Comentários econômicos na imprensa

Comentários econômicos na imprensa
Sérgio Telles

Num momento de crise econômica como o que vivemos, muitos buscam informações nas páginas de economia em jornais e revistas, visando preservar suas poupanças de danos maiores.
De modo geral, tais leituras são frustrantes.
Em primeiro lugar, porque o leitor percebe que as próprias autoridades não parecem muito seguras sobre o assunto. O que, aliás, não surpreende. Afinal, como é possível que uma crise de dimensões tamanhas possa ter ocorrido sem que as supostas autoridades não se apercebessem e tomassem as devidas providencias?
Por se expressarem através de estatísticas e números, os dados econômicos adquirem a aparência de ciência exata, fazendo-nos esquecer que a economia faz parte das ciências sociais, está mais próxima das humanidades, onde jogam um papel mais decisivo o desejo inconsciente, o pensamento mágico e onipotente, a louca voracidade pelo poder.
Em segundo lugar, o leitor não consegue entender o jargão usado, o economês incompreensível para os leigos, entremeado que é de cifras e números.
É verdade que cada campo do saber tem sua linguagem própria, que precisa ser traduzida, digamos assim, para a compreensão geral.
No caso da economia, a transparências da informação através de uma linguagem clara encontra ainda outros obstáculos. Num país como o nosso e no momento em que vivemos, a economia está tão intimamente atrelada à política que fica quase impossível discriminar um campo do outro. E o compromisso com a verdade por parte do discurso político é, para dizer o mínimo, muito tênue.
Não esqueçamos, entretanto, que a questão da linguagem é muito mais ampla. Com ela saímos da natureza e ingressamos no mundo simbólico, na cultura.
Através da linguagem nos comunicamos e, com sua forma escrita, registramos para as futuras gerações a historia e o conhecimento acumulado no correr do tempo.
Tudo estaria muito bem se a linguagem não mantivesse uma incontrolável ambigüidade, não acolhesse os duplos sentidos e com isso não se constituísse numa permanente fonte de mal-entendidos, mesmo quando aquele que a usa age de boa fé e pensa estar expressando aquilo que acredita ser a verdade.
Refletindo a dualidade intrínseca do ser humano, que tem permanentemente abertas à sua frente as trilhas do bem e do mal, a linguagem nos permite dizer a verdade e expressar amor, tanto quanto dizer a mentira e manifestar o ódio e a destrutividade.

Adicionar comentário 1 de Junho de 2009 às 10:34 Sérgio Telles

Na janela de Sorín, o panorama atual da paternidade (*)

Na janela de Sorín, o panorama atual da paternidade (*)

Sérgio Telles

O diretor argentino Carlos Sorin diz que seu filme “A Janela” deve muito a “Morangos Silvestres” de Ingmar Bergman. De fato, ambos abordam a velhice e a iminência da morte, ao mesmo tempo em que refletem sobre a difícil relação entre pai e filho.
Mas se “Morangos Silvestres”, com seu enredo complexo e personagens de grande densidade psicológica, é um rico banquete, o que “A janela” oferece é uma refeição magra e frugal, da qual saímos insatisfeitos, com uma incômoda sensação de fome.
Em “A Janela”, pouco se sabe dos personagens. Um velho escritor, Dom Antonio, vive isolado em sua fazenda, cuidado por duas empregadas. Está muito doente e por ordens médicas deve ater-se ao leito. Espera a chegada do filho, pianista internacionalmente famoso, que não vê há décadas, em função de um obscuro desentendimento. Tendo em vista a visita do filho, o velho manda afinar o piano há muito abandonado. O afinador encontra soldadinhos de chumbo enfiados entre suas cordas, o que impedia o som de determinadas teclas. Seria uma indicação da antiga belicosidade vivida entre o pai e o filho que emudecera não só o piano, mas a própria comunicação entre eles? O filho chega com a mulher, o pai brinda com um champanhe guardado para o grande evento e morre em seguida, sem que os dois tenham oportunidade para qualquer aproximação.
O reencontro, cercado de cuidadosos preparativos por parte do pai, termina por não acontecer. Assim como o piano zelosamente afinado permanecerá em silêncio, os personagens não puderam tocar em suas emoções guardadas por tanto tempo.
O expectador também se preparara para o encontro do pai com o filho, na expectativa de entender o motivo da separação e se emocionar com a anunciada reaproximação. Tal como os personagens, tem de se contentar com a impossibilidade, o vazio, o vácuo.
Ao deliberadamente fazer um filme frustrante, que provoca no expectador uma vivência de insatisfação e incompletude, Sorin, de certa forma, transcende a história que conta e a transforma diretamente numa grande metáfora do vazio em torno do qual, segundo Lacan, se organiza nosso psiquismo, o vazio gerador do desejo humano, que busca sem cessar algo inalcançável, para sempre perdido.
Este salto realizado por Sorin não anula o interesse no enredo nem nos impede de nele detectar algumas pistas sobre os personagens e suas desavenças.
Ao intitular seu filme “A Janela”, Sorín sublinha um gesto enigmático de Dom Antonio. Em meio aos arranjos para a chegada do filho, de forma inopinada, ele abandona seu leito de enfermo, seu posto à janela e sai pela porta da casa, embrenhando-se no amplo espaço exterior, no qual sua debilidade se manifesta com toda intensidade.
Porque desobedeceria ele às ordens médicas? Estaria apressando a própria morte, evitando assim encontrar o filho e os velhos conflitos? Ou, pelo contrário, estimulado por sua vinda, nega de forma onipotente sua condição de doente e tenta retomar a plenitude da vida? Seria tudo isso fruto de sua ambivalência frente ao filho?
Por sua vez, ao chegar, o filho parece indiferente e distante, diz pouco lembrar da casa. Ao encontrar os soldadinhos de chumbo em cima do piano, de forma furtiva os guarda no bolso do paletó, como se os escondesse, reprimindo antigas lembranças.
Uma das poucas informações que temos sobre Dom Antonio é fornecida por um sonho que ele relata logo no início e que retorna no final do filme.
O sonho revive um episódio de sua mais remota infância. Vê a mãe colocá-lo na cama para dormir e sair, atendendo ao chamado do pai, que a leva para a festa que se desenrola no andar de baixo. Em seu lugar, a mãe deixa uma bela jovem a velar por seu sono. A cena evoca o início de “Em busca do tempo perdido” de Proust - o beijo noturno com o qual a mãe de Marcel o punha na cama, sua angústia ciumenta de perdê-la para o pai e para os convidados que a esperavam em outras dependências da casa.
A lembrança de momentos arcaicos através do sonho – que ocorre também em “Morangos Silvestres” – aponta para aquilo que Freud chamou de a atemporalidade do inconsciente. Mesmo em pessoas da mais avançada idade, persistem as imagens e fantasias infantis, passíveis de serem reativadas ao sabor das associações psíquicas e eventos da realidade.
Tal sonho é um prenúncio de sua morte e lembra a interpretação que Freud faz de “Rei Lear”, quando entende que a escolha de Cordélia como a predileta entre as três filhas remeteria à terceira e última forma que toma, no correr de sua vida, a relação do homem com a mulher. A primeira é com a mãe, a segunda com a mulher que ama e que a substitui e a terceira é com a morte, esta “mãe” que mais uma vez vai abrigá-lo no “útero-terra” onde será enterrado.
Assim, se, por um lado, o sonho de Dom Antonio é uma representação do final da vida e do inevitável encontro com a morte, por outro, podemos relacioná-lo com o inexplicado conflito com o filho.
É chamativo que ele relate tal sonho na iminência de reencontrá-lo. E neste momento, aponta o sonho, ele não se vê como um pai que recebe um filho e sim como um filho às voltas com a situação edipiana, a disputar com o pai a posse da mãe.
Indicaria o sonho fortes traços infantis de Dom Antonio que o teriam impedido de exercer a função paterna? Teria isso impossibilitado a relação pai-filho? Seria este o motivo do rompimento entre os dois?
Pressupondo que a estrutura narrativa tem uma coesão interna, esta é uma possível explicação de porque Sorin, num roteiro tão enxuto, abre um amplo espaço para o sonho do personagem e lhe atribui as características mencionadas.
Assim, “A Janela” mostraria o final melancólico de um homem cujo infantilismo emocional teria impedido uma boa relação com seu filho, coisa que tenta reparar e no que é impedido por sua própria ambivalência. Afinal, como vimos, sua morte parece ter sido precipitada por ele mesmo, ao desobedecer as ordens médicas.
A dificuldade no exercício da função paterna é um achado freqüente na clinica psicanalítica atual. É comum constatarmos a relutância de homens adultos abandonarem as posições narcísicas de filhos protegidos e assumirem as responsabilidades e exigências próprias à paternidade. Ao constituírem família, tais homens se comportam como filhos de suas mulheres e irmãos de seus próprios filhos.
De forma muito mais direta do que esta que rastreamos em “A Janela”, tais configurações podem ser examinadas em outros filmes, como “Uma Babá quase Perfeita” (“Mrs. Doubtfire”, 1993) de Chris Columbus e “Pecados Íntimos” (“Little Children”, 2006) de Todd Field .
Num registro cômico e desabusado, Homer Simpson de “Os Simpson” e Peter Griffin de “Uma família da pesada” (“Family Guy”) ilustram à perfeição este problema. Tais personagens jamais ocupam o lugar do pai. Quando muito, são os filhos mais velhos e irresponsáveis da casa, delegando a Marge e Lois, suas mulheres, os encargos da vida familiar. O extraordinário sucesso que fazem na televisão estes seriados de animação para adultos é um bom indicador do quanto eles representam e simbolizam este sintoma social concernente à forma como a paternidade é exercida nestes tempos regidos pelo narcisismo.
Em “Happiness”(1998) de Todd Solondz , esta situação adquire uma chocante radicalidade: um pai confessa ao filho de dez anos ter sodomizado o coleguinha dele que viera passar o final de semana em casa. Numa inversão completa, o pai se comporta como uma criança, pedindo socorro ao filho, colocado no lugar de pai.
Há uma distância incomensurável entre Homer Simpson ou o pai mostrado por Solondz e o fantasma do pai de Hamlet, (HAMLET, 1992, de Franco Zefirelli), poderosa figura que vem assombrar o filho e dele exigir o cumprimento de uma vingança.

Sérgio Telles é psicanalista e escritor, autor de “O psicanalista vai ao cinema I e II” (Casa do Psicólogo), entre outros.

(*) – Este artigo, com pequenas alterações, foi publicado no suplemento “Cultura” do jornal “O Estado de São Paulo”, em 17/05/09, sob o título “Em nome do pai (e do filho também)”.

