Arquivo de Agosto de 2000

O PSICANALISTA LÊ OS JORNAIS

1) Texto integral pode mudar imagem de Wolfe – Um caso de amor literário equivocado? – OESP – 6/8/00 – Caderno 2 – Cultura – pg D3

“Uma das histórias mais conhecidas como fábula da literatura americana é aquela na qual o legendário editor Maxwell Perkins elimina 60 mil palavras de uma enorme bagunça de páginas do manuscrito quase ilegível de Thomas Wolfe em 1928 para esculpir a obra de arte “Look Homeward, Angel”. No final das contas, pode ser que Perkins tenha eliminado a parte boa”.

A notícia dá conta da publicação integral do manuscrito de Wolfe em outubro próximo, o que mostrará como a intervenção do editor teria eliminado aspectos mais criativos e originais da obra.

Caso semelhante ocorreu mais recentemente entre o também escritor americano Raymond Carver e Gordon Lish, poderoso editor da revista “Esquire”. Durante anos, Carver deixou-se influenciar por Lish, que tinha opiniões muito definidas sobre a feitura de textos literários. Carver ficou conhecido inicialmente como um contista “minimalista”, forma estética abandonada em suas últimas produções, quando passou a escrever de forma exuberante e expansiva, muito diferente de tudo que fizera até então. Depois de sua prematura morte, veio a se saber que aquela postura “minimalista” era uma imposição do editor e não uma escolha formal do autor. Afortunadamente, Carver afastou-se a tempo do mentor, livrando-se de uma submissão voluntária que o constrangia.

Nestes dois casos, de Wolfe e Carver, a relação editor-autor parece reproduzir, de certa forma, o vínculo dual narcísico mãe-filho, na medida em que o editor ocupaa posição de poder absoluto ao qual o autor, em dependência completa, deve submeter-se no que diz respeito à publicação. O aspecto fusional da relação gera uma padrão mortífero de submissão e alienação no desejo do Outro, de consequências destrutivas. O autor se aliena no desejo do editor, perdendo suas próprias características.

No caso de Wolfe, vemos que o mais inovador de sua obra foi desprezado, com sua concordância, pelo editor: os que leram agora o manuscrito integral, dizem que o mesmo foi descaracterizado com essa supressão, perdendo com ela aspectos essenciais. O caso de Carver tem um complicador a mais, pois Lish era também escritor. Impossível não pensar na eclosão de sentimentos derivados da inveja e da rivalidade, que dificultariam ainda mais o papel do Lish. Afortunadamente, Carver conseguiu romper este elo e assumir seu próprio desejo, dando a seus escritos uma face que lhe era própria.

É claro que as peculiaridades destas duas relações devem-se às características psíquicas das pessoas envolvidas, mas também a outros fatores. Um autor desconhecido está disposto a fazer concessões para ter acesso ao mercado e sabe que o editor pode orientá-lo neste sentido. Além do mais, não se sente ainda totalmente seguro do valor de sua própria criação, coisa que ocorrerá quando for um nome respeitado. Ao editor cabe, pois, o delicado papel de tornar possível a publicação, intermediando o diálogo entre o autor e seu futuro público.Para tanto, deveria ter sensibilidade para não intervir demasiado e não impor opiniões descabidas.

2) “Grupos dos EUA quer direito de não ter filhos” – FSP – 6/8/00 – pg A19

Grupos de casais americanos criaram movimento “childfree” (sem crianças, livre de crianças). Advogam o direito de optar pela não procriação, lutam contra as pressões sociais que exigem a m/paternidade, pedem que lhes sejam extendidos os benefícios fiscais dirigidos aos casais com filhos. Entre seus objetivos estão: lugares de divertimento livre de crianças, prédios de apartamento sem crianças, direito de fazer vasectomia/ligadura de trompas a qualquer momento sem dar explicações ao médico.

Via Internet, vários grupos foram criados, “No kidding” (trocadilho que significa “falando sério” e “sem crianças”), sediado no Canadá, é o principal . Segundo os porta-vozes, haveria um milhão de pessoas ligadas ao movimento. Um número não muito grande na estatística estadunidense de 13 milhões de casais sem filhos versus 32 milhões de casais com filhos menores de 18 anos.

