Arquivo de Junho de 2000

Existe uma Weltanschauung (cosmovisão) psicanalítica?

Muitas vezes ouvimos dizer que não existe uma Weltanschauung (cosmovisão) psicanalítica. Essa frase sempre aparece em contextos onde se tenta afastar qualquer conotação onipotente e totalizante do saber psicanalítico.

A meu ver, esta afirmação advém de uma leitura apressada da Conferência XXXV, justamente intitulada “A Questão de uma Weltanschauung”, a última das “Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”, que Freud escreveu em 1932.

Para que as coisas fiquem mais claras, vamos ver como Freud conceitua Weltanschauung. Diz ele: “Suponho que Weltanschauung seja um conceito especificamente alemão, cuja tradução para línguas estrangeiras certamente apresenta dificuldades. Se eu tentar uma definição, minha definição estará fadada a ser incompleta. Em minha opinião, Weltanschauung é uma construção intelectual que soluciona todos os problemas de nossa existência, uniformemente, com base em uma hipótese superior dominante, a qual, por conseguinte, não deixa nenhuma pergunta sem resposta e na qual tudo o que nos interessa encontra seu lugar fixo. Facilmente se compreenderá que a posse de uma Weltanschauung desse tipo situa-se entre os desejos ideais dos seres humanos. Acreditando-se nela, pode-se sentir segurança na vida, pode-se saber o que se procura alcançar e como se pode lidar com as emoções e interesses próprios da maneira mais apropriada.”

Freud logo acrescenta que a psicanálise, não poderia ter sua própria e independente Weltanschauung, pois sendo ela um ramo da ciência, seu ramo “psicológico”, deve necessariamente compartilhar da Weltanschauung que é própria da ciência. É preciso esclarecer, diz Freud, que esta Weltanschauung da ciência já diverge bastante da definição antes proposta, na medida em que apesar de pressupor “uma uniformidade da explicação do universo, o faz na qualidade de projeto, cuja realização é relegada ao futuro”.

Vou novamente citá-lo dado a clareza e a importância de suas afirmações. Diz ele: “Ademais, marcam-na (a esta Weltanschauung cientifica) características negativas, como o fato de se limitar àquilo que no momento presente é cognocível e de rejeitar completamente determinados elementos que lhe são estranhos. Afirma (esta Weltanschauung) que não há outras fontes de conhecimento do universo além da elaboração intelectual de observações cuidadosamente escolhidas – em outras palavras, o que podemos chamar de pesquisa – e, a par disso, que não existe nenhuma forma de conhecimento derivada da revelação, da intuição ou da adivinhação”.

Deixemos sublinhado que: a) Freud deixa claro que a psicanálise tem sim uma Weltanschauung, que é a cientifica, b) Ao especificar as características “negativas” da Weltanschauung científica, Freud faz uma importante declaração epistemológica a respeito da produção de conhecimento.

Aliás, diga-se entre parênteses, que esta coluna se pretende uma evidência disto, da existência de uma Weltanchauung psicanalítica, ou seja, científica sim, como bem explicitou Freud, mas com as caracteristicas próprias de nossa “ciência”, como já abordamos aqui mesmo noutras ocasiões. Seus pressupostos são a existência de um inconsciente estrutural, regido pelas leis do processo primário; isto faz com que o aparelho psíquico se configure de forma dividida pela repressão ou pela cisão, o que permite a produção de formações de compromisso que se expressam como sintomas, atos falhos, parapraxias, sonhos, distúrbios da conduta e comportamento; este aparelho se organiza em função do Complexo de Édipo, que – por sua vez – ressignifica retroativamente o trauma narcísico primário; tudo isso se evidenciando e atualizando na transferência . É através desta Weltanchauung que o psicanalista “vai ao cinema”, “lê o jornal” e exerce a clínica.

Retomando as considerações epistemológicas de Freud, o que ele está tentando estabelecer é a diferença radical entre o conhecimento produzido pela ciência, obtido rigorosamente dentro dos limites do princípio da realidade, e todas aquelas outras produções que são confundidas com o conhecimento, mas que não passam de ilusões decorrentes da realização de desejo, baseadas que são no princípio do prazer.

O conhecimento científico, por exemplo, não pode se apoiar em “revelações”, base de todo o “conhecimento” oferecido pelas religiões. O conhecimento científico é fruto de observação e pesquisa da realidade, produzido num longo processo de tentativa e erro, com seus ensaios e correções, comparação, possibilidade de descrição e reprodução nas circunstâncias estudadas. As “revelações” são dados que a divindade oferece e que devem ser acatados sem maiores questionamentos.