Adicionar comentário 16 de Maio de 2009 às 15:14 Sérgio Telles

Estar ou não afim - algumas idéias sobre o sexo nas cidades (*)

Estar ou não afim – algumas idéias sobre o sexo nas cidades (*)

Sérgio Telles

“Sex and the city”, de Candace Bushnell e “Bridget Jones”, de Helen Fielding, são expoentes do “chick lit” (algo como “literatura das garotas”), gênero literário criado pelo mercado editorial dos Estados Unidos. Supostamente tal gênero aborda a problemática da mulher pós-feminista, não mais lutando por sua liberdade sexual ou pela igualdade de direitos frente aos homens, mas usufruindo dos ganhos da conquista e pagando seus ônus. O problema é que a “chick lit” banaliza e diminui as vitórias do feminismo, reduzindo-as a uma troca inconseqüente de parceiros amorosos e a um frenesi pelo consumo de alto luxo. Afinal, no universo ali descrito, todo mundo é chique, civilizado e mora em lugares de muito bom gosto. Paradoxalmente, ao mostrar as mulheres como românticas cujo único objetivo na vida é encontrar um bom partido, a “chick lit” termina por reforçar estereótipos contra os quais o próprio feminismo tanto lutou. Não é difícil ver, debaixo das sandálias Manolo Blahnick e das bolsas Louis Vuitton, as mesmas jovens sonhadoras que povoavam os livros de M.Delly.
É esse cenário que vamos encontrar no filme “Ele não está tão afim de você” (“He´s just not that into you”, 2009), dirigido Ken Kwapis e com um estrelado elenco (Ben Afleck, Jennifer Aniston, Drew Barrimore, Jennifer Connely e Scarlett Johansen). O filme se baseia num livro que vendeu dois milhões de exemplares nos Estados Unidos, escrito Greg Behrendt e Liz Tuccillo, roteiristas do “Sex and the city”, o seriado de televisão gerado pelo “best-seller” de Candace Bushnell.
Tendo como eixo central as desventuras de Gigi, uma empedernida ingênua às voltas com o enganoso mundo dos homens, perpassam no enredo alguns casais com diversos problemas amorosos. Preocupadas em atrelar sua sexualidade ao casamento, as mulheres são doces, amoráveis e vítimas dos homens, quase todos empenhados em seduzir e abandonar - com as exceções que confirmam a regra.
Vê-se que atrás da aparência moderninha que procura ostentar ao tratar da condição da mulher e dos relacionamentos amorosos nos dias de hoje, o filme se revela convencional e conservador. A própria heroína, a inacreditável Gigi, parece ter saído direto de algum volume da antiga Biblioteca das Moças.
As decorrências da liberdade sexual e da liberação da mulher observadas nas grandes metrópoles ocidentais parecem muito mais bem retratadas no excelente “Closer” (2004), dirigido por Mike Nichols, baseado na peça premiada de Patrick Marber, com Natalie Portman, Julia Roberts, Jude Law e Clive Owen.
O que “Closer” – cujos personagens não poderiam ser mais “cool” - mostra é que a liberdade sexual, a ausência de entraves religiosos e preconceitos sociais não eliminam os “antigos” conceitos de traição ou desilusão amorosa. Na verdade, poderíamos acrescentar, eles estarão sempre presentes, pois na medida em que se ama, é impossível não correr os riscos da perda e seus desdobramentos em termos de sofrimentos.
Assim, “Closer” parece dizer que a pós-modernidade não nos isenta das dores do amor. O que ela faz é facilitar as defesas contra estas dores, possibilitando, em função da liberdade sexual e do “ethos” narcisista que impregna atualmente a cultura, a prática do sexo casual.
Ao ver “Closer”, entendemos que sexo casual ou o “estar afim” são práticas que satisfazem basicamente ao narcisismo de cada um dos envolvidos. É como uma masturbação a dois. Não tem nada a ver com um relacionamento amoroso, pois este implica uma superação do narcisismo, o estabelecimento de uma relação objetal, a construção de um vinculo afetivo, a temeridade de lançar-se no vôo cego de uma entrega confiante no outro, sem nada a garantir o sucesso da empreitada.
“Ele não está tão afim de você” e “Closer” se inscrevem em diferentes registros. O primeiro é mero entretenimento, o segundo é uma obra de arte. O entretenimento pretende primordialmente divertir e, para tanto, evita abordar a dimensão trágica da vida. Uma posição radicalmente diferente da arte, que não se recusa a integrar em seu interior todas as contingências da existência humana, inclusive seu inevitável caminhar para a morte, ao mesmo tempo em que oferece o prazer estético, que ameniza e torna mais palatável seus fortes conteúdos.
Uma outra característica do entretenimento é o uso abundante de clichês e estereótipos, que proporcionam ao grande público um tranqüilizador sentimento de reconhecimento e familiaridade com o que lhe é apresentado. Mais uma vez, situação bem diferente daquela proposta pela criação artística, com sua preferência pelo inusitado, pelo inédito, pelo desafio do novo. É verdade que mesmo bons artistas, como Woody Allen, vez por outra apelam ao chavão para garantir uma boa bilheteria. É o que acontece em “Vicky, Cristine, Barcelona” (2008). Num ininterrupto desfile de lugares-comuns, duas jovens norte-americanas vão passar uma temporada de férias em Barcelona, na casa de um rico compatriota. Envolvem-se numa série de imbroglios amorosos e tudo se acaba com o verão, quando as duas voltam para seu país, “enriquecidas” com suas novas experiências. Há os “artistas” e os “burgueses”. Há os “espanhóis”, com seu sangue latino caliente, e há os “americanos” e “ingleses”, comedidos, sofisticados e irônicos. Os “artistas” têm um temperamento excessivamente “artístico”, criando “obras de arte” a todo instante. Penélope Cruz, num papel que lhe deu o Oscar (!), como a pintora genial e geniosa, explosiva e imprevisível, é a própria encarnação da artista “espanhola”. Os ricos “burgueses”, como era de se esperar, nada mais fazem que langorosamente lutar contra o tédio, em meio a festas, iates e pequenas traições.
Abordada de forma leve e estereotipada ou com a complexidade que ela exige, o fato é que a eterna luta entre os sexos é um tema da maior importância, abordado anteriormente por inúmeros cineastas. Para citar alguns, lembramos Bergman, especialmente em “Cenas de um casamento” (1974) e seu dilacerante epílogo, “Sarabanda” (2003); Ridley Scott em “Thelma e Louise” (1991), um dos mais pungentes filmes sobre os impasses da condição feminina em nossos tempos; e Almodóvar em “Volver” (2006), onde disfarçado no tom de comédia, transparece a visão trágica de dois mundos fechados – o masculino e o feminino – que ao se aproximarem, não produzem o amor e a criação, e sim o incesto, a violência, o assassinato.
“Anatomia é o destino”, disse Freud. Com isso apontava para o fato de ser a diferença anatômica entre os sexos um referencial incontornável na realidade humana, estabelecendo lugares e papéis específicos culturalmente determinados.
O embate entre homens e mulheres, no qual cada sexo usa de suas armas e estratagemas, toma feições diversas em função do tempo e do lugar na história. É inegável que, durante séculos e na maioria das culturas, o falicismo prevaleceu, fazendo com que as mulheres fossem submetidas ao poder dos homens. E assim ainda ocorre com vastas parcelas da população mundial.
Somente com Freud foi possível obter uma compreensão acurada dos aspectos mais profundos e inconscientes do falo e da castração, e de seus efeitos na organização dos grupos humanos.
É irônico que o feminismo, que tanto deve a Freud, tenha-se voltado, num determinado momento, contra a psicanálise, ignorando ter sido ela o que tornou possível entender o caráter fantasmático que sustentava (e ainda sustenta) a pretendida superioridade masculina sobre as mulheres.

(*) Artigo publicado no suplemento “Cultura” do jornal “O Estado de São Paulo” em 12/04/09

Adicionar comentário 16 de Abril de 2009 às 15:10 Sérgio Telles

PECADOS INOCENTES (”Savage Grace” - 2007) de Tom Kalin

“PECADOS INOCENTES” (“SAVAGE GRACE” - 2007) de Tom Kalin

Sérgio Telles

Baseado no livro homônimo de Natalie Robins e Steven L. M. Aronson, roteirizado por Howard A. Rodman, o filme “Pecados Inocentes” (“Savage Grace”), de Tom Kalin (2007), conta a história real dos herdeiros Baekeland.
Leo Baekeland foi o químico belga que, após imigrar para os Estados Unidos, inventou o papel fotográfico e a baquelita, o primeiro dos plásticos. Ambas as invenções o deixaram multimilionário.
Seu neto Brooks Baekeland se casa com a instável beldade Barbara Daly, proveniente de uma família de parcos recursos materiais e emocionais. O pai de Barbara se suicidara e sua mãe – que a instruíra para casar / caçar um homem rico - também era sujeita a episódios psiquiátricos. Brooks trata Barbara de forma superior e condescendente, quando não a humilha e desqualifica abertamente, o que nela provoca vinganças violentas e escandalosas. É deste casal que nasce Anthony, o filho único.
Usufruindo da herança do avô de Brooks, o casal vive nos Estados Unidos e faz longas temporadas no Velho Continente, freqüentando a alta sociedade norte-americana e a aristocracia européia.
Brooks não pára de idealizar o avô, ao mesmo tempo em que denigre o pai, a quem se refere como o “crápula”, que teria passado a vida esbanjando a herança. Bárbara tenta vencer sua insegurança social, em meio a explosivas descargas emocionais que afastam os amigos. Brooks e Bárbara estão empenhados numa guerra ininterrupta e o filho Antony ora é abandonado por ambos, ora recebe uma atenção excessiva por parte de Bárbara, que o faz cúmplice de suas escaramuças contra o marido.
A conduta excêntrica dos pais logo se reflete no filho, que ostensivamente lhes exibe condutas homossexuais desde muito cedo. Na adolescência, tenta se aproximar de uma namorada, mas o pai a seduz e com ela foge, abandonando definitivamente mulher e filho.
Esta separação tem amplos efeitos sobre ambos. Bárbara tenta vencer a humilhação e a vergonha envolvendo-se com Sam, um bissexual que poderia ajudá-la numa improvável carreira como pintora. Sua relação com Sam possibilita um bizarro ménage a trois entre eles e o filho, fazendo com que os três compartilhem a mesma cama.
Antony, por sua vez, procura se aproximar do pai, mas o faz de forma canhestra e encontra pouca ou nenhuma receptividade por parte dele.
Após mostrar uma tolerância absoluta com todas as atitudes do filho, Bárbara passa a censurar-lhe as amizades homossexuais e a tentar fazer dele um “homem”. Como forma de voltar seu interesse sexual para as mulheres, resolve ter – ela mesma – relações sexuais com o filho, plano que leva a cabo.
É a gota d´água que desencadeia a loucura de Antony, que progredira lentamente no correr dos anos, levando-o a matá-la com uma faca de cozinha e depois se entregar aos policiais.
Nos créditos, tomamos ciência de que Tony ficou preso alguns anos e, ao ter sua pena suspensa, foi morar com a avó materna. Logo a esfaqueia várias vezes, mas ela escapa com vida. É então internado definitivamente num hospital psiquiátrico, onde se suicida tempos depois.