Um deles diz: “Enquanto meus amigos levam suas crianças para comer no McDonald’s, eu viajo com minha moto para o México. Eles compram roupas e material escolar, eu aprendo a pilotar um avião; os filhos deles vão ao acampamento de verão, eu vou ao Havaí com minha mulher”.

Tal afirmação parece mostrar o egoísmo e infantilismo psíquico do homem que a proferiu. Enquanto os pais agem de maneira altruísta (objetal, não narcísica), cuidando dos filhos, o autor da frase revela um narcisismo desbragado, está interessado em sua pessoa e se aferra a prazeres imediatos dos quais não quer abrir mão.

Estes grupos “childfree” são evidências de mudanças sociais e colocam interessantes e novos problemas a serem enfrentados por todos que trabalhamos com saúde mental.

Do ponto de vista analítico, entendemos que esta decisão, como qualquer outra, obedece a determinantes que vão muito além das escolhas conscientes. Deriva de fantasias inconscientes.

Assim, a primeira impressão quando se ouve um casal adulto dizer que não quer ter filhos (atenção, é muito diferente dos que não podem tê-los) é a de sua imaturidade emocional. O desejo ligado à m/paternidade está reprimido por ligações inconscientes.

Filhos vividos como produtos incestuosos condenáveis, deixando a p/maternidade como crime passível da pior punição. Revivescência do insuportável nascimento de irmãos na infância. Transformação do cônjuge numa figura parental da qual se é o exclusivo proprietário, ao contrário do que ocorreu na infância, onde esta figura tinha de ser compartilhada com um dos pais e demais irmãos. Essas e outras possíveis fantasias podem impedir o desejo de procriar.

Embora essa seja uma visão possivelmente correta, devemos estar atentos a seu uso político e moral, pois ela desautoriza de imediato o casal portador de tal desejo, quase da mesma forma como os preconceitos culturais e morais o fazem.

Devemos lembrar que a cultura se instala num inevitável mal-estar decorrente da repressão da sexualidade e da agressividade. A sociedade ritualiza as práticas sexuais, autorizando-as através de alianças e cerimônias. Ao casal é dada a permissão da prática sexual e dele é esperado, em troca, a procriação. Não é demais lembrar que, no rigor da letra, o Vaticano chega a dizer que as relações sexuais entre os cônjuges devem ter como objetivo único a procriação.

Essa é uma questão moderna. Desde a consolidação dos métodos anti-concepcionais, o sexo ficou definitivamente desvinculado da procriação. Até que ponto a exigência e a cobrança social pela procriação não advém de uma atitude repressiva e autoritária, que vê o sexo não como uma atividade prazeirosa em si, mas apenas como veículo da procriação?

O que fazer então com um casal que declara não querer filhos? Sob suspeita de estar driblando a norma comum ao visar o prazer sem pagar o preço, ameaça colocar em risco o custoso equilíbrio da organização social, deve então ser exemplarmente combatido.

Em que diferenciaria essa postura da psicanalítica, que aparentemente desautoriza também o casal, tal como as sanções sociais?

A pressão cultural e moralista é antes de mais nada repressiva, intolerante com o diferente, sente-se ameaçada com tudo que não segue à risca seus ditames e tenta impô-los a qualquer custo sobre o que se desvia do rebanho.A pressão social é coercitiva, cerceia a liberdade, impede o exercício da livre escolha na esfera do privado. Além do mais, é profundamente equivocada pois, mesmo do ponto de vista social, é menos prejudicial um casal que assume não querer ter filhos do que aqueles que os têm, estando psiquicamente imaturos, incapazes de exercer as funções paterna e materna.

Vê-se a radical diferença com a postura psicanalítica. Esta pressupõe que qualquer escolha está determinada por conflitos inconscientes que, na verdade, aprisionam o homem na compulsão à repetição, na impossibilidade de usufruir das oportunidades da vida atual. Sua intervenção pretenderia libertar o homem de amarras inconscientes, deixando-o livre para escolher dentro de parâmetros realísticos e não mais acorrentado à fantasmática infantil.