O que está implícito em tudo isso é que diferentes Weltanschauungen produzem diferentes formas de “conhecimento”. Se já citamos duas Weltanschauungen, a religiosa e a científica, Freud ainda cita mais duas, a artística e a filosófica. Reconhece, entretanto, que a relação mais problemática é a que se estabelece entre a Weltanschauung científica e a religiosa, pois a artística de antemão se supõe uma ilusão, e a filosófica caminha próximo da Weltanschauung científica, equivocando-se apenas por sobrevalorizar o poder de suas formulações racionais, o que a faz incorrer em graves erros.

Quando Freud diz que das quatro Weltanschauungen, a relação mais problemática é a que se estabelece entre a religiosa e a científica, é por reconhecer que aquilo que a ciência oferece para a humanidade é muito pouco e muito severo comparado com as onipotentes ofertas das ilusões religiosas. Frente às dificuldades da condição humana, com seu desamparo, sua fragilidade, seu desconhecimento, sua perplexidade frente a morte, a religião oferece todas as respostas e reasseguramentos desejados. Frente nossos medos mais arraigados, a religião oferece uma organização que reproduz a situação infantil, onde pais todo-poderosos cuidam dos filhos desvalidos, dão todas as respostas, todas as garantias.

A ciência, pelo contrário, nos faz ter de lidar com o desconhecido e trabalhar para chegar a um conhecimento eficaz. É verdade que somente assim, reconhecendo o desconhecimento e lutando contra ele que a ciência produz um conhecimento de valor inestimável por ser através dele que o homem consegue um progressivo domínio sobre a natureza, criando novas facilidades que possibilitam uma melhor qualidade de vida. Mas para a grande maioria das pessoas, isso é irrisório frente às “certezas” que a religião oferece.

Neste ponto central, a religião é o oposto da ciência, representada aqui pela psicanálise. A religião atende aos mais profundos e regressivos anseios inconscientes de proteção e amor, enquanto a psicanálise (a ciência) mostra o infantil e regressivo deste desejo e conclama para o homem lutar com suas próprias forças para superar os dilemas que são próprios da vida.

Assim, se podemos reconhecer a diferença entre conhecimento e as ilusões fruto de realização de desejos infantis proporcionados pela religião, não se pode ignorar ou diminuir a extraordinária importância que esta exerce – justamente por este motivo - para a vida humana.

Como está claro, as Weltanchauungen cumprem um importante papel defensivo na angústia decorrente do desamparo humano. São estruturas simbólicas que possibilitam a representação de um mundo organizado, no qual é possível o ser humano situar-se e agir de modo operacional.

As ideologias que marcaram tão intensamente o nosso tempo podem ser consideradas como pequenas Weltanchauungen. As ideologias, quer sejam de direita ou de esquerda, organizam todo um modo de ver o mundo e a realidade, veiculam fortes paixões, atendem a fantasias de realização de desejo frente a como as sociedades deveriam ser organizadas, criam sistemas idealizados que as aproximam significativamente da Weltanschauung religiosa e as afastam totalmente da científica.

Como se formariam estas cosmovisões, estas Weltanschauungen, as ideologias ? Lembramos que o sujeito se constitui dentro da família, onde os pais oferecem os modelos básicos de identificação organizatória do aparelho psíquico e veiculam para o filho, juntamente com a linguagem, os valores básicos da cultura onde estão imersos e os valores específicos da própria família. Assim, as cosmovisões e ideologias de cada família serão adotadas ou não pelo filho, em função das identificações ou movimentos opostos a ela, frutos da conflitiva edipiana. Mas concordando ou não com a Weltanschauung dos pais, estes valores serão introjetados, farão parte do ideal do ego e do superego, constituirão importante componente do sentimento de identidade do sujeito. Esses valores ainda possibilitarão laços sociais, através da formação de grandes grupos geradores de identificação entre seus membros.

Era por ter em mente essa transmissão inconsciente das Weltanschauungen e ideologias dos pais que Freud demonstrava, em “A Questão de uma Weltanschauung”, grandes dúvidas sobre a possibilidade de a Revolução Russa poder construir um novo homem. Infelizmente suas previsões foram confirmadas pela história. Depois de 80 anos de ensino sistemático de materialismo dialético, o estado soviético não conseguiu afastar a religião e os comportamentos egoístas de seus concidadãos. Para que o novo homem surja, não é suficiente a alteração da organização econômica e política. É necessário levar em conta os complexos processos de sua constituição como sujeito, sua organização pulsional, o que se dá na intimidade da família, onde o estado não tem acesso direto.