O filme mostra com clareza os efeitos da falta da lei paterna. O pai distante, ausente, é incapaz de cortar o vínculo narcísico entre mãe e filho. Na medida em que o pai não exerce sua função, fica escancarada a porta para a indiscriminação e a concretização do incesto sob várias formas. Ele mesmo, o pai, rouba a namorada do filho e deixa que o filho “roube” sua mulher. A mãe, por sua vez, ativamente proporciona a concretização do incesto, episódio final de numa seqüência de comportamentos promíscuos com o filho.
Previsivelmente, tal situação desencadeia a psicose em Antony.
O roteirista mostra uma sugestiva imagem para simbolizar o processo de desagregação psicótica de Antony.
Como foi dito, a partir de certo momento, Bárbara se dá conta da regressão e infantilidade do filho, de como ele está distante da autonomia adulta e, a partir de sua habitual onipotência, decide resolver esta situação, sem se aperceber de que, em grande parte, é por ela responsável.
Vivendo sempre numa situação caótica e nômade, acompanhando os pais em suas andanças e viagens, Antony guardava cuidadosamente desde a infância a coleira de um querido cão que morrera. Fica evidente que a coleira tinha fortes conotações simbólicas para Antony. Representaria o desejo de uma ligação firme e estável, um estar preso a algo (alguém) que lhe proporcionasse segurança e sentimento de pertencimento, de não estar sozinho, de fazer parte de algo maior. A coleira simbolizaria sua ânsia por se sentir querido e desejado como um sujeito e não como um apêndice narcísico do outro (mãe). Ao mesmo tempo, poderia significar submissão e aprisionamento ao desejo da mãe, o se sentir seu cãozinho, um objeto de brinquedo, não reconhecido em sua condição de sujeito. Por outro lado, uma coleira contém, retém, prende. Pode assim representar aquele núcleo de subjetividade que possibilita a própria coesão interna, aquilo que impede a desagregação.
Ignorando tudo isso e acreditando que ajudaria Antony a crescer, Bárbara esconde a coleira e pretende devolver-lhe a virilidade praticando o incesto.
São duas atuações catastróficas. Bárbara não vê que o infantilismo emocional de Antony em grande parte decorre de sua própria relação narcísica e incestuosa para com ele e que a concretização do incesto, ao invés de proporcionar-lhe a autonomia e a virilidade desejadas, as impossibilitariam de forma definitiva. Ao roubar-lhe a coleira, Bárbara retira de Antony qualquer apoio simbólico que ele pudesse mediar sua relação real com ela.
Ao matá-la, Antony tentar se separar, se desentranhar da fusão com a mãe, numa impossível tentativa de adquirir sua condição de sujeito desejante.
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2 comentários 8 de Março de 2009 às 14:10 Sérgio Telles

Três orelhas de livro

Três orelhas de livro – “Abraços Negados” de Simone Paulino (2005) “A Maldição das Cadeiras de Plástico” (2006) de Doris Fleury (ambos da Editora Allbooks – Casa do Psicólogo) e “Contos do Divã” de Sylvia Loeb (Ateliê Editorial, 2007)

Sérgio Telles

1) Abraços Negados – de Simone Paulino

“Abraços Negados”, o livro de estréia da jornalista Simone Paulino que dá seguimento à nossa coleção “Além da Letra”, proporciona uma tocante leitura.

Seus contos curtos seguem o périplo dos moradores das distantes periferias de São Paulo, a luta pela sobrevivência das famílias de migrantes nordestinos, com seu conhecido cortejo de carências – a falta do pai, a habitação precária, o trabalho infantil, a fome e a experiência do desamparo social, a marginalidade.

O que surpreende em “Abraços Negados” é a forma como Simone Paulino aborda essa penosa realidade. Afastando-se das facilidades do panfletário e do demagógico, a autora usa uma linguagem cujos distanciamento, contenção e apuro formal bem poderiam ser chamados de clássicos. Isso faz com que a denúncia implícita em seu texto tenha mais força e impacto do que qualquer abordagem mais engajada.

Ainda assim, sua escrita lembra, por sua clara linearidade, descrições escolares infantis, nas quais nos deparamos, de repente, com súbitos e profundos mergulhos no mais puro lirismo.

Outro ponto original: ela mostra a migração vista pelos olhos da segunda geração, por aqueles que não conheceram diretamente o nordeste, que o vêem como um lugar mítico, recriado imaginariamente na busca das origens para sempre perdidas.
Simone Paulino expõe como os filhos de (i)migrantes são receptáculos da memória secreta dos pais, sofrem por delegação seu luto pela perda da terra e dos costumes.

Dividido em três segmentos, “Abraços Negados” mantém uma unidade temática – o mesmo universo: os bairros de periferia e sua gente humilde, tratada com a mesma sensibilidade mostrada por Chico Buarque na letra que fez para a música de Garoto.

Os contos amealhados na primeira parte configuram uma espécie de autobiografia ou livro de memórias da narradora. Usando a primeira pessoa, ela discorre sobre uma existência dura e sofrida, na qual os afetos são intensos e sufocados. Por todos eles, perpassa a figura perdida do pai, uma grande e enigmática sombra a toldar para sempre sua alegria.

Na segunda, entram em cena novos personagens, mas o mundo é o mesmo anteriormente retratado.

A terceira parte se afasta das anteriores, na medida em que tudo o que fora expresso anteriormente reaparece agora noutro registro ficcional, no qual a narradora faz sua profissão de fé como escritora.

2) A Maldição das Cadeiras de Plástico – de Doris Fleury

O sexo do autor condicionaria sua produção literária? Essa é uma questão importante nos estudos sobre gênero sexual no cânone literário encetados na academia norte-americana. Tal perspectiva, levada a extremos do “politicamente correto”, classifica os grandes clássicos como produção de “machos brancos europeus mortos”, salientando dessa maneira – o que não deixa de ser verdade – o fato do referido cânone literário não ser universal e sim ocidental; dele, portanto, estão excluídos mulheres e autores de outras etnias e culturas.
Diluindo esse conceito, em meados dos anos 90 a mídia norte-americana passou a veicular no mercado o conceito de chick lit – algo como “literatura das garotas, das minas” – e sua contraparte masculina, a lad lit ou dick lit (aproximadamente “literatura dos caras, dos manos”). Como se vê, ambas as denominações estão carregadas de conotações sexistas e um tanto debochadas.
A chick lit tem como paradigma os livros de Helen Fielding (O diário de Bridget Jones) e Candace Bushnell (Sex and the city) – estrondosos sucessos editoriais transformados em filmes e séries de TV de grande apelo popular. É uma literatura pós-feminista, na medida em que as mulheres já não estão brigando por direitos – especialmente os sexuais – e sim relatando as vicissitudes do usufruto desses direitos.
Há um quê de chick lit em Dóris Fleury. Suas personagens são inteligentes, independentes, despachadas e decididas, e nos divertem ao relatar suas peripécias no exercício da condição feminina na atualidade.
Mas há algo em Dóris Fleury que a afasta da conotação de mero entretenimento comercial de alto nível, própria da chick lit, e garante seu assento entre os produtores da boa literatura. É o trato da linguagem e a profundidade com que aborda seus/suas personagens. Suas mulheres não são Bridget Jones nem, muito menos, Amélias ou peruas deslumbradas. São seres humanos dotados de vida mental complexa e ambígua, vivendo seus impasses existenciais sem perder o humor ou a crítica.
Assim, A Maldição das Cadeiras de Plástico é um livro sério sem ser sisudo, de leitura muito prazerosa.

3 – Contos do Divã – de Sylvia Loeb

O livro “Contos do Divã” da psicanalista Sylvia Loeb tem um ritmo narrativo ágil, possibilitando uma leitura fácil e agradável. Apesar disso, na medida em que avança em sua leitura, o leitor vai sendo tomado por uma crescente, inesperada e talvez inexplicada comoção.
Seus sentimentos ficam esclarecidos ao se deparar com o Posfácio, no qual Sylvia Loeb explicita aquilo que já fora sugerido no próprio titulo do livro.
Todos os casos ali coligidos são regidos pela pulsão de morte, apontam para a compulsão à repetição, para o eterno retorno que nos leva aos impasses, aos impedimentos, às impossibilidades de mudanças, aos fracassos nas tentativas de buscar o novo.
Ao fazer um recorte muito especifico de sua clinica e privilegiar o tanático, Sylvia Loeb nos mostra o lado negro, mais difícil e doloroso de nossa tarefa como psicanalistas - aquele que nos faz deparar com limitações, quer sejam as do analisando; quer sejam as nossas próprias, pessoais, que se refletem em nosso papel de analistas; quer sejam as da psicanálise; quer sejam as da vida, do destino, da história de cada um de nós seres humanos.
Desprende-se do livro um pathos trágico, despertando no leitor a comiseração e a compaixão pelo sofrimento humano, assim como o desejo de dele poder ter uma maior compreensão e entendimento.
Não seria esse o pathos da psicanálise configurado na leitura freudiana de Édipo Rei ?

Adicionar comentário 3 de Fevereiro de 2009 às 10:34 Sérgio Telles

ADOLESCÊNCIA E VIOLÊNCIA

ADOLESCÊNCIA E VIOLÊNCIA

Sérgio Telles

(Artigo publicado na revista E-Sesc – no. 140 - Janeiro 2009)

“Em um mundo que parece cada dia mais violento, pretendemos debater a violência à qual os adolescentes, em especial, estão submetidos. Em que a violência da qual eles são vitimas se diferencia dos adultos? Quais são os riscos de uma adolescência submetida à violência?”