3) Psicologia – Senso comum gera medo – Percepção de risco é “escolha” de cada um. Psiquiatria – correlação entre depressão e práticas de risco surpreende cientistas. FSP – 6/8/00 – pg A25

Estas duas notícias mostram como a psicanálise sofre atualmente um processo de degredo, de tentativa de olvido sistemático. Ou, usando o próprio arsenal analítico, um processo de repressão. O teor destas notícias faz “tabula rasa” de todo e qualquer pressuposto analítico.

A primeira delas vem, irônicamente, de um “centro de estudos de risco” da Universidade Clark, Worcester, Massachussets, lugar onde Freud proferiu suas “cinco conferências” em setembro de 1909. Diz como as pessoas avaliam as situações de risco de forma irracional: ignoram perigos verdadeiros e escolhem situações anódinas, onde centram seus temores. Isso, a meu ver, é apenas uma nova e pobre descrição das fobias – que não passam disso: medos irracionais, cuja compreensão deve-se a Freud, ao descobrir o funcionamento do inconsciente, com seus mecanismos de condensação e deslocamento.

A segunda vem da Nova Zelândia, publicada no British Medical Journal do mês passado. Descobre perplexa que “a depressão está ligada a comportamento sexual de risco” e diz que o trabalho é o “primeiro a estabelecer vínculos seguros entre a ampla gama de doenças psiquiátricas e o comportamento sexual”. O autor parece ter esquecido, se é que algum dia o soube, que a depressão está, sim, ligado a todos os comportamentos de risco, na medida em que nela predomina a pulsão de morte, a agressão, o super-ego sádico, a necessidade inconsciente de castigo, o desejo de ser punido, o sentimento de nada merecer a não ser a morte. Manifesta o mesmo esquecimento quanto ao papel central que Freud atribui à sexualidade em seu trabalho.

4) Greenpeace perde sócios e entra em crise – Entidade ecológica arrecada menos e deve promover um corte radical nos gastos - OESP – 6/7/00 – pg A17

No momento presente, especialmente em países como o nosso, os políticos perderam toda a credibilidade. Mergulhados que estão na falta de consciência e na corrupção, de há muito deixaram de ser representantes do interesse coletivo junto ao Estado. Frente ao desamparo e desesperança cívicas daí resultantes, as Organizações Não Governamentais (ONGs) parecem ser uma alternativa possível de intervenção política mais direta e puntual, possibilitando o aparecimento de grupos de denúncia e de pressão com alta visibilidade, criando atos da maior relevância. A Greenpeace tem sido o exemplo maior desta nova forma de intervenção da cidadania.

Vê-se agora que atravessa período ruim, de baixa arrecadação de fundos. O motivo desta crise é ter feito denúncias que não pôde comprovar de forma convincente (previsão de catástrafe ecológica desencadeada por plataforma de petróleo da Shell, no Mar do Norte), assim como um cansaço do público: suas atuações já não provocam o mesmo impacto de antes.

Mais recentemente, tentou provar que o British Museum, “sanctu sanctorum” da correção política, estaria importando madeira da floresta amazônica.

O trabalho da Greenpeace, em minha opinião, continua da maior importância, independende de seus eventuais exageros. Ela mais do que ninguém desmascara a hipocrisia do Primeiro Mundo em relação a nós aqui na periferia, no Terceiro Mundo.

Isso fica muito claro em todas as suas intervenções, como esta última sobre a madeira amazônica.

Somos acusados de destruir a floresta tropical. Somos tidos como ignorantes, desonestos, irresponsáveis. Os que nos acusam “se esquecem” de perguntar porque estaria sendo desmatada a Amazônia. Não querem ver, como mostra o Greenpeace, para onde vai esta madeira contrabandeada, avidamente adquirida por este mesmo Primeiro Mundo que pôsa de vestal indignada frente a nossa “incúria”.