Este mesmo raciocínio pode ser empregado para entendermos o inesperado e surpreendente ascensão de um simpatizante do nazismo como Heider na Áustria de hoje.

Tendo tudo isso em mente, fica claro então que eventuais abalos nestas visões de mundo, nestas Weltanschauungen, nestas ideologias, possam ter efeito profundamente desestruturador da própria identidade do sujeito em causa. Estes dias em que comemoramos os 500 anos do Descobrimento oferecem um exemplo disso. Imaginemos o trágico efeito que a chegada do colonizador europeu provocou sobre a Weltanschauung dos ameríndios. Modo de se ver, de ver o mundo, ver a relação com o sagrado - tudo posto em cheque da maneira mais radical e irreversível.

Um outro exemplo atual diz respeito àqueles que comungavam com uma ideologia de esquerda e que foram surpreendidos com as reviravoltas trazidas pela história, fazendo-os perder referenciais organizatórios idealizados importantes. Isso gera em muitos uma penosa desorientação que é combatida, não poucas vezes, com um cego aferrar-se à situação anterior, a um negar a realidade atual. Somente elaborando-se o luto por estes ideais se recuperará a capacidade de criticar as injustiças sociais e propor novos modelos de mudança, diferentes daqueles que a realidade demonstrou serem inexeqüíveis. É preciso também saber discriminar que se a pretendida solução para os problemas sociais revelou-se inadequada, isso não invalida a constatação da existência destes problemas e a necessidade de erradicá-los.

De fato, a queda do muro de Berlim e a revelação dos horrores totalitários da ditadura do proletariado nos forçam a reconhecer que o sonho de mudar o mundo através da revolução levou a aberrações com um alto custo humano. Este reconhecimento é doloroso, mas sua negação leva a uma paralisação depressiva. É necessário fazer o luto por este sonho e com isso recuperar a capacidade de sonhar.

De certa forma, a depressão causada pela perda deste sonho de poder mudar o mundo, de construir um mundo melhor, de ter um papel ativo nesta mudança joga um papel importante no mal-estar da cultura de hoje em dia. Joel Birman acha que isso é um elemento importante na atual crise que a psicanálise atravessa. Se nos anos 60 se acreditava que era possível mudar o mundo externo com a revolução, também se acreditava que era possível mudar o mundo interno com a psicanálise. Como o primeiro se revelou impossível, isso desencadearia uma descrença na segunda possibilidade.

Estas considerações me vieram à mente ao receber dois e-mails protestando contra algumas opiniões que expressei nesta coluna a respeito da Igreja Católica e da Revolução Cubana.

Muito me alegra o estabelecimento de uma correspondência com os leitores, pois ela possibilita um intercâmbio que deve ter como norma uma perspectiva não-narcísica, ou seja, aquela que respeita o outro, o não-eu, o diferente-de-mim, aquela que não quer catequizar ninguém, que defende a liberdade de idéias e crenças.

Publicado originalmente em Psychiatry on line – Brazil, Junho de 2000 - Vol. 5 - Nº 6, Psicanálise em debate [link].

Adicionar comentário 30 de Junho de 2000 às 20:33 Sérgio Telles

O psicanalista lê o jornal

Altos interesses comerciais e a psiquiatria Na linguagem lacaniana, o real é inacessível, e a realidade é o produto resultante da rede simbólica e imaginária jogada sobre o real.

* O jornal Valor, do dia 8/5/00, em artigo intitulado “A Síndrome da nova economia”, fala do burnout , “síndrome responsável por uma combinação explosiva de falta de motivação para o trabalho, sensação de impotência, sentimento de derrota, doenças cardíacas e gastrointestinais, com uma não menos perigosa – para indivíduos e empresas – queda na produtividade”.

* A Gazeta Mercantil (6/7 de maio do corrente ano) em artigo intitulado “Ansiedade em Alta”, aborda tema semelhante ao falar da tensão e depressão em executivos. Traz alguns dados interessantes: “Nos Estados Unidos, o total de receitas de drogas psicoativas aumentou de 131 milhões em 1998 para 233 milhões no ano passado. O mercado americano de antidepressivos movimenta US $ 6,5 bilhões por ano. Existe atualmente um mercado de US $ 7 bilhões para os antidepressivos no mundo todo, com expansão prevista para 50% em cinco anos. Só no Brasil há mais de 40 antidepressivos à venda. Nos últimos dez anos, dobrou o número de consumidores desse tipo de medicamento no país.[…] Pessoas de diferentes culturas e tradições produzem diferentes somatizações. A China, por exemplo, sofre 200 vezes menos de depressão profunda que os EUA, país que gasta US $ 44 bilhões – o mesmo montante gasto com doenças cardíacas – com a depressão, segundo pesquisa do Massachussetts Institute of Technology (MIT)”.