A questão proposta superpõe dois importantes problemas – o da violência e o da adolescência.
Comecemos pela violência. Sempre que falamos sobre ela, a primeira coisa que fazemos é vê-la como um problema externo, que não nos diz respeito a não ser como eventuais vítimas inocentes. Jamais admitimos que nós mesmos possamos ser agentes produtores de violência. Os violentos e agressivos são sempre os outros, nunca nós mesmos.
Agimos de modo semelhante com a sexualidade. Estamos muito atentos e fazendo julgamentos sobre os comportamentos sexuais dos outros, como se nós mesmos não passássemos por vicissitudes semelhantes àquelas que tão severamente censuramos nos outros.
Negamos e reprimimos nossos impulsos agressivos e sexuais.
Até certo ponto isso é necessário. Como Freud dizia, para vivermos em sociedade, não podemos dar plena vazão a nossos desejos sexuais e agressivos. Temos de controlá-los, caso contrário ficaria impossibilitada a convivência que com o outro.
Mas esse controle não deve fazer com que neguemos a presença de tais fortes pulsões em nós mesmos e que as projetemos no outro, atribuindo-lhe com exclusividade aquilo que também possuímos. A projeção dos desejos agressivos e sexuais no outro, e sua concomitante negação em nós mesmos, é fonte de inesgotáveis desentendimentos entre os seres humanos.
O ideal é que reconhecêssemos nossa constituição pulsional, que nos dota de sexualidade e agressividade, sendo tarefa de todos e de cada um a administração destas poderosas forças internas.
Assim, quando se fala da violência que atingiria o adolescente, tal afirmação pareceria colocá-lo como vítima indefesa e passiva, deixando de lado que a violência habita também o adolescente, pois ela nos habita a todos.
Mas é verdade que os recursos internos para o manejo da violência diferem em função do nível de estruturação do psiquismo, estando ele ainda em processo de organização nas crianças e nos adolescentes.
Falemos agora da adolescência. Ela é um período de extraordinária turbulência interna, no qual o corpo e o psiquismo sofrem amplas modificações. O adolescente deve deixar a vida infantil com todos seus valores e se defrontar com grandes desafios, especialmente aqueles ligados a sua personalidade, a sua identidade. O adolescente não é mais o filhinho de papai e mamãe, a quem deve obedecer sem discussão. Ele agora precisa se firmar como sujeito, deve definir sua sexualidade e descobrir a posição que vai ocupar no mundo dos adultos.
O adolescente está exposto à violência interna de seus próprios desejos e conflitos, pois tanto sua sexualidade como sua agressividade adquirem aspectos e intensidades por ele até então desconhecidas. Seu complexo de Édipo ressurge com grande intensidade, deixando-o confuso e assustado ao constatar que agora poderia realizar suas velhas fantasias incestuosas inconscientes, coisa que seu corpo infantil impossibilitava. Da mesma forma, sua própria agressividade precisa ser modulada.
O adolescente se depara com muitos desafios. Como lidar com os modelos que a sociedade lhe oferece para seu sexo, sua posição social, seu futuro? Deve se conformar com eles? Precisa se rebelar contra eles?
Para impor sua identidade, deverá lutar contra os pais. Mesmo quando estes estão do seu lado e se dispõem a ajudá-lo, ainda assim ele tem de se desprender deles. Ao mesmo tempo em que ele quer fazer isso e seguir seu próprio caminho, teme se afastar dos pais e perder o lugar protegido que eles lhe têm proporcionado. Frente a angústia que tudo isso lhe provoca, o adolescente pode reagir com grande agressividade, voltada para os outros ou contra si mesmo, em condutas auto-destrutivas.
As questões sobre a identidade sexual ocupam um lugar central para os adolescentes. Os rapazes confundem masculinidade com agressividade e se engajam em estrepitosas exibições machistas. As meninas engravidam como uma forma de provar que são mulheres, apesar de terem as informações objetivas necessárias que as poupariam dos problemas daí decorrentes. Ambos podem ser levados a praticar sexo não seguro, expondo-se a doenças sexualmente transmissíveis ou de gravidezes não planejadas. Aqueles que descobrem ter uma sexualidade diversa da maioria padecem grandes agonias.
Ao se afastar do protegido grupo familiar, o adolescente necessita vitalmente se incluir em outros grupos, que o amparem em seus conflitos identitários. Nos novos grupos, deve aprender a lidar com os fortes mecanismos que regem seus funcionamentos, com as lideranças, as disputas de facções rivais que podem uni-los ou fragmentá-los, a eleição de bodes expiatórios, etc. Nestes grupos, a afirmação da masculinidade faz com que os comportamentos agressivos nos rapazes sejam supervalorizados, da mesma forma que o comportamento sedutor por parte das meninas, o que gera situações potencialmente perigosas.
Tais são os percalços quase inevitáveis que o adolescente tem de atravessar em sua busca de uma nova identidade. Este tumulto interno deixa os adolescentes especialmente vulneráveis às drogas e ao álcool, que são ingeridos como calmantes, no intuito de aplacar o sofrimento que lhes provoca o crescimento, a perda da identidade infantil, o ter de enfrentar desafios que, naquele instante, podem parecer-lhes imensos e intransponíveis.
Até agora, falei da violência interna própria do momento psíquico da adolescência. Mas, é claro, aspectos sociais e culturais podem acolher e proteger o adolescente neste momento de confusão identitária e violentas descargas sexuais e agressivas, ou deixá-lo entregue a si mesmo, agravando suas dificuldades.
De modo geral, para que a adolescência transcorra do melhor modo possível, desembocando numa organização estável da identidade, os pais deveriam ocupar adequadamente suas funções paterna e materna. Teóricos da psicanálise julgam que, nas ultimas décadas, tem havido um progressivo enfraquecimento da figura paterna. Isso se dá por inúmeros fatores – o abandono dos valores ligados ao patriarcado, as conquistas do feminismo, por exemplo - o que tem criado novas dificuldades no já critico processo da adolescência.
Além disso, nos últimos anos a família também tem sofrido grandes alterações. Ao invés do modelo tradicional, a prática difundida do divórcio faz com que as famílias reconstituídas sejam cada vez mais numerosas e isto certamente não ajuda a atenuar os conflitos desencadeados pela adolescência.
Num país como o nosso, de profundos abismos socioeconômicos, com grandes parcelas da população segregadas em condições sub-humanas de vida, é claro que o tumulto próprio da adolescência encontra uma retaguarda social e familiar muito precária.
Frequentemente lemos nos jornais noticias sobre “chacinas”, a forma consagrada pela imprensa para se referir aos freqüentes assassinatos em massa de adolescentes e jovens moradores de bairros pobres das grandes cidades. Habitualmente tais chacinas são atribuídas a lutas de gangues de traficantes de drogas, acertos de contas, ação de grupos policiais. A indiferença da sociedade frente a estes bárbaros assassinatos fica ainda mais chocante ao se contrastá-la com o alarde que é produzido pela morte de um único adolescente das classes mais abastadas, coisa que raramente ocorre.
A adolescência é um período de grande violência interna e essa violência interna pode ser neutralizada ou potencializada pelo meio ambiente, pela familia, pela sociedade. No Terceiro Mundo, a desigualdade social é, em si, uma violência que recai sobre todos nós. Sendo os adolescentes mais frágeis e susceptíveis, não é de admirar que sejam por ela mais atingidos.

2 comentários 3 de Janeiro de 2009 às 10:32 Sérgio Telles

Masturbação

MASTURBAÇÃO

Este artigo foi publicado em SexoS – A Trama da Vida – Volume 4 – As Fronteiras da Transgressão – série especial da revista Mente&Cérebro, Editora Duetto, dezembro 2008

Sérgio Telles

Qualquer abordagem sobre a masturbação, ou sobre a sexualidade em geral, encontra um inarredável divisor de águas - a teoria freudiana. Há um antes de Freud e um depois de Freud.
Neste artigo, o antes de Freud consiste em um percurso histórico baseado no rico livro de Thomas Lacqueur, Solitary Sex: A Cultural History of Masturbation . Apoiado em extensa pesquisa, o livro de Lacqueur traz novas informações e estabelece interessantes hipóteses sobre aquilo que Foucault chamou de “a guerra contra o onanismo, que durou quase dois séculos no Ocidente” . Tal guerra é um bom exemplo da loucura humana travestida de conhecimento científico, no caso, o saber médico.
Em seguida veremos como Freud transforma o que até então era visto como uma terrível aberração geradora da corrupção dos corpos e da sociedade, como uma manifestação inevitável da sexualidade infantil, derivando toda sua importância do contexto incestuoso edipiano na qual se inscreve.
No depois de Freud comentaremos algumas situações mais recentes.
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Diz Laqueur que na Grécia Antiga e em Roma, a masturbação podia ser objeto de ridicularias e brincadeiras, como se vê em Aristófanes, mas nunca lhe foi dada qualquer significação especial.
No judaísmo mais antigo, não há menção a ela, a não ser indiretamente nos comentários à história de Onan. Por desperdiçar sua semente, Onan despertou o ódio do Criador, que o fulminou com um raio. Embora “onanismo” tenha se transformado em sinônimo de masturbação, estudiosos do Talmud acreditam que o pecado de Onan não foi a masturbação e sim o coitus interruptus, a recusa em procriar.
Ao contrário dos rabinos, os teólogos medievais do cristianismo, viam a masturbação como um pecado em si, embora não lhes concedessem grande importância. Dentro da vida confinada nos mosteiros, a preocupação maior era a sodomia e não a masturbação. Na vida fora dos claustros, a atenção dos padres se voltava para o incesto, a bestialidade, a fornicação e o adultério.
Como se poderia esperar do cristianismo, que não priorizava o principio rabínico de procriar e, pelo contrário, celebrava a vida celibatária e a castidade monástica, a argumentação de Santo Agostinho sobre Onan se desloca da obrigação de gerar filhos para um tema mais vasto, o dos deveres morais de ajudar os necessitados. Não é que os teólogos cristãos permitissem a masturbação, apenas não a censuravam com grande severidade, pois era a própria sexualidade que devia ser combatida e não a sexualidade não reprodutiva.
Em nada se altera a concepção da masturbação com o advento da Reforma. A idéia que dela os protestantes tinham os aproximava mais dos rabinos que dos padres católicos. Seu caráter pecaminoso residia na recusa à procriação, no desperdício do sêmen. Os protestantes censuravam os católicos por darem primazia ao celibato e à abstinência sexual, desvalorizando o casamento. A seu ver, ao criarem mosteiros e conventos, os católicos terminavam por incentivar a masturbação.
Na Renascença, abandona-se a preocupação com a procriação, defendida por rabinos e protestantes, e retoma-se sua ligação com a concupiscência, tal como viam os padres católicos.
Sem que a masturbação tivesse adquirido o estatuto de um pecado maior ou o crime de desperdício de sêmen recebido renovado agravamento, uma mudança radical aconteceu meio século depois. A medicina se apropriou da masturbação e dela fez uma doença gravíssima, capaz de colocar em risco não só o individuo, mas toda a sociedade.
Diz Lacqueur: “A masturbação moderna pode ser datada com uma precisão rara na historia da cultura. Deve ter sido por volta de 1712, com a publicação de um pequeno livro que tinha um longo titulo – Onania ou O Terrível Pecado da Auto-Polução, e todas suas Assustadoras Conseqüências, consideradas em ambos os SEXOS, com Aconselhamento Espiritual e Físico para aqueles que já incidiram nessa prática abominável, e oportuno Conselho para a Juventude da nação de ambos os SEXOS”.
Laqueur identifica o autor deste livreto anônimo como John Marten, um charlatão que publicara anteriormente outros trabalhos nos quais a pornografia mal se escondia atrás de assuntos supostamente médicos. Em Onania, após as descrições das doenças terríveis decorrentes da masturbação, Marten anunciava sua cura – os remédios que vendia junto com o livreto.
O livro teve um estrondoso sucesso de vendas na Inglaterra e logo foi publicado em outras capitais européias. Uma edição americana apareceu em 1724 e em 1752 já estava na 17ª edição, algo espantoso para a época.
Em 1760, Samuel Auguste David Tissot, um dos médicos mais prestigiados da França, depois de desqualificar o livro de Marten, apropria-se de seu título e de sua idéia central, dá-lhe uma nova versão ao revesti-la com a linguagem médica protocolar e a publica como L´Onanisme ou Dissertation physique sur les maladies produit par la masturbation. Seu livro provoca enorme repercussão por toda a Europa e não demorou muito para que médicos de toda parte passassem a atribuir uma lista inesgotável de doenças ao sexo solitário.
Mas como explicar que uma contrafação tão grosseira tenha conseguido tamanho acolhimento? Em parte, diz Laqueur, a resposta se deve a um esperto truque de vendas criado por Marten: esgotada a primeira edição, as seguintes – e houve muitas – traziam cartas picantes de leitores que confessavam seus hábitos masturbatórios e testemunhavam a cura com os remédios tomados. Desta forma, os leitores compravam um material pornográfico escondido sob o sisudo manto da medicina.
Mas esta explicação é insuficiente para justificar como o “onanismo” passou a interessar aos enciclopedistas e a um médico como Tissot, tornando-se um tema incontornável na cultura.
Lacqueur pensa ter sido, paradoxalmente, o Iluminismo - com sua luta contra a superstição, seu culto à Razão, sua tolerante aceitação da sexualidade humana - o responsável pela extraordinária mudança na concepção da masturbação, transformando-a de uma prática comum e anódina, num monstro temido, a terrível fonte de muitas doenças físicas e corrupção moral.
O Iluminismo provocou um declínio da autoridade eclesiástica e promoveu a ascensão secular da autoridade médica. Com isso retirou a masturbação do âmbito do moralismo religioso e a fez ingressar no campo da medicina. Certamente se pensava – equivocadamente - que dessa forma “científica” ela estaria a salvo dos desvios próprios da ignorância e do dogmatismo.
Laqueur aponta três aspectos da masturbação que levantavam suspeitas e oposição por parte dos valores defendidos pelo Iluminismo. Em primeiro lugar, era uma prática solitária, enquanto todas as outras formas de sexualidade são tranquilizadoramente sociais. Em segundo, o encontro sexual masturbatório não se dava com uma pessoa de carne e osso, decorria de uma fantasia, o que, diziam os médicos, provocava um “falso prazer”. E, em terceiro lugar, o que era mais grave - ao contrário de outros apetites, o desejo masturbatório nunca se saciava plenamente, o que poderia levar a excessos intoleráveis.
As conquistas do Iluminismo trouxeram um aumento dramático da autonomia do sujeito, liberando-o de antigas peias políticas e religiosas. A nova ordem política e social então possibilitada desencadeou grandes ansiedades, que foram projetadas na masturbação, fazendo com que ela passasse a ser condenada com máximo rigor, diz Laqueur. Vista como indutora de um prazer não socializado, não produtivo (reprodutivo), alimentado pelos incontroláveis vagares de uma mente dispersiva, a masturbação se transformou numa ameaça ao próprio sujeito e à sociedade, na medida em que poderia perverter todas as novas conquistas tão duramente conseguidas pelo Iluminismo, referentes à independência social, psicológica e moral.