O mesmo poder-se-ia colocar em relação à cocaína colombiana. Os Estados Unidos querem combatê-la na Colômbia. “Esquecem” que são o maior mercado da droga. Não seria uma forma de combater o narcotráfico o contrôle sobre o contrabando da droga e sua distribuição em seu próprio país, ao invés de estarem tão atentos à produção numa outra nação, onde efetivamente pouco podem fazer?

A Greenpeace tem agido como um analista, no sentido de romper com a dissociação “nós (Primeiro Mundo) bons, eles (Terceiro Mundo) maus”. Sua atuação enfrenta fortíssima resistência exatamente por isso, por forçar uma integração de elementos projetados, cindidos, negados. Façamos votos que vença sua crise financeira e continue trazendo constrangimentos salutares aos intocáveis do Primeiro Mundo, como o British Museum.

Publicado originalmente em Psychiatry on line – Brazil, Agosto de 2000 - Vol. 5 - Nº 8, Psicanálise em debate [link].

Adicionar comentário 31 de Agosto de 2000 às 20:46 Sérgio Telles

“Gente da Sicília” e “Cronicamente Inviável”

Dois filmes que lidam com o problema da identidade.

1)Sicilia!” (Gente da Sicília), do casal Jean-marie Straub e Danièlle Huillet

Baseia-se no romance “CONVERSA NA SICILIA” de Elio Vittorini, dos anos 30, censurado pela fascismo. O enredo é simples: um homem que mora no norte da Itália, volta ao lar antigo, na Sicília, onde faz descobertas sobre seu passado.

O que chama atenção é a forma escolhida pelo casal diretor para esta transposição de um texto literário para a tela. O filme tem pouco mais de 60 minutos mas sua extraordinária secura faz com que muitas pessoas abandonem a sala de projeção antes do fim. Beirando um documentário neo-realista do pós-guerra italiano, exibe uma total desglamurização dos personagens e do cenário, do próprio cinema como forma de arte. É como se os diretores quizessem não representar a dureza daquelas vidas, mas trazê-la diretamente, sem intermediação da arte. O mesmo se poderia dizer do tratamento dado ao tempo, que parece ter uma realidade própria, concreta, como se o próprio tempo “real” nos envolvesse a todos, espectadores e atores. A câmara quase parada grava as longas falas, que são ditas num tom naturalistico, apesar de adquirirem um tom declamatório, como se cada ator executasse uma ária. A quase ausência de diálogos, a predominância de monólogos, parece ressaltar a solidão e introspecção dos personagens. (…)

O texto completo encontra-se no livro “O psicanalista vai ao cinema” - EdUFSCar / Casa do Psicólogo, 2004.

2) “Crônicamente inviável“, de Sergio Bianchi.

Um escritor perambula pelos rincões distantes do Brasil, tentando entender-lhe a essência, despejando seu cinismo sobre tudo que vê. Intelectuais discutem os temas da identidade brasileira, mais ou menos como se discutia o sexo dos anjos na sitiada Bizâncio. Um casal burguês ostenta com orgulho sua “mauvaise conscience”, às volta com jantares, festinhas, benemerências. No microcosmo de um restaurante seguimos o périplo dos migrantes, que oscilam entre o trabalho aviltante e a prostituição, as relações perversas entre patrão e empregados, a escalada social da ambiciosa “hostess”, disposta a tudo para “chegar lá”.

Uma indigesta mistura de sem-terras, sem-tetos, sem-nadas, cheiradores de cola, migrantes, mobilidade social, negação das próprias origens, madames apressadas que atropelam meninos de rua e logo dizem não ter culpa nenhuma, empregadas domésticas “amigas” das patroas, preconceitos de variada temática: negros, crioulos, nordestinos, judeus, brancos quatrocentões, indios, descendentes de europeus, ricos, pobres e remediados. (…)

O texto completo encontra-se no livro “O psicanalista vai ao cinema” - EdUFSCar / Casa do Psicólogo, 2004.

Adicionar comentário 30 de Agosto de 2000 às 20:54 Sérgio Telles


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