódios, vinganças e culpas fica sepultada, esquecida e substituída por uma “versão oficial” – as mães amam os filhos e, em contrapartida, os filhos igualmente amam as mães.

Essa negação radical parece pateticamente expressa no costume daqueles que se fazem tatuar com a frase “amor só de mãe”.

Ao fazerem tal afirmativa, declaram que o amor de todas as mulheres é falso e enganador, todas elas são infiéis e traidoras. Apenas a mãe foge a essa regra. Ela não trairia jamais, ela merece toda a confiança, somente dela o amor vale a pena.

Não seria o oposto? Por terem vivido de forma traumática e violenta a ruptura da relação com a mãe ou por terem sofrido efetivos abandonos por parte dela, não podem mais confiar em mulher alguma. Todas elas são traidoras e infiéis, como a mãe o foi.

Ao se fazerem tatuar, ou seja, ao gravarem de forma indelével na própria pele essa declaração, estariam negando o irreversível trauma vivido com suas mães. Tentariam assim fazer calar as evidências internas que permanentemente a questionariam ou a negariam.

É como se dissessem “Preciso tatuar isso em mim, para me convencer que é verdade; para negar a terrível percepção do abandono que sofri e o ódio dele decorrente. Preciso tatuar minha mãe em mim, como forma de tentar fazer aquilo que nunca consegui: mantê-la sempre perto de mim, grudada em minha pele, me dando forma e conteúdo, ela que tão pouco ficou comigo”.

Publicado originalmente em Psychiatry on line – Brazil, Fevereiro de 2006 - Vol.11 - Nº 2, Psicanálise em debate [link]

3 comentários 13 de Fevereiro de 2006 às 13:49 Sérgio Telles


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