Por este motivo, como Laqueur mostra com grande detalhe e numa argumentação que o aproxima de Foucault, o projeto liberador do Iluminismo contraditoriamente se transforma num programa de vigilância e tentativa de controle daquilo que até então tinha sido o mais secreto, privado e aparentemente inofensivo dos atos sexuais – a masturbação. Para tanto, passou a policiar a imaginação, o desejo e as expressões da individualidade que ele mesmo acabava de promover.
Laqueur mostra como os riscos do sexo solitário se misturam com duas das mais importantes inovações da modernidade: a implantação dos mercados financeiro e editorial. Onania foi publicado no momento da primeira crise financeira no mercado de ações e da fundação do Banco da Inglaterra. “A masturbação passa a ser vista como o vício de uma sociedade civil não religiosa, na qual a cultura de mercado faz com que as tradicionais barreiras contra a luxúria cedam espaço para justificativas filosóficas que defendem o excesso. Filósofos e economistas como Adam Smith, David Hume e Bernard Mandeville apontavam para as maravilhosas condições auto-reguladoras do mercado, no qual atos individuais de auto-indulgência e ambição se transformavam em bens comuns. A masturbação poderia parecer uma representação lógica do mercado: afinal, o impulso potencialmente ilimitado para gratificar o desejo é o motor que alimenta todo o imenso empreendimento econômico” – diz Greenblat . Mas, ao contrário do mercado e suas forças auto-reguladoras, nada poderia regular a masturbação e seu prazer insaciável. Daí o medo que ela inspirava e as rigorosas medidas implantadas para controlá-la.
Se a primeira inovação moderna contemporânea ao terror à masturbação foi a implantação do mercado financeiro, a segunda foi a leitura solitária. Na ocasião, o hábito da leitura se expandia em função da enxurrada de livros produzidos pelo incipiente mercado editorial e pela criação de novos espaços domésticos nos quais as pessoas podiam gozar de alguma privacidade e ficarem sozinhas. Desta forma, a masturbação ficou associada à leitura privada e solitária e esta passou a ser vista como a indutora da primeira. A grande forma literária inventada para se adequar a estes espaços que possibilitavam a prática da leitura solitária foi o romance. Como Rousseau ironicamente disse, certos romances eram escritos especificamente para ser lidos com uma única mão… Mas não era só a pornografia o que aproximava a masturbação do romance. Temia-se qualquer leitura num ambiente reservado e silencioso, pois ela poderia despertar a imaginação e esta rapidamente levaria aos descontroles do vício solitário.
E este era um vício democrático. Seu poder destrutivo estava ao alcance de servos e senhores, e o que era pior, estava disponível também às mulheres. Elas, com sua emotividade à flor da pele, sua rica imaginação, sua irracionalidade, estavam – é claro – muito mais expostas aos perigos das excitações sexuais provocadas pelos romances.
No começo do Século XX, começam a se dissipar os terríveis nevoeiros que ligavam a masturbação à morte e à loucura e que tinham gerado uma cultura de vigilância e controle. A descoberta da real etiologia de uma série de doenças atribuídas à masturbação - como as doenças venéreas, a epilepsia, a tuberculose - foram decisivas para tanto. Apesar de ainda serem perceptíveis nos dias de hoje elementos daquela antiga forma de ver a masturbação, acabou o terror imposto a todos e por tantos anos pela medicina. Laqueur atribui essa mudança em grande parte ao trabalho de Freud e de uma subseqüente sexologia liberal.

Freud aborda a questão da masturbação em vários textos. Logo abandona a visão convencional de sua época e insere a masturbação dentro de sua revolucionária construção teórica, na qual a sexualidade tem papel central.
No caso do “Homem dos Ratos” (1909), em longo comentário, Freud estabelece o que me parece ser o essencial de sua visão sobre a masturbação. Ali ele parte de uma observação clínica: os pacientes habitualmente atribuem à masturbação ocorrida na adolescência a causa de seus padecimentos, coisa que os médicos, em geral, rejeitam, por saberem que todos – normais e neuróticos – passam por uma fase de masturbação neste período. Freud considera que os pacientes estão parcialmente corretos e necessitam ser interpretados, pois a masturbação da adolescência é apenas a revivescência da masturbação infantil. Diz ele:
A masturbação infantil atinge uma espécie de clímax, via de regra, entre as idades de três a quatro ou cinco anos; e constitui a mais evidente expressão da constituição sexual de uma criança, na qual se deve buscar a etiologia das neuroses subseqüentes. Logo, sob esse disfarce, os pacientes ficam atribuindo a culpa por suas doenças à sua sexualidade infantil, e têm toda razão de fazê-lo. Por outro lado, o problema da masturbação torna-se insolúvel se tentarmos tratá-lo como uma unidade clinica e esquecermos que pode representar a descarga de toda variedade de componente sexual e de toda espécie de fantasia às quais tais componentes possam dar origem. Os efeitos prejudiciais da masturbação são autônomos – ou seja, determinados por sua própria natureza – apenas em um bem pequeno grau. São, em sua essência, meramente parte e parcela da significação patogênica da vida sexual, como um todo, do indivíduo. O fato de muitas pessoas poderem tolerar a masturbação – ou seja, determinada porção deste ato – sem prejuízo, mostra apenas que a sua constituição sexual e o curso da evolução de sua vida sexual foram de tal forma a permitir-lhes exercer a função sexual dentro dos limites daquilo que é culturalmente permissível; ao passo que outras pessoas, de vez que sua constituição sexual foi menos favorável, ou perturbado o seu desenvolvimento, caem doentes em conseqüência de sua sexualidade – isto é elas não conseguem alcançar a necessária supressão ou sublimação de seus componentes sexuais sem recorrerem a inibições ou substituições .
Resumindo - Freud diz que a masturbação é uma das manifestações universais da sexualidade infantil e que seus eventuais aspectos prejudiciais não decorrem dela em si e sim do contexto mais amplo da vida sexual. Refere-se ele aos turbilhões inevitáveis da castração e do complexo de Édipo, que dão conformidade à nossa própria constituição como sujeitos e – consequentemente - à nossa identidade sexual. São estes conflitos inconscientes que produzem as fantasias que alimentam não só a masturbação, mas a vida psíquica em geral. Assim, a questão não é – como durante os últimos dois séculos se dizia – combater a masturbação e as fantasias que a geravam, e sim analisar os conflitos geradores de fantasias, inibições e sintomas.
Freud pensava que a masturbação deveria ser abandonada na vida adulta, na medida em que o sujeito transitasse plenamente do auto-erotismo e do narcisismo para as relações objetais amorosas. Via a masturbação como uma persistência do erotismo infantil ligado ao complexo de Édipo, o que a deixava irremediavelmente tingida pela culpa.
Na ocasião de um debate especifico sobre o assunto, Freud se aproximou da posição de Stekel, que defendia a masturbação como um recurso legitimo, não necessariamente regressivo. Afirmou que a masturbação possibilita “desenvolvimentos e sublimações sexuais na fantasia” que apesar de serem “conciliações prejudiciais”, “tornam inofensivas graves inclinações perversas e previne as piores conseqüências da abstinência” .

No depois de Freud, constata-se que apesar do indiscutível impacto social trazido pela psicanálise, das informações objetivas sobre a anatomia e a fisiologia dos processos sexuais pedagogicamente oferecidas às novas gerações, parece não ser possível ver a sexualidade de forma objetiva. Por sua ligação intrínseca com os processos psíquicos inconscientes, ela estará sempre envolta por um manto de fantasias, nas quais o erotismo se confunde com culpas, medos, angústias.
No que diz respeito à masturbação, ela está longe de ser uma prática assumida abertamente e continua sendo algo profundamente privado e objeto de vergonha para adolescentes e adultos.
Por outro lado, lembra Lacqueur, as feministas, rebelando-se contra as opiniões de Freud sobre a sexualidade feminina, têm feito da masturbação clitoridiana uma bandeira de seu movimento . Artistas de vanguarda do Primeiro Mundo, como Lynda Benglis, Annie Sprinkle e Vito Acconci, aproveitam-se do aspecto transgressivo que a masturbação ainda hoje tem como importante elemento em suas obras.
Mais recentemente, a questão da masturbação mostra um renovado interesse, em função da internet.
A internet tornou obsoletas todas as medidas legais com as quais os estados tentavam controlar a produção, divulgação e comercialização da pornografia. Com isso, ela tem quebrado idéias preconcebidas que atribuíam à pornografia conseqüências assustadoras, como a incitação ao crime e à violência sexual. Será que os mesmos fantasmas que faziam com que, antes, a masturbação fosse vista como uma perigosa ameaça individual e social, ressurgem no que diz respeito à pornografia? O fato é que se digitarmos pornography num buscador como o Google, encontramos 28.000.000 (vinte e oito milhões) de indicações de sites e para porn, 234.000.000 (duzentos e trinta e quatro milhões). Números semelhantes se encontram ao digitar-se masturbation – 45.800.000 (quarenta e cinco milhões e oitocentos mil) .
Nos sites ligados à masturbação, tem de tudo, desde sua mais aberta defesa, com explícitos manuais de instrução, até os que pregam a castidade e apresentam, como antes, a masturbação como um perigoso vício.
Um acontecimento público mostra como a masturbação continua sendo objeto de grande repressão e hipocrisia social. Em 1994, Jocelyn Elder, que ocupava o posto de Surgeon General (algo como o Ministro da Saúde no Brasil) na gestão Clinton, foi destituída de seu cargo no dia seguinte a uma entrevista na televisão, onde dissera que a masturbação “é algo que faz parte da sexualidade humana e é parte de algo que talvez pudesse ser ensinada” . Numa coletiva à imprensa em Miami, Clinton disse que as opiniões de Jocelyn Elder sobre o assunto revelavam “diferenças com a política administrativa e minhas próprias convicções”. Algumas dessas suas “convicções” seguramente ficaram expostas no episódio Mônica Lewinsky…

Adicionar comentário 19 de Dezembro de 2008 às 14:22 Sérgio Telles

O CONFORMISTA, de Bernardo Bertolucci (1970)

O CONFORMISTA, de Bernardo Bertolucci (1970)

Sérgio Telles

Tido como uma das obras-primas de Bernardo Bertolucci, O CONFORMISTA, baseado no romance homônimo do Alberto Moravia, está disponível em DVD, após ter sido relançada uma nova cópia nos cinemas europeus em meados deste ano. Além do requintado visual do filme, que recria cuidadosamente a década de 30 e a ascensão do fascismo em Roma, o filme é um interessante estudo sobre o papel da ideologia como suporte identificatório para uma estrutura de ego desorganizada e frágil.