* O suplemento MAIS da Folha de São Paulo de 28/5/00 traz o artigo “Sociofobia – o comércio da timidez”, traduzido da revista americana “The New Republic”.

Este artigo levanta várias questões importantes. A maior delas é sobre a problemática questão do estabelecimento de novos quadros nosográficos e sua relação com a indústria farmacêutica. O caso da “sociofobia” é bem esclarecedor. Até 1985, um quadro nosográfico inexistente, atualmente diagnostica a espantosa cifra de 35 milhões de norte-americanos.

O que teria desencadeado tão importante mudança foi um artigo publicado em julho de 1985, “Sociofobia: Análise de um distúrbio da ansiedade negligenciado”, de Michael R. Liebowitz, diretor de clínica e distúrbios da ansiedade do Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova Iorque. Neste artigo o autor critica critérios nosográficos anteriores que colocavam a “sociofobia” nos quadros de “timidez geral mais grave, considerada imune a intervenções farmacológicas”.

Dr. Leibowitz, que também dá “consultoria ao setor farmacêutico”, disse em entrevista ao “The New York Times” que “quando a incidência da sociofobia chegou a 8% ou 9% (em boa parte graças à definição ampliada que ele defendeu) as empresas de medicamentos demostraram um agudo interesse pela sina dos sociofóbicos”.

Atualmente, há campanhas publicitárias – cujo mote é “imagine ser alérgico a gente” - para esclarecimento ao grande público da existência avassaladora desta doença, juntamente com a boa nova de que ela é tratável medicamentosamente. Essas campanhas são financiadas pela SmithKline, laboratório que produz o PAXIL, que - por coincidência - é justamente a medicação indicada para a nova doença…

David Healy, diretor do departamento de medicina psicológica da Universidade do País de Gales, afirma que ” as empresas farmacêuticas evidentemente fabricam remédios, mas menos evidentemente fabricam opiniões sobre as doenças. Não o fazem forjando novas idéias nos laboratórios farmacêuticos, mas reforçam certas opiniões”(grifos meus).

Em um livro seu, Healy “nota um padrão emergente no campo da medicina psiquiátrica: sabe-se da existência de um distúrbio mental relativamente raro, descobre-se o efeito de uma droga psicotrópica sobre o problema e em seguida o índice de diagnósticos aumenta exponencialmente. Ele verifica esse aumento na história da depressão, do distúrbio do pânico, do distúrbio obsessivo-compulsivo e da sociofobia”.

O artigo faz ainda graves considerações: “Cada vez mais psiquiatras estão saindo de cena enquanto os vendedores de medicamentos ‘educam’ práticos e internos para identificar e tratar (isto é, medicar) os distúrbios mentais. Nada disso pretende sugerir que algumas pessoas não estejam sofrendo. Existem os que têm um medo debilitante do intercâmbio social.[…] Mas que o sistema de saúde mental e as empresas farmacêuticas afirmem que 35 milhões de americanos vagam num mar de timidez patológica ultrapassa o limite do plausível. É mais provável que essa ‘epidemia’ seja uma nova etapa da cruzada cultural para ‘medicalizar’ qualquer característica – física ou de comportamento – que não se enquadre nos falsos ideais criados pela cultura pop, pela publicidade e pelas normas morais e políticas em mutação. Sem falar nos interesses econômicos desencadeados por tal ‘epidemia’.

Esse assunto não é novidade e preocupa a todos que temos consciência dos graves problemas nele envolvidos, por isso mesmo é ele periodicamente abordado em nossa Lista de Psiquiatria. É imprescindível que nós tenhamos consciência da importância de nossa prática e dos interesses econômicos que ela involuntariamente provoca. É necessário reconhecer os avanços da neuroquímica cerebral e sua aplicação na indústria farmacêutica. É importante investir nos esforços para o estabelecimento de critérios mais objetivos e claros no diagnóstico, coisa que possibilita a obtenção de dados estatísticos confiáveis das doenças mentais, mas é importante discriminar os abusos que podem ser cometidos e as eventuais imposturas que se escondem atrás das fachadas tidas como “científicas”.

Publicado originalmente em Psychiatry on line – Brazil, Junho de 2000 - Vol.5 - Nº 6, Psicanálise em debate [link].

Adicionar comentário 28 de Junho de 2000 às 20:35 Sérgio Telles


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