Bertolucci não segue a estrutura linear do romance de Moravia, preferindo montar um quebra-cabeça estruturado em flashbacks.

O filme inicia com Marcello Clerici recebendo um telefonema que o coloca em perseguição de um inimigo do regime fascista a quem deve assassinar. Enquanto seu comparsa Manganiello dirige o carro, Clerici rememora em flashbacks sua trajetória até aquele momento. .

Vê-mo-lo em longas conversas com seu amigo cego que é ideólogo do partido fascista. A cegueira do ideólogo expressa a clara critica de Bertolucci às idéias por ele (ideólogo) defendidas. Numa expressão de identidade confusa e frágil, Clerici pergunta ao amigo o que é ser “um homem normal”. Este lhe diz que “um homem normal” é aquele que volta a cabeça para olhar o traseiro de uma mulher que passa, é aquele que gosta de estar entre iguais, é aquele que se perde na multidão, que não tolera o diferente. Clerici diz querer ser “normal”, para isso quer se casar. Através do amigo, ingressa no partido e se dispõe a prestar-lhe qualquer serviço.

O coronel que recebe Clerici no partido diz ser seu currículo excelente e que todos estavam bem impressionados, pois ele se apresentava voluntariamente para servir ao partido, o que era raro, pois na maioria das vezes as pessoas obedeciam às ordens do partido por medo ou por dinheiro. Após um período de observação, o partido lhe dá uma tarefa importante – assassinar o prof. Quadri, um importante intelectual inimigo do regime, que fora professor de filosofia de Clerici e que se exilara em Paris. Clerici não dá uma resposta imediata ao convite.

Um policial, Manganiello, é designado para acompanhá-lo na missão. Com ele, Clerici vai até a casa de sua mãe, uma mansão abandonada e decadente. Ali a encontra dormindo ao meio dia, dividindo a cama com vários filhotes de cão, uma sugestiva imagem de promiscuidade e indiscriminação, que logo se confirma com a conversa que se estabelece entre mãe e filho, em tons eróticos incestuosos. Ele pede que ela se cubra, pois está seminua, e ela, após beijá-lo na boca, lamenta ter um filho “moralista”. O filho está ali para levá-la a uma visita ao pai, internado num hospício.

Enquanto espera a mãe no jardim da mansão, Clerici conversa com Manganielo. Pergunta-lhe se acha possível alguém ter uma infância normal naquela casa, tendo uma mãe viciada em morfina e explorada por seu motorista, misto de amante e fornecedor de droga. Pede então que o policial dê fim ao amante da mãe, o que Managaniello imediatamente realiza. Isso parece fazer com que Clerici se decida a realizar a missão para a qual fora designado.

No hospício, Clerici encontra o pai louco, repetindo mecanicamente as palavras “violência e melancolia”, escrevendo algo sobre as relações entre o individuo e o estado, que deveriam ser harmônicas, indutoras de identificações recíprocas. Clerici avisa ao pai que vai casar-se, o que o pai mal registra. A seu pedido, a mãe se afasta para que ele possa ter uma conversa particular com o pai. Clerici então o confronta, indagando se ele fora um torturador e assassino, o que o pai admite, para logo dele se afastar, chamando o enfermeiro, a quem solicita que lhe coloque a camisa de força.

Incumbido de matar seu antigo professor, Clerici dirige-se a Paris. Sua viagem para aquela cidade conjuga o objetivo de realizar sua missão política com a lua-de-mel, importantes passos para executar seu projeto de ser “normal”, como antes afirmava para o amigo ideólogo cego.

Casara-se sem entusiasmo com Giulia, que considera uma burguesa medíocre e mesquinha. Frente a sua relutância em cumprir com os rituais religiosos do casamento, deixa-se convencer ao ouvir dela que não deve levá-los muito a sério, pois “ninguém acredita mesmo neles”.

Ao se confessar, Clerici tem atitude insolente e desrespeitosa com o padre, a quem confidencia ter sofrido uma aproximação homossexual aos 13 anos, por parte de um homem mais velho, a quem teria então assassinado. Recrimina o padre, que parece estar mais interessado na sodomia e considerá-la um pecado mais grave do que o próprio assassinato que estava confessando naquele momento. Provoca o padre ao ridicularizá-lo, ao casamento, à igreja, a Cristo, mostrando um desespero existencial avassalador. O padre, que até então o censurava, para a perplexidade de Clerici, absolve-o imediatamente ao ouvi-lo dizer que é um fascista e que agora luta contra os subversivos. Uma clara mostra da cumplicidade da igreja com o partido, dos usos que a ideologia política faz da religião.

Na viagem de lua-de-mel, no trem, sua noiva Giulia diz não mais ser virgem, pois há 6 anos era amante de um amigo do pai, que freqüentava sua casa desde sua infância. Fora ele quem mandara a carta anônima querendo indispor Clerici com a sogra, levantando suspeitas sobre sua saúde, ao afirmar que seu pai enlouquecera por ser sifilítico. Com isso, o autor desmascara os valores “familiares” tão exaltados pelo fascismo.

Em Paris, Clerici tenta se aproximar do Professor Quadri e reconhece em sua mulher Anna uma prostituta de alto escalão, que vira na companhia de altas autoridades fascistas, em suas peregrinações para entrar no partido. Anna lhe diz que todos suspeitam ser ele um espião e se oferece sexualmente a ele, pedindo sua clemência.

Anna dá um tom permanentemente bissexual ao contexto, pois ao mesmo tempo em que se envolve com Clerici, se interessa por Giulia, como se vê na belíssima cena do baile e no quarto de hotel. No baile, Clerici já sabendo que suspeitam dele, tenta abandonar a missão, mas Manganiello o contem, dizendo ser demasiado tarde para tanto. O professor Quadri o submete a testes, nos quais aparentemente se convence de sua neutralidade política, mas, na verdade, ele e Anna fogem, colocando Clerici e Manganiello em sua perseguição.

Na estrada, o carro do Prof. Quadri é interceptado por um outro cujo motorista aparentemente está ferido. Ele desce para investigar o que acontece. Anna sabe que está sendo seguida por Clerici, cujo carro bloqueia a fuga por trás. Vários homens aparecem da floresta e apunhalam seguidamente o professor. Anna corre até o carro onde estão Clerici e Manganiello, e pede auxilio a Clerici, que nada faz, assistindo impassível seu assassinato. Manganiello sai do carro e expressa seu desprezo por Clerici, a quem equipara a outros “covardes”, como os judeus e homossexuais, etc.

A ação corta para quatro anos depois, quando vemos Clerici com sua filhinha, a quem ensina a rezar a Ave Maria, enquanto ouve no rádio as noticias sobre a queda de Mussolini. Giulia diz que o amigo ideólogo havia ligado e pedido para encontrá-lo no lugar de sempre. Giulia pede para Clerici não sair e pela primeira vez menciona saber de sua participação no assassinato de Quadri e sua mulher. Ao ser interrogada por Clerici, Giulia diz que Anna, talvez com o objetivo de separá-los, dissera que ele era do serviço secreto e estava tentando eliminá-los. Mais uma vez Clerici pergunta a Giulia o que ela pensava disto e ela responde que entendia ser o trabalho dele e que o assassinato do casal o teria feito progredir profissionalmente. Giulia insiste ser perigoso que ele saia às ruas naquele momento, pois poderia ser identificado como um homem do regime.

Mesmo assim Clerici sai. O tumulto político é simbolizado por apagões de luz, multidões nas ruas. Clerici encontra o antigo amigo ideólogo cego numa ponte e saem andando. Ao passarem por um beco, inadvertidamente Clerici ouve uma cena de sedução homossexual, na qual reconhece a fala e o texto da antiga sedução que sofrera na infância.

Chocado, Clerici para, reconhece o antigo sedutor que até então pensava ter assassinado e que simplesmente recebera um tiro de raspão.

Neste momento, tal como o sistema político que caíra, Clerici também desmorona. Totalmente descontrolado, grita contra o sedutor atribuindo-lhe seus próprios crimes – o assassinado de Quadri e sua mulher Anna. O sedutor foge, debaixo de acusações de pederasta e fascista. Em seguida, Clerici passa a denunciar o amigo cego como fascista, que é levado de roldão pela multidão.

Quando esta se afasta, Clerici se encontra sozinho com o homossexual que estava conversando com o antigo sedutor e aparentemente a ele se entrega sexualmente.

Em função da loucura familiar, da experiência traumática da sedução homossexual e da fantasia de ter assassinado o sedutor, Clerici se sente diferente, constata sua não “normalidade”, sua identidade pouco definida e confusa sexualmente. Busca desesperadamente ser igual a todos, ser “normal”.

Procurara se “conformar”, entrar na forma, ou seja, ter uma identidade estável e definida, para tanto se apoiando numa ideologia forte e violenta, que estabelece claros parâmetros e fortes repressões.

O filme mostra como uma ideologia política pode ser usada como apoio identitário por personalidades frágeis mal constituidas. Na hora em que o regime e a ideologia que o amparava se esfacelam, Clerici também se desorganiza psiquicamente, despersonaliza-se, desidentifica-se, confunde-se com o homossexual pederasta em quem simultaneamente projeta toda sua conflitiva psíquica e com o qual se identifica.

O final do filme é uma bom exemplo da cena traumática externa e atual que reatualiza catastroficamente a cena traumática infantil reprimida, provocando uma completa desestruturação psíquica pelo fracasso das defesas mantidas até então.

Como o filme foi relançado na Europa este ano, isso deu vez a muitas entrevistas com Bertolucci, quando foram levantadas interessantes questões, às quais não foram por ele dadas respostas diretas: quereria ele dizer que o fascismo e a ideologia direitista seriam uma defesa contra o homossexualismo? A desesperada luta de Clerici para ser “normal” era uma luta contra a homossexualidade? Ser “normal” é ser heterossexual? Seria esta uma tese homofóbica?

1 comentário 9 de Novembro de 2008 às 09:23 Sérgio Telles

Entrevista de Sérgio Telles à Revista Psique Ciência & Via, ano III, no. 32, 2008

Entrevista de Sergio Telles à Revista Psique Ciência & Vida, ano III, no. 32, 2008

Rose Campos

O melhor de dois mundos

Quando se decidiu pela Psicanálise, este médico cearense se deparou com um início de processo de ruptura: era a formação psicanalítica que se ressentia das amarras de sua institucionalização, necessária, mas também cerceadora do crescimento. Em paralelo, ele também fazia sua escolha pessoal. Entre a Psicanálise e a Literatura, optou acertadamente pelas duas

O psicanalista e escritor Sergio Telles fez sua formação inicial em Medicina, mas desde então se interessou pela clínica psicanalítica e, em busca dessa capacitação, mudou-se de cidade e de estado, deixando sua natal Fortaleza para vir morar em São Paulo, um dos poucos centros brasileiros onde se concentrava a formação psicanalítica na época. Isso aconteceu no ano de 1970 e, desde então, durante essas quase quatro décadas, Sergio tem sido testemunha das grandes transformações sociais e culturais que têm reflexo direto no âmbito da Psicanálise. Com o olhar aguçado que também perscruta o mundo como autor literário, o psicanalista concedeu um precioso tempo de sua atarefada rotina para responder a esta entrevista de Psique Ciência & Vida, que você lê a seguir.

Psique – O senhor foi da primeira turma de formação do curso criado por Roberto Azevedo e Regina Chnaiderman, no Sedes Sapientiae. Qual foi o ambiente que encontrou lá na época e o que o atraiu para fazer o curso?

Sergio Telles – Conheci Roberto Azevedo logo depois que ele chegou de Londres, onde tinha sido analisado por Herbert Rosenfelt, e passei a fazer parte de seus grupos de estudo e supervisão. Desta forma, segui, desde os primórdios, seu projeto de montar um curso de Psicanálise, juntamente com Regina Chnaiderman e outros analistas da Sociedade de Psicanálise de São Paulo (filiada à International Psychoanalitical Association - IPA). Entretanto, como é sabido, quando o curso começou, a Sociedade exigiu que seus membros que dele participavam o abandonassem, sob pena de sofrerem severas punições, eventualmente até mesmo a expulsão da Sociedade. Apenas Roberto Azevedo e Fábio Hermann enfrentaram de peito aberto a ameaça e permaneceram em seus postos. Mas, com a debandada dos analistas da Sociedade, a viabilidade do curso estava em jogo. No momento da crise, Roberto Azevedo convidou alguns alunos, considerados por ele mais habilitados, para ocuparem os lugares vacantes. Entre eles, estávamos Marilza Tafarel, Marilene Carone e eu. O convite foi aceito pelas duas colegas, mas não por mim. Não me senti à vontade para trocar a posição de estudante para a de professor. Naquele momento, e providencialmente para nós, chegaram os analistas argentinos que fugiam da ditadura em seu país. Eles foram convidados por Roberto Azevedo e Regina Chnaiderman, com o aval da Madre Cristina (que dirigia o Sedes), para ingressarem no curso. Isso estabilizou o corpo docente, dando condições para que o curso progredisse, assim funcionando durante uns três anos. Houve então uma fratura que o dividiu entre o que chamávamos de “o curso da Regina” e “o curso do Roberto”. Na ocasião eu já terminara o quarto ano do curso e fui convidado para ser professor e supervisor do “curso do Roberto”, funções que ocupei por mais de 10 anos. O antigo “curso da Regina” é o atual Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e o “curso do Roberto” é a Formação em Psicanálise daquela mesma instituição. O que me atraiu para fazer o curso foi concordar com as críticas à instituição psicanalítica que, na época, começavam a circular em São Paulo, derivadas da ruptura de Lacan com a IPA. Tais criticas incidiam especialmente sobre a chamada “análise didática” e o desmesurado poder exercido pelo analista didata na formação dos candidatos.

Psique – Conflitos como o que originaram a ruptura no curso do Sedes se sucederam depois, tanto dentro da Psicanálise como em suas relações com outros saberes. O que destacaria como principais mudanças da Psicanálise praticada hoje?

Sergio – Penso que o curso criado por Roberto Azevedo e Regina Chnaiderman fez história na medida em que rompeu com o monopólio da IPA, até então única referência do que se chamava Psicanálise em São Paulo e no Brasil. O curso mostrou que era possível formar analistas fora da Sociedade. Pouco tempo depois, as escolas lacanianas se instalaram no país, sepultando de vez o monopólio da IPA. A meu ver, as decorrências disso são as principais mudanças na psicanálise praticada hoje no país. Naquela ocasião, “Psicanálise” era sinônimo de kleinismo. O estudo de Freud era desprezado e a escola inglesa se impunha como a única “verdadeira” Psicanálise. Então, a grande mudança que vejo é a introdução do lacanismo e, como uma decorrência, a divulgação de uma abordagem “francesa” de Freud, representada por Piera Aulagnier, Pontalis, Laplanche, linha teórica com a qual sinto grande afinidade. Hoje em dia, Melanie Klein está em desgraça. Poucos confessam seguir seus ensinamentos. Não é meu caso. Não desprezo os muitos anos de supervisão kleiniana que fiz com Roberto Azevedo, que muito me ajudam ainda na clinica. Mas, aí teríamos de falar de um assunto que nos afastaria do tema, as “modas” teóricas em Psicanálise.

Psique – Como disse, o senhor acabou se tornando professor e supervisor deste mesmo curso realizado no Sedes. Qual é o perfil dos alunos que o senhor tem hoje e no que eles diferem de sua própria turma de formação?

Sergio – Vim de Fortaleza em 1970 para São Paulo, com o intuito explícito de fazer minha formação psicanalítica. Naquela ocasião, isso só era possível em Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo e, nestas cidades, a única oferta era a das Sociedades oficiais. Ser psicanalista era algo extraordinariamente difícil. Conheci muitos colegas que faziam anos de análise didática, mas não ousavam dizer que eram “psicanalistas” e sim “psicoterapeutas analíticos”. Hoje em dia, todos se dizem “psicanalistas” e a oferta de cursos de formação é abundante. A mudança nestes 38 anos é, portanto, imensa. Penso que passamos de um extremo a outro. Se antes havia uma situação excessivamente rígida e protocolar, no momento vivemos certo laisser faire, tão pernicioso quanto seu oposto anterior. Essa discussão levaria a uma questão muito séria e importante, ligada à formação do analista e aos mecanismos de regulação de sua prática, desde os internos, até os ligados ao Estado, referentes à regulamentação da profissão, tema em debate atualmente nos grandes centros onde a Psicanálise é praticada.

Psique – Olhando para o panorama que descreve, é possível lembrar que há alguns anos foi notória a oposição entre psicanalistas de orientações diferentes, sendo que a maioria deles sequer se comunicava entre si. No entanto, nos últimos anos, surgiram alguns congressos e movimentos com a clara intenção de aproximação e diálogo. Como o senhor avalia o cenário psicanalítico hoje em suas diferentes correntes teóricas?

Sergio – Penso ser extremamente positiva e saudável a convivência entre as várias tendências teóricas, apesar desta não ser tão pacífica quanto gostaríamos que fosse e que sua pergunta faz supor. Tal aproximação se faz necessária tanto internamente, no mundo da Psicanálise, como no extra-muros, em suas intersecções com outros campos de saber. Mesmo sem ceder ao terrorismo neo-positivista, que tende a exigir da Psicanálise critérios de cientificidade semelhantes aos das hard sciences, devemos ter uma preocupação epistemológica, cotejar nossas práticas clinicas decorrentes de diferentes linhas teóricas, examinar onde e porque coincidem ou se afastam, para assim poder aprimorá-las.

Psique – Pensando nisso, quais foram os teóricos e os profissionais contemporâneos que mais influenciaram e influenciam seu trabalho?

Sergio – Como disse antes, durante muitos anos fui um kleiniano, fiz uma análise kleiniana e tinha a supervisão de Roberto Azevedo, que é “neto” de Melanie Klein, desde que fora analisado por Rosenfelt, que, por sua vez, fora analisado pela própria Melanie Klein. Posteriormente fiz uma segunda análise, com Lea Bigliani, que, apesar de usar muito o kleinismo, tinha forte embasamento freudiano, como todos os analistas argentinos que conheci. Passei a fazer supervisão com Guillermo Bigliani, outro analista argentino, que me apresentou a escola francesa e os autores argentinos. E como já me referi, me identifico bastante com as idéias propostas por Laplanche, Pontalis, Piera Aulagnier, analistas que freqüentaram Lacan, mas que dele depois se afastaram. Atualmente tenho me interessado sobremaneira pelo trabalho de Derrida, a quem devemos – entre outras coisas – o movimento dos Estados Gerais da Psicanálise.

Psique – É possível notar em seus livros uma inequívoca admiração pela cultura e pela arte. Como você considera que a Psicanálise se conjuga com esses temas?

Sergio – A Psicanálise e a Literatura são irmãs gêmeas. Para ambas, a linguagem é fundamental, ambas exploram as profundezas da vida psíquica, ambas tentam dar forma ao inarticulado. E nessas duas vertentes a criatividade está implícita. O escritor cria uma obra de arte, o psicanalista tenta desvendar as formações do inconsciente, quer seja no sujeito que o procura em seu consultório, quer seja nos fatos da cultura e da arte.

Psique – O seu trabalho de ficção o senhor considera um caminho paralelo ou também este afazer está de alguma forma ligado à sua formação psicanalítica?

Sergio – É difícil para mim dissociar as duas coisas. Procuro não ser muito psicanalista ao escrever ficção, e não fazer ficção ao interpretar. Mas veja que, mesmo ai, é complicado estabelecer um limite, pois o analista necessita usar sua imaginação e fantasiar junto com o paciente. Somente assim poderá interpretá-lo. Talvez esteja aí a diferença. Enquanto analista, para compreender o paciente, deixo que minha imaginação e criatividade sigam pelas trilhas por ele propostas. Ao escrever, sigo minhas próprias trilhas. O fato é que tenho muito prazer em realizar estas duas atividades.

Psique – A mulher histérica já esteve no centro dos questionamentos do próprio Freud. Quais são as questões mais palpitantes levantadas pela psicanálise atual, em sua opinião?

Sergio – Penso que são as questões ligadas ao narcisismo e à identidade. As mudanças sociais se refletem num certo enfraquecimento da figura paterna, fazendo com que a ruptura da relação narcísica com a mãe não ocorra adequadamente. Isso permite a permanência de ligações fusionais, que se refletem em atitudes ligadas à adição, à dependência indiscriminada, à onipotência, à negação dos limites. O narcisismo encontra um aliado muito forte no apelo ao consumo, veiculado pela publicidade comercial exposta na mídia eletrônica, que tem um extraordinário poder de ditar modelos de comportamento e sexualidade. Ilusoriamente, a publicidade alimenta o narcisismo do sujeito, prometendo-lhe suprir-lhe todas as falhas, realizar todos os seus desejos. Vemos, então, pessoas que compram os objetos de consumo convictas de que, com isso, vão remediar todas as suas feridas narcísicas. O que termina – é claro – por não acontecer, gerando grandes frustrações, alimentando as “depressões” tão disseminadas atualmente. Quanto à identidade, temos as grandes mudanças ligadas às questões de gênero. A revolução feminista, que liberou a mulher, e o movimento político dos homossexuais, juntamente com os avanços da tecnociência médica, possibilitaram uma até então impensável abertura para novas manifestações da identidade de gênero, como os transexuais, por exemplo. Outra forma de dizer tudo isso seria lembrar que nos tempos de Freud o imperativo super-egóico era “não goze”, cujo corolário era a grande repressão da sexualidade. Hoje, o imperativo categórico do super-ego é o oposto, é o “goze”. Se nos tempos de Freud uma moça era discriminada por ter perdido a virgindade, hoje essa mesma moça é discriminada por ser virgem.

Psique – O senhor já contribuiu para alguns dos principais jornais do país, como Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, e mais recentemente iniciou uma participação num programa de rádio, na Eldorado AM. Foi sempre um trabalho de divulgação da Psicanálise? Como o senhor avalia essas suas contribuições para a grande imprensa?

Sergio – Tenho procurado, sempre que possível, dar meu testemunho frente ao mundo em que vivo, escrevendo sobre o que me toca, tentando compreender o que a realidade e as produções culturais se me apresentam. Por estar totalmente impregnado do pensamento psicanalítico, isso se reflete na forma como apreendo esses fenômenos. Considero fundamental a difusão da Psicanálise e muito do que escrevo se inscreve nessa rubrica.

Psique – Como começou a se interessar pelo trabalho de escritor e, especificamente, de contista?

Sergio – Desde criança sou um leitor curioso e apaixonado, devorando tudo o que me chega às mãos, especialmente a Literatura. Esta, além do grande prazer que sempre me proporcionou, me fez admirar a aguda percepção dos escritores para a realidade psíquica de seus personagens, seus conflitos e angústias. Logo me vi querendo, eu mesmo, escrever. Para mim parecia ser uma decorrência natural de meu amor pela Literatura. Comecei a escrever na adolescência e tive meu primeiro artigo publicado aos 18 anos, num jornal de Fortaleza. O conto me encanta por sua concisão, pela economia forçada, pela contenção. Estes aspectos o aproximam da poesia.

Psique – O talento demonstrado na dedicação a esta atividade já o fez ganhar alguns prêmios e importante reconhecimento como escritor de ficção, o que demonstra sua erudição. Muitos psicanalistas, no entanto, apesar da grande bagagem cultural, são acusados de produzir textos herméticos ao grande público. Como vê este problema da comunicação – ou da ineficácia dela – às vezes comum no meio psicanalítico?

Sergio – De fato, as habilidades clínicas de um analista sem sempre coincidem com sua habilidade para escrever. Disto resulta a produção de textos herméticos ou repletos do jargão técnico, que afastam o leitor leigo. Mas penso que todos nós, dentro das possibilidades de cada um, nos emprenhamos no esforço de divulgar o pensamento psicanalítico para um maior número de pessoas.

Psique – Falando em divulgação de conhecimentos nessa área, o senhor também contribui para a revista eletrônica Psychiatry on Line – Brazil (www.polbr.med.br). Pode nos detalhar um pouco o projeto e sua participação dentro dele?

Sergio – O psiquiatra Giovanni Torello conhecera num congresso internacional um colega inglês que estava criando a Psychiatry on Line, uma revista de psiquiatria publicada na então incipiente internet. Obteve dele a autorização para lançar uma versão brasileira e assim, em julho de 1996, publicava a Psychiatry on Line – Brazil, primeira revista eletrônica brasileira de psiquiatria. A idéia da revista era usar esta nova mídia para divulgar conhecimentos psiquiátricos. Dois anos depois, Giovanni Torello convidou-me para escrever uma coluna de Psicanálise, coisa que tenho feito desde então. Assim, desde agosto de 1998, ali publico mensalmente. Desde 2005 mantenho um site na internet, onde estão concentrados meus artigos ou parte deles, além de informações sobre meus livros. O endereço da página é www.sergiotelles.com.br.

Psique – Como surgiu sua aproximação com o cinema e qual a importância que o senhor vê neste tipo de criação para o olhar da Psicanálise?

Sergio – O amor pelo cinema me veio como uma ampliação do amor pela Literatura. Entretanto, é importante reconhecer a especificidade da linguagem cinematográfica, essencialmente visual, o que a aproxima da linguagem dos sonhos. E, como sabemos, Freud descobriu que os sonhos são a via de acesso preferencial ao inconsciente. Talvez venha daí a intimidade entre a Psicanálise e o cinema.

Psique – Todo filme tem um contexto que pode ser analisado sob o ponto de vista da Psicanálise? Por quê?

Sergio – Sim, porque todo gesto humano pode ser analisado psicanaliticamente. Se a ficção – seja literária ou cinematográfica – recria tais gestos e conflitos através de seus personagens e enredos, neles está implícita a ação do inconsciente e, conseqüentemente, a possibilidade de interpretá-lo.

Psique – Assistir a uma sessão de cinema pode ser um exercício terapêutico? De que modo as pessoas podem explorar melhor esta possibilidade?

Sergio – Penso que toda grande arte – por representar e simbolizar inalienáveis verdades humanas – possibilita uma maior compreensão de si e dos outros. Se a Psicanálise visa proporcionar uma maior compreensão interna, interpretando o inconsciente, então o cinema, como qualquer outra arte, pode ser “terapêutico”.

Psique – Nos últimos anos e décadas se vem fazendo uma divulgação muito intensa, para o grande público, de alguns dos conceitos centrais da Psicanálise – às vezes até de forma simplista ou equivocada. Como avalia este tipo de divulgação. Isso é benéfico e importante para as pessoas? Em que medida pode ser também ruim ou inócuo?

Sergio – De fato, alguns temem uma banalização da Psicanálise através desta intensa divulgação para o grande público. Não penso assim. Mesmo que possa haver desgastes e equívocos, é melhor que haja uma divulgação do que a repressão, a negação ou o desconhecimento. Além do mais, não é verdade que a Psicanálise seja tão conhecida assim. Num país como o Brasil, e talvez em todos os países, até muito recentemente apenas a classe média abastada tinha alguma informação sobre a psicanálise. E, como lembram Derrida e Roudinesco, a geopolítica da Psicanálise mostra como ela é um fenômeno basicamente europeu e americano, mantendo-se a inexistente ou desconhecida, ainda hoje, em outros continentes e culturas, como todo o Islã, a Ásia, a África.

Psique – Como afirmou, muitas pessoas ainda desconhecem e, ao mesmo tempo, temem a Psicanálise, julgando ser um recurso que não lhes diz respeito. O que o senhor diria para essas pessoas? A Psicanálise é de fato um recurso que pode ser benéfico para um número maior de pessoas do que acontece hoje?

Sergio – Além do desconhecimento que ainda persiste largamente sobre a Psicanálise, penso que hoje em dia as pessoas se afastam dela por quererem uma resposta imediata para a resolução de seus conflitos, o que lhes é prometido através da medicação ou de outros tipos de terapia. Longe de querer se apresentar como a panacéia universal, a Psicanálise é uma experiência única, a possibilidade de desvendar o inconsciente, encontrar o próprio desejo e desentranhá-lo da submissão ao Outro. É abrir mão da onipotência infantil e assumir a potência possível. É um trabalho longo, às vezes difícil, mas cujos resultados, em termos de liberdade e auto-conhecimento, não têm preço.

Psique – Alguns tipos de sintomas e de transtornos parecem estar em grande evidência na sociedade atual, como o pânico e a depressão. A sociedade está de fato se tornando mais frágil e psicologicamente mais enferma? O que tem levado a isso e qual seria o ponto de retorno desta situação?

Sergio – É difícil afirmar que a sociedade está mais enferma. O que podemos dizer é que, em função das mudanças sociais, os conflitos se organizam de forma diferente, conseqüentemente produzindo novos sintomas. Por exemplo, acima falamos do enfraquecimento da figura paterna e das conseqüências deste fato. Este é um dos sinais que refletem o modo como estamos vivendo essas questões internas.

Adicionar comentário 3 de Outubro de 2008 às 12:18 Sérgio Telles

Apresentação do livro MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR - AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS, de Glauco Mattoso - Coleção “Além da Letra”, Allbooks, São Paulo, 2006

Apresentação do livro MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR - AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS, de Glauco Mattoso - Coleção “Além da Letra”, Allbooks, São Paulo, 2006

Sérgio Telles

Esta é a nova edição revista e atualizada do Manual do Podólatra Amador – Aventuras & leituras de um tarado por pés, de Glauco Mattoso.

Ao ser lançado em 1986, o livro recebeu resenhas importantes, como as de Néstor Perlongher, Leo Gilson Ribeiro e David William Foster, e seu conteúdo transgressivo provocou um certo escândalo na mídia.

Em Manual do Podólatra Amador, Glauco Mattoso traça o percurso de sua forma peculiar de atingir o gozo, da qual se apercebeu desde a infância - a fixação em pés masculinos e, mais especificamente, em seu odor fétido advindo do suor, da sujeira, das frieiras e micoses. É essa a mola mestra que aciona sua libido, mais forte do que o desejo propriamente homossexual. Paralelamente, como pano de fundo, descreve a evolução de um mal que o atingiu também desde os primórdios - o glaucoma congênito que terminou por deixá-lo cego na maturidade. Essa enfermidade de tal forma o marca, que o faz adotar o nome literário de Glauco Mattoso, um epigrama que o identifica imediatamente como um glaucomatoso, um portador daquela doença.

Se o glaucoma tem efeitos devastadores, como não é difícil de imaginar, por outro lado, acrescenta novos ingredientes ao gozo do narrador-personagem-autor, pois a cegueira lhe alimenta o masoquismo, possibilitando-lhe novas configurações fantasmáticas.

Diante de tantas dificuldades sofridas pelo autor, poder-se-ia esperar um texto de lamentações. Mas Glauco Matoso não é um choramingas. Pelo contrário, o tom geral do livro é de uma ironia crua, uma comicidade que muitas vezes atinge o escracho debochado e escatológico, aproximando-se do vigor de Henry Miller.

Indiretamente, Mattoso defende o direito ao exercício de uma libido cuja conformação não foi por ele escolhida e que só lhe cabe vivê-la. A singularidade de seu fetiche – o amor pela disodia, nome castiço que esconde a vulgaridade desagradável do “chulé” – talvez o faça sentir com mais intensidade o peso da solidão e da segregação.

Apartado do comum dos homens em função de um desejo que o arrebata para os confins da experiência sexual, de lá, de suas bordas, de seus limites, destes territórios mais distantes e desconhecidos, Mattoso encontra seu caminho de volta através da escrita, enviando – qual diligente expedicionário – percucientes relatórios deste mundo remoto ignorado pela maioria.

Mattoso lembra Robert Stoller, psicanalista norte-americano morto precocemente num acidente automobilístico, ao acompanhar de perto os freqüentadores de clubes sado-masoquistas e os atores e técnicos das equipes produtoras de filmes pornográficos, resgatando naqueles sujeitos a humanidade e a dignidade, muitas vezes negadas pelos preconceitos e hipocrisias.

Como bem aponta David William Foster, o desejo que acomete Mattoso não é um mero desejo homossexual, o que – se fosse o caso – o deixaria ao abrigo das comunidades gays. Seu gozo é mais transgressivo, mais indomado, mais selvagem. Distancia-se por completo do empenho de normatização apresentado ultimamente por muitos homossexuais, que lutam, por exemplo, pela legalização de suas ligações amorosas e pelo direito de ocuparem as funções materna e paterna, com a adoção de filhos. Tais questões não poderiam estar mais distantes do universo de Mattoso, cujas características o aproximam das sexualidades queer, foco de grande interesse da comunidade acadêmica norte-americana que tem como objeto de estudo as questões ligadas ao gênero sexual e na qual Judith Butler ocupa posição de destaque.

Manual do Podólatra Amador nos faz lembrar que a sexualidade humana, regida que é pelo mundo simbólico, afasta-se totalmente do mundo natural. Neste, a sexualidade visa unir os genitais dos diferentes sexos com fins reprodutivos, regidos pelos períodos de cio. No homem, a sexualidade pode ser mobilizada por fatores muito distantes e surpreendentes, como o faz a disodia no caso de Mattoso.

Manual do Podólatra Amador é um livro que pode ser lido sob vários enfoques. Sua linguagem, trabalhada com evidente esmero, afasta-o da mera pornografia, garantindo-lhe um lugar no campo da literatura. Sua conotação política se estabelece ao defender os direitos de um desejo que não se conforma aos padrões da maioria. Finalmente, ao relatar suas vivências com franqueza e lisura, Mattoso produz um valioso depoimento para estudiosos das questões de gênero.

Adicionar comentário 14 de Setembro de 2008 às 16:38 Sérgio Telles

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